Walking On The Moon – The Police

 

 

Todos temos nossos heróis,modelos, pessoas que nos inspiram a sermos melhores e a fazer determinadas coisas. Pessoas que de uma maneira ou de outra funcionam como um caminho a ser seguido. Algumas vezes esses ídolos caem, outras cometem falhas graves e em alguns momentos se eternizam.

Nessa semana infelizmente eu perdi dois dos meus grandes ídolos. Um cai por uma falha grave e o outro se eternizou e não está mais entre nós. Ainda estou remoendo a falha do Lance Armstrong. Tentando aceitar a culpa daquele que sempre vi como um dos maiores ciclistas da história, com as suas 7 vitórias no Tour de France e que concorria na minha idolatria com o Miguel Indurain, que agora reina absoluto no meu carinho por ciclistas. Pelo menos até eu ter uma certa ideia do que realmente aconteceu nessa história de doping.

Por outro lado, outro nome segue agora realmente eterno. Passa para a história imaculado e seu grande feito ainda hoje é visto como algo sem precedentes na história humana. Infelizmente perdemos Neil Armstrong. O primeiro homem a pisar na lua e provavelmente o mais discreto de todos os grandes astronautas.

A figura de Armstrong me encanta por diversos fatores. A frase emblemática da sua conquista. O chegar a um novo mundo, talvez tão raro e difícil quanto foi para os primeiros homens sair da África ou para os primeiros navegadores chegarem até a Europa foi um grande feito. Mas para mim, maior que tudo isso foi a sua frase.

Carrego comigo sempre em pensamento o que ele disse. A frase que me serve de mote e de inspiração para cada ação minha. Talvez por isso eu tenha as vezes tanto cuidado com cada palavra que eu diga. Talvez por isso eu pese tanto as ações em cada momento. Meus pequenos passos podem causar grandes problemas, minhas frases mal construídas podem gerar muita tristeza e ofensa. Eu sou o responsável por  tudo aquilo que faço. E se consigo uma vitória, que ela seja apenas isso, uma vitória e não um totem a ser idolatrado.

Armstrong, foi a Lua, pisou no solo lunar antes de qualquer outra pessoa. Ao voltar ao nosso planeta, poderia ter uma vida toda baseada no seu sucesso único. Não foi o fez. Não transformou seu próprio valor em divindade. Fez da discrição um lema, tornou-se professor e agora infelizmente faleceu. Deixou-nos o exemplo de um grande homem que vale mais do que seu grande feito.

Se dias atrás eu via a Lua sorrindo para mim, hoje imagino que ela está triste. Talvez triste como eu me sinto com a perda irreparável. A lua perdeu seu primeiro visitante, eu perdi um ídolo e o mundo perdeu um modelo. Nos resta agora seguir o exemplo, lembrar que nossas ações podem gerar grandes influências em tudo o que nos cerca. Porque se um pequeno passo para um homem pode gerar um gigantes avanço para a humanidade, pode nos levar também a um grande retrocesso.

The Sound of Silence – Simon & Garfunkel

Quando o som do silêncio nos traz medo e desespero é sinal de que o limite está chegando

Hora de buscar outras fontes pra escrever. Infelizmente acabou a sequência em cima do Uma Longa Queda do Nick Hornby. Agora as ideias estão fluindo a partir de uma história em quadrinhos que virou filme. Eu adoro quadrinhos, acho uma linguagem super divertida. E como gosto de ver filmes, quando juntam as duas linguagens geralmente procuro saber qual foi o resultado final.

Só consegui assistir Watchmen hoje, e isso porque o final já saiu em DVD a um certo tempo (quase um mês). Eu adorei a história criada por Alan Moore, junto com Sandman e talvez Hellblazer é o que eu já li de mais interessante no universo dos quadrinhos. Confesso que fiquei com medo do filme. Fiquei imaginando se iriam dar uma pasteurizada nos personagens, tirar muito peso da história ou se a mesma perderia a magia ao mudar de mídia.

O bom disso é que o resultado foi em grande parte satisfatório, gostei tanto que pretendo usar o filme e os quadrinhos pra mais uma sequência de posts aqui no blog. Começo de onde terminei a sequência anterior. O tema suicídio e morte ainda vai pairar por aqui um tempo. Talvez por ser um tema que me chame bastante a atenção, talvez pela insuspeita falta de criatividade que surge em alguns momentos na criatividade de qualquer pessoa.

