Change The World – Blubell

 

 

Sábado fui a um show, evento pra mim totalmente despretensioso. Pouco esperava além de algumas risadas, ouvir músicas que de alguma forma me fariam curtir o passar do tempo e principalmente estar bem acompanhado por alguém que muito estimo. Não era o objetivo pensar em algo, aliás, pensar era algo totalmente fora da proposta para uma noite de sábado. Não que pensar seja ruim, muito pelo contrário. Apenas o objetivo era só o relaxamento total.

Entretanto, confesso que fui rindo música a música e percebendo  que em muitos casos uma nova roupagem torna muito mais palatável algo que num primeiro contato não consegue passar do status de horrendo. Não que eu tenha achado músicas como Ai se eu te pego;  Tche tche rerê e Eu quero Tchu, eu quero Tcha  tenham realmente subido ao status de música, não chego a grau, mas confesso que o contato com essas músicas se tornou muito menos irritante com uma nova roupagem.

E com isso na cabeça (e outras músicas realmente mais interessantes sendo tocadas) um monte de coisas começou a passar pela minha cabeça. Primeiro o mais óbvio, pensei nas mães que de uma forma ou de outra tentam disfarçar alguns alimentos para que as crianças comam sem tanta birra, com o dia das mães tão próximo não tive como fugir dessa linha de raciocínio. E até confesso ser um tema interessante. Afinal a gente doura a pílula um monte de vezes no nosso cotidiano, só que outra ideia surgiu e acho que hoje seguir por essa trilha vale mais a pena.

No show, o Nico Nicolaiewski oferece suas versões (eu recomendo o show pra quem puder assistir, foi bastante divertido, até o fim do mês no Teatro Eva Hertz em São Paulo, depois volta pra Porto Alegre e as poucos deve rodar o país todo). A sua forma de ver essas canções extremamente populares. A sua forma de contar histórias que todo mundo ali já conhecia.

Quantas vezes a gente não faz isso? A literatura vive de contar a mesma história muitas vezes, cansei de contar em quantos livros eu já reconheci o mito do herói, e o mais engraçado, mesmo sabendo disso, posso dizer com total segurança que gostei de vários desses livros. Não pelo mito em si, mas pela abordagem totalmente pessoal que o autor deu, pegando uma ideia aparentemente batida e contando do seu jeito, reforçando aquilo que lhe pareceu mais importante e deixando pra lá aquilo que não lhe interessou, sem no entanto esquecer dos fatos todos, apenas dosando bem os pontos da história.

De alguma forma é isso que eu espero dos meus alunos. Sei que falo muita coisa, sei que as vezes sou chato pra caramba e fico pegando no pé em detalhes que para alguns parecem  não fazer sentido. Acontece que no fundo, eu só quero que eles sejam de certa forma como o Nico foi em seu show. Quero que eles contem a sua versão do que aprendem comigo. Quero que eles reproduzam as mesmas histórias que a humanidade vem reproduzindo há anos com a sua experiência de vida e seu olhar. Quero que seu olhar seja capaz de produzir algo melhor do que eu ofereço hoje.

E confesso que me empolgo com cada leitura mais profunda que percebo. Confesso que toda vez que vejo alguém que já não funciona mais apenas como receptor de ideias, mas que passa a aceitar as ideias e de alguma forma tenta mostrar a forma como interpretou aquilo eu me vejo mais feliz. Não falo dos sofismas que vez ou outra surgem. Falo das leituras embasadas e das histórias criadas com raciocínio lógico, estrutura e informação. Nessas horas eu percebo que uma parte do meu trabalho valeu a pena.

Porque mais importante que ler o mundo é saber como é que eu o interpreto. De nada adiantam as palavras e frases soltas se elas no fundo não fazem sentido algum. É preciso ir além do básico. É preciso querer dizer ao mundo o que se pensa, mas antes disso é preciso ter sobre o que pensar e a partir desse ponto realmente emitir alguma opinião.

Escolhi hoje uma música do Eric Clapton que eu adoro, numa versão que me encantou na primeira vez que ouvi. Pena ter sido num comercial de banco. Estranho imaginar um banco querendo realmente mudar o mundo, ou realmente apaixonado por seus clientes. Isso também é algo a se pensar. Quem sabe alguém posta sua opinião sobre o tema nos comentários?

