© 2013 Alex Martins Porque é preciso entender que a nossa liberdade vai apenas até onde nossos medos e fraquezas permitem...

Freedom Jazz Dance – Miles Davis

 

 

Flores raras, o filme  que me fez pensar em tanta coisa, talvez nem mostre mesmo tanta coisa para ser dita. Mas eu me aproveito dos pequenos lampejos de ideias que surgiram durante o filme pra tentar produzir alguma coisa interessante aqui no blog.

Além da catarse traduzida no texto anterior, outro ponto veio muito forte a mim durante o filme. A falsa liberdade existente em nossas ações. A falsa sensação de que realmente temos escolhas conscientes em nossa vida e a falsa mentira que contamos a nós mesmos quando ao olhar no espelho nos vemos como pessoas realmente livres.

Elizabeth Bishop era presa em diversos pontos, seus medos, sua própria indecisão e a sua carreira, pareciam formar uma cela invisível na qual ela foi inserida ainda menina e de certa forma demorou anos a lidar com o pouco espaço destinado aos seus passos menos direcionados. Ela com o tempo aprendeu a lidar bem com essa liberdade relativa e seguiu muito bem sua vida. Nem é dela que me pego falando nesse texto, mas principalmente de outras duas personagens fortes e femininas. Mary e principalmente Lota são o meu foco hoje. Até porque elas representam também parte da dor que muita gente sente sem saber e que muitas vezes temos medo de lidar.

Mary é o exemplo mais claro de prisão. Logo se viu impossível de se libertar de seus sentimentos por Lota e simplesmente aceitou de bom grado as migalhas que recebia, dentro de um sistema onde ela imaginava aos poucos ampliar os pequenos espaços disponíveis em sua cela emocional. Na verdade aconteceu justamente o oposto, ela ficou cada vez mais presa, só que resignada, viu as migalhas recebidas como algo suficiente para a vida que deveria levar, mesmo que houvesse dor nela.

Já Lota traz uma linha de pensamento bem mais complexa e difícil de seguir. Aparentemente uma mulher forte e livre, pouco a pouco ela vai se mostrando presa em um falso mundo criado por ela que de uma forma ou de outra começa a ruir, pedaço a pedaço. E por fim não sobra nada além do desespero que se traduz em morte.

O que me pegou é lembrar que eu me sinto muitas vezes assim, livre. E só depois de um tempo é que percebo  que ainda estou preso a algo. Tenho percebido os limites da minha prisão de forma muito clara nesses últimos dias. Por mais que eu me ache livre, existem ainda um monte de amarras que me prendem a uma série de coisas que simplesmente não me deixam seguir adiante como eu gostaria ou deveria em determinados assuntos.

A sorte (se é que isso pode ser chamado de sorte), é que isso ocorre com todo mundo. Sempre vai ter algum ponto em que nós vamos nos sentir presos a algo. Sempre vai ter algum momento em que uma barreira (física ou emocional) vai surgir do nada diante dos nossos olhos e simplesmente nos impedir de dar um passo adiante, por menor que seja esse passo. E é só nesse momento que vamos nos dar conta de que estamos dentro de uma prisão. O problema ai é ter a cabeça forte o suficiente para aceitar a prisão como algo normal e não um fardo capaz de levar alguém a dar cabo da própria vida. Afinal, só com muita paciência e sabedoria é que se consegue aumentar o tamanho da cela e assim voltar a falsa sensação de liberdade.

Porque é preciso entender que a nossa liberdade vai apenas até onde nossos medos e fraquezas permitem. Por mais que se queira voar nossas asas não nos permitem atravessar o oceano. É preciso ter calma e paciência para criar as ferramentas necessárias para isso. E é isso o que eu busco agora, se não a liberdade plena (que é inexistente) formas de me sentir livre mesmo dentro dos limites de meus medos e minhas fraquezas.