Para começar, escolhi uma das músicas da trilha sonora, a música que toca durante o enterro do Comediante Sound of Silence de Simon & Garfunkel (clique aqui para ver um clipe da música). Aqui já surge algo divertido, durante o filme, a versão que toca é a original da dupla dos anos 60/70, mas no Youtube você vê e ouve a versão de uma banda de Death Metal chamada Atrocity (clique para ver essa versão) com várias cenas do filme. Vale ouvir as duas e comparar, gostei das duas.

Apesar de ter citado a morte do Comediante, não é ele que começa essa série. Prefiro primeiro dar uma geral sobre como enxergo essa história. Situando o povo, numa realidade alternativa onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon não passou pelo Watergate, tendo se mantido popular como presidente até 1985 pelo menos, ano em que a maior parte da história se passa.

Existe um cenário bastante apocalíptico, com a Guerra Fria chegando ao limite máximo e o medo rondando a população. Nesse mundo, os heróis são seres comuns, sem super poderes, inicialmente policiais mascarados que faziam uso desse artefato para caçar os bandidos que se mascaravam para não serem reconhecidos. Depois surgiu uma nova geração de heróis que aparentemente se divertia com isso. Porém, a população pediu o fim desses heróis e o presidente assinou um decreto onde todos foram proibidos de agir.

Três deles mantiveram suas atividades. O Comediante, que trabalhava para o governo, o Dr. Manhattan, único com super poderes e no caso dele poderes praticamente divinos, também trabalhando para o governo e Rorschach que se manteve o tempo todo no submundo.

Viver nesse sistema é complicado. Todos os personagens parecem oprimidos. Todo mundo parece a beira da loucura, a população parece precisar ser protegida dela mesma. É como se todo mundo estivesse esperando a morte chegar de alguma forma e procurando levar as sensações sempre ao extremo e sempre da pior forma possível. Essa loucura e medo fazem você esperar uma morte a todo instante. A mensagem mais clara de toda a história é a de que não existe esperança. Justamente o que a meu ver é o suficiente para fazer com que alguém se mate. Por outro lado, essa sociedade doente não é muito diferente da que vivemos hoje, talvez a grande diferença seja a possibilidade de sonhos que ainda nos mantém vivos. Quando os sonhos deixam de existir, o peso da realidade cai nos ombros e o som do silêncio nos leva a perceber que a morte pode sim ser um caminho razoável.

The Sound of Silence – Simon & Garfunkel

Quando o som do silêncio nos traz medo e desespero é sinal de que o limite está chegando

Hora de buscar outras fontes pra escrever. Infelizmente acabou a sequência em cima do Uma Longa Queda do Nick Hornby. Agora as ideias estão fluindo a partir de uma história em quadrinhos que virou filme. Eu adoro quadrinhos, acho uma linguagem super divertida. E como gosto de ver filmes, quando juntam as duas linguagens geralmente procuro saber qual foi o resultado final.

Só consegui assistir Watchmen hoje, e isso porque o final já saiu em DVD a um certo tempo (quase um mês). Eu adorei a história criada por Alan Moore, junto com Sandman e talvez Hellblazer é o que eu já li de mais interessante no universo dos quadrinhos. Confesso que fiquei com medo do filme. Fiquei imaginando se iriam dar uma pasteurizada nos personagens, tirar muito peso da história ou se a mesma perderia a magia ao mudar de mídia.

O bom disso é que o resultado foi em grande parte satisfatório, gostei tanto que pretendo usar o filme e os quadrinhos pra mais uma sequência de posts aqui no blog. Começo de onde terminei a sequência anterior. O tema suicídio e morte ainda vai pairar por aqui um tempo. Talvez por ser um tema que me chame bastante a atenção, talvez pela insuspeita falta de criatividade que surge em alguns momentos na criatividade de qualquer pessoa.

Para começar, escolhi uma das músicas da trilha sonora, a música que toca durante o enterro do Comediante Sound of Silence de Simon & Garfunkel (clique aqui para ver um clipe da música). Aqui já surge algo divertido, durante o filme, a versão que toca é a original da dupla dos anos 60/70, mas no Youtube você vê e ouve a versão de uma banda de Death Metal chamada Atrocity (clique para ver essa versão) com várias cenas do filme. Vale ouvir as duas e comparar, gostei das duas.

