Run Like Hell – Pink Floyd

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Sinto como milhares de espinhos como esses penetrassem minha pele

Não sou muito fã de posts assim seguidos, ainda mais quando eles fogem da sequência lógica de posts que eu prevejo. A lógica pedia que eu continuasse falando das boas saudades. Porém, hoje eu confesso que não estou com uma boa cabeça. Confesso que preciso falar um pouco dos fantasmas que estão deixando minha cabeça mais fora de ordem do que normalmente ela já é.

Ao som de Run Like Hell do Pink Floyd (uma das músicas da talvez ópera rock The Wall) vou aqui destilando idéias sem sentido, tentando encontrar algum motivo pra conter lágrimas que caem feito um rio do meu rosto..

O mais chato dessa história toda é não ter uma noção exata do que me faz chorar. Ter medo de tudo o que me cerca, medo quando o telefone toca, medo quando a tevê fala e medo quando tudo silencia. Medo da luz da sala e até medo do escuro. Escuro aliás, que uso pra me esconder e proteger de algo que eu não tenho a menor idéia do que seja.

Nesses momentos, em que a cabeça vai por diversos caminhos e não encontra estrada alguma para seguir, eu tento me focar no que tenho que fazer. Tento produzir algo de útil, como forma de fazer o tempo passar sem que eu perceba. Tento fazer isso até que o sono chegue e eu adormeça. Sempre com a falsa idéia de que com certeza acordarei alegre e bem.

Mas hoje nem isso tenho conseguido. No máximo esse texto que nem sei se merece ser compartilhado. Tentei adiantar uns relatórios, produzir alguns versos, imaginar algumas fotos. Tentei andar por ai, dei uma caminhada pelo condomínio, tentei ver o céu, mas a chuva não caiu.

O que me incomoda, confesso, é sentir-me vazio. Não sei como outras pessoas se sentem. Eu só sei que me sinto totalmente vazio por dentro, como se tudo aquilo que eu faça e pense não tivesse razão. Busco uma razão pra continuar. Vejo as pessoas ao meu lado tento tantas idéias diferentes, encontrando pequenos prazeres em coisas que eu considero absurdas, não por serem absurdas, mas por não fazerem sentido pra mim.

Onde está o sentido? Eu corro, corro, corro e nada. Não chego a lugar algum e o que é pior, nem sei se existe um lugar pra chegar. Aos leitores, desculpem o desabafo. Espero ter coisas melhores pra dizer no meu próximo texto.

Crying the rain – A-HA

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Muitas vezes choramos sem razão, sorte que algumas pessoas recolhem nossas lágrimas e nos ajudam a levantar

Depois de quase uma semana eu retorno. Sei que deveria ter passado por aqui antes, afinal até tenho o que dizer. Mas tem dias em que tudo parece mais complexo do que realmente é, e você, mesmo sabendo disso, não consegue dar o passo certo da maneira correta.

A escolha da música título desse post tem um quê de saudosismo, afinal A-ha  tocava na minha adolescência (Crying the rain tocou muito) e um quê de falta de criatividade, hoje chove e eu estou chorando, como aliás costuma acontecer também quando não chove.

Os motivos das lágrimas são diversos e não é o momento correto pra discorrer sobre isso. Agora preciso desviar um pouco o foco. No último texto eu falei de 3 pessoas, citei numa alegoria 3 saudades boas que essas pessoas me trouxeram e que de certa forma me mantém de alguma forma vivo.

Hoje conto um pouco da primeira saudade. Falo da sensação de reencontro, do desejo de rever e reprisar fatos, da vontade tremenda de modificar pequenas escolhas feitas em determinados momentos do passado que se tornaram erros. Hora de rever a história. E aqui vale ficcionar e romancear um pouco, pra coisa ficar mais palatável e pra que eu possa contar a história sem contar nada das pessoas envolvidas.

