Long Long Journey – Enya

Hora de parar de chorar e tentar mudar esse mundo que eu odeio

Para encerrar as minhas impresses sobre Watchmen, vale a pena falar do meu herói favorito na história. Nite Owl, na pele de Dan Dreiberg, é o personagem que mais me agrada, principalmente pela fragilidade. Confesso que fiquei pensando no que escrever sobre o personagem, em que música utilizar. Acabei optando por uma música da Enya Long Long Journey (clique para ouvir). Ando bastante triste e queria também demonstrar isso, até porque o personagem tem uma tristeza parecida com a minha.

Dan Dreiberg herdou uma fortuna de seus pais e usou seu conhecimento para criar um maquinário baseado nas corujas para combater o crime. Com a proibição ele abandonou a vida heróica e pela forma como se apresenta, abandonou a própria vida. Não se matou, mas estagnou, seu único compromisso era o de visitar o primeiro Nite Owl uma vez por semana.

Muitas vezes penso que minha vida travou em alguns pontos como o de Dan Dreiberg. Na verdade a vida de todo mundo trava em alguns pontos, mas aqui estou para escrever de semelhanças minhas. Eu também sou fanático por corujas. No tempo da faculdade era notório o fascínio que esses animais de sistema sensorial fantástico despertavam (e despertam) em mim. Sou talvez mais tímido do que o Nite Owl e também alguém que tem um gosto latente pela ciência e de certa forma se refugia em alguns tipos de conhecimento.

Isso me ligou bastante ao personagem, tanto no filme quanto na primeira vez que li a história na minha adolescência, época em que minha adoração pelas corujas era mais evidente (não maior). O jeito triste e resignado, a necessidade de sempre agradar ao próximo de forma quase subserviente e a falta de grandes sonhos são outras características marcantes do personagem que talvez eu tenha também.

O fato mais interessante é que Dan Dreiberg só se sentia realizado vestindo uniforme e saindo a caça de criminosos. Era seu momento. As vezes penso que tenho que encontrar o meu momento. Conheço e vejo muita gente assim. Gente que como eu vive, faz as coisas que tem que fazer, mas nunca encontra esse momento, essa fagulha que faz com que tudo pareça interessante mesmo que o mundo esteja acabando diante dos seus olhos.

Aliás, essa busca por prazer é a grande busca humana. Encontrar aquilo que nos faça realmente felizes, aquilo que nos mantém vivos além de todas as conquistas. Pode ser ver o sol nascer, ter um filho, casar-se, ter um grande amor, fazer uma viagem. Cada um tem a sua motivação, por mais simples que possa parecer aos olhos de outrem, cada um sabe o que sente.

Este é, inclusive, um ponto que merece uma breve discussão. Nessa semana ouvi uma pessoa me dizer que tenho medo e sou mimado. Palavras ditas numa conversa em que eu disse de que forma encaro a vida. Pra mim ela não é realmente tudo isso. De início confesso que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Depois resolvi realmente pensar sobre o assunto (até por isso atrasei este texto) e tirei algumas conclusões. Discordo totalmente do mimado, o medroso aceito sob alguns aspectos.

Eu tenho medo sim, muito medo de assumir algumas coisas que deveria assumir. Deveria sim deixar mais claro aquilo que penso. Devo ir atrás dos meus sonhos, por mais absurdos que eles sejam. Eu acho mesmo esse nosso planeta podre, acho sim que nós seres humanos não valemos nada e o que tenho feito pra mudar isso? Pouco, muito pouco.

Eu dou aulas, ensino jovens, mas será que estou fazendo isso direito? Será que o que eu transmito a esses jovens os faz pessoas melhores? Provavelmente as aulas sirvam mais ao meu bolso do que a uma real mudança no lugar onde eu vivo. Fora do ambiente de trabalho, vivo, vejo e convivo com gente extremamente medíocre. A maioria das pessoas querem apenas o seu bem estar. Reclamam do que lhes faz mal, mas esquecem que seus atos acabam prejudicando também os outros.

