Mulheres de Atenas – Chico Buarque

 

 

Hoje, dia internacional das mulheres, passei pela cidade travada pela falta de combustível tentando transmitir uma doçura que normalmente não se vê por ai. No trabalho as mulheres receberam flores e justas homenagens. No trânsito, no mercado, na farmácia, rosas eram o acompanhamento oferecido para as damas em troca de qualquer movimento.

E elas merecem, nem me passa pela cabeça dizer o contrário. Mas ainda acho que merecem mais que isso, a sociedade merece mais. Falo isso pensando numa das grandes mulheres de minha vida. Minha mãe, que foi operada nesta semana. Por isso até eu me afastei daqui por uns dias. Meu último texto tem mais de uma semana. Passei esse tempo todo (e na verdade um bom tempo antes disso) pensando nela, no seu sofrimento e sofrendo junto o seu medo.

Passei esse tempo voltando no tempo e pensando em seu papel. E com o dia das mulheres chegando, foi impossível me afastar da ideia de retomar as mulheres que me fizeram ser quem eu sou. As mulheres em quem me espelho para balizar cada ação minha. Pensei também naquelas mulheres que morreram carbonizadas em 1857, na sua luta por direitos.

O sofrimento de minha mãe (ainda bem que hoje já em casa, em processo de recuperação), justamente perto dessa data, me faz pensar no sofrimento das mulheres, que verdadeiramente não cessou. Aliás, é pra isso que serve o dia, nada contra as flores, nada contra os agrados e abraços, tudo contra a hipocrisia dos que apenas afagam num dia para no outro esbofetear a face terna que hoje sorri ao receber o merecido presente.

Cumprimentei veladamente todas as mulheres que vi durante o dia, sou tímido, quem me conhece sabe disso, mas também sorri quando vi boas demonstrações de afeto, principalmente de quem eu sei que respeita qualquer um, independente do gênero.

Aliás, ser mulher em muitos casos é ser apenas uma das imensas minorias largadas no nosso povo. Minha mãe mesmo, além de mulher é negra e cresceu pobre (hoje ainda longe de ser rica, talvez consiga ser chamada de classe média, apesar das contas pra pagar que todos temos). 3 grupos marginalizados numa só pessoa. Porque ser mulher ainda é ganhar menos, muitas vezes ser vista como objeto. Ser negra ainda é ser vista como inferior, já foi pior, mas ainda tem quem ache que a cor da pele realmente signifique algo, coisa comum na longínqua infância dela. Ser pobre, parece ainda pior. Ser pobre é não pertencer a nenhum grupo senão o de excluídos, criminosos só pelo fato de não possuírem.

Podia ser pior. Imagine uma mulher negra, pobre, deficiente e homossexual? O que não sofreria? Imagine o inferno que se tornaria a sua vida? Elas devem existir e devem sofrer como cão abandonado. É estranho ver isso acontecendo no mundo novo em que vivemos. Importa menos caráter e mais gênero, menos hombridade e mais dinheiro no bolso. Pouco importa se você rouba, o importante é ser rico. É permitido ser mal educado desde que se apresente como heterossexual e toda violência é permitida desde que você não apresente aos olhos do mundo alguma deficiência.

Por isso eu acho tão estranho os gestos falsos de carinho nesse dia. De gente que afaga e depois ataca com a mesma mão. Por isso eu agradeço viver para ver que mesmo que um pouco menos, a gente já não crê serem perfeitas as cantadas mulheres de Atenas. Que elas agora são livres, pouco a pouco se libertam para serem aquilo que desejarem, como são livres os homens.

Espero sinceramente viver para ver um mundo onde independente de sexo, raça, cor, credo, orientação sexual, perfeição física ou qualquer outro mote que só sirva para separar, cada um possa ser livre para viver como quiser e não apenas como puder e a sociedade mandar.

Quero ver um mundo livre como o que me foi ensinado pela minha mãe, mulher de fibra e pouco estudo que muito me ensina até hoje e que me faz torcer ao seu leito por sua breve melhora. Mulher que viveu como quis, foi de Atenas, foi de Esparta, foi de todas as cidades estado que passaram diante do seu pensar. Foi livre pra escolher e ensinar seus filhos a viver. Foi (e é) mulher forte que vive ainda ao lado do meu pai tentando espalhar aquilo que acredita.

É pra mulheres assim livres que eu dou os parabéns e as flores, para as que ainda são presas, eu não ofereço rosas, mas sim desejo força para que possam escolher elas próprias o seu melhor caminho.

2 respostas para “Mulheres de Atenas – Chico Buarque”

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