Agora eu deixo o texto, e a canção, que confesso, se tivesse voz e soubesse tocar bem o suficiente, cantaria com toda a força para muita gente. Só mudando o tempo verbal, deixando pra lá o pretérito imperfeito e partindo com tudo para o presente. Eu posso e vou mudar o mundo de muita gente com a mesma força positiva que essas pessoas têm mudado o meu mundo. Principalmente de quem tem me ensinado a ver tudo com um olhar muito mais leve e divertido.

Shiny Happy People – REM (2)

 

 

Incrível como a gente muitas vezes não percebemos como está o nosso real estado de ânimo até sermos postos a prova. Eu me vi assim nesse fim de semana. Correndo feito louco, passando mal na quinta, meia força na sexta mas tendo que correr pra mercado, curso, casa dos pais e tudo mais e me preparando pra um sábado aparentemente simples, mas que me gerava uma ansiedade ímpar.

E passei por cada um dos estágios sorrindo, passei por todos os estágios sem perceber o que exatamente eu fazia, apenas fiz o necessário e vi que o tempo demorou a passar num sábado que aparentemente demoraria a passar. E demorou, pelo menos até o momento em que ela chegou. Foi só ver seus olhos e perceber que todo o tempo que se passou poderia parar ali naquele instante. Eu tinha diante dos meus olhos a razão de todo e qualquer esforço que eu pudesse ter imaginado.

Sorte que por incrível que pareça, as coisas possam ser melhores ainda. A noite se aprofundou e com ela chegaram alguns bons amigos. Gente que partilha comigo o duro dia a dia. Gente que sente dores parecidas e que me viu chorar e reclamar muito num passado recente, até que eu encontrasse novamente motivação para sorrir de forma desenfreada e juvenil como tenho feito no último mês e meio.

E ai o tempo voou como se quisesse correr por entre meus dedos. Mal vi que ele passou de tão breve e rápido que foi. A boa companhia fez tudo esvair-se deixando na boca um doce gosto de quero mais, preciso de mais e a principal vitória foi a sensação de bem estar criada pela presença de todos, novos e velhos amigos que me proporcionaram. Foi como se estes amigos de alguma forma corroborassem toda a alegria que eu tenho sentido ultimamente. Por isso foi tão importante para mim ver todos juntos nesse momento. Tão importante que me fez retomar uma música que já usei, mas que me parece única pra dizer o que eu realmente senti com a presença de todos. Pessoas felizes porque eu estou feliz.

E mais importante foi perceber tudo o que se desenhava diante dos meus olhos. Ver o valor do cuidar e ser cuidado. Ver o quanto é importante para o outro ser cuidado, mas principalmente deixar o outro deixar de você, como forma de mostrar a você a sua real importância.

Aprender a receber tem sido o maior aprendizado para os dois. Andar de mãos dadas, caminhar sorrindo, desejar um bom dia, todas essas outras coisas vistas como clichês aparecem normalmente e sem esforço. O ar meloso existe, assim como o cuidado, mas sem afetação ou excesso. Existe sim carinho, mas principalmente respeito e admiração.

Prova disso foi ter provado hoje um dos melhores almoços da minha vida. Ser cuidado como se eu fosse realmente alguém especial. E assim me senti mesmo. Muito especial vendo o almoço ser preparado, a casa cuidada com o toque de quem quer de alguma forma deixar a sua marca. E por favor sem machismo ou feminismo maluco, apenas a sensação de fazer algo por quem se ama e receber esse amor de volta de alguma forma, até a orquídea que tenho em casa parece ter entendido dessa forma, caso contrário não estaria florida a um mês, sem sinal de perder a beleza das flores nos próximos dias.

Porque o que vale é descobrir a alegria nas pequenas coisas e dividi-la com as pessoas que são realmente importantes para nós.  Amigos e parentes é que nos fazem bem. É com eles que a gente tem que dividir os bons e maus momentos. Estou feliz por poder fazer isso com eles nessa fase importante da minha vida. Obrigado pela oportunidade que vocês me dão nesse momento.

Protege Moi – Placebo

 

 

Incrível como dói ver quem a gente ama sofrendo. Incrível como a gente quer sempre trocar de lugar e arrancar a dor de alguma forma. Quer sofrer no lugar e as vezes se desespera por não saber exatamente o que fazer.

Já vivi isso algumas outras vezes. Ano passado mesmo vi com pesar minha mãe sofrer a dor de lutar contra um tumor. Sorte ela ser forte, e ter conseguido vencer. Quase um ano de sofrimento e dor psicológica. Cirurgia, quimio e radioterapia. Palavras que criam medo em quem as enfrenta.

