Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém – Engenheiros do Hawaii

 

Muita gente que visita o blog sabe que eu sou professor. Alguns amigos mais próximos sabem que eu sempre me questiono sobre o que deve ser ensinado para cada pessoa. Sempre me questiono sobre a importância real daquilo que ensino. Penso que tenho que formar seres pensantes e principalmente inseridos na sociedade. Penso também que infelizmente não posso sofrer pelo outro, por mais que goste dos meus alunos, sei que só estarei sendo realmente justo com eles se deixar que sofram, como vão sofrer no futuro. O período escolar acaba funcionando como preparação para a vida dura que cada um deles terá pela frente num futuro mais ou menos distante.

Hoje falo sobre isso devido a conversa sobre acessabilidade e coitadismo. Não acho que precise citar nomes, não vale a pena. A questão entretanto é profunda e merece discussão. Aos que já me viram pessoalmente, sabem que sou negro e contrário ao sistema de cotas raciais. Veja eu acho que vale a pena ressaltar o raciais. Se for pra ter cota que ela seja definida pela renda, não pela cor da pele. Não vejo nos dias de hoje um racismo tão forte a ponto de uma raça precisar de medidas afirmaticas, até já falei aqui antes disso, o preconceito aqui é maior contra o pobre do que contra o negro.

Acho que devemos sim oferecer chances iguais a todos, mas as chances não são a de chegar ao pote de ouro no final do arco-íris sem perceber o que faz cada um chegar lá. As chances devem ser as de fornecer as mesmas ferramentas para que cada um construa o seu caminho e possa mostrar que realmente é bom, tendo condições iguais de preparação. Colocar em disputa uma pessoa com tudo a sua disposição com alguém que mal tem acesso a alimentação é realmente algo complicado. O ideal é dar condições mínimas aos dois. Mas mais importante do que isso, eu não posso pensar por outra pessoa. Não posso decidir o que ela vai fazer nem mesmo o que é melhor para cada um. Só posso é dar condições similares.

O título do post vem de uma reportagem que me deixou estarrecido. O texto publicado pelo Correio do Brasil em 11/08 diz que pode ser obrigatório para os deficientes auditivos aprender LIBRAS nas escolas. Eu acho isso perigoso. Na verdade acho excludente e temerário para os próprios surdos. A meu ver esse tipo de obrigação mais limita do que liberta.

Não vou aqui fazer campanha contrária a LIBRAS, ela é importante e funcional e deve sim ser oferecida a qualquer pessoa que queira aprender, mas também conheço uma parcela grande de surdos que são oralizados, fazem leitura labial e portanto fazem uso do português como forma primordial de comunicação (para quem não sabe LIBRAS é uma língua própria, diferente da língua portuguesa, quem sabe libras não necessariamente sabe português). Para que obrigar alguém a ser alfabetizado numa língua restritiva? Eu falo restritiva pensando no que disse no começo do texto. Educar é preparar para o sofrimento posterior. A maioria dos empregos oferecidos depende da comunicação oral ou escrita em língua portuguesa, se a pessoa não se comunica em português fica alijada dessas vagas e dependente de subempregos conseguidos por cotas que pagam salários extremamente baixo e não exploram a capacidade real das pessoas.

Uma solução seria todo mundo ter que falar LIBRAS, algo impossível, visto que se alguém for investir numa segunda língua, vai fazer isso em algo que aumente sua vida profissional e infelizmente LIBRAS não se enquadra nesse caso. Outra seria uma reforma para que LIBRAS fosse uma forma diferente de se comunicar em português e não uma língua a parte, algo similar ao que ocorre com Braile.

Finalmente a cada vez mais nos aproximamos de um período onde pessoas com deficiência não são mais escondidas da população. Finalmente a cada dia percebemos avanços para que todos possam ter acesso semelhante ao que o mundo oferece. Estamos num período de melhoria do acesso, dando ferramentas para que as pessoas possam lutar de igual para igual. Mas ainda algumas coisas parecem jogar contra. Falo isso porque no caso, obrigar o surdo a ser alfabetizado em LIBRAS mais limita do que liberta. Ao invés de ampliar a capacidade de comunicação com o mundo, limita a um pequeno grupo.

