"… toda vez que falta luz o invisível nos salta aos olhos …"

As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas
As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas

Neste post quero dar continuidade a idéia da mudança de comportamento que as vezes nos atinge. Ontem estava lendo uma revista do Batman (poxa pessoa não levem a mal, eu adoro quadrinhos, leio bastante, chego quase a colecionar). Numa das histórias, a que abre a revista, a trama gira em torno de uma armadura que quando vestida faz com que quem a vestiu passe a ter ações mais violentas. No caso do homem-morcego, o que aflorava era uma vontade imensa de matar os bandidos e não prendê-los.

E o que isso tem a ver com o último post? Tudo. No último post, eu discuti o que o sentimento de traição causava em mim e a forma como eu me sinto incomodado com uma situação que de certa forma estou vivendo. Tudo bem que o traidor sou eu mesmo, mas a traição me incomoda e me faz agir de forma diferente.

Existem sempre os gatilhos que nos tiram do eixo e que parecem liberar o nosso lado mais sombrio. As pessoas mais ponderadas que eu conheço, em determinados momentos de sua vida, acabam cometendo atos que parecem ser realização de outras pessoas. Seja um ato intempestivo, uma discussão fora de hora, cenas de choro e desespero ou até mesmo violência.

Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente
Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente

Ai fiquei pensando em meus fantasmas. Tudo aquilo que escondo no meu lado mais sombrio. No geral, quando saio do eixo, a violência que uso é mais verbal, por sorte tive juízo pra evitar nomes e acusações diretas no último post. Uma atitude constante nos meus momentos de falta de controle é me isolar. No geral eu costumo fugir de qualquer pessoa que se aproxime, e quando essas pessoas se aproximam, torno-me altamente mal educado e ácido. Conseguir evitar besteiras no trabalho (afinal trabalho com pessoas) confesso que é algo complexo demais.

Nesses momentos costumo ser frio com as palavras, escrevo de forma mais ácida e crítica, confesso que precisei de muita calma pra não citar nomes no último post. Confesso ainda que mais engraçado foi ter recebido pedidos de desculpas de pessoas que nada tinham a ver com o post. Admito que depois disso também fiquei com vontade de pedir desculpas para algumas pessoas, gente com a qual certamente pisei na bola da mesma maneira como pisaram no meu calo mais sensível a ponto de me fazer escrever o que escrevi.

Teve gente que me perguntou se a pessoa que me causou tamanha raiva se desculpou, bom eu nem sei se a pessoa lê esse blog, provavelmente não. Mas isso não importa, até porque o que eu queria levantar mesmo era a traição universal, não o sentimento que EU sinto, mas o que TODOS sentem.

E agora assumo o medo real que sinto de vestir a tal armadura do batman, de liberar meus fantasmas e agir de formas que eu imagino não serem corretas. Como o homem-morcego, também tenho medo de num apagar de luzes eu perceba que na verdade esses fantasmas que eu prendo são a minha verdadeira essência e que a prisão que eu criei para estes fantasmas seja apenas uma máscara.

Provavelmente eu seja um pouco dos dois lados, algo na linha nada é 100% bom nem 100% ruim. Provavelmente o que sirva de prisão pra uma parte desse lado sombrio seja apenas convenção social. Afinal muito do comportamento vem da relação com o outro, como um espelho (e ai que eu sinto raiva e a idéia de traição ganha forma, todo mundo joga esse jogo, mas alguns seguem apenas as regras que lhes convém).

A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham
A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham

É nessas horas que ao fechar os olhos para dormir, todos os fantasmas abrem suas celas na prisão da mente e surgem diante dos meus olhos, como descrito de forma indireta nos versos da música Pianobar do grupo Engenheiros do Hawaii que dá nome ao post.

Você também tem seus fantasmas? Quer falar sobre eles? Quer que algum tema seja discutido nesse espaço? Deixe um comentário.

Aliás, ainda não esqueci os dois temas que estou devendo, apenas estou coletando informações para falar deles com mais segurança.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

nunca cause dor no outro por descaso
nunca cause dor no outro por descaso

Tem situações em que nós ficamos tomados pela raiva. Loucos de desejo de vingança. Algumas ações nos tiram do sério de tal forma que acabam expondo nosso pior lado. O bom senso se perde, junto com ele toda a tão bem desejada boa índole e respeito ao próximo somem de forma rápida e direta.

