Fly Like an Eagle – Seal

Hora de continuar a falar do filme Vingadores, não que o filme tenha sido tão bom assim. Não é. É sim um filme divertido, mas pouca coisa além disso. Acontece que os personagens me remetem a uma distante infância. Um tempo em que eu realmente ficava horas lendo histórias em quadrinhos (ok,eu ainda leio hoje, só destino menos tempo pra esse tipo de leitura).  Até por isso acredito que vale a pena tentar fazer um breve paralelo dos heróis com coisas que eu penso e coisas que eu ando vivendo.

Começo a série falando do herói mais modificado no cinema. O Gavião Arqueiro está bem longe de ser o soldado sério da Shield. Nos quadrinhos seu comportamento lembra mais o aplicado ao Homem de Ferro dos cinemas. Um personagem que de certa forma traz bastante do que eu sinto hoje. Claro que na sua versão quadrinhos.

Afinal como ele, eu me sinto diminuído diante de algo que eu sei ser maior do que eu. A diferença talvez esteja no fato de que eu não respeito tanto assim o que me sufoca. Me sinto também um tanto derrotado e me vendo obrigado a mudar radicalmente de ação para que eu consiga resultados minimamente satisfatórios. Além de, infelizmente, ver cada vez mais claro a barreira que existe entre mim e algumas coisas relativamente simples para quase todo mundo.

Pra quem não sabe, o Gavião era um bandido inicialmente e virou herói ao ter a chance de se tornar um vingador. No grupo sempre acabou intimidado pela presença do Capitão América, a quem queria mostrar ser um líder ainda melhor. Talvez por ver naquele homem uma espécie de lenda. Nas vezes em que liderou grupos, acabou arrumando confusão com seu modo arrogante e o engraçado é ver quase um bordão seu dizendo “o que o capitão faria nessa situação?” sempre que aparecia um problema.

Mudou várias vezes de uniforme, mudou de identidade tentando ser alguém realmente importante. Perdeu muito também, inclusive a vida mais de uma vez (a vida eterna e o renascimento são realmente a grande maravilha dos quadrinhos). Perde até hoje, onde aparentemente se mostra mais maduro e consciente de seu papel e seus atos. Nesse ponto eu me sinto igual. Alguém sem poder algum, com alguma habilidade e que tenta fazer algo pra tornar o mundo um lugar melhor aos meus olhos. De certa forma já troquei a fantasia mil vezes.Já ofereci a cara para o combate de diversas formas diferentes. Se cai em todas elas, levantei diferente e fortalecido, buscando novamente acertar e mirando sempre nos acertos dos meus ídolos.

Não me vejo assim tão falastrão. Nas poucas vezes em que eu realmente me gabei por algo, vi vitórias certas escorrerem por entre os dedos. Vi as falhas estampadas no meu rosto e tive que abaixar a cabeça e aceitar com um sorriso amarelo um resultado inesperado. Coisa que aliás eu tenho feito exatamente agora.

Sou alguém também sem auto estima suficiente para ter real consciência do que posso fazer. Sou alguém que acaba se arriscando mais por medo de falhar do que por vontade e certeza de vencer. A certeza também me torna imprudente como o arqueiro. A empolgação me fragiliza. Como se eu lançasse as flechas sem rumo e elas acabassem voltando todas diretamente para o meu peito. Fazendo-o sangrar até que o corpo desabe inerte no chão.

Só depois dessa morte lenta e dolorosa. Renascido dentro desse pesadelo que eu mesmo criei é que me vejo novamente pronto para seguir adiante. Sentindo muito medo. Agindo muitas vezes por desespero. Apontando o olhar de águia para longe, porque hipermetrope de perto nada vejo. Se acerto e assassino a dor externa, deixo a dor interna me consumir por todo o sempre.

A Century of Fakers – Belle and Sebastian

 

 

Nos preocupamos com tanta coisa inútil. Criamos regras, jogos, livros de etiqueta que no fundo só servem pra evitar que a gente realmente possa ser feliz. A quantidade de vezes que nós próprios boicotamos o nosso prazer chega a ser absurda. Parece que é proibido ser feliz. Só é feliz quem se aliena do mundo e não liga para o que acontece ao seu redor.

