Singing in the Rain – Jamie Cullum

 

Depois de muito tempo hoje chove. Sinto até um aroma diferente no ar. Sentia falta da chuva, fica muito mais fácil respirar. Claro que eu não planejei sair de casa hoje, por isso a chuva não me atrapalha. Num fim de semana também o trânsito é menor, a pressa é menor, assim a chuva pode até ser curtida.

Escrevo isso depois de uma semana corrida, pouco tempo para dormir, menos tempo ainda para pensar e até passar por aqui. Falta tempo para tudo. Talvez por ter sobrado um pouco de tempo é que consigo hoje curtir a chuva. Ouvir ela bater no vidro da janela e tentar observar os desenhos que ela faz enquanto escorre pelo vidro, se torna uma brincadeira bastante divertida.

Coisas que antes eram bem normais de se fazer, deixar o tempo passar e não se sentir culpado por isso. Curtir o ócio e fazer dele a base para mais um período produtivo. Hoje isso não acontece mais, é só o tempo. Ele nos domina e muitas vezes nos vence. Ele nos regula e frustra, mostra como somos imperfeitos a todo instante que perdemos preciosos segundos relaxando, pensando em nosso próprio bem.

Hoje parece que tudo tem que ser feito as pressas. O  tempo sempre nos cobra algo como se ele fosse a única divindade a ser cultuada. Eu que sou ateu, tenho me visto cada vez mais cultuando o tempo. Adepto que sou da tecnologia, cada vez mais faço uso dela pra diminuir o tempo gasto em cada atividade. E o que faço com o tempo que me sobra? Arrumo mais coisas para fazer. Tudo em honra ao tempo e nunca para o homem que em teoria deveria usufruir de sua própria vida.

O grande problema dessa grande soma de atividades e busca constante pela maior produtividade está na mecanização dos atos. Falta curtir cada momento. Falta poder escrever um post como esse e poder refletir sobre o que me levou a escrevê-lo. Falta ter paciência para cozinhar um jantar mais elaborado para mim mesmo. Falta curtir uma música do começo ao fim enquanto faço nada.

Hoje foi a chuva que me fez perceber isso. Com ela a luz acabou, e eu fiquei um tempo ouvindo seu som batendo na janela e vendo os desenhos formados (eu sei já falei isso aqui no texto, mas vale a pena retomar, não será tempo perdido). Depois fui rascunhar uns textos por diversão, sem pressa e finalmente resolvi vir aqui fazer o texto do blog, isso assim que a luz voltou. Mas tudo isso sem pressa. Tudo isso no meu tempo. Dessa vez quem comanda o tempo sou eu e não o contrário como geralmente ocorre.

Nessa tarde divagando, pude pensar em como tenho aproveitado pouco meus momentos. E o pior é perceber que muitas das pessoas que convivem comigo sofrem do mesmo mal. Almoços corridos, horas no trânsito, pouco tempo em casa com a família, poucas horas de sono. E de quem é a culpa disso? Nossa, a gente que se embrenha cada vez mais no produzir e fazer. Acabamos por vezes esquendo o ser. Acabamos reduzidos somente a nossas ações porque sobra pouco espaço para nossos pensamentos e para a nossa essência.

Por isso agradeço a chuva de hoje, ela me deu tempo pra pensar em mim. Fui buscar também uma música bem antiga. Singing in the Rain, canção do filme homônimo de 1952. Época onde se tinha muito mais tempo. Hoje não consigo imaginar alguém dançando como Gene Kelly, brincando e dançando entre as poças. Já não temos tempo para “perder”com isso. E justamente para me lembrar disso é que coloquei a versão de Jamie Cullum, mais moderna e apressada, interessante, mas sem a graça e a leveza presentes na dança do antigo filme.

Você também se sente brigando com o tempo? Se sente sufocado? Pare um pouco, respire e se dê o direito de agir como Gene Kelly, totalmente despreocupado e senhor do próprio tempo.

2 respostas para “Singing in the Rain – Jamie Cullum”

  1. hum… acho que vc ja nao é mais ateu… sinto que vc é, assim como eu um adorador do tempo, um admirador de sua grandeza e invencibilidade… lindo texto Alex e a musica muito gostosa de se ouvir… consegui até ouvir ela inteira, enquanto almoço no escritorio, em frente ao computador, trabalhando em pleno domingo… mas enfim eu amo muito tudo isso! e forçar nossa natureza nem sempre é o melhor caminho, mas pra mim tb a chuva e ontem, por ser rara trouxe mtas mensagens, mtas reflexoes, um otimo domingo pra vc!

  2. Delicia de música, delícia de texto…
    Pela primeira li o texto do blog ao som da música rs, obedecendo o ritual proposto…

    “O tempo sempre nos cobra algo como se ele fosse a única divindade a ser cultuada”
    O tempo é a moeda mais rara,, não se vende , não se compra. Talvez essa sugestão de culto o faça render rs

    Boa semana

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