Footprints – Miles Davis

 

 

Sempre que a gente caminha acaba deixando marcas por onde passa. É esse o mote dos poemas que estou escrevendo agora. Eu tento retomar as marcas que fizeram em mim, as marcas que eu fiz nos outros, as marcas que apesar de não serem visíveis na minha pele, me ajudaram a ser quem eu sou hoje. Hoje me considero fruto de todas as marcas que recebi na vida. Como se os espinhos tivessem cortado a minha essência de tal modo que as feridas feitas criaram cicatrizes que nunca vão sumir.

No meu primeiro livro até fiz um poema que fala um pouco disso, como nos versos abaixo:

Eu tenho marcas no rosto

Dessas que não se apaga

Não como as ondas de um mar revolto

Que assinam e apagam sua ira na praia

Eu penso tenho pensando nessas marcas já a um bom tempo. Domingo passado pensei muito mais, aliás. Fui ver uma exposição no Sesc Pinheiros sobre a obra do Miles Davis. Já disse aqui que gosto de jazz, mas estou longe de ser um grande conhecedor do tema. Por sorte fui acompanhado de uma amiga que realmente entende do assunto e adora música. Aprendi muita coisa, descobri uma série de informações que eu nem sequer sabia serem possíveis, como o fato do Miles Davis ter gravado com muita gente bem mais pop e atual. Eu só o conhecia pelos seus sons mais antigos lá nos anos 50 e 60.

Ali percebi como a sua obra foi sendo modificada ao longo dos anos, sem perder a qualidade ele passou por diversas vertentes da música (limitá-lo ao jazz seria limitar a sua obra) e influenciou muita gente. Seus passos até hoje são seguidos. Seguir os passos, aliás é algo complicado e ao mesmo tempo interessante.

Por isso a música escolhida. Footprints (pegadas), composição do Wayne Shorter inicialmente gravada pelo Miles Davis Quintet no período em que Shorter fazia parte da banda. A música serve pra me lembrar e me fazer pensar em todas as pegadas que segui na vida. Em todos os caminhos já traçados que usei como atalho para evitar assim mais cicatrizes e ao mesmo tempo para ter força e ânimo para de repente dar um passo adiante.

Quem nunca seguiu as pegadas de alguém? Acho que não conheço ninguém que tenha escapado disso. Todo mundo busca exemplos e tenta assim encontrar os melhores caminhos para a sua vida. Chego ao cúmulo de ver gente que segue assustadoramente os caminhos traçados por personagens fictícios de livros, filmes, novelas, etc.

Eu segui as pegadas de muita gente, sigo até hoje esses atalhos quando encontro. Tudo isso para evitar mais cicatrizes daquelas que nunca realmente se curam. O próprio Miles Davis teve suas cicatrizes fortes. O racismo pra ele foi algo extremamente pesado. E isso aparece em diversos momentos de sua obra, como quando ele conseguiu colocar mulheres negras nas capas dos seus discos, algo impensado naquela época.

Assumir a sua dor e o que incomoda é pra mim a grande lição do jazz. Música que nasceu negra, para negros e que depois ganhou tonalidades multiraciais. Para mim, o jazz como ritmo representa em suas origens a linguagem de quem se sentia excluído e reprimido. Talvez por isso a sua execução seja tão livre e o virtuosismo seja tão celebrado entre os músicos de jazz. A virtuose é a chance de se mostrar quem se é e até onde se pode chegar com suas idéias. O improviso é a cereja nesse saboroso bolo musical. Onde os jovens músicos sempre iniciavam em bandas de músicos mais experientes e respeitados, até acharem-se prontos para seguirem seus próprios passos depois de terem aprendido muito com os passos de outros músicos.

Nesse caminho, além das pegadas surgem as cicatrizes. Por isso que não são todos iguais. Por isso cada um toca do seu jeito, cada um fala do seu jeito. Porque não é apenas repetir um caminho tortuoso de forma mais tranqüila. Infelizmente surgem para cada um novas marcas. Coisas que quem sabe possam servir de pegadas para quem vier depois. Coisas que podem servir para evitar que mais pessoas sofram com o mesmo problema, fazendo com que nas canções novas dores sejam incorporadas a cada nova apresentação.

Se hoje eu penso nas pegadas a serem seguidas, no próximo texto quero falar das cicatrizes. Quero falar daquilo que marca profundamente mas mesmo assim ninguém vê. Enquanto isso. Curta o som do Miles Davis e seu quinteto. Música de qualidade para leitores de qualidade. Aliás, tem alguma pegada que você tenha seguido que acha que deve ser compartilhada? Aproveite, o espaço é todo seu, faça seu solo a vontade.

2 respostas para “Footprints – Miles Davis”

  1. Adorei Alex,você escreve incrivelmente bem! e esconde muitas coisas atrás do seu jeitão queto na escola hein ! haha.Parabéns,adorei mesmo,e a música também,rs.Gosto muito de ouvir Miles ! Beijãoo.(:

    1. Valeu pelo comentário, Mayalú. Não diria que escondo coisas por ser quieto, provavelmente as pessoas me encarem apenas pelo que observam, basta lembrar que quem nunca teve aula comigo costuma ter medo de mim, quem tem aula comigo sabe que eu sou bem mais brincalhão do que parece e as sutilizas escritas infelizmente não conseguem entrar numa aula, sobra pro texto mesmo.

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