A sensação de sentir-se traído é uma dessas situações. Sentir-se enganado é terrível. E é justamente assim que tenho me sentido a alguns dias. Na verdade essa sensação incômoda vem e vai a algum tempo. antes das piadinhas maldosas, não é a típica dor de corno, afinal um solteiro não pode sentir esse tipo de dor.

Tem dias em que dói muito, como hoje. Sinto-me traído no ponto mais íntimo. O descaso as vezes é o que mais incomoda. É claro que fazer qualquer coisa esperando uma resposta específica de alguém é no mínimo burro e totalmente imbecil, mas algumas coisas são realmente padronizadas.

Espera-se encontrar carinho como resposta para carinho, respeito como resposta para o respeito e descaso como resposta para o descaso. Sei que essa linha é totalmente pavloviana, mas a não ser que ações absurdas tenham sido condicionadas no ser, a resposta padrão esperada é essa. Você não trata com descaso quem te trata com respeito. Ao menos eu não espero isso de ninguém que eu realmente respeite.

É ai que eu vejo traição. Falo da traição existente na quebra desse protocolo social. Me sinto traído algumas vezes por causa disso. Tem gente que se sente usado, eu nunca me sinto usado. Faço algo por alguém porque quero bem essa pessoa, faço algo por alguém porque de certa forma me faz bem ver o outro bem. O que incomoda muitas vezes é um tipo velado de descaso.

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga
as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

Até entendo o motivo deste descaso, dos tais sumiços e de certa forma respeito isso. é um direito de cada um agir como quiser, fazer o que quiser e buscar aquilo que lhe é necessário nos momentos em que surgem os problemas. A forma como isso é feito também é uma arma de cada um, cada pessoa faz o que acha justo e correto.

Se eu entendo a ação, por que me sinto traído? Nunca esperei prontidão, o carinho, ou o desapego com que trato algumas questões, isso é a forma como eu atuo, cada um tem a sua. Mas respeito é algo simples. Alguns sentimentos são absurdamente primários, principalmente os meus, eu sou sentimentalmente primário, não acesso sentimentos mais complexos em relação ao outro, vou pouco além do gosto e não gosto. Queria apenas saber o que realmente acontece, me sinto jogado no vazio muitas vezes.

ações simples podem salvar alguém
ações simples podem salvar alguém

E pior do que a traição do outro é a minha própria traição. Viver já não é fácil. Se traindo fica mais difícil ainda. E nesse aspecto eu me traio muito. Parece que acredito em contos de fadas que eu mesmo crio como falsas esperanças para um mundo aparentemente melhor, que na verdade não é melhor. Sei que deveria dizer não algumas vezes, mas também assumo que nunca vou fazer isso. Se assim o fizer fica a sensação de saber que poderia ter feito algo simples pra alguém que faria a diferença e não fiz, por mais que isso me magoe (e magoa no final), fazer é muito mais prático.

Nesse desabafo todo, no fundo eu acho que só queria que as pessoas todas se lembrassem da frase escrita por Saint-Exupéry (eu odiei ler o Pequeno Príncipe, mas tenho que admitir que ele merece ser lido): “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

nunca cause dor no outro por descaso
nunca cause dor no outro por descaso

Tem situações em que nós ficamos tomados pela raiva. Loucos de desejo de vingança. Algumas ações nos tiram do sério de tal forma que acabam expondo nosso pior lado. O bom senso se perde, junto com ele toda a tão bem desejada boa índole e respeito ao próximo somem de forma rápida e direta.

A sensação de sentir-se traído é uma dessas situações. Sentir-se enganado é terrível. E é justamente assim que tenho me sentido a alguns dias. Na verdade essa sensação incômoda vem e vai a algum tempo. antes das piadinhas maldosas, não é a típica dor de corno, afinal um solteiro não pode sentir esse tipo de dor.

Tem dias em que dói muito, como hoje. Sinto-me traído no ponto mais íntimo. O descaso as vezes é o que mais incomoda. É claro que fazer qualquer coisa esperando uma resposta específica de alguém é no mínimo burro e totalmente imbecil, mas algumas coisas são realmente padronizadas.

Espera-se encontrar carinho como resposta para carinho, respeito como resposta para o respeito e descaso como resposta para o descaso. Sei que essa linha é totalmente pavloviana, mas a não ser que ações absurdas tenham sido condicionadas no ser, a resposta padrão esperada é essa. Você não trata com descaso quem te trata com respeito. Ao menos eu não espero isso de ninguém que eu realmente respeite.

