Like a Virgin – Madonna

30 criminosos destruíram uma vida. É essa a grande manchete de todos os jornais, ou pelo menos a leitura que eu faço dela. 30 criminosos, não consigo ler de outra forma. E diariamente milhares de outras vidas são destruídas de todas as formas possíveis e imagináveis. Dessa vez, porém, a dor parece maior.

Não pelo crime em si, que é realmente hediondo. Me incomoda muito mais a impressão de que tem gente tentando simplesmente fazer discurso em cima do sofrimento alheio. Aliás, infelizmente é o que mais se tem feito. Pessoas defendem bandeiras e usam tudo o que está ao seu alcance para provar que o seu jeito de pensar é o correto, esquecendo do principal, a dor de quem sofre.

Acho justo neste momento as mulheres levantarem suas bandeiras pedindo sim uma mudança de pensamento. O risco existe num comportamento perigoso que ainda reside em muitas mentes. Não mudo minhas fotos nas redes sociais, mas apoio a luta, é uma postura pessoal. Nem mesmo em causas que me afetam de maneira bem mais direta como o movimento negro me forçariam a tanto. Até por pessoalmente eu pensar numa linha bastante diferente destes movimentos.

É nessa diferença que surge o incômodo ao ver a maneira curta de pensar de alguns. Eu tenho amigos ligados a direita e a esquerda que defendem suas ideias de maneira clara e dentro de um nível alto de respeito e educação. Tenho visto, porém, gente que extrapola. Se eu já me incomodava quando as falas eram Petralhas x Tucanalhas ou Coxinhas x Mortadelas, ver a apropriação da tragédia de uma pessoa como bandeira política e usar isso como ofensa ao pensamento do outro chega a ser repugnante.

Para começar as ideias mais imbecis que li. Gente, uma vítima não pode ser acusada de ser a culpada pelo crime que sofreu. Não importa onde ela estava, com quem estava ou o que vestia. Digo mais, não importa nem mesmo seu sexo biológico (ou orientação sexual). Não existe maneira de colocar a culpa na vítima e não nos estupradores. Não é culpa do capital e nem dos “direitos humanos”. É culpa dos estupradores e ampliando a discussão em certa linha também de quem tenta de alguma forma dourar a pílula.

Lembremos que vivemos num país em que um deputado diz que não estupraria uma pessoa por ela não merecer (aliás, alguém merece?) e nada acontece a esse deputado. Lembremos que do outro lado, anos atrás uma candidata a cargo eletivo num partido que recebia apoio da comunidade LGBT questionou a orientação sexual de outro candidato em sua campanha e também nada aconteceu. Ambos estão ai com sua vida política em dia.

Mas voltando ao caso. Não me sinto culpado apenas por ser homem. Aliás, esse tipo de comportamento me soa extremamente populista. Eu nunca vou me sentir culpado ou estuprador em potencial por ser homem. Mulheres podem ser tão ou mais machistas do que homens e defender o machismo causa mais casos de estupro do que ter um pênis. Ao invés de pedir desculpas, faça algo de útil. De alguma forma tente fazer com que cada vez menos pessoas acreditem numa superioridade de um sexo sobre o outro.

E nem falo em ser feminista. Eu não sou. Não participo de movimento algum, já escrevi isso antes. Apenas acredito que não existem pessoas de primeiro ou segundo escalão seja por sexo, orientação sexual, cor da pele, dinheiro ou o que quer que seja que de maneira artificial seja utilizado para nos separar. Por isso tento do meu jeito mostrar isso a quem convive comigo. Procuro passar essa ideia aos jovens que formo, aos adultos que estão ao meu lado, e nessa troca, ouço as ideias de todas as pessoas com quem convivo também, independente da classe social, idade, raça, credo, cor ou o que quer que seja.