Apesar de ter citado a morte do Comediante, não é ele que começa essa série. Prefiro primeiro dar uma geral sobre como enxergo essa história. Situando o povo, numa realidade alternativa onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon não passou pelo Watergate, tendo se mantido popular como presidente até 1985 pelo menos, ano em que a maior parte da história se passa.

Existe um cenário bastante apocalíptico, com a Guerra Fria chegando ao limite máximo e o medo rondando a população. Nesse mundo, os heróis são seres comuns, sem super poderes, inicialmente policiais mascarados que faziam uso desse artefato para caçar os bandidos que se mascaravam para não serem reconhecidos. Depois surgiu uma nova geração de heróis que aparentemente se divertia com isso. Porém, a população pediu o fim desses heróis e o presidente assinou um decreto onde todos foram proibidos de agir.

Três deles mantiveram suas atividades. O Comediante, que trabalhava para o governo, o Dr. Manhattan, único com super poderes e no caso dele poderes praticamente divinos, também trabalhando para o governo e Rorschach que se manteve o tempo todo no submundo.

Viver nesse sistema é complicado. Todos os personagens parecem oprimidos. Todo mundo parece a beira da loucura, a população parece precisar ser protegida dela mesma. É como se todo mundo estivesse esperando a morte chegar de alguma forma e procurando levar as sensações sempre ao extremo e sempre da pior forma possível. Essa loucura e medo fazem você esperar uma morte a todo instante. A mensagem mais clara de toda a história é a de que não existe esperança. Justamente o que a meu ver é o suficiente para fazer com que alguém se mate. Por outro lado, essa sociedade doente não é muito diferente da que vivemos hoje, talvez a grande diferença seja a possibilidade de sonhos que ainda nos mantém vivos. Quando os sonhos deixam de existir, o peso da realidade cai nos ombros e o som do silêncio nos leva a perceber que a morte pode sim ser um caminho razoável.

Cure for Pain – Morphine

O caminho mais seguro é sempre o que leva em consideração o que a gente sente

 

Hoje é dia de terminar a minha sequência de posts sobre o livro Uma Longa Queda do Nick Hornby (de novo eu recomendo fortemente a leitura deste livro). É hora de falar do JJ. Talvez o personagem que mais tenha a ver comigo em suas crises existenciais. Eu diria que em diversos aspectos eu e ele temos graus de loucura parecidos. Ambos caminhamos um bom tempo por ai buscando a cura para a dor. Uma dor mental que acaba se tornando física.

A trilha sonora, é claro continua sendo Morphine e mais óbvia impossível, Cure for Pain (clique para ver e ouvir). Posso também afirmar que este post tem uma ligação forte com o anterior onde usei uma música do Jethro Tull (clique para ler o post anterior) para fazer uma homenagem para alguém que realmente tem me encantado como pessoa. O Mark Sandman sempre fazia uma homenagem ao público na abertura e nas músicas que considerava especiais em seus shows, eu de certa forma fiz isso.

Primeiro a homenagem, agora o texto. JJ é um músico americano que viu sua vida mudar totalmente de uma hora para outra sem aparentemente grande influência sua. Sua banda que tinha fãs e algum sucesso de crítica implodiu, perdeu sua namorada e num país distante se viu trabalhando como entregador de pizza. Tudo o que ele fazia ruiu de uma hora para outra. O que mais chama a atenção aqui é o fato de que claramente ele sofre mais a perda da parceria que tinha na banda do que a perda da namorada, porém, uma frase que ouviu de sua namorada parece ser o grande motivo de sua tristeza e descaso com a própria vida.

JJ se considera músico. É alguém que tem algum talento e alguém que gosta de cultura, lê muito, ouve muita coisa, aparentemente gosta muito de arte e não é alienado (fato raro, geralmente os norte-americanos são vistos como alienados e os europeus mais culturais, isso em filmes e livros, não conheço norte-americanos e europeus bem o suficiente pra ter uma opinião consistente sobre o tema. JJ é aquele cara que aparentemente tem tudo pra dar certo e por algum motivo alguma coisa não dá certo. Essa é a primeira impressão.

