Piruetas – Os Trapalhões

 

 

Fazia tempo que eu não ia ao cinema. Aproveitando as férias acabei optando logo por uma sessão dupla. Coisa que eu só faço as vezes em casa. Onde junto a turma, escolhemos o filme, cada um traz um petisco e a gente assiste os filmes discutindo sobre eles. É mais motivo pra bater papo do que uma sessão de cinema propriamente dita.

O espaço cinema pra mim é um pouco diferente disso. Não permite todo esse falatório. Apesar disso, eu ainda acho o cinema um ato coletivo. Pra mim ir ao cinema tem quase sempre 3 estágios, o primeiro é o escolher o filme, o segundo ver o filme propriamente dito e o terceiro discutir com a companhia as impressões sobre o filme. Isso vale mesmo que não seja algo exatamente inédito para quem assiste, afinal dependendo do estado de espírito de cada um, a mesma obra pode ter leituras diferentes mesmo com o passar do tempo.

Cada um tem o seu ritual, eu confesso que não ligo tanto assim para o barulho da sala, eu me ligo apenas ao filme, só a tela me prende a atenção. Tem gente que se irrita com qualquer comentário feito. Exige silêncio total para curtir a sessão, abolindo até mesmo a tradicional pipoca, achando isso uma afronta a arte. Eu sou daqueles que acredita que a arte deva ser sempre popular. Sou dos que acha que a interação deveria ser sempre calorosa, que o público deveria poder expressar de forma mais firme o que sente. Isso é algo que as vezes me incomoda nos concertos e em algumas peças de teatro. Os concertos até possuem preços populares. Super barato assistir apresentações no Municipal de São Paulo ou até mesmo na Sala São Paulo, mas uma parcela da população simplesmente se vê expulsa desses locais justamente por achar que não pertence a esse espaço.

Pertencer, aliás, pra mim é um dos grandes desafios da arte. Num dos filmes que vi na segunda-feira talvez esse tenha sido um dos aspectos que mais me chamou a atenção. Em O Palhaço, uma trupe de circo vive no limite indo de cidade em cidade sempre com a dificuldade recorrente da carreira, mas fazendo rir quem os assiste nas pequenas cidades desse Brasil enorme.

Eu cresci ainda vendo o circo como algo popular. Bem antes da existência por aqui de espetáculos como os do Circo da China ou o Cirque du Soleil. Circo era coisa de criança, palhaços, mágicos, alguns acrobatas, eles tinham bichos, leão, cavalo, elefante. Eram montados nos terrenos baldios dos bairros afastados das cidades. Era um acontecimento ir ao circo. Me lembro de ter ido em dois que foram montados perto da minha casa na periferia de São Paulo.

E os artistas queriam ver a alegria do povo. Queriam os risos, as sensações, as brincadeiras, as falas. Queriam o povo se expressasse, afinal o espetáculo era para eles. Eu, durante o filme tive essa mesma sensação de criança. Me lembrei até dos filmes dos Trapalhões que gostava de ver na minha infância. O filme pra mim teve cheiro de infância, faltou só vender algodão doce no cinema. Hoje, bem mais velho, penso que justamente o que mais me atraia no circo era essa ideia de ser um espetáculo feito para se extravasar. O riso e o choro eram não só permitidos, mas algo que o artista desejava. Comentar com alguém do lado sobre uma mágica feita ou uma brincadeira do palhaço era até certo ponto estimulado.

Talvez porque para esse tipo de artista, a arte é feita para o público, ele devota o público e não exatamente espera ser devotado. Nos concertos a impressão que tenha é justamente outra, no teatro também, o artista espera devoção por seu trabalho e por isso o silêncio e a hora certa para o aplauso. Eu confesso que até hoje não entendo o motivo de ter que se conter tanto para algo que se vende como expressão de um sentimento. Sigo as regras quando vou, mas entendo quem não se controla. Algumas vezes a música é tão bela que dá mesmo vontade de aplaudir.

Isso leva a outra breve discussão também. Parece que é algo bonito se conter. Parece que mostrar-se contido em relação ao que se sente é sinal de cultura. É sinal de inteligência, é sinal de estilo. Confesso que pra mim é sinal de medo e de vergonha.

Reparem como as pessoas mais simples costumam ser muito mais autênticas com seus sentimentos. Reparem como deixam claro o que gostam e o que não gostam, como aplaudem ou vaiam com muito mais autenticidade, pelo simples fato de gostarem ou não de algo. Reparem como pessoas que não são tão contidas conseguem muito mais felicidade em seus relacionamentos, afinal falam e buscam o que sentem. Falam e buscam o que são. Não precisam viver personagens, nem se conter, preocupam-se apenas em ser e viver.

Nesse ponto as crianças são imbatíveis, sempre sorrindo ou emburrando sem ligar para o que pensam delas. Sempre são autênticas. A gente quando cresce perde isso. Quando cresce passa a ter vergonha dos próprios sentimentos e sensações, passa a julgar o outro e a se julgar.

Falta se preocupar um pouco mais com a felicidade e menos com a aparência, geralmente pompa e circunstância não nos levam a lugar algum. Só criam um ambiente cheio de regras que muitas vezes não são entendidas nem por quem as cria.

É nesse ponto que eu sinto mais saudade do circo. Mais saudade do palhaço, que hoje virou clown e não pergunta mais se tem goiabada e marmelada. Sinto saudade da mágica simples e anterior ao mister M. Isso o filme reacendeu em mim. A busca pela simplicidade. O desejo de ir a um restaurante não pela fama e pela forma, mas sim pela comida. De ouvir uma música do meu jeito, ler um livro que me agrade ou até mesmo ver um programa idiota na TV.

Esqueça as aparências e deixe florescer o palhaço que existe dentro de você. Seja feliz e brinque, pule e dance se assim achar que deva fazer. Aplauda e elogie aquilo que gostar sem medo de ser repreendido. Viva, apenas viva. E curta muito, afinal a vida é simples, a gente que complica tudo criando regras que geralmente servem apenas para conter os nossos melhores sentimentos.

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