© 2016 Alex Martins

Like a Virgin – Madonna

30 criminosos destruíram uma vida. É essa a grande manchete de todos os jornais, ou pelo menos a leitura que eu faço dela. 30 criminosos, não consigo ler de outra forma. E diariamente milhares de outras vidas são destruídas de todas as formas possíveis e imagináveis. Dessa vez, porém, a dor parece maior.

Não pelo crime em si, que é realmente hediondo. Me incomoda muito mais a impressão de que tem gente tentando simplesmente fazer discurso em cima do sofrimento alheio. Aliás, infelizmente é o que mais se tem feito. Pessoas defendem bandeiras e usam tudo o que está ao seu alcance para provar que o seu jeito de pensar é o correto, esquecendo do principal, a dor de quem sofre.

Acho justo neste momento as mulheres levantarem suas bandeiras pedindo sim uma mudança de pensamento. O risco existe num comportamento perigoso que ainda reside em muitas mentes. Não mudo minhas fotos nas redes sociais, mas apoio a luta, é uma postura pessoal. Nem mesmo em causas que me afetam de maneira bem mais direta como o movimento negro me forçariam a tanto. Até por pessoalmente eu pensar numa linha bastante diferente destes movimentos.

É nessa diferença que surge o incômodo ao ver a maneira curta de pensar de alguns. Eu tenho amigos ligados a direita e a esquerda que defendem suas ideias de maneira clara e dentro de um nível alto de respeito e educação. Tenho visto, porém, gente que extrapola. Se eu já me incomodava quando as falas eram Petralhas x Tucanalhas ou Coxinhas x Mortadelas, ver a apropriação da tragédia de uma pessoa como bandeira política e usar isso como ofensa ao pensamento do outro chega a ser repugnante.

Para começar as ideias mais imbecis que li. Gente, uma vítima não pode ser acusada de ser a culpada pelo crime que sofreu. Não importa onde ela estava, com quem estava ou o que vestia. Digo mais, não importa nem mesmo seu sexo biológico (ou orientação sexual). Não existe maneira de colocar a culpa na vítima e não nos estupradores. Não é culpa do capital e nem dos “direitos humanos”. É culpa dos estupradores e ampliando a discussão em certa linha também de quem tenta de alguma forma dourar a pílula.

Lembremos que vivemos num país em que um deputado diz que não estupraria uma pessoa por ela não merecer (aliás, alguém merece?) e nada acontece a esse deputado. Lembremos que do outro lado, anos atrás uma candidata a cargo eletivo num partido que recebia apoio da comunidade LGBT questionou a orientação sexual de outro candidato em sua campanha e também nada aconteceu. Ambos estão ai com sua vida política em dia.

Mas voltando ao caso. Não me sinto culpado apenas por ser homem. Aliás, esse tipo de comportamento me soa extremamente populista. Eu nunca vou me sentir culpado ou estuprador em potencial por ser homem. Mulheres podem ser tão ou mais machistas do que homens e defender o machismo causa mais casos de estupro do que ter um pênis. Ao invés de pedir desculpas, faça algo de útil. De alguma forma tente fazer com que cada vez menos pessoas acreditem numa superioridade de um sexo sobre o outro.

E nem falo em ser feminista. Eu não sou. Não participo de movimento algum, já escrevi isso antes. Apenas acredito que não existem pessoas de primeiro ou segundo escalão seja por sexo, orientação sexual, cor da pele, dinheiro ou o que quer que seja que de maneira artificial seja utilizado para nos separar. Por isso tento do meu jeito mostrar isso a quem convive comigo. Procuro passar essa ideia aos jovens que formo, aos adultos que estão ao meu lado, e nessa troca, ouço as ideias de todas as pessoas com quem convivo também, independente da classe social, idade, raça, credo, cor ou o que quer que seja.

E o mais divertido dessa convivência, é perceber que muitos dos problemas podem ser resolvidos com ideias adotadas ligadas tanto a direita quanto a esquerda. Uma boa ideia não tem lado. Uma forma de pensar pode se tornar melhor ou pior de acordo com quem a utiliza. Se você assim como eu também se chocou com esse caso de estupro, apenas aja, não culpe ninguém além dos estupradores e faça de tudo para que novos casos como esse não ocorram mais em nosso país. Nessas horas eu queria entender porque a gente sempre esquece que mais de um caminho pode levar ao mesmo local.