Eu confesso tenho medo dessa gente. Tenho muito medo também de muita gente que trabalha comigo. Tenho paúra da grande maioria das pessoas e sou obrigado ainda a assumir que por vezes tenho medo de perder algumas pessoas que eu sei que nada valem. Pessoas que ligam pra você apenas quando é necessário, quando o calo aperta, mas quando você precisa de um sorriso que seja, está pedindo demais. Pessoas assim, aliás somos todos nós. A humanidade é assim. Eu não consigo me acostumar com isso. Sei que por vezes devo ser assim, mas isso me incomoda e muito.

Por isso, a tal bronca talvez consiga algum efeito e eu mude. Vá atrás do sonho máximo que é viver como se deve. Tentar transformar esse mundo cão nessa viagem longa, muito longa. Eu sei que vou morrer, mas que morra fazendo algo que eu realmente acredite. Que eu faça isso até cansar e quando cansar pare de reclamar da possibilidade da morte. Aliás morrer tentando criar um lugar em que eu acredite não será má ideia.

Que todos sejamos como Nite Owl, encontremos nosso caminho e sigamos por ele até o fim, de forma honesta e verdade com a única pessoa que importa. Nós mesmo.

It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) – R.E.M.

Temos que ter coragem para seguir adiante buscando uma nova fonte de luz

Falei da dor das perdas que sentimos. De como é duro sobreviver a isso. Entretanto, sempre tem um entretanto, é possível tirar algo de positivo dessa dor toda. Geralmente, nos momentos de maior dor e desespero é que surgem as grandes mudanças. Saber aproveitar esses momentos de dor de forma produtiva é difícil, mas necessário.

A morte de um ente querido, a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, qualquer coisa que cause dor não pode nos deixar inertes para sempre. Na verdade, após o desespero inicial, é preciso que sejamos fortes o suficiente para mudarmos o mundo. A música que escolhi hoje fala um pouco disso. Gosto bastante do som produzido pelo R.E.M., banda americana que nasceu em 1980. Escolhi It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) (clique aqui para ver o clipe), porque a música fala de um mundo novo. Diz que chegou o fim do mundo que nós conhecemos e nós gostamos disso.

No fundo a proposta ideal é essa mesma. Acontecem tempestades diversas na nossa vida, coisas que mudam a direção do vento que nos empurra adiante. Essas tempestades não estão ai pra nos atrasar. Acontecem porque coisas ruins infelizmente acontecem e se nós conseguimos mudar de direção quando diante de situações críticas então significa que somos plásticos o suficiente para sobreviver nesse mundo maluco.

Um mundo, aliás, que muda a todo instante. O que é certo agora será errado daqui a uma semana. O que amamos agora será motivo de ódio daqui a algum tempo.  Essa mudança repentina de direções deixa qualquer um fragilizado, ainda mais quando se sofre algo ruim enquanto as coisas mudam e não temos tempo de nos adaptar a essas mudanças.

É como estar num longo relacionamento, de repente ele acaba e a gente não sabe mais o que fazer. Não sabe mais paquerar, não sabe mais sair de casa, não sabe nem mais ir o que comer sozinho. O mundo muda nesse tempo em que você. É a sensação de chegar num novo emprego, onde não se conhece ninguém. As pessoas todas parecem apressadas aos nossos olhos, por mais receptivas que sejam. Demora até que estejamos preparados para esse mundo novo, mas temos que entrar de cabeça. Porque o mundo que conhecemos acabou, é hora de aproveitar o novo.

Acompanhar essas rápidas mudanças (ainda mais porque só sentimos as rupturas quando elas nos causam dor) é extremamente difícil. Fico pensando em crianças que perdem os pais, em pais que perdem os filhos, chefes/as de família que perdem o emprego ou simplesmente pessoas que perdem seus sonhos e desejos. Gente que tem que encontrar força para continuar seguindo em frente.

Fico pensando em mim. Nos meus sonhos irrealizados. Confesso que muitos deles ainda povoam a minha mente. Mesmo aqueles que hoje sei serem impossíveis de realizar. Tem coisas desse novo mundo que ainda são impossíveis para mim. Eu ainda vivo preso ao mundo antigo, ou pior, vivo preso a desejos antigos que sei que não vão se realizar. Fiquei pensando muito nisso durante esta semana. Será que vale a pena sonhar ou lutar por algo que não está mais ao seu alcance? Vale a pena sentir essa dor? Vale sofrer?  Às vezes penso que eu gostaria de ser tão forte quanto as pessoas que vi chorando nessa semana. Gente que certamente em breve se lembrará das lágrimas que derramou e fará delas combustível para seguir adiante no novo mundo que se formou. Será que um dia eu consigo seguir adiante?