O que pergunto ao final do texto é porque ao invés de se obrigar alguém a aprender LIBRAS não se oferece a todos os deficientes auditivos fonoaudiologia para que ele possa além de LIBRAS também ter acesso ao português e assim ter mais um canal de comunicação com o mundo, seja ele através da leitura, do mercado de trabalho, do convívio com um número maior de pessoas?  De novo ressalto, LIBRAS é importante e deve ser oferecida a quem quiser aprender, só não se pode impor o seu uso  a todos os surdos.

Return To Innocence – Enigma

Não temos o controle sobre a dor que sentimos

Continuo a semana falando de perdas. Ainda com a dor da morte na cabeça procuro seguir adiante no tema. A morte provavelmente é a perda mais traumática e a mais difícil de ser aceita, pois é a única que não tem volta. Todas as outras de uma maneira ou de outra podem ser revertidas até certo ponto. Conviver com a dor das perdas também é algo inevitável em nossa existência. Duro é encontrar a maneira correta de sobreviver a dor. Cada um cria sua forma e cada um sofre de um jeito.

Uma forma de atenuar o sofrimento por uma perda pode ser buscar dentro de si mesmo a força necessária. Eximir-se de culpa, aceitar o medo sem fazer dele um opressor. Aceitar-se como um ser humano normal que sofre como todos os outros. A música  Return To Innocence do projeto Enigma (clique aqui para ver o clipe), fala bastante nessa linha. “Não chore por ser fraco, não se orgulhe por ser forte”. Frases como essas me fazem pensar ser este o caminho mais calmo e real para agüentar toda a dor que paira sobre a gente.

O motivo que causa a dor pode ser diverso. Confesso que para o texto de hoje isso não importa. Importa é a forma como lidamos com isso. Não digo no momento inicial ou mesmo no instante máximo de dor. Mas sim depois que a crise inicial passa. No momento em que mesmo com a dor já temos que retomar as nossas idéias racionais.

Eu confesso que tenho dificuldade de lidar com algumas das dores que sinto. Provavelmente não tenha elaborado ainda o final do meu último namoro e nem sei quando isso vai acontecer ou se vai, mas isso não me impede de produzir, não chegou a me impedir de produzir nem mesmo no dia seguinte ao término. Conheço gente enterrou alguém especial de manhã e a tarde está trabalhando a toda no escritório como se nada tivesse acontecido. E também conheço gente que por queimar a resistência do chuveiro e ter que terminar um banho com água fria ficou uma semana toda fora do eixo.

Justamente nesse ponto penso na música que escolhi e no clipe da mesma. Tem horas em que é preciso fazer o caminho de voltar e realmente retornar a inocência, buscar o lado mais puro e honesto que possuímos para que tudo volte aos eixos o mais rápido possível. Admitir os pontos em que falhamos e entender que muita coisa está além do nosso controle. Aceitar essa imperfeição humana talvez seja o ponto mais duro. Mas sem aceitar isso se torna impossível aceitar qualquer perda, não somos imortais, não somos perfeitos e muito menos tão inteligentes como imaginamos. Somos apenas humanos que carregam em si milhares de qualidades e defeitos.

Como diz a música é preciso retornar a si mesmo para entender o que causa cada dor. Com isso em mãos, melhorar e buscar uma cura torna-se mais fácil. Eu sei que tenho ainda minhas curas, que algumas perdas ainda me incomodam. Diariamente eu me pergunto em que posso melhorar. Muitas vezes sublimo sim os medos que aparecem. Procuro crescer nesse ponto a cada dia. Procuro sempre voltar pra dentro de mim mesmo e ai ter forças para superar cada nova dor que surge.

Eu vi o sofrimento no rosto de algumas pessoas essa semana e confesso que isso me machucou muito. Espero que eles tenham força para seguir adiante. Foi uma perda forte, daquelas difíceis de se apagar. A única coisa que posso fazer hoje é oferecer meu ombro e meu apoio.Confesso que essa incapacidade também me incomoda. É duro aceitar que não podemos resolver os problemas que surgem diante dos nossos olhos e também dói saber que não podemos viver a dor do outro. Que essa dor seja breve.