É ai que eu vejo traição. Falo da traição existente na quebra desse protocolo social. Me sinto traído algumas vezes por causa disso. Tem gente que se sente usado, eu nunca me sinto usado. Faço algo por alguém porque quero bem essa pessoa, faço algo por alguém porque de certa forma me faz bem ver o outro bem. O que incomoda muitas vezes é um tipo velado de descaso.

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga
as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

Até entendo o motivo deste descaso, dos tais sumiços e de certa forma respeito isso. é um direito de cada um agir como quiser, fazer o que quiser e buscar aquilo que lhe é necessário nos momentos em que surgem os problemas. A forma como isso é feito também é uma arma de cada um, cada pessoa faz o que acha justo e correto.

Se eu entendo a ação, por que me sinto traído? Nunca esperei prontidão, o carinho, ou o desapego com que trato algumas questões, isso é a forma como eu atuo, cada um tem a sua. Mas respeito é algo simples. Alguns sentimentos são absurdamente primários, principalmente os meus, eu sou sentimentalmente primário, não acesso sentimentos mais complexos em relação ao outro, vou pouco além do gosto e não gosto. Queria apenas saber o que realmente acontece, me sinto jogado no vazio muitas vezes.

ações simples podem salvar alguém
ações simples podem salvar alguém

E pior do que a traição do outro é a minha própria traição. Viver já não é fácil. Se traindo fica mais difícil ainda. E nesse aspecto eu me traio muito. Parece que acredito em contos de fadas que eu mesmo crio como falsas esperanças para um mundo aparentemente melhor, que na verdade não é melhor. Sei que deveria dizer não algumas vezes, mas também assumo que nunca vou fazer isso. Se assim o fizer fica a sensação de saber que poderia ter feito algo simples pra alguém que faria a diferença e não fiz, por mais que isso me magoe (e magoa no final), fazer é muito mais prático.

Nesse desabafo todo, no fundo eu acho que só queria que as pessoas todas se lembrassem da frase escrita por Saint-Exupéry (eu odiei ler o Pequeno Príncipe, mas tenho que admitir que ele merece ser lido): “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

Aceitar ou não

Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...
Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...

Dois comentários sobre meu último post fizeram pensar. Cada um a seu modo trata justamente do que acho mais importante na existência humana. A capacidade de ter opiniões pessoais e a partir delas  tecer comentários que podem ou não ser aceitos. Eu, particularmente neste blog, e confesso que em todos os aspectos da minha vida, não quero apenas ser aceito.

Não me vejo como criança mimada que não pode ser contrariada, muito pelo contrário, tento ser um adulto que sabe que vai ser questionado, aliás é o que mais busco aqui neste espaço.

Posto isso, vale a pena retomar as duas idéias, tanto a Lak, quanto a Eve levantaram pontos discordantes passando por dois conceitos que possuem relação estreita com o que discutia. A Lak disse que podemos sim ter uma alma livre e a Eve procura me lembrar da diferença entre liberdade e independência. Ambos os assuntos serão tratados em  breve, provavelmente nessa semana ou na próxima. Porém, preciso ainda refletir um pouco mais antes de começar a falar de cada um deles.

Hoje, com base nessas leves e saudáveis discordâncias, quero falar de outro tema. O não ser contrariado. Acredito que sempre que mostramos qualquer coisa a outro ser (e nem precisa ser da nossa espécie) estamos nos apresentando a um tipo de julgamento. Seja a ração que você resolveu comprar para o seu cão ou o novo livro que você apresenta a seu editor. Tanto a ração quanto o livro podem ser aceitos por seus interlocutores como podem ser odiados. Isso é normal e faz parte da vida.

Uma amiga minha diz sempre no meio de nossos papos mais filosóficos que todas as ações só ganham significado a partir da interpretação do outro. Você só escreve porque alguém vai ler, se veste porque alguém vai ver, se cuida porque vai conviver com alguém. Ela pauta seu pensar em teorias do discurso, presentes em sua formação.

Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...
Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...

Minha formação é bastante diferente, sou o tipo de pessoa que analisa o comportamento humano da mesma maneira que observa o comportamento de uma formiga. Para mim somos apenas animais. Nos demais animais, fica clara essa urgência em se fazer presente no outro. Nas aves os machos cantam para serem aceitos pela fêmea, em alguns grupos de mamíferos, ser aceito no grupo garante a alimentação, todos os rituais de corte são fortemente impregnados pelo desejo de ser aceito.

