In My Life – The Beatles

 

 

Nesses dias tenho percebido a lua sorrir para mim. Percebi isso principalmente no domingo a noite. Ao voltar para casa depois de um dia alegre e divertido. Um dia onde o mais óbvio dos endereços se fez distante e errático. Até hoje não acredito que não consegui um bom restaurante japonês no bairro da Liberdade.

Dessas coisas que no fundo ninguém entende, mas que parecem fazer todo o sentido do mundo. A cidade atravessada em minutos, e os minutos parecendo ser segundos de tão rápidos e frágeis. O tempo voo e o que era centro virou zona norte. Os sushis e sashimis como que por magia viraram picanha, arroz e salada. Muita picanha, muito arroz e muita salada. Não que a quantidade realmente  importasse, aliás, nem mesmo a qualidade do alimento era realmente importante. Apesar de saborosa, a comida era somente um pretexto. Um frágil pretexto para olhares e frases muito mais doces do que fora a saborosa sobremesa.

E no fundo foi assim que fez-se o dia. Frases soltas que se uniram num sentido que só quem pode ouvir realmente conseguiu compreender. E olhares. Muitos olhares. Olhares perdidos, olhares meninos. Olhares leves com o mais puro sentimento juvenil. As frases só fazem sentido se vistas, e os olhares só ganham força quando acompanhados da frase certa.

Nessas horas a gente percebe o quanto o tempo passa rápido demais.Nessas horas a gente aprende  a tentar reter tudo o que pode. Tudo o que puder ser lembrado depois merece ser guardado. Afinal, existem instantes que não voltam nunca mais. O primeiro olhar, o primeiro sorriso, o primeiro passo, o primeiro toque. O primeiro momento de mal estar por não saber nem como nem porque se está ali, mas justamente perceber que ali é na verdade o único lugar onde se realmente quer estar.

E assim se paga o preço. Vai-se para o segundo olhar, o segundo sorriso (esse talvez meio amarelo pelo medo), o segundo passo e o segundo toque. Um segundo passa as vezes tão depressa e noutras parece durar a eternidade. É preciso saber apreciar esse momento. Como todos os outros ele nunca mais vai se repetir. Só que de forma diferente. Ele não pode ver-se perdido por ai. Ele merece a eternidade, nem que seja em sonho, nem que seja em pensamento.

Nessas horas o pensamento vai tão longe. Vai distante que se perde entre o real e o imaginário. Tudo vira sonho. Todo sonho cresce de tal forma que muitas vezes nos faz perder o controle. O chão some mas a gente não cai. Flutuamos e saímos por ai meio sem rumo. Levados por desejos para lá de juvenis. Quem não gosta de viver isso de tempos em tempos?

Viver, no fundo essa é a palavra chave. Algo que agora faço porque já sei o preço. Algo que agora consigo porque sei o quanto custa. E vivo assim sem pressa, ou melhor com a pressa ávida de cada momento. Como se cada momento fosse único (e realmente é), como se cada momento fosse importante e me cobrasse bem mais do que nacos de energia e oxigênio. Porque a vida no fundo cobra muito mais do que isso.

E pagar esse valor tranquilo é o que me faz feliz. Saber que o preço pago vale e muito a pena. Porque se eu hibernei num longo inverno, agora acordo numa aconchegante primavera.

6 respostas para “In My Life – The Beatles”

  1. Aprender a curtir o que nos é oferecido é sempre complicado. A gente sempre quer algo a mais. Entender que muitas vezes não é conformismo mas limite realmente é difícil. Mais um comentário seu que me faz pensar….rs

  2. Não se trata de conformismo, acho que os sonhos não podem ter limites, vc pode e deve querer sempre mais,(um olho aqui e outro no horizonte, que tal?) mas encante-se, aproveite e desfrute do que vc tem no momento. A primavera é florida, cheirosa e aconchegante, mas não descarte as delicias do inverno: proximidade, intimidade,instrospecção vinho,lareira etc, etc, etc

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