Cartão Postal

Só vou saber o que tem no alto da escadaria se eu tiver coragem de subir até lá.

Prometi continuar falando da busca por simplicidade. Aliás prometi falar disso nos relacionamentos. Ainda que eu não seja o melhor exemplo pra falar de relacionamentos (estou no grupo dos encalhados), confesso que gosto de viajar sobre o assunto.  Conversando com amigos sobre o tema, sempre surgem algumas frases comuns da parte da turma que ainda está solteira: “Eu nunca entendo o que ela(e)s querem?”, “Por que nunca falam o que estão sentindo?” ou ainda “Ela(e) parecia que estava me dando um mole tremendo e dei com os burros n’água.

Estamos sempre reclamando não entender o sexo oposto, não entender o que o outro deseja, quando na maioria das vezes, o que falta mesmo é coragem pra tomar as decisões mais óbvias. Quer um bom exemplo disso? Qualquer um já deve ter vivenciado ou visto, quando adolescente uma cena comum. O rapaz todo envergonhado olha para a garota de longe. Ele, doido pra se aproximar, não sabe o que fazer. A garota, vendo de longe, torcendo pro garoto se aproximar. Provavelmente os dois estudam na mesma sala de aula ainda. Não seria muito mais fácil um chegar perto do outro e dizer que está interessado na outra pessoa?

Esse seria o óbvio, mas e o medo do não? O medo da derrota e de ouvir isso na frente dos outros, ou pior, ter que falar para os amigos que não deu certo. Afinal ambos contaram para todos os amigos que existia um interesse e esses “grandes amigos”, fizeram o favor de espalhar pra todo mundo num raio de 100 km que existe um interesse de y em x e talvez vice-versa. Não, somos derrotados pela vergonha.

Isso não acontece só com adolescentes, qualquer pessoa terá sempre uma reação parecida, não importa a idade ou o relacionamento. É o medo de falar que o casamento não está legal e perder o(a) companheiro(a), é o medo de dizer um desejo mais íntimo ao parceiro e ser visto (a) como vulgar, até o mesmo e ter que recomeçar a própria vida.

Nessa linha de pensamento, uma música gravada pelo Cazuza e composta pela Rita Lee e pelo Paulo Coelho serve como um bom tapa na cara para a gente acordar. Recomendo que prestem atenção na letra de Cartão Postal. A praticidade exposta na letra é de cortante. Pra que sofrer na despedida? Eu sei que ter tanta maturidade assim é complicado e sei também que dói perceber as nossas derrotas e falhas, por mais anunciadas que sejam. Por mais que um relacionamento vá mal, terminar é assumir a nossa falha em fazê-lo dar certo. Por mais que a pessoa que você está paquerando não tenha nada a ver com você e todo mundo perceba isso. Levar um fora é doloroso, nos dá uma sensação de impotência e incapacidade.

O que barra muitas vezes a vida de uma pessoa é o medo de sofrer pequenos contratempos em sua busca. Uma das primeiras coisas que aprendi no meu tempo de praticamente de judô foi a cair. Se você não cai, não tem motivo pra levantar. Se você tem medo de cair, como pode querer jogar alguém? Esse é um dos princípios do esporte (calma gente tem muito mais coisa, só peguei o trecho que me interessava nesse assunto). Perder o medo para poder melhorar e fazer direito. Ser direto e preciso no que quer, só assim testando, você saberá realmente se a sua resposta será positiva ou não.

Quantas vitórias cantem meus versos…

toda vitória deve ser vista como algo tangível e tridimensional, apresentando sempre diversas marcas, por isso nem toda vitória tem sabor agradável
toda vitória deve ser vista como algo tangível e tridimensional, apresentando sempre diversas marcas, por isso nem toda vitória tem sabor agradável

Pego carona na letra de Oswaldo Montenegro para começar este post, sei que ando afastado, peço desculpas aos leitores, problemas pessoais me afastam daqui mais do que gostaria. Continuo hoje falando das vitórias, na verdade hoje a idéia é dar um passo além. Quero falar das vitórias incompletas, aquelas que fazem um grande sucesso nas histórias em quadrinhos. As vitórias dos heróis, onde mesmo sabendo que a vitória surgirá, um sentimento amargo de derrota tomara conta dos envolvidos.