The Invisible Man – Queen

O inseto se aproveita da semelhança de cor e aparente textura entre ele e a folha para se proteger de predadores

Todos temos nossos ídolos. Eu tenho vários, e essa semana tenho falado de alguns. Como gostaria de finalizar a semana falando do que mais me atrai, deixei Bates para o final. Ele de certa forma acabou se tornando o maior exemplo humano para mim. Fez o que tinha que ser feito, para os padrões de sua época tinha quase nenhum tipo de preconceito, falava com negros e índios numa época em que ambos eram considerados sub-raças pelos brancos europeus.

Darwin e em menor instância Wallace ficaram famosos pela teoria da Evolução usando seleção natural. Porém, os trabalhos de Bates com os insetos amazônicos foram fundamentais para que as idéias de Darwin se tornassem aceitas. E nem mesmo assim ele figura entre os mais famosos, até mesmo entre as pessoas da área. Na faculdade de Ciências Biológicas ouvimos sim falar de mimetismo, mas pouco ou nada ouvimos falar do homem que organizou o conceito a partir de suas observações.

Escolher a música pra servir de trilha hoje foi difícil, ficou horas fuçando na internet até achar alguma idéia legal. Ai acabo revisitando uma banda que gosto pra caramba. O Queen é uma das bandas de rock mais famosas de todos os tempos. Infelizmente acabou com a morte de Freddie Mercury, vitimado pelo HIV. The Invisible man (clique aqui para ver o clipe), é um rock gostoso de se ouvir o o clipe me remete também a minha infância (o vídeo game do garoto com certeza é um Atari), mas isso é papo para outra postagem.

Acho que vale a pena falar do que Bates descobriu. Coletando insetos na Amazônia, ele descobriu que animais de grupos diferentes eram muito parecidos entre si. E que sempre um dos grupos era venenoso, pouco palatável ou causava medo em possíveis predadores. Essa imitação ficou conhecida por mimetismo.

É claro que esse é um processo longo, nem vamos entrar no mérito de como isso acontece, mas vale a pena ressaltar que isso realmente é observável na natureza e ocorre. Vale também ressaltar que o nosso comportamento dentro da espécie também tende em muitos casos a ser mimético.

É comum imitarmos nossos ídolos, aliás, é por isso que os temos. É comum vestir algo que seja da moda, comer o que todo mundo próximo como, agir como um grupo, para ser reconhecido como parte dele e forçar a uma leitura prévia sem que seja preciso aproximação e conversa. É o que ocorre na natureza, seres imitam outros querendo passar a mensagem de que são como os imitados, venenosos, amargos ou poderosos, ou ainda, como no caso de uma aranha que imita uma flor, atrativos a ponto de enganar possíveis presas. Ou ainda, tornar-se invisível aos olhos, como sugere a música do Queen.

Essa descoberta foi algo super importante para a história da ciência que eu mais curto. Porém não é esse o motivo principal de Bates ser meu ídolo máximo. Gosto do Bates por, segundo seus biógrafos, ele ter sido um cara normal dentro de um meio onde sempre existiram pessoas afetadas e cheias de si.

Bates era comum, caminhava com os negros e índios, trabalhou numa fábrica antes de vir ao Brasil. Quando voltou para a Inglaterra teve um trabalho burocrático que lhe permitiu manter a sua família. E ainda fez descobertas, cerca de 8000 novos animais só na Amazônia e principalmente o mimetismo. Mesmo assim, nunca foi tão famoso a ponto de ser celebrado.

Com certo romantismo em minha fala, chego a vê-lo imitando o homem comum, passando praticamente invisível de toda a badalação de seus colegas mais famosos como Darwin e Wallace.

De certa forma eu procuro isso para minha vida, o prazer em fazer o que tenho que fazer, sem esperar reconhecimento e glória, apenas a satisfação por fazer bem feito. E principalmente tento ser gente comum, gente como a gente, alguém que se policia buscando expurgar todos os preconceitos que infelizmente ainda tenho.

