Protege Moi – Placebo

 

 

Incrível como dói ver quem a gente ama sofrendo. Incrível como a gente quer sempre trocar de lugar e arrancar a dor de alguma forma. Quer sofrer no lugar e as vezes se desespera por não saber exatamente o que fazer.

Já vivi isso algumas outras vezes. Ano passado mesmo vi com pesar minha mãe sofrer a dor de lutar contra um tumor. Sorte ela ser forte, e ter conseguido vencer. Quase um ano de sofrimento e dor psicológica. Cirurgia, quimio e radioterapia. Palavras que criam medo em quem as enfrenta.

Confesso que aprendi com a dor da minha mãe. Aprendi o quanto falta para que eu possa realmente ser forte como as vezes imagino ser. Ela, magra, baixinha e com os belos cabelos brancos mostra uma força e uma vontade que me fazem sentir orgulho dela.

Ela aprendeu a perder, cresceu com isso. Enterrou e chorou por seus pais (era muito novo e pouco realmente aproveitei dos meus avós), mal percebi a perda. Ela enterrou alguns irmãos também. Chorou por todos e aprendeu a ser forte com suas perdas.

Eu pouco perdi, ou melhor nada perdi além das frágeis derrotas adolescentes. Meus pais e irmã estão sempre ao meu lado. Meu emprego é o mesmo a um certo tempo. Poucas mudanças radicais. Meus maiores medos são mesmo os que surgem do acaso, como o que senti durante o ano passado acompanhando o que aconteceu com minha mãe. Aliás, acho que no fundo eu sofri bem mais que ela, que apesar do medo encarou a situação com muito mais altivez e inteligência do que eu, meu pai e minha irmã.

Falo isso porque no fim de semana eu senti a sensação de perda bater perto de mim. Medo bobo eu sei, mas ainda assim medo. Aquela sensação de ver em perigo alguém que você quer bem.

Atravessei a cidade com medo. Com medo fui ao hospital e tentei tomar conta de quem amo. Lembrei dos meus pais e de tudo o que eles fizeram por mim. Das vezes em que minha mãe saiu correndo atrás de ônibus e vizinhos para que eu pudesse chegar ao médico o mais rápido possível. Sem celular (eles nem existiam naquela época), meu pai tentava descobrir o que estava acontecendo. Enfim, o desespero em tentar resolver algo que muitas vezes está além das nossas capacidades.

Eu a vi frágil em meus braços, e a vi frágil sendo medicada. A acompanhei durante um bom tempo a sua dor e sei que ela acompanharia a minha (como aliás já fez quando eu adoeci a pouco tempo). Vi seu sono e torci para que ele fosse de alguma forma tranquilo e protetor. Era tudo o que eu podia fazer, foi tudo o que fiz, tentar proteger de alguma forma e mostrar que estava ali do lado. Tentando partilhar a dor e o sofrimento, tentando esconder o medo que eu sentia imaginando talvez ser algo realmente perigoso.

Porque muitas vezes é o medo pelo outro que nos faz perceber o quanto somos frágeis. Observar a fragilidade de quem nos é importante associada a nossa incapacidade de resolver o problema nos mostra que no fundo somos apenas humanos. Somos apenas seres incapazes de resolver todos os problemas que surgem e que por isso precisamos proteger quem a gente ama para que estas mesmas pessoas nos protejam.

Simple Things – Belle & Sebastian

 

 

Primeiro texto no novo endereço. Ainda preso a antigas manias não consegui chamar de casa o lugar que me acolhe, por mais aconchegante que ele pareça e seja. Tudo perto e ao mesmo tempo tudo parece tão distante. Tudo fácil e ao mesmo tempo tão difícil. Tanto que enrolo a quase um mês para tentar publicar alguma coisa aqui no blog. A desculpa da internet não passa disso, desculpa.

Eu que mais uma vez entro num embate com o tempo. Eu que cada vez mais tenho percebido que envelheço. Sinto cada vez mais o tempo passar. Sinto cada vez mais a solidão pesar nas minhas costas. E essa dupla ingrata, tempo voando pelos dedos junto com uma forte sensação de solidão torna tudo mais amargo.