Eu já ouvi muito isso. E confesso que vivi isso ontem. Numa conversa com uma amiga que não estava bem. Sofrendo por problemas pessoais, histórias mais resolvidas ou resolvidas de uma maneira não muito agradável para ela. Ouvi-la me fez pensar. Ouvi-la me fez na verdade repensar uma série de coisas que eu tenho visto, lido e ouvido. Cheguei em casa tarde e fui tentar dormir. Não consegui. Liguei a TV e também nem ela fez o sonho chegar. Paciência, o jeito é trabalhar, um monte de coisas pra fazer mesmo. E assim foi.

Enquanto eu procurava informações sobre estrelas e planetas minha cabeça estava longe. Pensando em tudo o que eu tinha ouvido. As informações brigando em minha cabeça, querendo sair e eu sem saber por onde começar. Aguardei um pouco mais e tratei de fazer o que tinha que ser feito. Primeiro o trabalho, depois a diversão aqui do blog. Assim tive tempo para entender o que me incomodou nessa história toda. Tive tempo pra perceber de onde vinha tanta dor nessa amiga que me pediu o ombro ontem.

O problema dela não era a meu ver a situação vivida em si. Mas algo muito maior e poderoso. Algo que de certa forma acaba por tomar conta de todos e a gente nem percebe. O problema é que a gente finge o tempo todo para viver. E finge para a gente mesmo.

Fingimos não ter preconceito, mas temos. Fingimos não ter medo, mas temos. Fingimos não amar, mas estamos apaixonados. Fingimos tanto que a gente até acredita que realmente é aquilo que finge ser, mas no fundo, infelizmente somos a mesma pessoa cheia de falhas e defeitos imensos que acreditamos não ser.

Fingimos que regras de etiqueta tem algum valor. Fingimos que faz alguma diferença ter um título. Fingimos que somos mais ou menos de acordo com algum status falseado apresentado pela sociedade. Fingimos, apenas fingimos. Vivemos sempre com máscaras no rosto, mas não para esconder o que somos e sim para evitar que a gente tenha uma visão real do que está fora da máscara. Mais que uma máscara, temos uma lente na frente do rosto que falseia o mundo ao nosso redor e nos engana porque de uma maneira ou de outra queremos realmente ser enganados.

Nem sempre o que nos engana é uma falsa prisão. Existem por ai diversas máscaras de falsa e pretensa liberdade que não temos. É o achar que se pode fazer tudo. É o acreditar que se é realmente importante para o mundo. É se dar um valor maior do que o merecido, achando que o mundo gira ao seu redor.

Aliás, de certa forma acredito que ninguém realmente conheça o mundo como ele é. A gente vê aquilo que quer ver. E todo mundo age como quer, iludido pela visão turva que tem do mundo. Dessa forma, o mundo é criado também de forma falsa. Até por isso escolhi a música. Belle and Sebastian foi uma banda criada de um jeito até certo ponto falso, com várias lendas sobre o nascimento da banda. A música fala de um mundo formado por falsificações humanas. De certa forma me lembrou Matrix, onde nada é o que parece ser.

Você tem alguma cena que imagina falsa nesse mundo? Algo que façam e que você vê como falsidade de quem faz? Você tem alguma história de auto ilusão pra contar? Deixe seu comentário.

Cure for Pain – Morphine

O caminho mais seguro é sempre o que leva em consideração o que a gente sente

 

Hoje é dia de terminar a minha sequência de posts sobre o livro Uma Longa Queda do Nick Hornby (de novo eu recomendo fortemente a leitura deste livro). É hora de falar do JJ. Talvez o personagem que mais tenha a ver comigo em suas crises existenciais. Eu diria que em diversos aspectos eu e ele temos graus de loucura parecidos. Ambos caminhamos um bom tempo por ai buscando a cura para a dor. Uma dor mental que acaba se tornando física.

A trilha sonora, é claro continua sendo Morphine e mais óbvia impossível, Cure for Pain (clique para ver e ouvir). Posso também afirmar que este post tem uma ligação forte com o anterior onde usei uma música do Jethro Tull (clique para ler o post anterior) para fazer uma homenagem para alguém que realmente tem me encantado como pessoa. O Mark Sandman sempre fazia uma homenagem ao público na abertura e nas músicas que considerava especiais em seus shows, eu de certa forma fiz isso.