E o mais divertido dessa convivência, é perceber que muitos dos problemas podem ser resolvidos com ideias adotadas ligadas tanto a direita quanto a esquerda. Uma boa ideia não tem lado. Uma forma de pensar pode se tornar melhor ou pior de acordo com quem a utiliza. Se você assim como eu também se chocou com esse caso de estupro, apenas aja, não culpe ninguém além dos estupradores e faça de tudo para que novos casos como esse não ocorram mais em nosso país. Nessas horas eu queria entender porque a gente sempre esquece que mais de um caminho pode levar ao mesmo local.

Only Angels Have Wings – Renaissance

Faz muito tempo que não venho aqui. Me faltava tema, me faltava estímulo e principalmente me faltava coragem. Este espaço, diferente de outros locais onde escrevo sempre foi extremamente pessoal. Sempre foi um lugar onde eu pude me abrir e contar exatamente quem eu sou, sem medo e sem a necessidade de esconder quaisquer sentimentos que surgissem em mim.

Durante um período isso deixou de ser verdade. Como qualquer pessoa eu passei por dores que não suportei e ai as palavras que costuma lançar por aqui já não conseguiam me acalmar, eram mais dor do que uma forma de diminuir o sofrimento. Foi nesse momento que eu percebi que precisava dar um tempo, crescer mais como gente e então quem sabe voltar mais tarde, mais maduro e mais forte.

E assim o tempo passou, quase dois anos se passaram com poucos e raros textos por aqui. Era ameaçar sentar na frente do micro e ter mais dor do que vontade de escrever. Isso até hoje. Quando depois de um final de semana complicado, mentalmente mais difícil do que o esperado eu consigo escrever. Consigo ouvir uma música inteira deixando a melodia e mesmo a letra falar comigo de forma mais intensa, consigo até mesmo me ver como alguém que ainda tem alguma coisa para dizer.

Eu hoje vim leve, sabendo que muitas vezes os nossos limites são bem maiores do que a gente imagina. Vim sabendo que tenho limites e que algumas coisas talvez eu nunca seja capaz de fazer. Mas vim também ciente de que algumas coisas que busco, por mais difíceis de conseguir, serão para sempre metas em minha vida, uma bússola para onde aponto a nau da minha vida e sigo contra toda a força das tempestades que teimam em tentar me parar.

É claro que me sinto fortalecido, de certa forma apaixonado pelo que vivo e por isso aguentando mais a dor que se avizinha. Mas é justamente nessas horas que a gente perceber que não é realmente tão fraco assim. É quando percebe que tem outras maneiras de se conseguir dar um passo adiante mesmo que as pernas estejam engessadas. Sempre vai existir uma forma de mudar o que nos incomoda.

Se agora não é fácil viver, provavelmente nunca tenha sido para ninguém e nem vai ser no futuro. Mas pode ser mais divertido e acolhedor. Basta a gente se abrir ao que aparece de bom diante dos nossos olhos e aceitar de forma mais leve os problemas que surgem. Nem todos terão solução. Não resolver não será um problema, será apenas algo natural.

Porque temos que saber nossos limites, não podemos fazer tudo, por mais que as vezes pessoas nos tirem do chão, não podemos voar, afinal só os anjos possuem asas…

People like us

No fundo só procuramos alguém que seja como olhar num espelho

Tem um filme do David Byrne chamado True Stories, de 1986 que sempre me vem na memória. Nunca achei pra comprar, acho que nem saiu em dvd, o que é uma pena. O filme funciona como uma espécie de colagens de clipes para o álbum do mesmo nome, pelo youtube, eu até ia colocar o link, mas não achei o da música que eu queria. People Like Us. Aliás até achei o filme todo, mas o trecho que eu queria é o único sem som e ainda partiram justamente essa cena no meio.

Por que justamente essa música? Aliás desse filme eu até poderia ter escolhido outros exemplos pra falar de relacionamentos amorosos, como Love for Sale, ou mesmo Wild Wild Life. E na verdade Love for sale foi minha primeira opção, confesso. Mudei de idéia depois de um bate papo agradável e inesperado.

