Protege Moi – Placebo

 

 

Incrível como dói ver quem a gente ama sofrendo. Incrível como a gente quer sempre trocar de lugar e arrancar a dor de alguma forma. Quer sofrer no lugar e as vezes se desespera por não saber exatamente o que fazer.

Já vivi isso algumas outras vezes. Ano passado mesmo vi com pesar minha mãe sofrer a dor de lutar contra um tumor. Sorte ela ser forte, e ter conseguido vencer. Quase um ano de sofrimento e dor psicológica. Cirurgia, quimio e radioterapia. Palavras que criam medo em quem as enfrenta.

Confesso que aprendi com a dor da minha mãe. Aprendi o quanto falta para que eu possa realmente ser forte como as vezes imagino ser. Ela, magra, baixinha e com os belos cabelos brancos mostra uma força e uma vontade que me fazem sentir orgulho dela.

Ela aprendeu a perder, cresceu com isso. Enterrou e chorou por seus pais (era muito novo e pouco realmente aproveitei dos meus avós), mal percebi a perda. Ela enterrou alguns irmãos também. Chorou por todos e aprendeu a ser forte com suas perdas.

Eu pouco perdi, ou melhor nada perdi além das frágeis derrotas adolescentes. Meus pais e irmã estão sempre ao meu lado. Meu emprego é o mesmo a um certo tempo. Poucas mudanças radicais. Meus maiores medos são mesmo os que surgem do acaso, como o que senti durante o ano passado acompanhando o que aconteceu com minha mãe. Aliás, acho que no fundo eu sofri bem mais que ela, que apesar do medo encarou a situação com muito mais altivez e inteligência do que eu, meu pai e minha irmã.

Falo isso porque no fim de semana eu senti a sensação de perda bater perto de mim. Medo bobo eu sei, mas ainda assim medo. Aquela sensação de ver em perigo alguém que você quer bem.

Atravessei a cidade com medo. Com medo fui ao hospital e tentei tomar conta de quem amo. Lembrei dos meus pais e de tudo o que eles fizeram por mim. Das vezes em que minha mãe saiu correndo atrás de ônibus e vizinhos para que eu pudesse chegar ao médico o mais rápido possível. Sem celular (eles nem existiam naquela época), meu pai tentava descobrir o que estava acontecendo. Enfim, o desespero em tentar resolver algo que muitas vezes está além das nossas capacidades.

Eu a vi frágil em meus braços, e a vi frágil sendo medicada. A acompanhei durante um bom tempo a sua dor e sei que ela acompanharia a minha (como aliás já fez quando eu adoeci a pouco tempo). Vi seu sono e torci para que ele fosse de alguma forma tranquilo e protetor. Era tudo o que eu podia fazer, foi tudo o que fiz, tentar proteger de alguma forma e mostrar que estava ali do lado. Tentando partilhar a dor e o sofrimento, tentando esconder o medo que eu sentia imaginando talvez ser algo realmente perigoso.

Porque muitas vezes é o medo pelo outro que nos faz perceber o quanto somos frágeis. Observar a fragilidade de quem nos é importante associada a nossa incapacidade de resolver o problema nos mostra que no fundo somos apenas humanos. Somos apenas seres incapazes de resolver todos os problemas que surgem e que por isso precisamos proteger quem a gente ama para que estas mesmas pessoas nos protejam.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.