Falta sabor em tudo o que se faz. Falta tempero e na verdade o que mais falta é sorriso. Ai eu me pego olhando os livros que comprei já faz tempo. Procuro me lembrar do que me fez querer comprar cada um deles. Do que acreditava no momento da compra, do que me motivava. Percebo que teve um tempo em que eu realmente sabia sonhar. Sabia viver do desejo distante e dele tirava energia para seguir adiante.

Percebo que já vivi também as mesmas sensações que vivo hoje. Um misto de medo, letargia, fantasia e dura realidade. Percebo que não posso colocar a minha felicidade como fruto do que eu faça ou conquiste. Não serei feliz por estar nesse ou naquele lugar. Serei feliz apenas quando perceber a graça que existe nas pequenas conquistas que muitas vezes deixo passarem despercebidas diante de um olhar meu mais negativo.

É tão claro que eu conquistei tanta coisa em tão pouco tempo. É tão óbvio que eu deveria sim saber aproveitar essas pequenas vitórias e não focar apenas num único ponto falho. O problema é que o ser humano é um bicho estranho. Daqueles que nunca se contenta com o que tem. Sempre quer mais, mesmo que o que busque não seja algo que ele realmente mereça ou precise.

Por sorte esse não chega a ser meu caso agora. O que eu quero qualquer um pode querer. O que eu busco no fundo todo mundo precisa. Mas é preciso antes de mais nada entender o que acontece. É preciso entender que tudo tem seu tempo. Não adianta eu querer que algumas horas passem rápido e outras passem devagar. O tempo caminhará sempre do mesmo jeito, indiferente ao meu pensar e ao meu sentir.

Por mais que o meu vazio pareça ser duro demais de suportar, eu o suporto a tanto tempo. Tanto tempo que nem lembrava mais  quando tudo isso começou. E isso verdadeiramente não me matou. Tanto que estou aqui cada vez mais velho e rabugento reclamando das mesmas coisas. Tendo feito coisas diferentes em busca de uma nova resposta. Buscando, é verdade um caminho que parece inexistir. Mas eu busco. E a busca parece ser a chave. Enquanto eu não achar meus erros nela, dificilmente encontrarei alguma forma de encontrar o que busco.

Geralmente a gente sempre busca coisas simples, simples demais para perceber que elas estão diante dos nossos olhos. Eu sei disso e nem assim consigo ver o que me falta nessa busca. Isso me irrita, mas não deveria. Eu deveria curtir o novo lar, fazer dele um espaço novo para novos sonhos. Um espaço aberto para gente de coração aberto e quente. Gente que me aqueça, que me inspire, que me ensine. Deixei para trás um antigo lar com todas as dores que vivi ali. Devo colocar nas prateleiras só as boas lembranças e os bons momentos. Imagino que não seja crime despejar a tristeza no fosso do elevador a partir do andar mais alto desse prédio.

Devo me ater a coisas simples, ideias simples que possam quem sabe me ajudara ser feliz. E devo sim buscar a minha felicidade. Sei que ela está dentro de mim e devo ter coragem de expor isso ao mundo. Mais do que expor, aliás, devo ter coragem de viver essa felicidade. Sela ela qual for. E quando essa felicidade aquecer meu coração,eu sei que perceberei que nesse tempo todo eu nunca estive só, a solidão era apenas um sonho mau que mascarava o prazer que eu sentia em ter a própria companhia.

 

Exército de um Homem Só – Engenheiros do Hawaii

 

 

Fazia tempo que eu não saia com a câmera nas mãos. Fazia tempo que não tentava mostrar a mim mesmo o que vejo através das minhas velhas lentes sujas. Troquei os óculos e aproveitei a sexta-feira chuvosa. Se de manhã me rendi ao trabalho de professor. A tarde eu fui aluno, e aproveitei o frio, a chuva, uma cidade que deveria estar vazia e fui de encontro a alguns dos meus medos mais dolorosos.

Fazia tempo que eu não andava por Sampa. A cidade em que morei, cidade para onde pretendo voltar e cidade que me causa um tipo de medo estranho que as vezes chega a me paralisar. Nisso a chuva e o frio foram camaradas. A água na cabeça e o vento no rosto me fizeram procurar algo além do meu medo e da minha dor. Procurei encontrar o medo do outro. O desespero de quem vive invisível numa cidade onde tudo está exposto. Tudo está tão diante dos olhos que fica muito mais fácil não ver nada. Seguir adiante como se só a nossa própria existência importasse.

