Book of Dreams – Bruce Springsteen


 

Ainda é tempo de rever as velhas fotos. É tempo de ainda entender onde mudei. Onde mudo. No que transformo e de onde eu vim. É tempo de perceber que assim como algumas cenas mudam. Partes delas mantém-se exatamente como sempre foram.

Ainda me lembro dos meus mais antigos sonhos de criança. Daqueles que a gente pensa no que vai ser quando crescer. E me lembro de sonhar ser escritor. Me lembro de vibrar com os livros de Monteiro Lobato, a coleção vagalume e a Turma do Posto Quatro. Sonhei viajar num fusca para o Nordeste do Brasil (e até fiz a viagem, não de fusca, mas de Kombi e parei em Salvador). E sonhei muitos personagens que li durante toda a infância. Já me vi ao lado de Xisto numa luta ferrenha contra o mal.

Não sonhei só com os personagens. Sonhei também com heróis de carne e osso. Era um desejo infantil receber os ramos de oliveira e honrar os deuses do Olimpo. Ainda lembro dos meus primeiros heróis de carne e osso. O pequeno gigante Pradinho no pódio ao lado do enorme canadense. Os nossos gladiadores Onmura, Carmona e Vieira. Lutadores que tornavam vivo o meu sonho de brilhar um dia nos tatames olímpicos.

Dois sonhos que me fizeram muitas vezes uma criança feliz. Sonhos que serviram para que eu tentasse definir qual seria o meu caminho. Um deles se foi. O outro restou forte e de certa forma realizado. Ainda não escrevo como meus ídolos de infância. Muito menos me aproximo dos novos ídolos que adquiri enquanto fui crescendo. Troquei Xisto por Quixote e Rocinante. Troquei Lobato, pensando bem não troquei Lobato por ninguém. Só adicionei a ele Veríssimo, Hornby e diversos outros. Conheci a poesia de Drummond e a triste magia de Poe. Conheci muita gente boa nesse tempo. A cena a ser fotografada é a mesma, mas traz muito mais detalhes.

E aquela foto do Olimpo? Não fiz enquanto pude. Na verdade eu nunca pude. Consegui apenas sonhar com o clique. Logo meu corpo já me disse não. Desista criança, isso não é para você. Ainda invejo os heróis que daqui a poucos meses honrarão suas bandeiras e lutarão pelos seus hinos. Ainda idolatro os deuses e deusas das quadras, piscinas, tatames, de todos os lugares onde houver competição.

Agora apenas espero cantar o hino junto com os atletas que elevarem ao topo a nossa bandeira. Minha foto não me coloca mais no pódio, mas sim nas arquibancadas, torcendo nervoso por saber que nada posso fazer além de torcer. Confesso que é muito mais difícil ser coadjuvante. O nosso ego muitas vezes não nos permite aceitar papel assim tão secundário. Entretanto, o bom senso nos coloca no lugar e nos faz perceber que o nosso tempo de agir dessa forma já passou.

Revendo as velhas fotos eu vi várias que não consegui realizar. Hoje nessas mesmas cenas eu vejo outras pessoas, quem sabe até gente que eu treine, gente que eu ensine algo e que compre de alguma forma parte dos meus velhos sonhos. Nessas horas é o que me resta.

Por outro lado, novas fotos eu criei. Cenas novas que eu quero clicar e eternizar. Coisas que surgiram com o tempo e ainda trazem aquele sabor de coisa nova. De conquista recente. Assim, nem vale a pena chorar pelo que não pude fazer. Paciência, aquelas cenas não eram realmente minhas. Ou se eram, eu não me mostrei forte o suficiente para fazer o clique na hora certa. Que outra pessoa vivencie o que sonhei. Que outros sonhos surjam e com eles novas fotos. Que eu encontre quem queira cenas parecidas com as que busco.

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