Skin Deep – Duke Ellington and his Orchestra

 

 

Se no post do meio da semana eu falei das pegadas que eu sigo, que todo mundo segue, hoje é dia de falar da outra face desta mesma. Se tem aqueles que nos servem de exemplo, existem também aqueles que de uma maneira ou de outra acabam mudando as nossas vidas. São cicatrizes doloridas que marcam profundamente a nossa pele. Marcas que ninguém vê, mas que sempre tomam conta da nossa mente e de nossas ações

Enquanto as pegadas são seguidas de forma consciente, a gente sabe o que está fazendo. As cicatrizes são forçadas. A gente recebe as marcas, feitas como se fosse ferro quente, sem nem ao menos ter escolha. As coisas acontecem e sem que a gente perceba já está lá aquela marca que nunca vai se apagar.

Meu próximo livro vai versar um pouco sobre isso. Quero falar das diversas cicatrizes que me transformaram naquilo que sou. Naquilo que eu acredito ser o que de melhor (e pior) pude reunir de todas as relações humanas que já vivi.

2011, nesse aspecto, foi um ano atípico. Nunca trabalhei tanto e ao mesmo tempo nunca me vi tão cheio de contato com outras pessoas. Eu que geralmente me sinto reservado e até certo ponto isolado do mundo, me vi como um ser necessariamente social. Se gostei disso? Não sei, confesso que simplesmente vivi cada momento, tentando aproveitar cada minuto como se fosse o último. De certa forma é um pouco assim mesmo. Não dá pra reviver um segundo perdido. Ou a gente faz aquilo que acredita que deve ser feito ou simplesmente desiste e não toca mais no assunto. Se vier a fazer em outra oportunidade, já não será mais da mesma forma que seria na oportunidade inicial.

Nesse ponto, tanto 2011 como o início de 2012 propuseram desafios bastante interessantes. Tive que fazer muitas escolhas em cima da hora. Em muitas delas acabei não tendo a coragem necessária pra fazer o que deveria ter feito. Isso traz a tona a fraqueza de assumir algumas conseqüências. Afinal o medo de correr riscos é o medo de viver tudo o que o outro tem a oferecer. É proteger-se dentro de uma redoma de vidro onde nada lhe toque. É fugir de qualquer possibilidade de uma nova marca sob a pele. Algo que tanto nos modifique quanto nos faça mudar a maneira de agir e pensar.

Por isso tenho arriscado mais. Isso se reflete em muitas coisas. Voltei a ouvir coisas que não ouvia a tempos. Tanto por estímulo de pessoas próximas quanto por perceber que o mundo não tem o menor interesse nas minhas escolhas. Assumir a própria insignificância é o que me fez perceber que não preciso ter tanto medo do outro. O outro está sim pouco se lixando pra mim.

Assim, posso ir para a academia ouvindo jazz (a minha playlist dessa semana da academia dava um post bem engraçado, aliás). Posso ler os livros que eu quiser e discutir com quem quiser. Posso assumir meu lado nerd e ser feliz com isso. Claro que posso mudar com o tempo. Posso adquirir novos hábitos, novos gostos, novas ações. Tudo graças a novas pessoas que vão pouco a pouco sendo incorporadas em minha vida e vão pouco a pouco deixando suas marcas em mim sem que eu perceba.

Por isso mais um retorno ao jazz. Hoje uma gravação da banda de Duke Ellington de uma música chamada Skin Deep. Uma das coisas mais legais do jazz e que mais tem a ver com esse texto (eu sei que devo direitos autorais por essa fala, mas apenas fica a promessa de se uma nova oportunidade acontecer, arriscarei e farei o que acho que deve ser feito), É o fato de que a mesma música ganha contornos completamente diferentes dependendo de quem está interpretando. Algo com muito mais vigor do que ocorre, por exemplo, no rock ou na MPB, onde as versões até são bem diferentes dos originais, mas não trazem tanto o peso do intérprete assim.

Um exemplo talvez seja Miles Davis (citado no post passado), existem músicas suas que aparecem em diversos discos seus, e cada gravação é totalmente diferente das outras, dependendo principalmente dos músicos que formam a banda no momento. Cada um traz um pouco de suas próprias vivências e gostos e acrescenta um pouco mais de tempero no caldeirão musical, criando assim uma obra totalmente diferente e deliciosamente nova a partir de uma partitura que serve como base.

Outro lado interessante disso é a forma como os músicos de jazz acabam se formando (mais direito autoral reservado da informação… rs). Começam em bandas e com o tempo saem dessas bandas criando as próprias. Cada um leva sempre algo novo e no fundo o papel do líder da banda é apenas o de reunir o grupo que vai tocar e definir as bases do som, a partir de onde cada um vai poder criar a vontade, deixando suas marcas na música.

Talvez essa seja a leitura mais próxima do acontece com a gente no cotidiano. Quando a gente se abre ao mundo, cada um que se aproxima vem e nos marca de alguma forma. Acrescentando coisas que a gente nem se dá conta. Você se lembra de marcas que tenha recebido das pessoas do seu convívio? Alguma história interessante? Curta o som e nos conte. Essa semana eu volto a dar aulas, tentarei manter a freqüência de dois textos por semana, veremos se consigo. Se a galera que vem por aqui pedir, acabo arrumando tempo pra escrever.

2 respostas para “Skin Deep – Duke Ellington and his Orchestra”

  1. É por essa e outras razões que digo e repito: o jazz é a arte do essencialmente humano; ele não tem medo de se criar, através do improviso, diante de quem o escuta; o jazz não tem medo de apresentar falhas porque nada é perfeito.
    Quando o Bird tocou Loverman, gravação de 1946, e compareceu à gravação totalmente bêbado e drogado, fez uma das gravações mais incríveis da história do jazz. Uma gravação cheia de erros, de hesitações e também a coisa mais humana que já escutei na vida. Porque somos assim, erramos, hesitamos… Ele era um viciado, não podia deixar essa parte de si mesmo fora de sua música. E não tem problema que seja assim. Toda perfeição, a meu ver, não passa de desejo de perfeição e também acho que o mais milagroso disso tudo é sermos tão falhos e belos ao mesmo tempo. Por isso também me irrita quando dizem que Beethoven falahava na composição de certas sinfonias… O que é falhar, no que se refere à arte? Eu não saberia dizer…

    1. Estou numa fase de tentar aprender a ser mais livre e arriscar mais a ter menos medo do que acontece e a aceitar mais as cicatrizes que venho recebendo. Para isso, pessoas como vc são essenciais nesse meu momento. Confesso que preciso agradecer a todos que de uma maneira ou de outras participam desse meu momento atual.

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