Eu ando pela rua e procuro nos rostos algum sinal. Um aprove ou desaprove em relação ao meu olhar. Por vezes até penso em erguer a câmera e apontar as lentes para alguém. Só que ai os olhos que encontram os meus nada falam. E eu me pergunto se tenho o direito de expor aquele ser. Se tenho direito de mostrar ao mundo alguém que quer se esconder. Será que uma foto não é explorar o outro? De que forma meu clique vai servir para fazer algo pelo fotografado?

Fico tanto tempo nesse tipo de luta interna que me recuso a clicar. Vejo ao meu lado gente que faz isso com naturalidade, beleza e maestria. Gente que sabe o modo certo e que acredita fazer a coisa certa ao apontar a sua lente para qualquer ponto, qualquer pessoa e em qualquer situação. Até pensou em fazer uma revolução através de uma imagem. Penso nos grandes fotógrafos que cobrem guerras, cobrem cidades, fazem da dor humana a sua arte. Eu queria ter a coragem que eles tem,mas não tenho.

Me sinto é acuado. Invadindo um espaço que não é meu. Talvez por isso andar pela cidade me machuque tanto hoje. Eu que fui office-boy quando criança, hoje tenho medo daquelas ruas que foram minhas durante muito tempo. O medo vem do fato de que eu já não consigo deixar de ver a cidade perder-se diante dos meus olhos. O medo vem da culpa. Vem da percepção que um mundo cai diante dos meus olhos e eu nada faço para evitar isso.

É gente que passa fome, gente que se droga, gente que se vende do modo mais baixo, podre e degradante possível. É gente que não vive, apenas sobrevive da caridade de quem passa e nem percebe isso. Ao lado do mendigo passa o engravatado, almofadinha que quase pisa no corpo do mendigo, para ele, invisível, apenas uma peça decorativa nessa estranha paisagem urbana.

Incrível como isso me incomoda. A cegueira branca do Ensaio Sobre a Cegueira pareceu bem mais próxima de mim do que nas páginas do romance do Saramago. Erguer a câmera e apontar para alguém e nada ver. Ver-me tão cego quanto a maioria que caminha diariamente pelas ruas. Tão cego quanto eu já fui no passado.

Voltei para casa pensando no que existe ao meu redor. Voltei para casa pensando no que tenho feito. Dirigi percebendo que tenho sim um papel social a ser desempenhado. Percebi que não posso deixar tudo para lá e fingir que nada acontece. Se me incomoda eu tenho que gritar, fazer como fizeram os que me acompanhavam, que viram a cidade por seus olhos e clicaram aquilo que até lhes incomodou. Dizer ao mundo.

Posso parar ou seguir adiante. A escolha é somente minha. A escolha é de cada um de nós. Parar e fingir que nada acontece ou seguir adiante tentando mudar o que parece errado. Seja com cliques, seja com frases, é importante mostrar as armas. Afinal, se eu me calo, meu silêncio será visto como aprovação a tudo aquilo que me cerca.

Fly Like an Eagle – Seal

Hora de continuar a falar do filme Vingadores, não que o filme tenha sido tão bom assim. Não é. É sim um filme divertido, mas pouca coisa além disso. Acontece que os personagens me remetem a uma distante infância. Um tempo em que eu realmente ficava horas lendo histórias em quadrinhos (ok,eu ainda leio hoje, só destino menos tempo pra esse tipo de leitura).  Até por isso acredito que vale a pena tentar fazer um breve paralelo dos heróis com coisas que eu penso e coisas que eu ando vivendo.

Começo a série falando do herói mais modificado no cinema. O Gavião Arqueiro está bem longe de ser o soldado sério da Shield. Nos quadrinhos seu comportamento lembra mais o aplicado ao Homem de Ferro dos cinemas. Um personagem que de certa forma traz bastante do que eu sinto hoje. Claro que na sua versão quadrinhos.