Homeworld – Yes

Kepler imaginou que encontraria a força divina em suas observações, mesmo a negação de suas crenças não o fez desistir

Finalmente vou poder fazer uso da minha banda predileta. Aquela que eu gosto de ouvir sempre que fico nervoso, irritado ou pensativo. A maioria das músicas do Yes, não possuem, digamos assim, um sentido muito claro para alguém declaradamente cético como eu. As músicas são em geral bastante pautadas em cima do fantástico, só falta citarem gnomos e fadas em versos soltos bastante Nova Era. Entretanto as melodias produzidas me fascinam. Gosto de ouvir mesmo. E justamente para o que eu quero falar hoje uma das músicas serve perfeitamente.

O personagem de hoje é Kepler, matemático e astrônomo/astrólogo alemão que viveu entre os séculos XVI e XVII. Ficou famoso por formular as 3 leis fundamentais da mecânica celeste. Sua história sempre me fascinou, a ponto de eu fazer dele um de meus ídolos. Isso, graças a forma como ele chegou em sua principal descoberta, a forma como ele viveu.

Justamente por isso Homeworld do Yes (clique aqui para ouvir a música). A letra fala da busca por uma luz verdadeira. Justamente uma busca parecida com a que Kepler teve. Eu, em brincadeiras com amigos comento que gosto do Kepler por ele ser o cara mais “zicado” da história da ciência. Pela versão de sua vida que eu ouvi de uma professora de física no colegial (hoje chamado ensino médio), Kepler foi alguém que sempre se deu mal em sua vida, mas nunca desistiu e até sua maior vitória lhe trouxe dor, pois derrubou aquilo que ele acreditava.

Kepler era um protestante que perdeu emprego num mundo onde católicos e protestantes brigavam. Perambulou até chegar a Tycho Brahe, uma pessoa que ele não gostava (segundo a versão que ouvi e agora repasso). Com a morte de Brahe, um exímio observador apesar de seu comportamento questionável, ele acabou recebendo seus dados e com as observações de Marte conseguiu perceber que a órbita desse planeta é uma elipse.

Ai está a grande perda de Kepler. Uma de suas frases é “Os céus contemplam a glória de Deus.” Ele acreditava cegamente que pelo fato da circunferência ser a forma geométrica perfeita, Deus só poderia fazer com que as órbitas de todos os planetas fossem também circunferências, pois seriam a representação da força divina.

Ainda pelo que conheço da história de Kepler, ele sofreu em diversas outras áreas de sua vida. Teve problemas de pele, sua mãe foi acusada de bruxaria e viu seus entes mais próximos morrerem, fora a perseguição religiosa que sofreu. Mesmo com tudo contra ele ainda conseguiu produzir muita coisa e seguir a sua vida.

Ter publicado seus dados mesmo sendo algo muito doloroso para si, pois mexia com aquilo que lhe era mais caro (sua crença), faz de Kepler um herói para mim. Ele entra no rol dos personagens estilo super-heróis antigos, que fazem as coisas que tem que ser feitas, independente sofrerem por isso. Essa postura é algo que eu busco, tento fazer aquilo que acredito ser certo, mesmo que respingue em mim, confesso que nem sempre consigo.

É claro que muitos biógrafos dizem que ele era uma pessoa de difícil trato, chato pra caramba pra ser mais honesto, que como professor era péssimo e talvez a perda do emprego por motivos religiosos tenha sido bom para seus alunos de matemática. Claro também que sou o oposto dele, eu sou cético e ele era um religioso fervoroso, além de acreditar na astrologia, algo que confesso não me atrai. É correto também, afirmar que em sua época todos os astrônomos eram também astrólogos e fazer previsões para os reis era uma de suas atribuições.

Porém, eu reitero o que já disse em outros posts, transformo em ídolos pessoas por pequenas coisas, cada um tem algo a ser visto com ótimos olhos. No caso de Kepler, o sentido de dever, algo que busco sempre conseguir. Continuo esperando os ídolos de vocês que visitam este blog. No domingo falarei de outro cientista.