Em nosso íntimo é claro que todos queremos que nossas idéias prevaleçam, todos querem ser aceitos dentro do seu grupo, seja por sua beleza, inteligência ou ações. Alguns de nós até mudamos nosso comportamento natural só para ser aceito no grupo. Quem não se lembra de uma ação que foi feita só para conquistar a pessoa amada? Quem nunca se pegou agindo de forma diferente diante de pessoas diferentes?

Minha psicóloga (segunda vez que a cito no blog, espero que ela não resolva me cobrar uma sessão a mais) já me perguntou mais de uma vez se eu não tenho medo de não ser aceito. A resposta sincera sempre foi não, realmente não tenho de forma exacerbada. Como todo mundo, sinto-me confortável ao saber que estou agradando.

A questão aqui, entretanto, passa a ser outra. Você pode ser contrariado e ser aceito ao mesmo tempo. Discordar é saudável, doentio é não permitir que discordem daquilo que você pensa. Pessoas que não aceitam isso tendem a uma ação ditatorial e principalmente deixam de aprender. Talvez deixar de aprender seja um dos meus maiores medos. Para quem age assim, talvez o medo maior seja o de perceber que ainda é preciso aprender.

Algumas verdades para nós são tão presas que dificilmente conseguimos julgá-las. Seja a fé, seja o time do coração ou mesmo a opinião sobre o aborto. Discutir isso de forma racional é que é difícil. Deixar algum espaço para que outras opções sejam apresentadas.

Leio muitas vezes no mundinho azul (Orkut) discussões que nascem e ganham corpo apenas porque os envolvidos assumem a postura de a minha verdade é a que vale e parece que ganhar essa disputa virtual tem o mesmo peso de uma vitória na vida real. Tudo para sentir-se aceito.

Na vida real, mulheres passam anos sendo maltratadas por maridos violentos e escondem o fato com medo de serem vistas como vadias. Pessoas de ambos os sexos entregam-se pelo mesmo motivo a ditaduras de beleza, comportamento ou ação apenas para agradar ao outro, mesmo que não agrade a si próprio.

No fundo todos somos iguais
No fundo todos somos iguais

Aceitar a crítica muitas vezes é doloroso. Principalmente nessas verdades irredutíveis que criamos, mas aprender a quebrar esses pontos é necessário. Sei que se faz necessário um aprendizado constante e longo para que consigamos superar nossos medos e vaidades, mas é necessário aprender a ser questionado.

Confesso que foi a primeira coisa que pensei antes de criar este blog. Estou pronto para que as pessoas digam que não gostam do que eu produzo? Só quando eu tive a certeza interna de que a resposta para isso é sim, é que tomei coragem para me aventurar nesse universo de escrita. Em alguns pontos infelizmente ainda não cheguei ao ponto de agüentar ser questionado, nesses pontos o que faço? Simplesmente não os ponho a prova. E você? O que faz? O que pensa a respeito?

Free as a bird…

Será que somos livres como pássaros?
Será que somos livres como pássaros?

Vinha pra casa, voltando da casa dos meus pais. Dia das mães, dia de reunir a família, como Natal, dia dos pais e outras datas. Corrida pra comprar um presentinho agradável (esse ano a conta bancária não permitiu, foi mal dona Nair), filas em shopping center, almoçar fora, um churrasco, essas coisas todas.

Enfim, voltava pra casa dirigindo, no intervalo do jogo (meu time perdeu, fazer o que?) mudei de estação e os versos da música que dá título ao post começaram a ecoar. Fiquei pensando, eu sou livre. Sou livre como qualquer pássaro. Era ao menos isso o que vinha na minha mente naquele momento.

Mas a música acabou, voltei ao jogo, confesso que estava tão morno que mal prestava atenção no que o radialista dizia. Comecei a pensar de novo na música, na tal liberdade dos pássaros. E vi que não sou tão livre, até já falei um pouco disso no post que inaugurou este blog, mas me deu vontade de retomar o assunto, questionar um pouco essa liberdade.

Vejam, eu moro sozinho, posso fazer o que quiser, não tenho horários muito rígidos e sou o dono de minha vida. Essa frase poderia ser meu mote, ou o mote de milhares de pessoas. Mas um olhar mais próximo trás outras verdades. O que me faz preocupar-me com o dia das mães? Dia dos pais? Natal (e eu nem acredito em deus, imagina em jesus)? Mas essas datas acabam mexendo comigo. Penso nos presentes deles e me policio pra visitá-los. Com a sexta-feira santa é mais ridículo ainda. Por que um ateu vai se preocupar em comer ou não carne nesse dia? Confesso que só me livrei desse dogma a muito pouco tempo, passando a comer o que está disponível, independente da origem do alimento.