De novo esse tipo de sensação é comum nos quadrinhos, o herói em questão muitas vezes sabe que para conseguir seu intento terá que sofrer ou muitas vezes morrer. Esse é o lado nobre desse tipo de acontecimento. Entretanto (sempre tem um entretanto), existem outras vitórias assim incompletas sem a mesma nobreza. O nosso sutil comportamento humano traz tantas nuances que muitas vezes o sabor da vitória torna-se tão amargo que se torna intragável e passamos a questionar se realmente o fato não foi uma derrota ao invés de uma vitória.

Passei por acontecimentos assim ultimamente, na verdade se analisar friamente, esse tipo de vitória é até mais frequente do que aquelas vitórias a serem ardorosamente comemoradas. Isso, é claro, se você não for daquelas pessoas que se prende apenas ao resultado, mas se interessa também por tudo o que cercou a vitória, analisa as escolhas feitas e principalmente todos os efeitos que essa vitória terá nos envolvidos no processo (derrotados inclusive).

E ai é que a coisa toda se torna dolorosa. Afinal, raramente uma ação é tão isolada a ponto de não afetar outros acontecimentos. E em alguns casos esses acontecimentos nem são tão próximos assim. São situações por vezes distantes que se entrelaçam devido a improváveis relações entre os indivíduos.

É uma derrota num jogo que faz com que o ânimo de uma equipe se renove. É a promoção de uma pessoa a um cargo de chefia que esfria suas relações sociais e por isso mesmo a faz ficar ressentida até das pessoas de sua família. É uma informação que demora a chegar e que por isso modifica o comportamento de uma empresa.

Como diz o efeito borboleta, toda ação pode causar alterações bem distantes do seu local de origem
Como diz o efeito borboleta, toda ação pode causar alterações bem distantes do seu local de origem

Essa fala toda em cima do tal efeito borboleta (aqui falo da visão popular em maior escala e não da científica, por me faltar conhecimento para tanto), surge porque penso que deveríamos sempre nos nos preocupar com os efeitos de nossos atos. E mais do que isso deveríamos julgar esses efeitos na hora de tomar as decisões. Algo que nos aproxime dos ditos heróis, tomar a decisão correta doa a quem doer, porque em qualquer ação que se faça, infelizmente alguém vai se sentir derrotado. E saber a quem vai sobrar a dor, a intensidade dessa dor e principalmente compreender que essa dor será realmente necessária é algo difícil. Talvez seja essa a maior inveja que eu sinta dos heróis dos quadrinhos, esse senso de equilíbrio e a capacidade de trazer sempre a dor para si, minimizando a dor dos outros pelo simples fato de saber que eles aguentam o baque. Nós, pessoas reais, ainda temos a dúvida de até onde aguentamos segurar a onda e infelizmente, uma de nossas primeiras ações é tirar a dor e a responsabilidade de nossas costas e colocar na do outro.

Tribos

No fundo todos pertencemos a uma ou mais tribos

Nos últimos posts os ídolos apareceram como tema central. A forma como os vemos e o tratamos. A busca de um modelo perfeito que possa servir de amparo para a busca de mudanças profundas na nossa sociedade.

Bem ou mal, de certa forma todos temos ídolos, o que muda é a forma como lidamos com estes ídolos. Alguns apenas sentem uma empatia leve por este ou aquele modelo apresentado, outros chegam a uma devoção histérica e religiosa pela pessoa, associando tudo o que acontece de bom ou mal em sua vida aos humores do seu ídolo.

O blog O Estranho Mundo de Camila (na lista dos que eu indico) trouxe um texto interessante sobre o tema.  A Camila não discute exatamente a idolatria, mas a liberdade falsa que acaba interessando a grande maioria da população.  Vale a pena dar uma lida e refletir sobre o que ela postou lá.