Confesso que aprendi com a dor da minha mãe. Aprendi o quanto falta para que eu possa realmente ser forte como as vezes imagino ser. Ela, magra, baixinha e com os belos cabelos brancos mostra uma força e uma vontade que me fazem sentir orgulho dela.

Ela aprendeu a perder, cresceu com isso. Enterrou e chorou por seus pais (era muito novo e pouco realmente aproveitei dos meus avós), mal percebi a perda. Ela enterrou alguns irmãos também. Chorou por todos e aprendeu a ser forte com suas perdas.

Eu pouco perdi, ou melhor nada perdi além das frágeis derrotas adolescentes. Meus pais e irmã estão sempre ao meu lado. Meu emprego é o mesmo a um certo tempo. Poucas mudanças radicais. Meus maiores medos são mesmo os que surgem do acaso, como o que senti durante o ano passado acompanhando o que aconteceu com minha mãe. Aliás, acho que no fundo eu sofri bem mais que ela, que apesar do medo encarou a situação com muito mais altivez e inteligência do que eu, meu pai e minha irmã.

Falo isso porque no fim de semana eu senti a sensação de perda bater perto de mim. Medo bobo eu sei, mas ainda assim medo. Aquela sensação de ver em perigo alguém que você quer bem.

Atravessei a cidade com medo. Com medo fui ao hospital e tentei tomar conta de quem amo. Lembrei dos meus pais e de tudo o que eles fizeram por mim. Das vezes em que minha mãe saiu correndo atrás de ônibus e vizinhos para que eu pudesse chegar ao médico o mais rápido possível. Sem celular (eles nem existiam naquela época), meu pai tentava descobrir o que estava acontecendo. Enfim, o desespero em tentar resolver algo que muitas vezes está além das nossas capacidades.

Eu a vi frágil em meus braços, e a vi frágil sendo medicada. A acompanhei durante um bom tempo a sua dor e sei que ela acompanharia a minha (como aliás já fez quando eu adoeci a pouco tempo). Vi seu sono e torci para que ele fosse de alguma forma tranquilo e protetor. Era tudo o que eu podia fazer, foi tudo o que fiz, tentar proteger de alguma forma e mostrar que estava ali do lado. Tentando partilhar a dor e o sofrimento, tentando esconder o medo que eu sentia imaginando talvez ser algo realmente perigoso.

Porque muitas vezes é o medo pelo outro que nos faz perceber o quanto somos frágeis. Observar a fragilidade de quem nos é importante associada a nossa incapacidade de resolver o problema nos mostra que no fundo somos apenas humanos. Somos apenas seres incapazes de resolver todos os problemas que surgem e que por isso precisamos proteger quem a gente ama para que estas mesmas pessoas nos protejam.

When I Sixty Four – The Beatles

 
http://youtu.be/VH9-UYX8RlQ
 

Muitas vezes ouvimos frases que marcam. Frases que aparentemente chegam aos nossos ouvidos sem motivo algum e ficam. Outras vezes essas frases marcam pelo número de vezes em que as ouvimos num determinado período. Parecem mantras que se tornam populares aos nossos ouvidos.

Ouvi de mulheres diferentes, em momentos diferentes e situações diferentes a reclamação das mesmas que o tempo passou e elas não possuem mais seus 20 anos. Dito de forma a parecer que a passagem do tempo é algo negativo. Como se o tempo fosse inimigo e os 20 anos marcassem uma data especial, uma espécie de ápice pessoal e tempo ideal para a realização de sonhos.

Interessante que pelo menos algumas das mulheres que reclamaram da passagem do tempo fazem parte do meu círculo de amizades a muito tempo. A grande maioria eu já conhecia antes mesmo delas completarem os tais 20 anos de idade. E posso garantir com quase 100% de certeza que as mesmas são pessoas muito mais interessantes hoje acima dos 30, em alguns casos perto ou acima de 40 anos do que eram nos seus 20 anos.

Geralmente o tempo faz bem a quem é inteligente. Por mais que se sofra e a vida seja dura, só o tempo é que pode trazer a maturidade necessária. Só o tempo ensina a gente a aproveitar melhor o que cada idade pode fornecer e por isso só o tempo pode ensinar formas de realçar belezas outrora escondidas ou descartadas.