Imaginem a cena, pós ressaca do dia dos encalhados, ops namorados, 6 solteiros, 3 homens e 3 mulheres, sentam-se num bar por duas horas para um papo rápido regado a coca-cola, batata-frita, h20h e cerveja (pras meninas). Adultos, jovens, solteiros e de certa forma querendo encontrar alguém especial. Conversa vai, conversa vem e ai surge o mote que eu precisava pra escrever este texto. O que acontece que tem tanta gente solteira por ai?

No filme, tem um solteirão a procura de casamento e justamente quando ele canta a música título na tevê encontra a mulher de sua vida, que sensibilizada acaba indo atrás do cara. Afinal ele só quer alguém como ele. O que no fundo é o que todo mundo busca, ou não? Ai talvez paire a dúvida, buscamos alguém como somos ou como imaginamos que somos?

Deixa a metafísica pra depois, ainda tem alguns assuntos a serem retomados da conversa no bar. A primeira coisa a ser ouvida foi que não existem homens no mercado. Nós rebatemos dizendo que as mulheres estão muito exigentes, afinal, as mulheres dizem que até existem homens, mas eles são canalhas. E no fundo fica esse de empurra empurra. Analisando friamente talvez todo mundo estivesse certo e errado ao mesmo tempo. Certos porque não existem mesmo as pessoas que aparecem em nossos sonhos, certos porque exigimos aquilo que achamos ser o que merecemos e merecemos muito, certos porque tem gente que realmente só pensa em si e no seu prazer. Porém, estamos errados também, errados porque muitas vezes existem pessoas e não nos arriscamos, errados porque alguns dos desejos da outra parte são simples e justos e não queremos ceder e errados porque esquecemos que vivemos num mundo real.

Um mundo real onde as vezes a carência nos leva a fazer besteiras como se aproximar de pessoas erradas justamente por medo e receio de ficar só (e ai vale o post anterior onde falo de enamorar-se), ou fugir de todo mundo porque achamos que todo mundo vai abusar da nossa dedicação.

Tem gente que leva isso tão na boa e nunca entra em crise, solteiro ou acompanhado segue sua vida tranquilamente,tendo as crises que todo mundo tem. Tem gente que não, que sofre sempre, independente do que ocorra. Eu sou daqueles que acredita que temos que encontrar nossos iguais, pessoas que pensem de forma parecida e tenham sonhos parecidos, isso para os nossos principais relacionamentos, sejam eles emocionais, sexuais ou amizades verdadeiras. Até para que possamos nos ajudar e entender o que se passa na cabeça do outro.

É claro que divergências vão sempre existir e são boas para fazer crescer, mas não dá pra conhecer alguém sabendo que essa pessoa gosta de ir pra balada toda semana e depois de uma semana querer proibir isso (isso é óbvio, mas é incrível como esse tipo de coisa ainda acontece nos dias de hoje, gente mandando em gente, escravidão já acabou faz tempo).

No final a conversa acabou pela metade, infelizmente a zona do lado de fora perturbou a paz e fez todo mundo ir embora, pena, até porque está com gente como eu, gente comum e a discussão ia longe. Serviu pelo menos de mote e para marcar outras conversas.

Aliás, se alguém souber onde vende o filme do David Byrne, por favor me avisa, esse eu quero mesmo comprar!!!

Eu me amo, não posso mais viver sem mim…

A luta pela sobrevivência é a maior prova de amor por si próprio

Mais um post na linha do manual do encalhado…rs. Hoje começo ao som de Ultraje a Rigor. Rock bruto e engraçado e pra esse dia de hoje perfeito. Sim, tem o pessoal que ficou horas no shopping procurando o presente certo pra declarar o seu amor. Tem também quem aproveitará a data para mostrar dotes culinários escondidos ou conhecerá aquele lugar que imagina ser especial para si e a pessoa amada. Mas tem bem mais gente.

Tem gente que como eu vai “comemorar” sozinho. Gente que vai se produzir pra si mesmo, trocar uns amassos com o espelho e romanticamente ver um filme legal sozinho, depois de um jantar caprichado preparado com todo carinho pra pessoa mais especial que já teve a oportunidade de conhecer. VOCÊ MESMO/A!!!!