Hoje eu vou me ater a outro aspecto da idolatria, o da necessidade que temos de ter ídolos. Afinal o que nos faz seguir um corte de cabelo (como os Beatles fizeram com grande parte dos jovens ingleses e americanos nos anos 60), mudar o time de futebol (muita gente está acompanhando jogos do Corinthians por causa do Ronaldo), mudar até a sua visão política (aqui no Brasil pessoas saem da direita e vão pra esquerda e vice-versa, de acordo com o humor do seu candidato).

nas tribos poucos são os que realmente criam as regras
nas tribos poucos são os que realmente criam as regras

Essa necessidade de ter alguém que sirva de exemplo chega a ser estranho, e como citado pela Camila no seu texto, chega a ser uma forma de não liberdade dentro da liberdade. Afinal, em teoria, todos somos livres para fazer as escolhas que quisermos dentro dos limites que permeiam a vida em sociedade, ou seja, se não prejudicar a liberdade do outro, a minha liberdade é valida.

A impressão que fica é que temos a necessidade de diminuir as particularidades individuais e cada vez mais criarmos um único modelo padrão. Parece que buscamos, apesar das diferenças, sermos todos iguais. Seja corte de cabelo, roupa que veste, música que ouve e até preferências gerais.

Mesmo aqueles com gostos mais distantes do padrão, acabam formando pequenos guetos sociais e nesses guetos procuram disseminar suas idéias. Por exemplo, os brasileiros fãs de uma desconhecida banda lituana vão todos se unir e se possível tentar captar mais fãs para a banda que julgam ser a melhor do mundo. Os torcedores de um time de futebol acabam criando certos hábitos comuns nas partidas de sua equipe. Camisetas muitas vezes identificam os eleitores de determinado grupo político.

 Ai cabe uma breve história sobre o tema. Uma amiga querida algumas vezes brinca comigo por eu ser um eleitor tipicamente neoliberal, totalmente em cima do mundo como ela já me disse algumas vezes. Ela, muito mais próxima da esquerda. Sendo uma mulher muito bonita e até certo ponto vaidosa, gosta de estar sempre bem vestida e arrumada (eu pelo menos nunca a vi desajeitada). Certo dia numa conversa sobre política, disse-lhe brincando que era um fetiche meu vê-la de camiseta branca, cabelo preso, óculos, calça jeans e tênis al star surrado. Justamente o estereótipo do eleitor de esquerda, cultivado inclusive por pessoas que querem voto dessa parcela da população, como a ex-senadora Heloísa Helena.

E podemos extrapolar isso para qualquer outro grupo, como se todos fôssemos distribuídos por tribos. Aliás, tribos é o nome de um programa do canal de TV a cabo GNT que procura tratar do assunto de forma até bastante divertida. Tendo como apresentadora a atriz Daniele Suzuki, a cada programa um grupo é dissecado, mostrando o que une cada tribo. Vi alguns programas e confesso que achei a fórmula interessante, no fundo ele mostra como somos todos robotizados, programados para agir conforme o grupo que nos inserimos.

Parece-me óbvio que em muitos casos pertencemos a mais de uma tribo. Um advogado pode ser também motociclista. Durante a semana ele usa terno e jargões do direito, mas aos finais de semana, pega sua moto e desbrava as estradas com sua jaqueta de couro, mostrando as tatuagens escondidas em busca de shows de rock junto com outros motociclistas.

Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos
Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos

E isso levanta outra questão, a nossa mutabilidade. De acordo com o grupo e o interesse momentâneo, temos ações que se modificam, fazendo com que sejamos selecionados sempre pelo meio. Mas isso é um assunto longo e tema pra outro post dessa série que pretende chegar na idéia de liberdade x independência citada pela Eve num comentário de um post anterior.

Paro por aqui, só deixo uma pergunta a quem me lê. Nesse tempo todo viajando de tribo em tribo, em que momentos conseguimos ser realmente quem somos? Totalmente Livres? As mensagens e comentários são muito bem vindos. Percebo que muita gente passa por aqui, mas poucos emitem sua opinião, acreditem, eu respondo a todo mundo…rs