Afinal como ele, eu me sinto diminuído diante de algo que eu sei ser maior do que eu. A diferença talvez esteja no fato de que eu não respeito tanto assim o que me sufoca. Me sinto também um tanto derrotado e me vendo obrigado a mudar radicalmente de ação para que eu consiga resultados minimamente satisfatórios. Além de, infelizmente, ver cada vez mais claro a barreira que existe entre mim e algumas coisas relativamente simples para quase todo mundo.

Pra quem não sabe, o Gavião era um bandido inicialmente e virou herói ao ter a chance de se tornar um vingador. No grupo sempre acabou intimidado pela presença do Capitão América, a quem queria mostrar ser um líder ainda melhor. Talvez por ver naquele homem uma espécie de lenda. Nas vezes em que liderou grupos, acabou arrumando confusão com seu modo arrogante e o engraçado é ver quase um bordão seu dizendo “o que o capitão faria nessa situação?” sempre que aparecia um problema.

Mudou várias vezes de uniforme, mudou de identidade tentando ser alguém realmente importante. Perdeu muito também, inclusive a vida mais de uma vez (a vida eterna e o renascimento são realmente a grande maravilha dos quadrinhos). Perde até hoje, onde aparentemente se mostra mais maduro e consciente de seu papel e seus atos. Nesse ponto eu me sinto igual. Alguém sem poder algum, com alguma habilidade e que tenta fazer algo pra tornar o mundo um lugar melhor aos meus olhos. De certa forma já troquei a fantasia mil vezes.Já ofereci a cara para o combate de diversas formas diferentes. Se cai em todas elas, levantei diferente e fortalecido, buscando novamente acertar e mirando sempre nos acertos dos meus ídolos.

Não me vejo assim tão falastrão. Nas poucas vezes em que eu realmente me gabei por algo, vi vitórias certas escorrerem por entre os dedos. Vi as falhas estampadas no meu rosto e tive que abaixar a cabeça e aceitar com um sorriso amarelo um resultado inesperado. Coisa que aliás eu tenho feito exatamente agora.

Sou alguém também sem auto estima suficiente para ter real consciência do que posso fazer. Sou alguém que acaba se arriscando mais por medo de falhar do que por vontade e certeza de vencer. A certeza também me torna imprudente como o arqueiro. A empolgação me fragiliza. Como se eu lançasse as flechas sem rumo e elas acabassem voltando todas diretamente para o meu peito. Fazendo-o sangrar até que o corpo desabe inerte no chão.

Só depois dessa morte lenta e dolorosa. Renascido dentro desse pesadelo que eu mesmo criei é que me vejo novamente pronto para seguir adiante. Sentindo muito medo. Agindo muitas vezes por desespero. Apontando o olhar de águia para longe, porque hipermetrope de perto nada vejo. Se acerto e assassino a dor externa, deixo a dor interna me consumir por todo o sempre.

The Man In The Mirror – Michael Jackson

 

 

E eu sigo tentando descobrir quem sou. Tento ainda entender o que desejo. Tento tantas coisas que nem sei muito bem ao certo se estou fazendo direito. Concordo entretanto, que nessa fase o correto é fazer, é tentar, é transformar. O correto é buscar e acreditar naquilo que se pensa ser certo. Mesmo que não seja. É necessário acreditar que realmente podemos fazer uma escolha viável e coerente.

Ainda não funciona comigo aquela coisa toda de auto ajuda. Olhar no espelho todo dia de manhã e dizer com seriedade e firmeza que o dia será bom. Conheço gente que faz isso e que até diz que funciona. Não é meu estilo. Dessa forma eu tenho que encontrar outras formas, busco a que funcionar comigo. Sessões de terapia, leituras variadas (auto ajuda não desce, eu até tento, mas não adianta), música e escrita.

Mesmo assim eu me vejo no espelho e procuro dados que me mostrem melhorias. Qualquer pequeno sinal que me demonstre mais autoconfiança, autoestima (a minha é baixa demais), coragem, mais alegria. Na verdade, eu busco sinais de equilíbrio, até aceito perder pontos em alguns lugares se eu puder levar esses pontos para outros.

Li num dos comentários do último texto que a gente é sempre um ser em eterna mutação. Confesso que durante muito tempo eu pensei assim. Que a gente acaba mudando o tempo todo, fica mais maduro com as experiências pelas quais passa e então começa a agir de outra forma, já que passa a atuar acreditando em outras verdades.  Confesso que é uma linha de pensamento bem interessante, mas hoje eu sigo outra.