Observem a letra, ela não é fantástica?

Há tanto tempo eu vinha me procurando
Quanto tempo faz, já nem lembro mais
Sempre correndo atrás de mim feito um louco
Tentando sair desse meu sufoco
Eu era tudo que eu podia querer
Era tão simples e eu custei prá aprender
Daqui prá frente nova vida eu terei
Sempre a meu lado bem feliz eu serei

Refrão
Eu me amo, eu me amo
Não posso mais viver sem mim

Como foi bom eu ter aparecido
Nessa minha vida já um tanto sofrida
Já não sabia mais o que fazer
Prá eu gostar de mim, me aceitar assim
Eu que queria tanto ter alguém
Agora eu sei sem mim eu não sou ninguém
Longe de mim nada mais faz sentido
Prá toda vida eu quero estar comigo
Foi tão difícil prá eu me encontrar
É muito fácil um grande amor acabar, mas
Eu vou lutar por esse amor até o fim
Não vou mais deixar eu fugir de mim
Agora eu tenho uma razão pra viver
Agora eu posso até gostar de você
Completamente eu vou poder me entregar
É bem melhor você sabendo se amar

 Precisa falar mais alguma coisa? Na verdade a questão toda se resume a isso, ame-se, você tem que ser legal pra você mesmo. E ai irradiando felicidade acaba aparecendo alguém que queira saber o que essa pessoa que te deixa tão divertido tem a oferecer e ai, tudo resolvido.

Falo desse assunto hoje devido a repercussão do post anterior (É impossível ser feliz sozinho). Em certas parte do post eu disse que era possível sim ser feliz sozinho. Hoje, no dia dos namorados, passo a discordar de forma veemente disso. É impossível, porque se você não está bem nem com você mesmo, não pode mesmo ser feliz. Essa é a grande sacada. enamorar-se por você.

Tem que ser um amor verdadeiro, daquele de se cuidar mesmo. Não falo de cuidar da aparência apenas, mas principalmente da cabeça. Tem que estar loucamente apaixonado, a ponto de irradiar felicidade por todo o corpo. Você tem que respeitar as idéias que tem, ver a beleza onde ela existe e não ligar pra falta de beleza e pequenos defeitos desse seu amor eterno. Até porque se você ficar lembrando toda hora do cabelo que se foi, da barriga que cresceu ou do fato de torcer para o corinthians como defeitos, todo mundo vai passar a ver isso em você como coisas ruins.

Então, eleve as boas idéias, mostre como seu amor tem um humor divertido e pode ser uma boa companhia, mostre que acha seu amor lindo/a. Discutia com um amigo meu que todo relaciomento pra funcionar bem tem que ser composto de 3 casais, os dois envolvidos, e cada envolvido consigo mesmo. É nessa linha que eu estou caminhando e pensando. Tanto que hoje, meu dia dos namorados será comemorado comigo mesmo, da forma como disse lá em cima. Muito bem acompanhado comigo mesmo (a não ser que algo mude tudo até o final do dia…rs), bom filme e bom jantar, só descarto o vinho…rs

É impossível ser feliz sozinho…

Flores a todos os enamorados

Muita gente me pediu pra escrever sobre o Dia dos Namorados. Confesso que ao ler tais pedidos fiquei com uma sensação estranha. Um misto de tristeza e até certo ponto alegria. O lado triste da história foi perceber que continuo no clube dos encalhados e carentes, fazer o que? Até já faz um bom tempo que estou nessa, falta encontrar ou ser encontrado por alguém. Enfim, isso de certa forma precisa de alguma alteração, paixão ainda é algo que me motiva, falei disso no post Aprendendo a Falar e a Viver, onde falo de como nasceu meu primeiro livro, mas enfim, passado infelizmente ou felizmente, sei lá, é passado.