Procurando adentrar um pouco mais no universo do personagem algumas coisas ficam claras e ai é que eu me encontro totalmente com JJ. Primeiro ele me parece ter dificuldade com algumas leituras de outras pessoas. Nesse ponto eu sou mais analfabeto emocional do que ele, mas digamos que em alguns casos ele conseguiu ser tão raso quanto eu na informação que coletou. Outro defeito que ambos partilhamos é o de sempre achar que a culpa por algo não funcionar é nossa e ainda nessa linha, ao inferir qualquer coisa sempre acreditar que das possibilidades existentes quando algo não está exatamente em nossas mãos, é sempre a pior que vai acontecer.

Essa falta de auto-estima me mata tanto quanto quase mata o personagem e mata tanta gente por ai. Não é achar que o mundo todo existe contra você. Muito pelo contrário, a sensação é outra. É a de que você não faz parte do mundo. Você é o errado e por isso as coisas não funcionam.  Esse tipo de pensamento parece imbecil, até certo modo é imbecil, mas sejamos sinceros, muita gente se sente assim. Eu assumo, me sinto assim o tempo todo. Parece que a culpa é sempre minha.

Nessa linha, a dor de se manter vivo parece imensa. Porque as vitórias acabam funcionando apenas como obrigação, você faz bem feito e pronto, o resultado está ai. Se algo não funciona a contento, a culpa é sempre sua. Morphine mandou bem na letra. É preciso achar a cura para a dor, seja qual for a dor que se sinta.

Tem outro ponto em JJ que me fez pensar muito na vida que levo. JJ em momento algum canta para o grupo, toca ou compõe, ele parece brigado com a música. Porém, ele nunca deixou de ser o músico que é. Antes de se considerar qualquer coisa, ele é um músico. Eu falei bem por cima disso no texto homenagem. Homenageei alguém que é sem precisar mostrar nada a ninguém. Eu muitas vezes me pergunto se deixo minha essência tão clara quanto a pessoa homenageada e JJ deixam.

Um lado interessante está além da qualidade. JJ é músico mesmo que não tenha a qualidade e o carisma de um mega astro, ele é quem é, não precisa sonhar em ser John Lennon. Eu, bem ou mal, me considero um artista, um poeta (não sonho em ser Drummond, mas quero ser eu mesmo) e um fotógrafo (que não quer ser o Ansel Adams). Preciso entender que eu sou apenas eu. No que isso tem de bom ou de ruim.

Até acredito que JJ tinha sim motivos convincentes para se matar. Se a coisa está ruim, essa seria uma mudança bastante radical, mas uma mudança. Não sei se eu fugi de mim mesmo de forma semelhante a ele. Espero que não, mas também me sinto muitas vezes oprimido, sozinho e perdido. A solidão vem do fato de eu simplesmente não conseguir ler e ser lido nesse mundo que me cerca. E ai falo não dos meus textos (tá eu confesso que adoro ler os comentários de quem visita este espaço), mas sim falo dos sentimentos que eu deveria sentir e entender.

Buena – Morphine

A capa do meu livro talvez seja a maior expressão dos meus fantasmas exteriores, ao menos ao meu alcance

Chegou a vez da Jess, talvez a personagem mais engraçada da história toda. Uma típica adolescente dos filmes americanos que mostram jovens desajustados. Relacionamentos tortuosos, drogas, sexo, falta de sentido na vida e alguma busca por algum prazer irreal. Esse seria um bom resumo da Jess, faltando, é claro, citar que ela é filha do ministro da educação britânico, ou seja, chama, mesmo que não queira, os holofotes para si.

Menina que cresceu com vários demônios internos após o sumiço da sua irmã mais velha. Jess encontrou no desajuste uma forma mais fácil de se fazer percebida por seus pais e em menor escala por ela mesma como parte do mundo. Ao som de Buena (clique para ver o clipe), som do Morphine como a música escolhida para o post do Martin, consigo visualizar Jess caminhando por ai com seu demônio interior e o apresentando a todo mundo que ela conhece com a maior serenidade que um ato como esse pode ter.

Não vou falar dos desajustes da garota, nem vale a pena. Acho que o melhor agora é elocubrar sobre o que a levou a subir ao edifício, e ai nem falo dos fatos, mas das sensações envolvidas no processo todo. Os demônios interiores que cada um de nós vivemos carregando por toda a nossa vida.