Será que a gente muda mesmo? Eu hoje penso mais que a gente se descobre. Que com o tempo, vivendo mais, aprendendo mais sobre si mesmo a gente se torna cada vez mais verdadeiro. Até que chega um tempo em que a gente se torna realmente autêntico e por isso feliz. Quem consegue ser feliz mais cedo é porque se descobre mais cedo. Se reconhece com seus defeitos e suas qualidades e se dá por satisfeito em ser simplesmente quem é.

Até chegar nesse ponto a gente sonha em ser tanta coisa. Eu mesmo sonhei poder voar quando era pequeno. Sonhei em ser como um passarinho que consegue ir pra longe, pra bem longe e mesmo assim faz isso de modo belo e altivo. Cantando pra tentar demonstrar que o que leva pra longe não é medo, mas sim opção. Pena que se eu voasse nessa época, provavelmente voaria em silêncio. Se cantasse, a melodia não seria de altivez, mas de medo, não seria bela, seria feia, entristecida.

Depois eu quis ser tanta coisa. Algumas delas risíveis de se contar. Ai conheci as letras e os livros e sonhei ser escritor. Algo que de certa forma consegui, consigo fazer textos que me agradem, espero que de alguma forma agradem também a você que me empresta seu tempo e as vezes me lê.

E fui crescendo e querendo ser outras coisas, não que eu tenha abandonado os quereres antigos. Queria apenas aumentar minhas habilidades. Muitas vezes eu quis só aumentar o saber fazer já que pouco do saber sentir fez (ou atualmente faz) parte das minhas habilidades. É quase sempre assim, a gente foge daquilo que desconhece e se apega ao que nos faz parecer melhores.

É o que dizem meus amigos. É o que me aponta quem convive comigo. Sou quem faz, quem ajude, quem cria e modifica. Mas quem sabe realmente o que eu sinto? Quem sabe o que eu desejo? Eu não sei, eles não sabem. Por enquanto ninguém sabe.

Não posso entretanto ver isso apenas como algo ruim. Isso me faz tentar ser uma pessoa boa. Já que eu não sei o que busco, procuro agir de forma correta. Procuro ser bom, ser justo, ser honesto. Procuro ver o outro feliz e da sua felicidade procuro extrair coisas que me deixariam também feliz. Copio e aprendo com o sentimento do outro.

Faço do outro o meu espelho onde me vejo. Faço do espelho o livro de regras para saber o que fazer. E observo, observo e observo. Procuro entender onde está a tal felicidade. Onde está o prazer. Por mais maluco que isso possa parecer, é incrível o quanto eu cresci e sorri fazendo isso.

Foi preciso apenas aprender uma coisa sobre mim. Eu aprendi que tenho falhas. Aprendi que tenho medos e principalmente, aprendi a reconhecer alguns destes erros e destes medos. Percebi que tenho pontos mil onde melhorar. Busco avanços em cada um deles. Bastou humildade para entender que eu poderia aprender muita coisa com os “homens no espelho”.

Sympathy for the Devil – Rolling Stones

 

 

Volto a falar do filme Motoqueiro Fantasma 2. Um filme que realmente rendeu muito para mim. Volto a falar porque ele apesar de não tão bom, me fez muito bem. Porque apesar de até certo ponto raso, me fez ter pensamentos até certo ponto profundos. Pensamentos estes que me fazem vir aqui hoje e escrever para quem quiser ler.

Aliás, escrever para quem quiser ler é algo que não vale só pra mim. Muita gente faz isso, conheço diversos blogs que leio e acompanho, vez por outra cito um por aqui quando traz algo que tem a ver com o que quero discutir. Hoje faço isso de novo. O blog Saindo do Prefácio (http://saindodoprefacio.blogspot.com/) da Vanessa é um desses blogs que cito. Nele, ela faz comentários diversos sobre o que pensa. Vale uma visita.

Eu uso o blog como referência (e também o filme), porque ler um dos posts me fez retomar uma coisa que me chamou a atenção no carnaval passado. Todos temos nossos demônios internos, exorcizá-los nem sempre é algo fácil, mas reconhecê-los é parte importante do processo. Algo que a Vanessa faz em seu blog, algo que o carnaval me fez fazer e algo que o filme traz, mesmo com toda a sua linearidade.