Ok, esse é o lado triste, onde estão as coisas boas nessa história? Bom, nesse tempo todo de encalhe (ops seria melhor escrever solidão), aprendi muito sobre mim mesmo, cresci como pessoa. Cresci a ponto de levar a solteirice na esportiva, sem tanta neura. Outro ponto divertido foi justamente receber os pedidos pra falar do tema. Esse flerte com quem me lê é divertido, eu gosto de saber o que quem me lê pensou ou sentiu do meu texto. Me ajuda nessa cruzada por auto conhecimento e também torna esse espaço mais democrático. Como disse a quem neguei a liberação de comentários, evito sempre comentários que por serem pessoais demais podem expor quem os fez.

Mas voltando ao tema. O encalhado aqui vai falar de uma data, ou melhor do que traz essa data de simbolismo. Começo usando justamente o verso do Tom Jobim. Adoro as músicas dele, gosto ds letras e das melodias, wave não é diferente. O verso entretanto pode até ser questionado. Eu sou daqueles que acredita que dá sim pra ser feliz sozinho. Que a felicidade está mais ligada ao indivíduo do que ao que se alcança, felicidade é algo interno.

É claro que o carinho de alguém, beijos apaixonados, uma frase bem colocada ao pé do ouvido, tudo isso faz sim diferença no nosso ânimo. Mas conheço gente que tem tudo isso e ainda assim não é feliz, como também conheço gente que é feliz sem ter a cara metade, a tampa da panela ou qualquer outro sinônimo popular que se ache. O importante é estar bem consigo mesmo, até para poder estar bem com os outros.

É claro que nessa época em especial me sinto como a música do Dominguinhos (Que falta eu sinto de um bem/Que falta me faz um xodó/Mas como eu não tenho ninguém/Eu levo a vida assim tão só/ Eu só quero um amor/Que acabe o meu sofrer/Um xodó pra mim/Do meu jeito assim/Que alegre o meu viver). Na busca por alguém que realmente mexa comigo. E que mostre também que o Jobim estava certo quando escreveu. Afinal, é ligar a televisão e ver comerciais, os filmes que passam se tornam todos românticos, qualquer restaurante tem promoção pro dia dos namorados, ficar livre dessa influência só se mudando pra marte, porque nas cidades pequenas (eu moro em uma) o assunto também é o mesmo.

E esse lado comercial da coisa por incrível que pareça traz um certo glamour ao evento. Olhando por ai, se percebem casais às vezes em fase mais decadente do relacionamento usando a data pra tentar se modificar, voltar a namorar naquele casamento de 30 anos. Serve de lembrança, tem gente que só lembra que tem alguém especial por causa dessas datas comerciais. E quem não tem, como eu, fica com inveja…rs

É claro que tem aquelas pessoas eternamente enamoradas, não pelo outro, mas pela vida, gente que sorri de e por tudo. Pra esses essas datas realmente não possuem sentido ou função alguma, assim como para aqueles apaixonados de plantão. Mas eles não são o grosso da população. Acho que é por isso que estas datas fazem tanto sucesso. Assim como acho que é por datas como essa que acabamos por crer, mesmo que estranhamente, em versos como os do Jobim.

No fundo é tudo pura viagem pra falar de um tema que o encalhado aqui não entende nada, mas espero ter emitido a minha opinião. Fica um abraço carinho (e cheio de inveja) a todos os leitores enamorados e a torcida para que os leitores solteiros como eu desencalhem até o dia dos namorados do ano que vem.

Somos quem podemos ser

A liberdade um pouco acima e a independência, são duas matizes que andam lada a lado em qualquer pessoa

Eu adolescente ouvia discos de vinil. Num dos que eu mais gostava, Humberto Gessinger cantava o verso acima. Nessa música ele falava das descobertas que foi fazendo ao crescer. Quando descobriu, por exemplo, que as nuvens não eram de algodão. Ganhou liberdade com o tempo e aparentemente passou a tomar suas próprias decisões.