O Parque da Juraci – Genival Lacerda e Zeca Baleiro

Só é possível que você sente numa dessas cadeiras na beira da praia porque alguém as fez e as colocou lá

Na quinta eu falei da relação causa e efeito nos relacionamentos, mas ela atinge todos os pontos da nossa vida. Por mais que eu deseje isso (tenho que admitir), não dá pra viver isolado do mundo ou mesmo independente das outras pessoas.

Um exemplo disso é a música que eu escolhi para este texto. Adoro Zeca Baleiro e ouvindo uns CDs antigos encontrei essa música gravada junto com o Genival Lacerda. O clipe encontrado no youtube (clique aqui para ver) para o Parque de Juraci também é bastante divertido. Até porque não dá pra levar a sério nem fugir do riso em qualquer situação que o Genival Lacerda apareça. Até o hábito que ele traz em suas músicas de trabalhar com sentido duplo aparece, onde a frase Juraci que parque é confundida com Jurasic Park. Confesso que gostei da tirada dos autores do clipe.

Mas voltando ao que interessa. Na música, o Zeca fala que recebeu um convite para visitar um parque com a Juraci, mas ao chegar lá o parque já não existe, foi substituído por um restaurante por quilo. Ele descreve a história demonstrando as sensações que tomam conta do cantor. Primeiro a alegria eufórica pelo convite e depois a raiva e ira ao perceber-se sem o parque e de certa forma enganado.

Quantas vezes isso não acontece diariamente conosco? Você planeja algo nos mínimos detalhes, deixa tudo bem claro, porém, devido a outras pessoas seu planejamento vai por água abaixo. Por mais óbvio que alguns comportamentos possam parecer, nunca podemos prever o que o outro fará em determinada situação.

É comum no trabalho você seguir seu ritmo e se ver parado, pois depende do serviço do outro que ainda não fez a sua parte. Você se arruma pra sair e vai ao ponto de ônibus num dia chuvoso e um motorista passa numa poça te sujando inteiro no dia de uma entrevista de emprego. Coisas assim, bem lei de Murphy acontecem aos montes.

Talvez eu pareça um tanto misantropo, aliás, talvez eu até seja mesmo. Mas confesso que muitas vezes gostaria de depender menos do outro. Gostaria que as minhas ações fossem mais responsáveis pelo que sou e pelo que produzo do que as ações dos outros. Entretanto, sei que isso não passa de um sonho irreal e distante. Não existe independência social, até o mais isolado dos ermitões sofrerá as ações de pessoas que ele nem ao menos sabe que existem.

Confesso que algumas vezes essa dependência me dá medo. Gostaria sim de poder depender mais de mim em diversas situações. Gostaria de controlar mais partes de todos os processos que fazem parte da minha vida. Pelo menos em alguns aspectos. Assim como em muitos casos também gostaria de não intervir tanto na vida do outro.

Sei que muito da minha atividade profissional é feita para o outro. Sem a resposta do outro não vale a pena escrever, fotografar, dar aulas. Aliás, dar aulas talvez seja uma das ações que mais influencia na vida de outras pessoas. Eu sei disso e nem é esse o ponto que me preocupa. Nessa linha, o que me preocupa é algumas vezes encontrar pessoas que observam você como um guia a ser seguido.

São pessoas que atuam de forma completamente oposta ao que eu penso. São pessoas que deixam tudo na mão do outro e assumem isso. Suas idéias nunca são exatamente suas, nem as vontades. São pessoas que precisam de líderes sempre e infelizmente gente que é manipulada e parece gostar disso. Gente que não percebe que pode sim mostrar quem é e a que veio.

Provavelmente a situação correta seja o meio termo, nem sentir o incômodo que eu sinto nessa dependência e muito menos não perceber que se pode interagir sem aceitar tudo pronto. Sei também que atuamos de forma diferente em cada situação. Se quiser, conte uma situação em que se sente incomodado com a dependência do outro para algo em sua vida, ou então uma situação em que adora isso.