A gente faz muita besteira, a gente sofre por tanta coisa e tem medo de admitir o que nos causa desconforto. A gente tem medo por achar que muitas dessas coisas que nos machucam são ridículas demais para merecerem atenção. Que qualquer pessoa que soubesse desses nossos fantasmas simplesmente riria de nossa cara e nos veria como fracos.

Acontece que admitir fraquezas não chega a ser um problema, ou pelo menos não deveria ser. Que atire a primeira pedra aquele que nunca sofreu por algo que considere bobo. Fuja do texto aquele que nunca teve na vida a sensação de impotência diante de algo. Na verdade, o que importa mesmo é como a gente reage diante desses demônios que surgem em nossas vidas.

Eu tenho os meus. Tenho vários deles, alguns eu já consegui exorcizar, como o que exorcizei no carnaval indo ao cinema. Eu finalmente consegui me sentir livre. Talvez até nem chegue onde eu quero com esse sentimento livre. Ou pelo menos, talvez eu não alcance o que a sensação me faz desejar nesse momento. Mas só o fato de conseguir desejar algo com clareza e devoção já é uma grande vitória pessoal. Um imenso demônio que se afastou de mim. Me dando forças até para eliminar outros menores que se aproveitavam da força do exorcizado para também tirar o meu sono.

Talvez por isso eu ande com um ar meio bobo. Mesmo estando numa fase complicada. Cheio de problemas, eu ainda saio por ai sorrindo. Mesmo cansado pacas é possível ver um ar leve no meu rosto. A vontade de fazer as coisas darem certo de uma forma que eu nunca senti em minha vida. Me sinto capaz de encarar qualquer desafio e até grande parte das frustrações que até bem pouco tempo atrás me fariam travar e em alguns casos me fariam ter medo de arriscar qualquer ação que possibilitasse uma derrota.

Sinceramente hoje eu me sinto livre e forte. Hoje eu me sinto poderoso o suficiente para aguentar a dor da derrota e não cair. Hoje eu me sinto forte o suficiente para desejar e assumir que desejo. Para amar e assumir que amo e mesmo assim suportar a negativa. Suportar a perda e simplesmente erguer a cabeça e seguir adiante. Como se nada tivesse acontecido, com força suficiente para saber que eu posso sim sonhar e desejar e que posso conseguir o que quero, mesmo que demore. Eu posso sim ser forte em mais áreas. Eu posso ser mais do que alguém legal que trabalha pra caramba. Eu sou alguém que como todas as demais pessoas que existem por ai é ESPECIAL.

Tenho minhas limitações. As vezes me vejo obrigado a “vestir azul” e me lembrar de até onde eu posso ir. Acontece que aprendi que essas limitações são mais frágeis do que parecem. Na verdade elas acabam funcionando mais como dádivas do que como barreiras. Graças a elas eu posso fazer coisas que pouca gente faz. Graças a elas eu posso também (com alguma dificuldade) fazer o que todo mundo faz, mesmo que eu seja um pouco mais lento. No final, isso tudo me torna até mais “especial” aos olhos de muitos e agora aos meus olhos também.

Por ter exorcizado meu maior demônio como fez o Motoqueiro, por ter assumido realmente minhas limitações e também por ter visto toda a coragem da Vanessa no seu blog pra dizer tudo o que a incomoda, vamos todos ouvir os Stones falar dos demônios e rir na cara deles. Eles são todos frágeis e podem ser exorcizados, basta a gente acreditar. Aproveitem, a música é realmente boa.

Fear of the Dark – Iron Maiden

 

 

Hoje eu tenho sono, muito sono. A chuva cai lá fora, caiu o fim de semana todo. Eu até sai de casa, fui obrigado. Tinha coisas a fazer. Mas a chuva atrapalhou vários dos meus planos. Coisas que eu deveria demorar minutos para fazer, demoraram horas. A cidade parou, como sempre para quando a chuva vem forte demais.

Os últimos dias estiveram quentes, muito quentes e secos e a chuva era esperada. Sempre chove muito nessa época do ano. Sempre muita coisa acontece. Sempre muita coisa fica parada também, é engraçado como enquanto algumas coisas andam e outras travam. Assim como meu sono, ele está presente e forte, mas por mais que eu tente, eu simplesmente não consigo mais dormir.