Primeiro a homenagem, agora o texto. JJ é um músico americano que viu sua vida mudar totalmente de uma hora para outra sem aparentemente grande influência sua. Sua banda que tinha fãs e algum sucesso de crítica implodiu, perdeu sua namorada e num país distante se viu trabalhando como entregador de pizza. Tudo o que ele fazia ruiu de uma hora para outra. O que mais chama a atenção aqui é o fato de que claramente ele sofre mais a perda da parceria que tinha na banda do que a perda da namorada, porém, uma frase que ouviu de sua namorada parece ser o grande motivo de sua tristeza e descaso com a própria vida.

JJ se considera músico. É alguém que tem algum talento e alguém que gosta de cultura, lê muito, ouve muita coisa, aparentemente gosta muito de arte e não é alienado (fato raro, geralmente os norte-americanos são vistos como alienados e os europeus mais culturais, isso em filmes e livros, não conheço norte-americanos e europeus bem o suficiente pra ter uma opinião consistente sobre o tema. JJ é aquele cara que aparentemente tem tudo pra dar certo e por algum motivo alguma coisa não dá certo. Essa é a primeira impressão.

Procurando adentrar um pouco mais no universo do personagem algumas coisas ficam claras e ai é que eu me encontro totalmente com JJ. Primeiro ele me parece ter dificuldade com algumas leituras de outras pessoas. Nesse ponto eu sou mais analfabeto emocional do que ele, mas digamos que em alguns casos ele conseguiu ser tão raso quanto eu na informação que coletou. Outro defeito que ambos partilhamos é o de sempre achar que a culpa por algo não funcionar é nossa e ainda nessa linha, ao inferir qualquer coisa sempre acreditar que das possibilidades existentes quando algo não está exatamente em nossas mãos, é sempre a pior que vai acontecer.

Essa falta de auto-estima me mata tanto quanto quase mata o personagem e mata tanta gente por ai. Não é achar que o mundo todo existe contra você. Muito pelo contrário, a sensação é outra. É a de que você não faz parte do mundo. Você é o errado e por isso as coisas não funcionam.  Esse tipo de pensamento parece imbecil, até certo modo é imbecil, mas sejamos sinceros, muita gente se sente assim. Eu assumo, me sinto assim o tempo todo. Parece que a culpa é sempre minha.

Nessa linha, a dor de se manter vivo parece imensa. Porque as vitórias acabam funcionando apenas como obrigação, você faz bem feito e pronto, o resultado está ai. Se algo não funciona a contento, a culpa é sempre sua. Morphine mandou bem na letra. É preciso achar a cura para a dor, seja qual for a dor que se sinta.

Tem outro ponto em JJ que me fez pensar muito na vida que levo. JJ em momento algum canta para o grupo, toca ou compõe, ele parece brigado com a música. Porém, ele nunca deixou de ser o músico que é. Antes de se considerar qualquer coisa, ele é um músico. Eu falei bem por cima disso no texto homenagem. Homenageei alguém que é sem precisar mostrar nada a ninguém. Eu muitas vezes me pergunto se deixo minha essência tão clara quanto a pessoa homenageada e JJ deixam.

Um lado interessante está além da qualidade. JJ é músico mesmo que não tenha a qualidade e o carisma de um mega astro, ele é quem é, não precisa sonhar em ser John Lennon. Eu, bem ou mal, me considero um artista, um poeta (não sonho em ser Drummond, mas quero ser eu mesmo) e um fotógrafo (que não quer ser o Ansel Adams). Preciso entender que eu sou apenas eu. No que isso tem de bom ou de ruim.

Até acredito que JJ tinha sim motivos convincentes para se matar. Se a coisa está ruim, essa seria uma mudança bastante radical, mas uma mudança. Não sei se eu fugi de mim mesmo de forma semelhante a ele. Espero que não, mas também me sinto muitas vezes oprimido, sozinho e perdido. A solidão vem do fato de eu simplesmente não conseguir ler e ser lido nesse mundo que me cerca. E ai falo não dos meus textos (tá eu confesso que adoro ler os comentários de quem visita este espaço), mas sim falo dos sentimentos que eu deveria sentir e entender.