Se um bebê é belo aos olhos de todos, uma criança é sempre vista como fofinha e simpática e o jovem tem na plenitude física e no fogo da inquietude os atributos que o tornam interessantes, só mesmo o adulto é que passará a ser visto pelas suas próprias características e por isso reconhecido por um tipo pessoal e próprio de beleza. Nesse caso a beleza não reside mais no grupo a que se pertence, mas sim ao indivíduo.

E é assim que eu vejo cada uma dessas mulheres que em momentos diferentes reclamaram dos 20 anos terem passado. Muito mais belas agora do que no passado. Afinal, hoje elas são muito mais plenas e reconhecíveis por suas características do que pela rigidez do corpo. As curvas podem ser outras, a pele pode trazer marcas e até o cabelo pode ter se modificado. Mas no caso delas tudo foi lindamente alterado pelo tempo. As experiências criaram a força expressa nas pequenas marcas no rosto. Os dissabores que cada uma passou podem ter se tornado gramas a mais ou a menos. Os banhos de chuva podem ter modificado o brilho dos cabelos. Mas tudo isso trouxe um novo brilho aos olhos, um andar mais altivo, um sorriso mais verdadeiro e uma confiança que não se encontra ainda em quem pouco viveu ainda no início da vida adulta.

Mesmo a mulher que amo, é muito mais bela aos meus olhos hoje do que a 15 anos atrás quando nos vimos pela primeira vez. Hoje ela se tornou muito mais encantadora e bela, se tornou mais completa, mais viva. Não que antes não fosse bela, ela era, sempre foi, mas hoje traz mais de si nessa beleza. Vai além do físico, chega a algo que se pode de alguma forma chamar de alma, uma beleza mais ampla.

E é essa a beleza ampla que me encanta, que me faz por vezes sonhar ouvir e viver a música dos Beatles que nomeia o texto. Chegar aos meus 64 anos ao seu lado. Aproveitando cada segundo e reinventando esse amor e carinho. Descobrindo novas facetas dessa beleza que se altera a cada dia.

Não falo só dela, falo de todas. Minha mãe é mais bela a cada dia, minha irmã também. Minha avó apresenta um tipo bem peculiar de beleza encantadora e isso acontece com todo mundo, mulheres e homens. Porque só o passar do tempo nos ensina a valorizar e a expressar a nossa verdadeira beleza, aquela que irradia de dentro pra fora e não o contrário.

Spaceman – The Killers

 

 

Incrível como pequenas fatos mudam tanto a nossa perspectiva em relação a vida e ao mundo. Incrível como muitas vezes um único fato faz tanta coisa na vida de alguém. Engraçado como em meu último texto eu tentei agradecer por estar alegre e do nada recebi uma mensagem onde me disseram que eu não ligava pras lágrimas que causei. Confesso que isso ficou martelando a minha cabeça, por ter vindo de onde veio, como veio e sem a devida cobrança pela determinada lágrima.

Confesso que num momento imaginei que a felicidade de alguém pode simplesmente machucar alguém pelo simples fato dela existir. Eu sou daqueles que realmente acredita que é impossível ser feliz sozinho, mas não quer dizer que eu precise ter alguém ao meu lado e sim que eu preciso que os próximos a mim estejam felizes para que eu me sinta também feliz. Uma espécie de efeito manada.

Claro que um sonho seria poder fazer as pessoas felizes apenas pelo exemplo. Queria que a minha felicidade contagiasse todo mundo e sinto pena de quem acaba sentindo o oposto pelo fato de ver alguém feliz. Isso dito, vale a pena falar de exemplos que realmente marcam. Vivemos num país de baixa idolatria. Um país sem heróis e que tenta de todas as formas destruir os poucos heróis que tem. Direto vejo gente chamando Tiradentes de engodo, Zumbi ter sua orientação sexual contestada e colocada acima de sua importância histórica (o que a orientação sexual de alguém muda nos seus atos?)

Quinta e sexta estive ao lado de um dos raros heróis brasileiros atuais. Um dos únicos da área de ciência e tecnologia, com certeza o mais popular dessa área. Trabalhei como voluntário num evento organizado pelo Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro. Primeiro homem de nosso país a conseguir realizar um sonho de provavelmente muitas de nossas crianças. Já o havia conhecido antes, então o jeito simples e sem afetação não foi novidade. Nem mesmo a forma atenciosa como atendeu todas as crianças ávidas por uma foto, um abraço um autógrafo (levei um livro autografado pra minha namorada, ninguém é de ferro e mesmo trabalhando tive meu momento tiete).