Num passado distante, num dia chuvoso como esta noite. Eu chorava como choro hoje. Perdido em pensamentos malucos. Idéias dispersas, os olhares ainda não eram dispersos, eu ainda não tinha sido realmente apresentado a câmera fotográfica. O pensamento longe, era um dia frio. As gotas de chuva batiam no meu rosto, meus óculos traziam com sigo as gotas e tentavam esconder as lágrimas que escorriam.

Eu precisava sentir a água me tocando, precisava disso. Imaginava que as gotas iam lavar os cortes da alma e curar feridas que eu até hoje nem sei como se abriram nem se realmente existiram.

E parou de chover de repente. Uma pessoa veio em minha direção. Olhou nos meus olhos e me abraçou, bastou aquilo pra minha cabeça voltar a funcionar de novo.  E foi ai que eu falhei. Não soube retribuir o que recebi. Quando mais necessário, eu não estive presente.

Confesso, aliás, que depois de escolhas mal feitas no passado, onde não levei em conta o merecimento, onde fui mais emocional do que racional. Só fui perceber o quanto essa pessoa é importante para mim quando corri o risco de realmente perdê-la. Perdê-la de uma forma que não se recupera mais.

Daí veio todo um sentimento de dor, que se transformou em alegria infantil, ou melhor , juvenil em dois momentos posteriores. O primeiro quando voltei a falar com essa pessoa, mesmo que virtualmente. Percebi que ela estava ali novamente inteira e íntegra como sempre fora e a segunda, onde ações totalmente infantis minhas deixaram na cara o que eu estava pensando, quando a revi, até mais radiante do que estava na última vez em que nos encontramos.

Ai eu percebi todos os erros que cometi, e confesso que quero repará-los. Quero de alguma forma devolver aquilo que recebi a quem realmente merece. Quero mostrar a essa pessoa o quanto ela é realmente importante para mim. Não quero que errar novamente deixando tudo passar diante dos meus olhos sem deixar claro o que penso e sinto.

Espero que a chuva não precise lavar as lágrimas do meu rosto e muito menos do rosto dessa pessoa.

A Sort of Homecoming – U2

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as vezes é preciso que alguém lhe traga um pouco de luz para que a gente volte a acreditar que existe algo de belo naquela escuridão toda

Fazia um bom tempo que eu não passava por aqui. A cabeça anda pesando, sem nada de bom pra falar. Acabei me recolhendo a própria insignificância de meus medos e dores e esperei o tempo passar.

Muita gente diz que o tempo cura tudo. Bom, não acredito nisso como uma verdade, ou, o tempo que dei a mim mesmo não foi suficiente para tanto. Dia desses (na verdade terminei ontem ou anteontem) lia um livro do Hemingway que eu tinha a tempos parado na minha casa. Sabe aquele livro que sempre que sobra um tempo você fala que vai ler e nunca lê? Pois é, esse era o caso de O Sol também se levanta. Já tinha lido críticas, já tinha ouvido comentários, todos favoráveis. Porém, faltava um estímulo extra pra começar e terminar de passear pelas páginas do livro.

Dessa vez o li rapidamente em poucos dias. Identifiquei-me com o personagem principal em diversos aspectos. De certa forma pareço o tal Jake. Alguém que faz uma série de coisas sem sentido porque acha que deve fazer, mesmo que isso lhe cause algum sofrimento. Aliás, para mim Jake apresenta algo que abomino na minha pessoa, assim como eu ele não sabe onde está seu próprio prazer, talvez por isso, faça como eu tento fazer as vezes (e agora de maneira consciente e até positiva), Jake tenta fazer os que estão ao seu lado felizes, principalmente Brett.

Não vou contar a história toda. Até porque acho que este livro realmente merece ser lido, o texto ágil do autor encanta, os diálogos diretos e a forma como ele conta uma história chamam a atenção, aliás, preciso ler O velho e o Mar. A leitura e também conversas com amigos é que me fizeram querer voltar a falar nesse espaço.