Run Like Hell – Pink Floyd

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Sinto como milhares de espinhos como esses penetrassem minha pele

Não sou muito fã de posts assim seguidos, ainda mais quando eles fogem da sequência lógica de posts que eu prevejo. A lógica pedia que eu continuasse falando das boas saudades. Porém, hoje eu confesso que não estou com uma boa cabeça. Confesso que preciso falar um pouco dos fantasmas que estão deixando minha cabeça mais fora de ordem do que normalmente ela já é.

Ao som de Run Like Hell do Pink Floyd (uma das músicas da talvez ópera rock The Wall) vou aqui destilando idéias sem sentido, tentando encontrar algum motivo pra conter lágrimas que caem feito um rio do meu rosto..

O mais chato dessa história toda é não ter uma noção exata do que me faz chorar. Ter medo de tudo o que me cerca, medo quando o telefone toca, medo quando a tevê fala e medo quando tudo silencia. Medo da luz da sala e até medo do escuro. Escuro aliás, que uso pra me esconder e proteger de algo que eu não tenho a menor idéia do que seja.

Nesses momentos, em que a cabeça vai por diversos caminhos e não encontra estrada alguma para seguir, eu tento me focar no que tenho que fazer. Tento produzir algo de útil, como forma de fazer o tempo passar sem que eu perceba. Tento fazer isso até que o sono chegue e eu adormeça. Sempre com a falsa idéia de que com certeza acordarei alegre e bem.

Mas hoje nem isso tenho conseguido. No máximo esse texto que nem sei se merece ser compartilhado. Tentei adiantar uns relatórios, produzir alguns versos, imaginar algumas fotos. Tentei andar por ai, dei uma caminhada pelo condomínio, tentei ver o céu, mas a chuva não caiu.

O que me incomoda, confesso, é sentir-me vazio. Não sei como outras pessoas se sentem. Eu só sei que me sinto totalmente vazio por dentro, como se tudo aquilo que eu faça e pense não tivesse razão. Busco uma razão pra continuar. Vejo as pessoas ao meu lado tento tantas idéias diferentes, encontrando pequenos prazeres em coisas que eu considero absurdas, não por serem absurdas, mas por não fazerem sentido pra mim.

Onde está o sentido? Eu corro, corro, corro e nada. Não chego a lugar algum e o que é pior, nem sei se existe um lugar pra chegar. Aos leitores, desculpem o desabafo. Espero ter coisas melhores pra dizer no meu próximo texto.

Crying the rain – A-HA

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Muitas vezes choramos sem razão, sorte que algumas pessoas recolhem nossas lágrimas e nos ajudam a levantar

Depois de quase uma semana eu retorno. Sei que deveria ter passado por aqui antes, afinal até tenho o que dizer. Mas tem dias em que tudo parece mais complexo do que realmente é, e você, mesmo sabendo disso, não consegue dar o passo certo da maneira correta.

A escolha da música título desse post tem um quê de saudosismo, afinal A-ha  tocava na minha adolescência (Crying the rain tocou muito) e um quê de falta de criatividade, hoje chove e eu estou chorando, como aliás costuma acontecer também quando não chove.

Os motivos das lágrimas são diversos e não é o momento correto pra discorrer sobre isso. Agora preciso desviar um pouco o foco. No último texto eu falei de 3 pessoas, citei numa alegoria 3 saudades boas que essas pessoas me trouxeram e que de certa forma me mantém de alguma forma vivo.

Hoje conto um pouco da primeira saudade. Falo da sensação de reencontro, do desejo de rever e reprisar fatos, da vontade tremenda de modificar pequenas escolhas feitas em determinados momentos do passado que se tornaram erros. Hora de rever a história. E aqui vale ficcionar e romancear um pouco, pra coisa ficar mais palatável e pra que eu possa contar a história sem contar nada das pessoas envolvidas.

Num passado distante, num dia chuvoso como esta noite. Eu chorava como choro hoje. Perdido em pensamentos malucos. Idéias dispersas, os olhares ainda não eram dispersos, eu ainda não tinha sido realmente apresentado a câmera fotográfica. O pensamento longe, era um dia frio. As gotas de chuva batiam no meu rosto, meus óculos traziam com sigo as gotas e tentavam esconder as lágrimas que escorriam.

Eu precisava sentir a água me tocando, precisava disso. Imaginava que as gotas iam lavar os cortes da alma e curar feridas que eu até hoje nem sei como se abriram nem se realmente existiram.