Nesses momentos em que deito na cama, a luz apagada e os olhos fechados, parece que a vida toda passa diante dos meus olhos. Pesadelos tiram o meu sono como se servissem para me lembrar de toda a minha fragilidade como ser humano. E assim em muitas noite eu choro até cansar e só então adormeço. Eu choro sem nem saber o motivo, mas me sinto leve quando as lágrimas cessam. Em geral é nesse momento que relaxo. Poucas horas antes do despertador tocar. E assim vou cheio de olheiras rumo a um novo dia, esperando que eu consiga quem sabe entender o que me faz chorar toda noite.

O mais ridículo disso tudo é que eu nunca sei o que me leva aos prantos. Eu procuro as respostas faz tempo. Tento de todas as formas entender e nunca consegui chegar a algum lugar. Já pensei ser fruto da solidão. Já pensei ser fruto de algum medo bobo ou até mesmo a sensação acumulada de todas as derrotas diárias. Só que nem sempre eu estive sozinho, nem sempre eu senti medo e nem sempre eu tenho derrotas.

Muitas sessões foram gastas tentando entender o que se passa. O que tanto me incomoda. Enquanto eu olho pela janela e vejo a chuva cair lá fora. Enquanto eu tento adormecer e não consigo. Eu sinto um desespero crescente que me leva a um choro doloroso e triste.

Hoje eu resolvi sair na chuva, sentei lá fora e deixei cada gota me tocar. Na esperança de que elas lavem minha alma e levem consigo toda a dor que eu sinto. O medo que parece vir do escuro na verdade vem de lugar algum. Ou melhor vem de algum ponto obscuro da minha mente. Vem de algo que um dia quem sabe eu perceba o que é. Quando eu ficar maduro o suficiente para entender essa dor.

Porque as dores só são realmente dores quando a gente sente sem entender. A partir do momento em que elas passam a fazer sentido, se tornam coisas que a gente pode vencer. Talvez por isso se cante tanto o medo. Talvez por isso se crie tanto a partir de alegorias mórbidas, elas atraem, elas tentam mostrar para todos o que é que pode amedrontar, funcionando assim como uma forma de aprendizado, uma força nova que sirva para transformar os medos em piada.

Pensei até em colocar aqui medo da chuva, mas a chuva mesmo sempre me atraiu, nunca me assustou. Sempre gostei de correr por entre os pingos e sentir a pele molhada até que a roupa fria encharca e traz mais frio ainda. Isso nunca me incomodou. Sempre vi na chuva uma forma de limpar a mente. Gosto de ver a chuva cair como ela cai agora. Gosto de ver os desenhos que as gotas formam nas janelas e tento imaginar formas e respostas para meus problemas em cada tempestade.

Por isso eu coloquei o medo do escuro. Não que ele realmente me amedronte, mas sempre vi no escuro o prazer do desconhecido. O prazer da dúvida, o sentimento de não saber o que existe adiante, aliás, o que existe além dos olhos, já que eles nada podem ver no escuro total. É o momento de confiar nos outros sentidos, aqueles que a gente quase sempre esquece e muitas vezes nem sabe como usar.

Aliás talvez seja isso que me faça chorar tanto. Não perceber o que acontece nesse mundo onde eu existo. Nem sei porque eu existo aqui. Não sei porque nós existimos e tento sempre entender o que se passa ao meu redor. Mas sem ler as pessoas que me cercam fica muito difícil. Talvez eu sinta medo daquilo que deveria saber e não sei. Aliás tanta coisa assim existe. Tanta informação passa diante dos meus olhos sem que eu veja, próximas aos meus ouvidos sem que eu ouça, arranhando a minha pele sem que eu sinta. Mesmo que eu veja todo mundo ao meu redor reagindo a algo que eu não consigo perceber.

Não sei se você se sente assim as vezes. Mas eu me sinto assim todas as noites. Quando eu percebo que perdi muitas coisas no escuro em que vivo. Como se existisse uma venda em meus olhos me impedindo de ver aquilo que está diante de mim. Você já se sentiu assim alguma vez?