Por que aparentemente? Justamente pelo verso inicialmente separado. Em nossa vida não somos quem realmente somos ou gostaríamos, mas sim quem podemos ser. Vários fatores influenciam a nossa ação e o nosso pensamento. Sejam os amigos, os livros, as viagem que fazemos, filmes que assistimos e qualquer coisa que vivenciamos nos ajuda a ser quem somos.

As nossas frustrações é que nos limitam. Elas que acabam dando o limite dos moldes que seguimos. Conforme dito em outros posts, nossos ídolos e a forma como eles nos tocam também modificam nossa formação. As escolhas das tribos que cada um pretende ingressar, frases soltas que surgem nos nossos ouvidos em momentos delicados. Os fatores são tantos que é praticamente impossível uma pessoa conseguir mostrar ao mundo apenas a sua essência.

Essa é mais uma vertente de nossa falsa liberdade. No fundo nossas escolhas todas acabam sendo definidas por limites que não nos pertencem. E ai eu chego perto de começar uma discussão levantada pela Eve. A relação entre liberdade e independência. Não somos totalmente livres porque nossas escolhas são sempre dependentes de variáveis externas a nossa vontade, mas sempre somos independentes nas escolhas que fazemos após termos a liberdade definida.

Vejo, nesse caso, a independência como fruto das escolhas coletivas e a liberdade como a escolha pessoal. Assim encaro a independência como um ideal democrático e a liberdade como um ideal anárquico. Dentro dessa minha limitada linha de pensamento, os homens só são livres dentro de uma realidade definida, nesse caso o tão aclamado sentimento de liberdade é apenas a sensação de comodidade em perceber-se dentro das regras sociais do local onde se está inserido e ai então a possibilidade de se agir tranquilamente de acordo com novas escolhas, as escolhas independentes.

Quando começamos a crescer, essa situação aparenta ser mais confusa em nossas mentes. Quem não foi um adolescente questionando regras? Quem nunca ficou irritado por não poder fazer aquilo que queria? Uma brincadeira de amigos é que na adolescência todos temos em nossas mentes o furor revolucionário das esquerdas tradicionais, por isso tanta revolta e briga popular dentro de grupos estudantis, que se espelham em ídolos bastante padronizados como Che Guevara e Fidel Castro, no caso dos estudantes brasileiros.

Ai o tempo passa e as idéias políticas e sociais de cada um mudam, ampliando o leque de escolhas, quando um pouco mais velhos nos sentimos mais livres para fazer nossas reais escolhas, podemos sair da tribo e ai, realmente independentes podemos escolher se voltamos para a tribo dos esquerdistas ou se mudamos para outra, tudo dentro da nossa pequena liberdade limitada.

Reparem nas canções adolescentes, a inquietude com o sistema é recorrente, bem como o amor, o desejo e o prazer. Os mesmos autores, quando um pouco mais maduros, mudam seu discurso e as letras passam a falar de inquietudes pessoais, as reclamações sociais são outras, já não se quer derrubar todo o sistema, mas sim reclamar de pontos determinados dele, as revoluções deixam de ser totais e passam a ser pontuais.

Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente
Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente

Para mim, o entendimento da independência é mais lento do que o desejo de liberdade, talvez por isso eu ache que as pessoas mais maduras são as que conseguem situar-se bem com esse tipo de sentimento. São pessoas que conseguem tranquilamente aceitar a existência de limites sociais para seus desejos e conseguem brincar com esses limites ampliando sua parca liberdade, mostrando-se independentes.

Você se acha uma pessoa independente neste conceito? Gostaria de ampliar sua liberdade em que aspectos? No próximo texto, eu provavelmente deva falar um pouco dos meus limites e da forma como eu lido com eles.

Vale a pena ser herói?

Um músico não pode ser julgado só por sua música?
Um músico não pode ser julgado só por sua música?

Hora de terminar o que comecei a alguns posts. No último eu disse que nós costumamos relevar nossos heróis da ficção. Atualmente os heróis ficcionais estão mais humanos, procuramos pequenas falhas de caráter neles para validá-los. Essa aproximação entretanto muitas vezes foge do mundo real.