Primeiro falo da música, talvez seja uma forma de dizer que estou de volta, sim, eu voltei. Porém, voltei de forma diferente. Ao menos na primeira série de textos que virá, quero expor a minha dor, de forma parecida como A Sort of Homecoming prega, eu vou fazer o que tem que ser feito porque sei que precisa ser feito e sei que sou eu que tenho que fazer. Entretanto, não farei sem reclamar. Porque como uma amiga minha sempre diz, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, frase que já me disseram ser do Caetano Veloso, não sei ao certo a autoria. Apenas sei que ela me lembra a Lak.

Agora posso falar de outras coisas. Das conversas com gente que me fez voltar. Primeiro digo que não citarei nomes, se as pessoas citadas aqui quiserem, poderão dizer quem são, mas acho mais justo com elas preservá-las. Não que seja algo grave, no fundo são apenas histórias corriqueiras, mas são histórias dessas pessoas e não acho que valha a pena trair a confiança de alguém.

Começo falando de 3 pessoas. Provavelmente nesse caso as 3 não saberão que aqui falo delas, nem sei se vão ler. Confesso que gostaria que lessem e até comentassem, mesmo que não soubessem que falo delas. São 3 pessoas que isoladamente (afinal as conversas foram isoladas e nada a ver uma com a outra), de certa forma me fizeram voltar a pensar em mim e a querer de novo buscar alguma chama de felicidade em algum lugar.

Os motivos para tanto são diversos, superficialmente tento falar de alguns. Essas pessoas me fizeram perceber que eu posso sim sentir saudades e que nem toda saudade é dolorosa. Que a saudade pode se fazer doce quando se revê alguém e se percebe que esse alguém está melhor do que o esperado e transbordando luz.

Também me mostraram que a saudade pode ser reconfortante, quando você percebe que aquela pessoa realmente faz diferença para você. Por mais que você crie motivos variados para justificar tal sensação em sua mente. No fundo você sabe que não existe motivo racional, você quer apenas estar perto dessa pessoa, mesmo sem saber o que falar ou como agir. Você quer proximidade, um sorriso, um toque. Você quer de alguma forma ajudar e ser ajudado por essa pessoa, mesmo que não saiba como.

E para fechar a trinca (se bem que as 3 conversas valem exatamente para as explicações). Vi que a saudade pode também ser sinal de respeito. Quando você percebe que mesmo de forma inconsciente, você faz diferença para alguém. É a pessoa que percebe que você está no espaço, que procura a sua palavra, uma dica, um auxílio, ou somente um olhar.

Assim, é a saudade boa que criou o meu retorno ao blog, é a saudade boa que me mantém de alguma forma vivo e me faz acreditar que ainda alguma coisa positiva possa acontecer e me fazer mudar de opinião sobre o que eu vivo e sinto atualmente. Nos próximos textos pretendo continuar falando dessas pessoas, dessas conversas e da dor que sinto. Aguardo comentários desse e de outros textos.

Alívio Imediato – Engenheiros do Hawaii

Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra
Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra

As atitudes imbecis que tomamos salvos pela desculpa do preconceito nunca passam impunes. Sempre machucamos alguém ou prejudicamos grupos nessas ações impensadas. Em alguns casos o preconceito é tão forte e tão sem sentido que carregam não apenas uma pessoa, mas diversas pessoas em uma mesma direção sem sentido. Ondas de ódio que crescem e crescem a cada momento, e de repente sem qualquer motivo aparente, pessoas brigam. Surgem guerras e sangue jorra. Seja entre duas nações, seja entre duas cidades, seja entre torcedores de times diferentes, seja de adoradores de deuses diferentes. Infelizmente essas guerras nunca fazem sentido.

É claro que existem motivos políticos, disputas por terras, disputas por dinheiro, muita coisa envolvida em conflitos diversos que observamos por ai. Porém, mesmo estes motivos políticos são sempre questionáveis. É a idéia da dominação plena sempre. Talvez por isso eu tenha escolhido a música que separei. Gosto bastante de Alívio Imediato (clique aqui para ver um clipe da música), uma letra meio nonsense como a grande maioria das canções dos Engenheiros do Hawaii que fala de conflitos diversos e da busca de alívio através da chuva ou da noite. Busca-se a redenção através de algum fenômeno natural, porque provavelmente se dependermos do homem, esse alívio nunca chegará.