O que pude perceber ali, é que muita gente idolatra o que ele fez. Principalmente as crianças. O que me incomoda é saber que muita gente inveja a conquista dele. Muita gente briga por um brilho maior do que o da estrela estabelecida. Como se o sucesso do outro de alguma forma impedisse o seu. Pessoas buscam erros  nas menores ações, nos menores passos e fazem questão de divulgar.

Parece que é proibido para o famoso cometer um erro. Ele não pode ser humano, tem que ser perfeito. Os detratores querem sempre a falha e nunca realçam as qualidades. E eu me pergunto o porquê. Seria muito mais justo entender que todo mundo erra e que mesmo errando como todo mundo, tem gente que consegue ir além dos erros e conseguir acertos que maravilham muita gente e servem de inspiração.

Fico pensando se por estar feliz e dizer isso eu de certa forma incomodei, imagine como incomodam aqueles que realmente inspiram e principalmente o peso que eles carregam por isso. Porque mais do que fazer o duro é manter o exemplo. Isso não depende de quem faz, depende bem mais de quem olha saber ter o olhar livre o suficiente para ver apenas o lado positivo. Depende de quem vê perceber que as glórias muitas vezes são bem mais do que merecidas.

Não se busca a perfeição e a plenitude. Busca-se sempre o melhor exemplo. Todo mundo quer ser a melhor pessoa possível e minimizar seus erros. Infelizmente a gente sempre vai errar em algum ponto, causar alguma lágrima, mas reitero que mais importante que as lágrimas que a gente causa (e de alguma forma tenta estancar a dor de quem chora) são os sorrisos que a gente cria.

I’ll Take Care Of You – Etta James

 

 

Durante muito tempo em minha vida eu vivi fechado dentro dos meus medos, meus sonhos, minhas histórias. Não me lembrava de como era bom ser cuidado. Aliás, me pergunto se alguma vez em minha vida realmente deixei alguém cuidar de mim. Sempre eu é que tinha que cuidar, resolver, fazer agir, servir.

Hoje eu tento aprender a ser cuidado. Cuidar é bem mais fácil. Ver o sorriso no rosto de quem se gosta é o mais justo e desejado pagamento que se espera por algo que se faça. Mas e o contrário? O receber? Deveria ser fácil. Nunca foi.

Eu agora aprendo e ensino a receber. Tem sido uma experiência nova e gratificante. Partilhar e não mais dominar. Conversar e não apenas decidir. E como tenho aprendido nesses dias. Como tenho crescido. Foi bom perceber os primeiros sinais da maturidade em minhas ações. Não tenho mais pressa, não tenho mais tanto receio. Apenas faço o que acredito ser o certo, ouço, penso e construo junto.

Não fico mais desesperado esperando algum tipo de aprovação. Eu sei o que sou e o que pode ser esperado de mim. É claro que posso mudar e tenho mudado um pouco mais a cada dia, mas a essência está ali o tempo todo e é isso o que eu realmente ofereço. Não me preocupo mais com detalhes por vezes pequenos demais. Apenas vejo o essencial, o resto a gente muda junto, cresce junto e cria junto as nossas próprias manias.

É assim que tenho vivido. Curtindo dia a dia e crescendo junto com quem se propõe a me ensinar tanta coisa em tão pouco tempo. Vivo como se fosse eterno (e em meus sonhos mais profundos eu desejo que realmente seja assim), aproveito como se fosse efêmero e rápido. Sem, no entanto, cair na falha fácil e adolescente de sufocar pelo excesso. Apenas curto o máximo de cada momento e percebo o quanto ele sempre será único, não importa o que eu viva, sei que cada momento, seja ele bom ou ruim, nunca voltará a ser vivido.

O engraçado nessa história toda é perceber que um hiato de 15 anos é que realmente me ensina. Esse hiato é que me prova que somos realmente a soma de tudo aquilo que de uma forma ou outra nos marcou em nossa vida. E são muitas vezes marcas pequenas, como conversas enevoadas por fumaça de cigarro (que eu nunca consumi) e café (que nunca fez parte da minha dieta) num passado distante que se tornaram a base para toda a alegria que eu sinto hoje. O café virou suco e a fumaça ganha o perfume de lavanda e outras flores. Fica o sorriso, a voz doce e a pessoa.