Será que eu tenho a liberdade de escolher mesmo o que vou comer? E esse beija-flor?
Será que eu tenho a liberdade de escolher mesmo o que vou comer? E esse beija-flor?

Se viver assim é ser livre, nem imagino o que seja viver preso a algo. É claro que algumas convenções são úteis na vida social, mas e as que não são? Me lembrei do filme Homem Bicentenário, onde o robô vivido pelo Robin Williams queria se tornar humano. O filme é muito interessante, mas dói pensar que no fundo a única conquista realmente humana do robô foi a morte.

Extrapolando isso para o que vinha falando, eu não sou realmente livre, de certa forma sou um autômato que se acha livre, porque tenho hora pra cumprir, como o que é socialmente aceito, minhas roupas também fazem parte dessa identificação. As escolhas realmente livres acabam sendo poucas, como a pessoa amada. Mas mesmo assim, o amor parece parte dessa programação, caso contrário a forma como isso ocorre não seria tão parecida para todo mundo.

Se analisarmos friamente as pessoas, vemos desejos parecidos, parecemos pacotes programados, com desejos pré-definidos, habilidades vindas de fábrica e que usam a escola para aprender a se relacionar com outras pessoas robôs também programadas. E o mais engraçado é que esse programa ainda traz dentro de si a pretensa sensação de ser livre para fazer as escolhas que queremos, mesmo que estas sejam sempre óbvias e previsíveis.

Não somos livres como pássaros, mas livres como robôs (FREE AS A ROBOT)…

Será que eu cresci?

Por que crescer é tão difícil?
Por que crescer é tão difícil?

Hoje fui dar uma palestra numa escola pública de São Paulo. O Antonio Prudente , escola localizada na Vila Nova Cachoeirinha, na zona Norte da cidade. Um bairro longe do glamour da cidade, formado por gente comum, gente como eu. Eu vim de uma comunidade de certa forma parecida com a dos alunos que vi hoje.

Aluno de colégio da prefeitura num bairro nascente e crescendo (hoje até shopping tem perto da casa dos meus pais), ônibus lotados, pouca infra-estrutura disponível e quase nenhuma opção de lazer.

A estrutrura na verdade pouco importa, acho que vale agora falar dos jovens que eu vi e conheci hoje. Não vou lembrar dos nomes deles, mas trago na memória seus rostos,trago as expressões de surpresa, alegria, em alguns momentos até desprezo, trago tudo comigo e com muito carinho.

Eu em diversos momentos me vi ali. Me lembrei dos sonhos de menino. Aliás fui lembrado por erstes jovens que me perguntaram muita coisa. Me lembrei dos autores que li quando criança, dos filmes e desenhos que assisti, das escolhas que tive que fazer, a grande maioria sem nem saber porque escolhi determinada opção. Eu vi nos olhos de alguns a surpresa quanto toquei nesse tema. As escolhas que somos obrigados a fazer a vida toda.

É uma escolha minha entender o que aparece no espelho
É uma escolha minha entender o que aparece no espelho

Vi nos olhos deles o medo que eu sentia nessa idade. Alguns tentavam até esconder isso, com olhares vazios, um pretenso ar de superioridade dos alunos e algumas vezes até ira nos olhos. São situações normais nessa idade. Você quer fazer algo mas não sabe ao certo o que. Sabe apenas que o mundo te incomoda. Você não faz parte de nada, ou de lugar algum.

Nessa fase, a maioria das escolhas não segue lógica alguma, você está começando a deixar de ser totalmente dependente das idéias dos seus pais, começa a pensar com a própria cabeça. Finalmente liberdade. O duro é saber o que fazer com ela.

Em geral o primeiro passo acaba sendo descambar para a ira. Reclamar dos horários impostos, duvidar de tudo o que dizem, querer quebrar todas as regras possíveis. Ou ainda, voce pode não suportar a pressão e simplesmente ser levado pelo vento, não pensar (espero que nenhum deles escolha essa opção). O melhor seria uma terceira via, o tal caimnho do meio, discordar sim, mas com consciência, reclamar e ouvir, pedir e doar, tudo em equilíbrio.

Sou igual aos jovens que vi hoje
Sou igual aos jovens que vi hoje

Não é fácil alcançar esse equilíbrio, na verdade nem na idade adulta isso é fácil. Mas vale a pena buscar esse caminho. Fazer-se ouvido por questionar com rigor e motivos. Ganhar credibilidade pelo que se é, sem força, apenas com a cabeça. Isso é crescer.