Não que eu seja contra a luta pelo que se acredita. Penso que em alguns casos, para defesa, é necessário sim erguer as armas e garantir a própria sobrevivência. Não se pode aceitar tudo o que surge sem se defender, sem tentar garantir a sobrevivência de seu povo e de suas idéias. Porém, sou contra o uso da força para impor algo a outrem, sempre se deve existir negociação, conversa, deve-se evitar a violência.

O que acaba incomodando mais é que quase sempre são utilizados artifícios absurdos para validar o início desses conflitos. Ai preconceitos são inventados, reforçados e ampliados. A população, que se transforma em massa de manobra, é engolida por esses preconceitos. Esse trabalho é feito de tal forma e com tanta eficiência que logo a mídia passa a vender aquilo como correto e todo mundo passa a aceitar o conflito como legítimo, inclusive apoiando as mortes geradas nos combates.

Exemplos para esse tipo de ação existem aos montes. O problema é que o que resta é sempre a versão que o vencedor tem dos fatos. Racionalizar sobre isso torna-se complexo, mas esse exercício de análise é sempre enriquecedor. Será que sempre os vencidos são os vilões? Será que existem vilões? Qual a fonte de tanta ira? Essas são algumas das perguntas que eu pretendo tentar discutir a partir de hoje, provavelmente nessa semana e na próxima. Quer citar algum tipo de conflito para ser comentado? Aguardo seu comentário.

If I were a rich man – Topol (Um Violinista no Telhado)

O que torna uma igreja luxuosa melhor do que essa capela? Nada
O que torna uma igreja luxuosa melhor do que essa capela? Nada

Hoje encerro a semana falando do que enxergo como o maior preconceito brasileiro. Até acho que existem sim ações contra negros, estrangeiros, mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Mas dependendo da classe social da pessoa a situação muda. É só ver como se trata o estrangeiro que vem de um país rico e o que vem de um país pobre.

Pensando em exemplos mais próximos, existem até cenas mais fáceis de observar isso. A cor da pele muda de acordo com a alteração financeira da pessoa. O morador da periferia é negro, assume isso, por mais branca que seja sua pele. Já o morador de áreas mais de elite se vende como branco, por mais que brancos sejam apenas os dentes e o fundo dos olhos. Isso é fácil de se perceber, principalmente dentro da imensa população parda que temos no nosso país. O mestiço acaba escolhendo um grupo para se sentir parte.

Para desenvolver esse tema, escolhi uma música que ouvi num filme em uma das aulas de Sociologia do curso de Pedagogia (abandonei o curso). O filme é bem interessante, se chama Um Violinista no Telhado, recomendo pra quem gosta de musicais. A música em questão se chama If I were a rich man (clique aqui para ver o trecho do filme em que a música é cantada). Nela, o personagem principal, em uma conversa franca com seu deus, diz o que faria se fosse um homem rico.

É bem essa a pergunta que sustenta o preconceito. O que cada um de nós faria com dinheiro e por que juntar-me a pessoas que não possuem dinheiro? Parece estranho, mas muitos dos costumes aparentemente surgiram para separar parte do grupo social como os melhores, os escolhidos.

Seja um estilo musical, um tipo de literatura, uma dança ou mesmo a forma de se segurar um talher. As regras sempre parecem segregacionistas. Coisas que só um pequeno grupo de escolhidos podem ter acesso. É a entrada que custa mais caro e seleciona quem vai entrar, é o valor irreal da refeição devido ao nome do restaurante. Coisas assim acontecem a todo momento.

Ao procurar emprego também. Dependendo do bairro onde você mora fica mais difícil, mesmo que você more perto do local onde vai trabalhar. A faculdade que você fez também faz diferença, as vezes esses dois ítens mais do que a prova de admissão. Falo disso tranquilamente por nunca ter passado por esse problema, mas sim ter observado. Vi casos onde isso ficou claro. Tudo bem, isso não tem muito a ver, aparentemente, com o fator financeiro. Porém, o que faz com que se associe o bairro onde a pessoa mora e mesmo o local onde se formou com a capacidade da pessoa é sim um preconceito carregado de elitismo barato.