E parou de chover de repente. Uma pessoa veio em minha direção. Olhou nos meus olhos e me abraçou, bastou aquilo pra minha cabeça voltar a funcionar de novo.  E foi ai que eu falhei. Não soube retribuir o que recebi. Quando mais necessário, eu não estive presente.

Confesso, aliás, que depois de escolhas mal feitas no passado, onde não levei em conta o merecimento, onde fui mais emocional do que racional. Só fui perceber o quanto essa pessoa é importante para mim quando corri o risco de realmente perdê-la. Perdê-la de uma forma que não se recupera mais.

Daí veio todo um sentimento de dor, que se transformou em alegria infantil, ou melhor , juvenil em dois momentos posteriores. O primeiro quando voltei a falar com essa pessoa, mesmo que virtualmente. Percebi que ela estava ali novamente inteira e íntegra como sempre fora e a segunda, onde ações totalmente infantis minhas deixaram na cara o que eu estava pensando, quando a revi, até mais radiante do que estava na última vez em que nos encontramos.

Ai eu percebi todos os erros que cometi, e confesso que quero repará-los. Quero de alguma forma devolver aquilo que recebi a quem realmente merece. Quero mostrar a essa pessoa o quanto ela é realmente importante para mim. Não quero que errar novamente deixando tudo passar diante dos meus olhos sem deixar claro o que penso e sinto.

Espero que a chuva não precise lavar as lágrimas do meu rosto e muito menos do rosto dessa pessoa.

It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) – R.E.M.

Temos que ter coragem para seguir adiante buscando uma nova fonte de luz

Falei da dor das perdas que sentimos. De como é duro sobreviver a isso. Entretanto, sempre tem um entretanto, é possível tirar algo de positivo dessa dor toda. Geralmente, nos momentos de maior dor e desespero é que surgem as grandes mudanças. Saber aproveitar esses momentos de dor de forma produtiva é difícil, mas necessário.

A morte de um ente querido, a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, qualquer coisa que cause dor não pode nos deixar inertes para sempre. Na verdade, após o desespero inicial, é preciso que sejamos fortes o suficiente para mudarmos o mundo. A música que escolhi hoje fala um pouco disso. Gosto bastante do som produzido pelo R.E.M., banda americana que nasceu em 1980. Escolhi It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) (clique aqui para ver o clipe), porque a música fala de um mundo novo. Diz que chegou o fim do mundo que nós conhecemos e nós gostamos disso.

No fundo a proposta ideal é essa mesma. Acontecem tempestades diversas na nossa vida, coisas que mudam a direção do vento que nos empurra adiante. Essas tempestades não estão ai pra nos atrasar. Acontecem porque coisas ruins infelizmente acontecem e se nós conseguimos mudar de direção quando diante de situações críticas então significa que somos plásticos o suficiente para sobreviver nesse mundo maluco.

Um mundo, aliás, que muda a todo instante. O que é certo agora será errado daqui a uma semana. O que amamos agora será motivo de ódio daqui a algum tempo.  Essa mudança repentina de direções deixa qualquer um fragilizado, ainda mais quando se sofre algo ruim enquanto as coisas mudam e não temos tempo de nos adaptar a essas mudanças.

É como estar num longo relacionamento, de repente ele acaba e a gente não sabe mais o que fazer. Não sabe mais paquerar, não sabe mais sair de casa, não sabe nem mais ir o que comer sozinho. O mundo muda nesse tempo em que você. É a sensação de chegar num novo emprego, onde não se conhece ninguém. As pessoas todas parecem apressadas aos nossos olhos, por mais receptivas que sejam. Demora até que estejamos preparados para esse mundo novo, mas temos que entrar de cabeça. Porque o mundo que conhecemos acabou, é hora de aproveitar o novo.

Acompanhar essas rápidas mudanças (ainda mais porque só sentimos as rupturas quando elas nos causam dor) é extremamente difícil. Fico pensando em crianças que perdem os pais, em pais que perdem os filhos, chefes/as de família que perdem o emprego ou simplesmente pessoas que perdem seus sonhos e desejos. Gente que tem que encontrar força para continuar seguindo em frente.