Quem são os nossos grandes heróis? Pelé, o maior atleta do século é questionado por sua vida fora dos campos. Ronaldo fenômeno sofre do mesmo mal. Vários atores são questionados sobre sua opção sexual. Qualquer candidato a ídolo possui sua vida recheada de perseguidores, atrás de falhas de caráter que façam com que toda e qualquer idolatria seja derrubada instantaneamente.

Ai as coisas começam a complicar, eu imagino que quem tem Pelé e Ronaldo como ídolos, idolatra o que eles faziam com a bola nos pés, exigir qualquer outra coisa deles é absurdo. Cazuza é outro bom exemplo, um poeta genial, fez letras bastante interessantes. Tinha uma vida pessoal muito mais conturbada do que a maioria aceita, sexualmente falando sempre se definiu como bi sexual, transou com quem quis como quis, usou drogas, quebrou regras, fez tudo do seu jeito, sem ligar muito pras regras do momento.

Cazuza sempre foi um ídolo pra mim, mas só por seus versos, eu nunca liguei se ele usava drogas, com quem ele transava, o que ele fazia além das músicas que eu ouvia nunca foi problema meu, o ídolo era apenas musical.

Aurélio Miguel é outro exemplo dessa linha pra mim. Treinei judô muito tempo, adoro o esporte até hoje. Aurélio foi um dos maiores heróis da minha infância/adolescência. A medalha de ouro olímpica me marcou muito. Hoje ele é político na cidade em que voto, isso nunca me fez nem pensar em votar nele. Eu idolatrei o atleta, não o político, que tem idéias bastante opostas as minhas.

Aliás falando em políticos, essa classe de anti-heróis nacionais parece ser a única que não sofre com os problemas citados aqui. É incrível como falhas em outros ídolos resvalam na grande maioria dos políticos. Filhos fora do casamento geralmente prejudicam numa eleição, passado o fato, voltam como se fosse a coisa mais normal do mundo (eu honestamente acho que um filho fora do casamento não mede a honestidade de um administrador, mas nosso país é extremamente conservador). Escândalos para eles têm curta duração e o pior, em alguns casos, eles simplesmente não são levados a sério por serem em cima de pessoas populares, vide a quantidade de denúncias que caíram sobre o governo do nosso atual presidente.

O que torna os políticos livres do julgamento popular mesmo quando falham na execução daquilo que foram eleitos para fazer?
O que torna os políticos livres do julgamento popular mesmo quando falham na execução daquilo que foram eleitos para fazer?

É nesse ponto que tudo fica nebuloso, aquele ser que deveria ser reverenciado apenas por fazer uma coisa boa e somente por essa ação seja ela cultural, social, esportiva ou o que quer que seja, nunca escapa do julgamento por tudo o que faz. O atleta que não teve acesso a educação deve dar opiniões coerentes sobre a variação cambial ou ter uma posição socialmente aceita sobre o massacre chinês no Tibet. Não pode ser visto embriagado numa festa, nem mesmo trocar de namorada ou envolver-se num relacionamento mais fugaz sem ser julgado e culpado por isso. Mas um político pode enriquecer na vida pública, pode dizer palavrão em discurso oficial, pode até mesmo roubar que não será julgado. E por que? Simplesmente porque políticos nunca serão heróis e nem modelos.

Ai me vem a pergunta, vale a pena ser herói? Vale a pena se destacar em uma área? Afinal você acaba sendo julgado em todos os aspectos da sua vida só por ser bom em algo. Me pergunto se isso é devoção mesmo ou simplesmente inveja, muitas vezes acredito mais na inveja.

A impressão que tenho é que as pessoas invejam aquilo que gostariam de saber fazer como ser um atleta habilidoso, um artista famoso, um cientista competente e por isso procuram falhas em qualquer coisa que estes façam, como a maioria das pessoas não enxerga glamour na política, estes ficam livres do julgamento popular.

O que você acha?