Como a patroa que não permite que uma empregada doméstica coma a mesma coisa que ela come, ou mesmo que use os mesmos talheres. Como execrar algo só porque não traz uma grande grife como referência. Esse tipo de comportamento social serve apenas para tentar fazer parte de um grupo restrito de escolhidos. Já vi e convivi com pessoas que tinham medo de apresentar os pais a determinado grupo de pessoas com quem convive. Isso porque os pais não comem de determinado modo, não se vestem de determinado jeito, ou, simplesmente, representam um período ou local que se quer apagar.

A questão é que não é vergonhoso ser pobre, nem mesmo é interessante ser (ou parecer) rico. O vergonhoso é não se aceitar, nem aceitar o outro. No fundo preconceito é isso ter tanto medo de se tornar algo que não compreende a ponto de passar a odiar isso no outro.

O mesmo olhar – Suzana Félix

Nesse campo cada uma das flores é de um jeito, mas todas ainda são flores, por que não agirmos assim com os humanos?

Para este post precisei de ajuda, o blog da Lak serviu para que eu encontrasse subsídio técnico e também a música que serve para ilustrar o post. Falar das pessoas com deficiência no Brasil é falar de um grupo que a sociedade tenta esconder e fazer de conta que não existe. É falar de um grupo que raramente é tratado como merece. Afinal são pessoas como qualquer outra, diferindo por ter alguma deficiência facilmente observável. Eu sou daqueles que crê  que todo mundo possui em maior ou menor grau algum tipo de deficiência, visível ou não aos olhos dos outros.

Mas voltando a invisibilidade aparente, é estranho como a nossa sociedade parece ignorar os deficientes. A ausência de programas de acessibilidade se dá pelo fato de que pessoas não acreditam que eles existam, ou pior, acham que eles não deveriam sair de casa. Famílias com PcDs (pessoas com deficiência) sofrem da falta de estrutura e da cegueira social. Quando essa cegueira atinge também os familiares, torna-se quase impossível ao PcD conseguir uma vida minimamente normal.

A meu ver, o que torna as coisas complexas é que muita gente não aceita a possibilidade de (peço desculpas aos PcDs, mas vou usar os termos mais coloquiais para expressar o que penso) que um surdo apenas não ouve (nem vou discutir graus de deficiência), um cego apenas não vê, se alguém não tem uma perna pode muito bem fazer milhares de coisas. Deficientes mentais não são inúteis que devem ficar escondidos, aliás, pior é ver gente que acha que todo deficiente é mental.

A música selecionada foi indicada por uma leitora do blog da Lak. É da cantora portuguesa Susana Félix, para a associação Raríssimas. Se chama O mesmo olhar (clique aqui para ver o clipe). Fala de algo que eu acho ser o mais importante em relação a esse tipo de preconceito. A forma como olhamos os PcDs. É comum vermos essas pessoas tratadas como coitados, super protegidos e mesmo escondidos do convívio social. Quando alguém encontra qualquer PcD, a primeira palavra a ser dita em geral é coitado. Nem se sabe o motivo, mas a pessoa já é vista como alguém numa escala menor de habilidade e por isso coitado. Por mais genial, ativo e sociável que seja essa pessoa.

É difícil aceitar o diferente, e pior, é difícil aceitar que alguém que você acha inferior a você possa fazer coisas que você sequer imagine. Cria-se uma aura de eu sou melhor, de tal forma que não se aceita que aquele “menos habilidoso”produza mais do que você. E ai se repete o que citei para os negros, sem empregos, sem salários, sem acesso a educação, e isso até hoje, a transformação é lenta e morosa, mais do que para os negros.