Fico pensando em mim. Nos meus sonhos irrealizados. Confesso que muitos deles ainda povoam a minha mente. Mesmo aqueles que hoje sei serem impossíveis de realizar. Tem coisas desse novo mundo que ainda são impossíveis para mim. Eu ainda vivo preso ao mundo antigo, ou pior, vivo preso a desejos antigos que sei que não vão se realizar. Fiquei pensando muito nisso durante esta semana. Será que vale a pena sonhar ou lutar por algo que não está mais ao seu alcance? Vale a pena sentir essa dor? Vale sofrer?  Às vezes penso que eu gostaria de ser tão forte quanto as pessoas que vi chorando nessa semana. Gente que certamente em breve se lembrará das lágrimas que derramou e fará delas combustível para seguir adiante no novo mundo que se formou. Será que um dia eu consigo seguir adiante?

Return To Innocence – Enigma

Não temos o controle sobre a dor que sentimos

Continuo a semana falando de perdas. Ainda com a dor da morte na cabeça procuro seguir adiante no tema. A morte provavelmente é a perda mais traumática e a mais difícil de ser aceita, pois é a única que não tem volta. Todas as outras de uma maneira ou de outra podem ser revertidas até certo ponto. Conviver com a dor das perdas também é algo inevitável em nossa existência. Duro é encontrar a maneira correta de sobreviver a dor. Cada um cria sua forma e cada um sofre de um jeito.

Uma forma de atenuar o sofrimento por uma perda pode ser buscar dentro de si mesmo a força necessária. Eximir-se de culpa, aceitar o medo sem fazer dele um opressor. Aceitar-se como um ser humano normal que sofre como todos os outros. A música  Return To Innocence do projeto Enigma (clique aqui para ver o clipe), fala bastante nessa linha. “Não chore por ser fraco, não se orgulhe por ser forte”. Frases como essas me fazem pensar ser este o caminho mais calmo e real para agüentar toda a dor que paira sobre a gente.

O motivo que causa a dor pode ser diverso. Confesso que para o texto de hoje isso não importa. Importa é a forma como lidamos com isso. Não digo no momento inicial ou mesmo no instante máximo de dor. Mas sim depois que a crise inicial passa. No momento em que mesmo com a dor já temos que retomar as nossas idéias racionais.

Eu confesso que tenho dificuldade de lidar com algumas das dores que sinto. Provavelmente não tenha elaborado ainda o final do meu último namoro e nem sei quando isso vai acontecer ou se vai, mas isso não me impede de produzir, não chegou a me impedir de produzir nem mesmo no dia seguinte ao término. Conheço gente enterrou alguém especial de manhã e a tarde está trabalhando a toda no escritório como se nada tivesse acontecido. E também conheço gente que por queimar a resistência do chuveiro e ter que terminar um banho com água fria ficou uma semana toda fora do eixo.

Justamente nesse ponto penso na música que escolhi e no clipe da mesma. Tem horas em que é preciso fazer o caminho de voltar e realmente retornar a inocência, buscar o lado mais puro e honesto que possuímos para que tudo volte aos eixos o mais rápido possível. Admitir os pontos em que falhamos e entender que muita coisa está além do nosso controle. Aceitar essa imperfeição humana talvez seja o ponto mais duro. Mas sem aceitar isso se torna impossível aceitar qualquer perda, não somos imortais, não somos perfeitos e muito menos tão inteligentes como imaginamos. Somos apenas humanos que carregam em si milhares de qualidades e defeitos.

Como diz a música é preciso retornar a si mesmo para entender o que causa cada dor. Com isso em mãos, melhorar e buscar uma cura torna-se mais fácil. Eu sei que tenho ainda minhas curas, que algumas perdas ainda me incomodam. Diariamente eu me pergunto em que posso melhorar. Muitas vezes sublimo sim os medos que aparecem. Procuro crescer nesse ponto a cada dia. Procuro sempre voltar pra dentro de mim mesmo e ai ter forças para superar cada nova dor que surge.

Eu vi o sofrimento no rosto de algumas pessoas essa semana e confesso que isso me machucou muito. Espero que eles tenham força para seguir adiante. Foi uma perda forte, daquelas difíceis de se apagar. A única coisa que posso fazer hoje é oferecer meu ombro e meu apoio.Confesso que essa incapacidade também me incomoda. É duro aceitar que não podemos resolver os problemas que surgem diante dos nossos olhos e também dói saber que não podemos viver a dor do outro. Que essa dor seja breve.