Falar com os jovens hoje me fez pensar nisso, será que eu cresci? Espero que sim, e principalmente, espero que eles cresçam com toda a força que pareceram demonstrar hoje.

Agradeço a vocês a oportunidade de ter dividido algumas horas do seu tempo comigo.

Ensaio Sobre a Cegueira…

Vista do Pico do Jaraguá - linha de poluição
Vista do Pico do Jaraguá - linha de poluição

Volto agora a discutir o olhar de cada um. Faço isso devido a conversas com amigos. Um termo que surgiu “cegos funcionais”, ficou martelando na minha cabeça. Primeiro porque não é a primeira vez que me deparo com esse tipo de discussão, e a primeira vez que me deparei com essa discussão e aprendi muito. Segundo porque como fotógrafo, uma das minhas maiores diversões é buscar cenas óbvias que apesar de óbvias são vistas por poucas pessoas. E terceiro, me intriga ver a quantidade imensa de pessoas que não percebe a imensa quantidade de informações que passa diante dos seus olhos a cada segundo.

O título do tópico vem de um livro que me marcou, de certa forma ele representa um instante extremamente importante da minha vida. O livro sempre me traz ótimas lembranças. E justamente essa tal cegueira funcional pode ser um dos temas levantados a partir da leitura da obra de Saramago. Não vou me alongar no que traz a obra, até porque é um livro que eu acredito que você leitor do blog merece descobrir página a página, aliás recomendo que você leia o livro antes até de ver o recente filme.

Mas voltando ao tema. Primeiro quero falar de modo mais sutil, voltando a imagem que abre o tópico, não a cena, mas o fato concreto, observe essa foto, ela foi batida no Pico do Jaraguá em São Paulo, local de onde se pode avistar grande parte da cidade. A foto está razoavelmente bem feita, as cores estão bem vivas e a cena é relativamente bonita. Outra foto também da cidade de São Paulo, o céu anoitecendo e o vermelho forte deixa a cena bastante bonita e interessante. 

Qualquer um gostaria de ver essas cenas, de poder estar em locais em que isso é bem visível, certo? Errado A beleza das cenas nesse caso provém de poluição, o ar sujo da cidade grande acaba proporcionando essas belas cenas, cheias de cores fortes e contrastantes. 

Belo e poluído
Belo e poluído

Mas o que isso tem a ver com o olhar? Podemos escolher duas linhas para tratar o assunto, a primeira e mais rapidamente apresentável é a de mostrar que as aparências não mostram nada, que o que vale é realmente aquilo que se é e não o que se apresenta. Mas isso seria um caminho extremamente moralista e não é exatamente o que eu procuro como mote aqui nesse espaço. 

O segundo e para mim mais interessante caminho é o de que a informação possui um peso diferente para cada pessoa. Não exatamente como o texto anterior onde a visão de cada um podia levar a um caminho diferente. Nesse caso o que vale é a informação que cada um possui. 

As cenas são visualmente belas, mas quando temos a informação do que traz a beleza para as mesmas, talvez nossa opinião mude. Talvez, entretanto possamos seguir outra via, dizendo que é o preço que se paga pelo progresso. E se assim for o que se faz é apenas um juízo pessoal de valores. A pessoa com a informação tira as conclusões que desejar. Eu posso olhar para o preço do dólar baixando e achar interessante pela valorização do real ou ruim pela dificuldade de exportações e em nenhum dos casos estarei errado. 

E isso é bastante interessante no que se refere a possibilidade de podermos crescer como pessoas. A questão é saber se estamos abertos a ouvir novas opiniões e discuti-las. Se assim for ótimo. Caso ocorra o contrário, a intolerância e a violência acabam ganhando mais válvulas de escape, temos que perceber que nem sempre estamos certos (acho que na maioria das vezes erramos) e por isso é necessário aprender a ouvir. 

espuma nas águas do rio Tietê em Santana do Parnaíba
espuma nas águas do rio Tietê em Santana do Parnaíba

Obs.: falando nisso, gostaria de ouvir o que vocês leitores acham desse espaço, mande uma mensagem para que a gente possa interagir sobre os temas discutidos, participe, mande sugestões de temas e idéias.

Obs(2).: Aos que acompanharam o drama da Claudia com a perda de seu cão, temos uma boa notícia, ele foi encontrado!!!!