A legislação diz que o acesso a educação deve ser universal, mas não oferece escolas. Uma grande amiga possui um filho autista, ele precisaria ficar o dia todo na escola, sendo estimulado, fazendo atividades, produzindo para aos poucos se encaixar. Escolas públicas assim não existem, e as particulares, são caras. Cadeirantes não freqüentam as aulas simplesmente porque as escolas não possuem rampas ou formas de acesso. Cegos não recebem apoio, nem material produzido em braile.

Como alguém vai lutar em igualdade de condições assim? Mesmo aqueles com maior possibilidade e estrutura familiar, com acesso a educação de qualidade, sofrem preconceitos de possíveis empregadores. Dependendo muitas vezes de cotas (e salários menores) para conseguir algum tipo de emprego.

Até hoje não consigo entender o que uma cadeira de rodas atrapalha alguém que trabalha o dia todo sentado, ou o que a falta de audição atrapalha na produção de um ilustrador. Talvez o que atrapalhe seja o medo das pessoas ditas “normais” serem superadas por pessoas que eles julgam incapazes.

Black or White – Michael Jackson

Por que chamar alguém de macaco?

Hoje, com um dia de atraso, falo sobre mais um preconceito comum. Um que se eu me levasse a sério talvez até pudesse ter sofrido com ele. O preconceito racial. Aqui no Brasil, basicamente o preconceito contra negros e índios. Nunca entendi muito bem porque isso ocorre no mundo. O que leva uma raça a ser menos do que outra na cabeça de alguém é algo que não entendo. Aliás, sou do tipo que procura abstrair raças sempre. Somos humanos e pronto.

Até a escolha da música (óbvia, eu admito) leva um pouco do que eu penso. Black or White (clique aqui para ver o clipe, vale a pena), pareceu ser uma resposta a quem criticava Michael Jackson, pela sua “mudança de cor”. Provavelmente ele tenha sido o artista mais cobrado por sua raça. Provavelmente de maneira injusta, afinal cada um sabe onde seu calo aperta e é livre para fazer o que quiser desde que não prejudique outras pessoas.

Os negros sempre foram relegados a um segundo plano na sociedade brasileira. Primeiro chegaram como escravos. Depois, formaram a classe menos remunerada (uma mulher, negra e deficiente dificilmente consegue emprego) da sociedade, sem acesso a educação inicialmente, sem acesso a chances de elevação social. A universalização do ensino é recente, antes só mesmo uma pequena parcela da população conseguia estudar além do quarto ano primário.

E justamente os negros foram os que mais ficaram afastados da escola nesse período. Sem especialização acabaram com os piores empregos, seus filhos tiveram dificuldades de vencer as barreiras erguidas pela falta de opção. Agora com o acesso as disputas pelos empregos ainda são desiguais, mas a tendência é cada vez mais essa diferença sumir.

Existem pessoas partidárias do sistema de cotas. Eu não sou um deles. Acho que deve ser melhorada a base, que a forma como as cotas foram impostas acaba gerando raiva e não soluciona muita coisa. Se as cotas fossem para pessoas de baixa renda trariam bem menos ira das pessoas e continuariam ajudando em sua maioria negros ou pardos. E mesmo assim, sem reformas graves na base, teremos apenas uma pequena parcela de negros favorecidos em meio a um mar de outros ainda sem acesso a nada no meio de toda a população.

A situação tem melhorado muito racialmente no Brasil, os movimentos negros são reconhecidos (alguns exageram, mas isso nem é tema pra discussão agora), a cultura negra é cada vez mais fortalecida. Falta mesmo é o brasileiro assumir sua raça. É engraçado como o definir-se como negro parece ser um fator financeiro (falarei disso com mais ênfase no domingo).  Negro é visto como pobre e não como um grupo racial. Muito maluco esse comportamento do brasileiro.

Até porque nosso povo é miscigenado, a mistura sempre rolou solta e faz parte da nossa cultura. Porque não aceitar isso é algo complexo demais pra mim. Aliás, complexo é aceitar que dá pra separar alguém pela cor, como se isso definisse o caráter de alguém.