Jess tem o fantasma de sua irmã pairando sobre ela e sua família. Nunca digeriu o sumiço de alguém que de certa forma dava equilíbrio a sua vida familiar. Dissecando a maluca inglesa eu fico pensando nos meus demônios, nas perdas que tive, não aquelas pequenas perdas diárias que temos todos os dias e no fundo nem deveriam contar como algo que altere o nosso humor, mas sim as grandes perdas. Aquelas que nos marcam profundamente, gerando cicatrizes bastante aparentes, ou, em casos mais graves, feridas que nunca se fecham.

Essas feridas profundas fazem com que a gente não consiga mais raciocinar direito, e de certa forma fazem com que o nosso comportamento todo mude em função das perdas. Esses demônios internos demoram a ser exorcizados. Infelizmente alguns deles persistem por toda a vida. Imagine o que é para um pai viver com a lembrança da morte de uma filha num acidente doméstico que ele poderia ter evitado? Ou uma criança que nunca brincadeira banal acaba causando feridas graves a um amigo? Difícil viver com essa carga. É claro que esses são casos extremos de culpa, mas servem para exemplificar bem o que eu penso.

Entretanto, vejo meus demônios de um jeito diferente. Seria uma enorme mentira minha sair por ai falando que adoro a vida e tudo mais. Tenho demônios demais pra isso. Só que, eu não quero de maneira alguma me tornar um demônio na vida de outras pessoas. Provavelmente é isso que me mantém vivo. A total falta de sanidade e o medo de fazer com que outras pessoas sintam as mesmas sensações tristes e pesadas que eu sinto são o combustível mais real e funcional que eu tenho pra não passar do suicídio teórico ao prático.

A culpa que as pessoas erroneamente carregariam pelos meus atos poderia gerar uma grande reação em cadeia. Por mais que se diga que a culpa nunca é de quem ficou, mas sim de quem partiu, dificilmente as pessoas conseguem se isolar dessa sensação. Nesse sentido, o suicídio acaba sendo algo extremamente irresponsável. Não vou me alongar muito nesse tema, porque quero voltar a falar disso depois do post do JJ que será o próximo, mas ainda quero falar bastante disso até o final desse ano.

Return To Innocence – Enigma

Não temos o controle sobre a dor que sentimos

Continuo a semana falando de perdas. Ainda com a dor da morte na cabeça procuro seguir adiante no tema. A morte provavelmente é a perda mais traumática e a mais difícil de ser aceita, pois é a única que não tem volta. Todas as outras de uma maneira ou de outra podem ser revertidas até certo ponto. Conviver com a dor das perdas também é algo inevitável em nossa existência. Duro é encontrar a maneira correta de sobreviver a dor. Cada um cria sua forma e cada um sofre de um jeito.

Uma forma de atenuar o sofrimento por uma perda pode ser buscar dentro de si mesmo a força necessária. Eximir-se de culpa, aceitar o medo sem fazer dele um opressor. Aceitar-se como um ser humano normal que sofre como todos os outros. A música  Return To Innocence do projeto Enigma (clique aqui para ver o clipe), fala bastante nessa linha. “Não chore por ser fraco, não se orgulhe por ser forte”. Frases como essas me fazem pensar ser este o caminho mais calmo e real para agüentar toda a dor que paira sobre a gente.

O motivo que causa a dor pode ser diverso. Confesso que para o texto de hoje isso não importa. Importa é a forma como lidamos com isso. Não digo no momento inicial ou mesmo no instante máximo de dor. Mas sim depois que a crise inicial passa. No momento em que mesmo com a dor já temos que retomar as nossas idéias racionais.

Eu confesso que tenho dificuldade de lidar com algumas das dores que sinto. Provavelmente não tenha elaborado ainda o final do meu último namoro e nem sei quando isso vai acontecer ou se vai, mas isso não me impede de produzir, não chegou a me impedir de produzir nem mesmo no dia seguinte ao término. Conheço gente enterrou alguém especial de manhã e a tarde está trabalhando a toda no escritório como se nada tivesse acontecido. E também conheço gente que por queimar a resistência do chuveiro e ter que terminar um banho com água fria ficou uma semana toda fora do eixo.

Justamente nesse ponto penso na música que escolhi e no clipe da mesma. Tem horas em que é preciso fazer o caminho de voltar e realmente retornar a inocência, buscar o lado mais puro e honesto que possuímos para que tudo volte aos eixos o mais rápido possível. Admitir os pontos em que falhamos e entender que muita coisa está além do nosso controle. Aceitar essa imperfeição humana talvez seja o ponto mais duro. Mas sem aceitar isso se torna impossível aceitar qualquer perda, não somos imortais, não somos perfeitos e muito menos tão inteligentes como imaginamos. Somos apenas humanos que carregam em si milhares de qualidades e defeitos.

