© 2013 Alex Martins Porque as vezes é necessário estar entorpecido pelos próprios pensamentos e sensações para que alguns passos sejam dados com clareza.

Chameleon – Herbie Hancock

 

 

Sim, eu sei, fiquei um bom tempo longe do blog. Tentando colocar a cabeça no lugar depois de uma fase extremamente ruim que ainda não posso dizer que tenha conseguido digerir. Meu próximo livro está quase todo rascunhado, faltam as fotos, mas as ideias estão postas. Ideias que revelam um pouco do que me fez chorar por tanto tempo e também revelam porque eu com certeza voltarei a chorar em breve. Queria apenas voltar no tempo e congelar a minha vida em alguns momentos que que queria eternos. Entretanto, sei que é hora de seguir adiante. Sei que é o momento de tentar olhar pra frente e deixar pra trás o que incomoda, trazendo na memória aquilo que me faz feliz e me motiva.

Deixando pra lá esse pequeno momento de auto piedade, vale começar a falar sobre o que realmente interessa, o que me trouxe até este texto que você está lendo agora. O início do texto foi a quinta-feira, onde assisti um show em que a palavra mágico talvez seja a melhor forma de descrever o que vi e senti ao ver o show. Foi o melhor show da minha vida? Provavelmente não, mas com certeza foi um dos que mais mexeu comigo. Vi pessoas em catarse enquanto as notas eram tocadas, como se fossem regidas pela banda num movimento quase espiritual. Raras vezes vi um artista mexer tanto com seu público sem forçar qualquer tipo de interação com o mesmo, apenas fazendo aquilo que sabe melhor, no caso de Herbie Hancock, tocar jazz.

O texto termina no final da noite de domingo. Uma das últimas sessões do cinema, uma noite que foi esfriando em um dia quente. Fui ver Flores Raras, filme que conta a história do relacionamento entre a poetisa americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. A forma graciosa como a história é contada, trazendo nuances que te prendem sem que você perceba é de certa forma similar ao que percebi durante o show.

Claro que tudo se mostra de forma diferente. Enquanto o show foi alegre e catártico, o filme foi denso e apresentou durante diversos momentos tapas na cara que eram necessários. Enquanto a mensagem do Herbie Hancock era a que se você se entregar ao som produzido por sua banda, de alguma forma encontrará a felicidade, o som servirá para expurgar os seus medos, no filme o que senti foi quase o oposto, uma busca interna, onde uma história que aparentemente nada tinha a ver comigo trouxe uma série de pensamentos extremamente complexos e pessoais.

Foi uma catarse diferente. Mas uma catarse necessária. Não que eu precisasse esquecer da alegria do show, mas sim eu precisava ter coragem para pensar em algumas coisas que estavam me travando, estavam inclusive me impedindo de chegar até o blog. Assumir a fragilidade faz parte do processo de cura, o que pode levar a uma derrota derradeira é justamente fingir-se mais forte do que realmente se é. E aprender isso nem sempre é fácil. Mais fácil ver isso ocorrendo com o outro e a partir desse ponto, entender que também possui fraquezas similares e elas não tornam as pessoas melhores ou piores, são apenas características.

Pretendo voltar aos temas levantados pelo filme com mais afinco e em outros textos, hoje me prendo apenas na catarse gerada tanto pela alegria desmedida quanto pelo pensar intenso e constante. Porque as vezes é necessário estar entorpecido pelos próprios pensamentos e sensações  para que alguns passos sejam dados com clareza.