Se no passado eu falei mais que ouvi. Disse coisas que de uma forma ou de outra marcaram, fui também marcado pela cena. E assim tudo se repete. No passado marquei e fui marcado, hoje ensino e aprendo, cuido e sou cuidado.

Porque eu percebo a importância do meu sorriso para o outro. Percebo que as pessoas não devem ser protegidas da dor que sentem e sim ter companhia nesses momentos. Não posso viver a dor do outro, posso sim (e devo) é encontrar formas de minimizar o sofrimento de quem amo, como quem me ama de alguma forma tenta a todo instante encontrar formas de me dizer que quer me ver feliz.

E assim eu ando de mãos dadas, dou carinho e atenção. Mas também recebo tudo em mesma força e intensidade. E o que é melhor, percebo ser tudo isso natural tanto pra mim quanto pra ela. Nada se força. Se faz apenas aquilo que se quer, como se quer e quando se quer. Amar não dá trabalho, amar requer apenas a vontade de dar ao outro um pedaço de você e receber do outro o pedaço dele que lhe é ofertado. Por me ensinar que amar é tão simples que eu te agradeço tanto por ter entrado em minha vida e finalmente ter me ensinado como é bom cuidar e ser cuidado.

Panic – The Smiths

 

 

Eu realmente tenho passado por mudanças mil. Aos poucos fui colocando cores na minha vida (os mais próximos vão entender que isso é bem mais literal do que aparenta). Hoje consigo ver mais cores no mundo e com mais alegria comemorarei o dia do azul amanhã em tons bem mais coloridos.

Apesar de tão alegre, devo, entretanto, me lembrar do pânico que senti quanto tudo isso começou. É muito difícil mudar, é muito complicado seguir adiante numa nova história e mudar aquilo que se vive, mesmo quando o que se vive não nos agrada. A gente sente medo do novo, mesmo sabendo que o novo é  melhor que o atual, mesmo sabendo que nada pode ser pior do que o atual.

O medo faz parte da vida. Chego até a dizer que ele é necessário e nos torna previdentes, o problema é quando eles nos impede de fazer o que deve ser feito. Eu vivi por muito tempo assim, vencido pelo medo, escondido da luz preso no quarto escuro da minha mente.

Quem nunca teve que enfrentar os próprios fantasmas? Quem nunca teve que dizer a si mesmo que era hora de ter coragem e dar um pequeno passo adiante? Eu fiquei anos até conseguir, por isso entendo quem não consegue, mas digo, vale a pena enfrentar toda a dor e sair da zona de conforto que nada tem de confortável só para de repente conseguir ver um céu azul e bonito.

Eu já não acreditava e confesso que se não tivesse tido gente que acreditasse em mim talvez eu não tivesse conseguido. Tem horas em que a gente simplesmente perde a coragem e precisa de algum apoio. Eu tive,amigos, família, médicos, psicólogos, alunos. Gente que soube que eu precisava de ajuda e não negou. Gente que me ajudou a vencer o medo.

E vencer o medo não quer dizer destruí-lo, quer dizer apenas poder ir além dele. O medo continua lá, mas ele serve apenas de alerta. Ele nos diz que algo incomoda e nos faz ficar mais cuidadosos. Não quero que ele suma. Preciso dele, como preciso da alegria e de todo o amor que estou sentindo. O medo de certa forma me traz juízo.

Ele só não pode ser tão forte como já foi. Não quero mais o pânico, quero o equilíbrio. Quero apenas o medo que faz pensar e não mais o que impossibilita. E quero que mais gente consiga vencer suas barreiras. Quero ajudar como fui ajudado. Quero mais gente chegando ao seu pote de ouro no final do arco-íris.

Porque não tem graça ser feliz sozinho. É muito mais divertido ver a alegria no rosto de todo mundo ao mesmo tempo. Eu não quero rir enquanto você chora, quero sorrir com você. E com toda a alegria que eu sinto nesse momento, certamente eu sei que de alguma forma posso ajudar alguém a ser mais feliz.

Lembro do Espantalho, inimigo do Batman que espalha o tal gás do medo. Eu queria ter algo mais próximo do que o Coringa criou, uma espécie de gás do riso. Eu quero ver todo mundo tão feliz como eu. Eu quero ver o mundo realmente alegre e colorido, como é colorido o que aparece diante dos meus olhos e brilha intensamente em meu coração. Quero todo mundo junto, tudo misturado, sorrindo, rindo e gargalhando. Porque assim como eu, todo mundo merece ser feliz.