A Day In The Life – The Beatles

 

 

Comprei uns livros de presente. Sempre faço isso, me faz um bem danado. Acontece que acabei furando a fila. Escolhi um dos despretenciosos livros que comprei e comecei a ler na sexta. Duro foi largar antes do final e dormir, dolorosa está sendo a despedida de suas últimas páginas.

Já falei mil vezes por aqui que sou fã de carteirinha do Nick Hornby. Não que ele seja um mestre da literatura mundial. Até acredito que ele escreve quase sempre o mesmo livro, que seus personagens apresentam quase sempre as mesmas crises, só mudando o pano de fundo dos enredos e um ou outro ponto na história. Mesmo assim, fui atrás dos outros livros dele que não conhecia ainda. Comprei vários e furei minha fila com o delicioso Juliet, Nua e Crua.

Texto despretensioso. Não falarei muito aqui da história, mas sim de um aspecto no livro que me chamou muito a atenção e apresenta uma ligação direta com meus dois últimos textos. Ainda um período de dor e melancolia, ainda um período de tristeza, mas sempre um período de reflexão.

Eu disse no último texto que me preocupo com o tipo de exemplo que eu acabo passando, que me preocupo em passar as coisas certas, não as minhas esquisitices. Justamente depois de escrever isso eu abro um livro que fala o tempo todo de idolatria, tanto do ponto de vista do fã quanto do ponto de vista do ídolo. Aliás, algo que ocorre com todo mundo o tempo todo, se num momento você segue alguém, no segundo seguinte pode ser o modelo de outra pessoa.

É engraçado como a gente acaba julgando as pessoas de acordo com a nossa moral. Nossos ídolos não escapam disso. A gente muitas vezes tenta simplesmente encontrar motivos dentro daquele pequeno mundo mental que possuímos que possam explicar cada uma das ações dessas pessoas. O pior é que algumas vezes não encontramos as ações e as criamos a partir de uma lógica torpe que só a gente entende.

Preconceitos e imagens prontas povoam o universo. A gente nunca aceita as mudanças. Só nós podemos ter mais de uma opção. Todo o resto do mundo deve ficar parado de acordo com o nosso julgamento e as suas ações acabam sendo certas ou erradas mediadas apenas pelo nosso olhar. É estranho imaginar o quanto nós conseguimos ser mesquinhos sem se dar conta disso. O universo não gira ao redor do nosso umbigo. Somos pouco mais que pó e mesmo assim nos achamos quase sempre a última bolacha do pacote.

O livro não fala tanto assim dessa forma humana de ver o mundo. Na verdade essa foi apenas a leitura que eu fiz a partir da história principal. Entretanto, algo que está ali, com todas as letras e cores é o fato de que quase sempre esperamos do outro um motivo nobre ou pelo menos intrincado para cada ação que a nossos olhos parece estranha ou especial. Mesmo que nas nossas próprias vidas, na grande maioria das vezes, esses fatos acabam sendo meramente frutos do acaso ou de decisões extremamente simples.

Se a gente pedisse pra cada um descrever um dia especial, provavelmente esse dia seria extremamente simples. Talvez com um grande amor num dos momentos, com uma grande conquista, com a realização de algum sonho. Mas no fundo seria um dia comum. Você acorda, levanta, se arruma e segue adiante na vida.

Todo mundo faz isso todos os dias. Se tem gente que consegue fazer desse dia comum um dia especial, parabéns a essas pessoas. Elas provavelmente se prenderam a tudo aquilo que é mais simples. Se você como eu não consegue ter muitos desses dias. Talvez seja hora de perceber que não é a falta de momentos que causa isso, mas sim a falta de sensações associadas a esses momentos.

Aquela música que eu posso achar ter sido uma inspiração superior e algo especial para um cantor, na verdade pode ter sido apenas um monte de versos que o autor achou bobo, acordes que ele simplesmente juntou rapidamente e que na verdade faz mais sentido pra você do que pra ele. Porque ele pode apenas ter feito, ter criado, mas é você quem sente. Assim, não espere do outro a mesma emoção que você sente. Ele pode, como eu, ter mais dificuldades em perceber as coisas que são mais simples. Pode não conseguir valorar a beleza de um dia normal na vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.