Como diz a música é preciso retornar a si mesmo para entender o que causa cada dor. Com isso em mãos, melhorar e buscar uma cura torna-se mais fácil. Eu sei que tenho ainda minhas curas, que algumas perdas ainda me incomodam. Diariamente eu me pergunto em que posso melhorar. Muitas vezes sublimo sim os medos que aparecem. Procuro crescer nesse ponto a cada dia. Procuro sempre voltar pra dentro de mim mesmo e ai ter forças para superar cada nova dor que surge.

Eu vi o sofrimento no rosto de algumas pessoas essa semana e confesso que isso me machucou muito. Espero que eles tenham força para seguir adiante. Foi uma perda forte, daquelas difíceis de se apagar. A única coisa que posso fazer hoje é oferecer meu ombro e meu apoio.Confesso que essa incapacidade também me incomoda. É duro aceitar que não podemos resolver os problemas que surgem diante dos nossos olhos e também dói saber que não podemos viver a dor do outro. Que essa dor seja breve.

Epitáfio – Titãs

Que as pétalas aplaquem a dor da saudade

Hoje foi um dia triste, aliás, não foi, está sendo. Acabei de vir de uma cerimônia de cremação.  A morte de uma pessoa conhecida. Esse tipo de evento sempre choca e tira o ânimo. A dor da perda é sempre forte, principalmente para as pessoas mais próximas. Ver o sofrimento do outro hoje doeu muito em mim.

Desde que nascemos sabemos que a única certeza é a da morte. Desde que abrimos os olhos sabemos que um dia não mais perceberemos que o tempo passa. Eu particularmente encaro a minha morte como algo totalmente normal. Tenho uma relação dúbia com a vida. Porém, confesso que a dor do outro me incomoda muito. Ver alguém chorando por uma pessoa que partiu machuca.

Depois de deixar as pessoas que me acompanharam em parte do trajeto, vim para casa pensando. Eu iria falar nessa semana de preconceitos, tinha até bolado a sequência, mas confesso que o que vi hoje me fez mudar de idéia. A primeira música também foi até que óbvia. Confesso que fiquei com ela na cabeça. Sempre gostei dos Titãs e das mais recentes, Epitáfio (clique aqui para ver o clipe) é uma das que mais gosto.

Essa idéia de aproveitar melhor a vida, viver ao máximo é instigante. Confesso que pensei nisso durante todo o dia. Sempre me parece que a dor da separação está mais ligada a sensação de que não se viveu tudo o que se poderia ao lado da pessoa. Esse sentimento de perda não está só na morte, mas em tudo aquilo que nos é caro, seja um relacionamento, seja um emprego, seja uma idéia.

A dor é maior quando percebemos que nada mais pode ser feito. Tudo aquilo que foi pensado e planejado simplesmente é tirado da gente. E sem chance de retomar. Tem quem consiga levar isso de forma tão leve que não se abala com nada. Tem que se desmonte a cada derrota.

As pessoas que conseguem levar a vida as últimas conseqüências, procurando aproveitar todos os segundos e tirando o máximo de proveito de cada ação talvez sejam as mais corretas. Estas nunca poderão dizer que não aproveitaram ao máximo tudo o que viveram. Estes estão sempre prontos para a morte, porque buscam a intensidade na forma de viver.

Estas pessoas vistas por muitos como irresponsáveis, talvez estejam elevando ao máximo a sua responsabilidade. A responsabilidade que cada um carrega para com a própria existência. Justamente por isso assumem riscos, tudo em nome do prazer e de marcar a sua vida como algo positivo, independente do tempo em que ela dure.

Hoje, com a dor que eu estou sentindo, a única coisa que posso recomendar ao meus leitores é que procurem viver bem o tempo que possuem, procurem encontrar o prazer existente em tudo o que fazem. Deixe boas lembranças em quem convive com você e não deixe nada incompleto. É claro que quando você partir as pessoas vão chorar por você, mas se você fizer isso, o choro será um choro de saudade como o que vi hoje e não de desespero, medo ou ódio como vi em outras situações.

Rest in Peace.