The Sound of Silence – Simon & Garfunkel

Quando o som do silêncio nos traz medo e desespero é sinal de que o limite está chegando

Hora de buscar outras fontes pra escrever. Infelizmente acabou a sequência em cima do Uma Longa Queda do Nick Hornby. Agora as ideias estão fluindo a partir de uma história em quadrinhos que virou filme. Eu adoro quadrinhos, acho uma linguagem super divertida. E como gosto de ver filmes, quando juntam as duas linguagens geralmente procuro saber qual foi o resultado final.

Só consegui assistir Watchmen hoje, e isso porque o final já saiu em DVD a um certo tempo (quase um mês). Eu adorei a história criada por Alan Moore, junto com Sandman e talvez Hellblazer é o que eu já li de mais interessante no universo dos quadrinhos. Confesso que fiquei com medo do filme. Fiquei imaginando se iriam dar uma pasteurizada nos personagens, tirar muito peso da história ou se a mesma perderia a magia ao mudar de mídia.

O bom disso é que o resultado foi em grande parte satisfatório, gostei tanto que pretendo usar o filme e os quadrinhos pra mais uma sequência de posts aqui no blog. Começo de onde terminei a sequência anterior. O tema suicídio e morte ainda vai pairar por aqui um tempo. Talvez por ser um tema que me chame bastante a atenção, talvez pela insuspeita falta de criatividade que surge em alguns momentos na criatividade de qualquer pessoa.

Para começar, escolhi uma das músicas da trilha sonora, a música que toca durante o enterro do Comediante Sound of Silence de Simon & Garfunkel (clique aqui para ver um clipe da música). Aqui já surge algo divertido, durante o filme, a versão que toca é a original da dupla dos anos 60/70, mas no Youtube você vê e ouve a versão de uma banda de Death Metal chamada Atrocity (clique para ver essa versão) com várias cenas do filme. Vale ouvir as duas e comparar, gostei das duas.

Apesar de ter citado a morte do Comediante, não é ele que começa essa série. Prefiro primeiro dar uma geral sobre como enxergo essa história. Situando o povo, numa realidade alternativa onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon não passou pelo Watergate, tendo se mantido popular como presidente até 1985 pelo menos, ano em que a maior parte da história se passa.

Existe um cenário bastante apocalíptico, com a Guerra Fria chegando ao limite máximo e o medo rondando a população. Nesse mundo, os heróis são seres comuns, sem super poderes, inicialmente policiais mascarados que faziam uso desse artefato para caçar os bandidos que se mascaravam para não serem reconhecidos. Depois surgiu uma nova geração de heróis que aparentemente se divertia com isso. Porém, a população pediu o fim desses heróis e o presidente assinou um decreto onde todos foram proibidos de agir.

Três deles mantiveram suas atividades. O Comediante, que trabalhava para o governo, o Dr. Manhattan, único com super poderes e no caso dele poderes praticamente divinos, também trabalhando para o governo e Rorschach que se manteve o tempo todo no submundo.

Viver nesse sistema é complicado. Todos os personagens parecem oprimidos. Todo mundo parece a beira da loucura, a população parece precisar ser protegida dela mesma. É como se todo mundo estivesse esperando a morte chegar de alguma forma e procurando levar as sensações sempre ao extremo e sempre da pior forma possível. Essa loucura e medo fazem você esperar uma morte a todo instante. A mensagem mais clara de toda a história é a de que não existe esperança. Justamente o que a meu ver é o suficiente para fazer com que alguém se mate. Por outro lado, essa sociedade doente não é muito diferente da que vivemos hoje, talvez a grande diferença seja a possibilidade de sonhos que ainda nos mantém vivos. Quando os sonhos deixam de existir, o peso da realidade cai nos ombros e o som do silêncio nos leva a perceber que a morte pode sim ser um caminho razoável.

Cure for Pain – Morphine

O caminho mais seguro é sempre o que leva em consideração o que a gente sente

 

Hoje é dia de terminar a minha sequência de posts sobre o livro Uma Longa Queda do Nick Hornby (de novo eu recomendo fortemente a leitura deste livro). É hora de falar do JJ. Talvez o personagem que mais tenha a ver comigo em suas crises existenciais. Eu diria que em diversos aspectos eu e ele temos graus de loucura parecidos. Ambos caminhamos um bom tempo por ai buscando a cura para a dor. Uma dor mental que acaba se tornando física.

A trilha sonora, é claro continua sendo Morphine e mais óbvia impossível, Cure for Pain (clique para ver e ouvir). Posso também afirmar que este post tem uma ligação forte com o anterior onde usei uma música do Jethro Tull (clique para ler o post anterior) para fazer uma homenagem para alguém que realmente tem me encantado como pessoa. O Mark Sandman sempre fazia uma homenagem ao público na abertura e nas músicas que considerava especiais em seus shows, eu de certa forma fiz isso.

Primeiro a homenagem, agora o texto. JJ é um músico americano que viu sua vida mudar totalmente de uma hora para outra sem aparentemente grande influência sua. Sua banda que tinha fãs e algum sucesso de crítica implodiu, perdeu sua namorada e num país distante se viu trabalhando como entregador de pizza. Tudo o que ele fazia ruiu de uma hora para outra. O que mais chama a atenção aqui é o fato de que claramente ele sofre mais a perda da parceria que tinha na banda do que a perda da namorada, porém, uma frase que ouviu de sua namorada parece ser o grande motivo de sua tristeza e descaso com a própria vida.

JJ se considera músico. É alguém que tem algum talento e alguém que gosta de cultura, lê muito, ouve muita coisa, aparentemente gosta muito de arte e não é alienado (fato raro, geralmente os norte-americanos são vistos como alienados e os europeus mais culturais, isso em filmes e livros, não conheço norte-americanos e europeus bem o suficiente pra ter uma opinião consistente sobre o tema. JJ é aquele cara que aparentemente tem tudo pra dar certo e por algum motivo alguma coisa não dá certo. Essa é a primeira impressão.

Procurando adentrar um pouco mais no universo do personagem algumas coisas ficam claras e ai é que eu me encontro totalmente com JJ. Primeiro ele me parece ter dificuldade com algumas leituras de outras pessoas. Nesse ponto eu sou mais analfabeto emocional do que ele, mas digamos que em alguns casos ele conseguiu ser tão raso quanto eu na informação que coletou. Outro defeito que ambos partilhamos é o de sempre achar que a culpa por algo não funcionar é nossa e ainda nessa linha, ao inferir qualquer coisa sempre acreditar que das possibilidades existentes quando algo não está exatamente em nossas mãos, é sempre a pior que vai acontecer.

Essa falta de auto-estima me mata tanto quanto quase mata o personagem e mata tanta gente por ai. Não é achar que o mundo todo existe contra você. Muito pelo contrário, a sensação é outra. É a de que você não faz parte do mundo. Você é o errado e por isso as coisas não funcionam.  Esse tipo de pensamento parece imbecil, até certo modo é imbecil, mas sejamos sinceros, muita gente se sente assim. Eu assumo, me sinto assim o tempo todo. Parece que a culpa é sempre minha.

Nessa linha, a dor de se manter vivo parece imensa. Porque as vitórias acabam funcionando apenas como obrigação, você faz bem feito e pronto, o resultado está ai. Se algo não funciona a contento, a culpa é sempre sua. Morphine mandou bem na letra. É preciso achar a cura para a dor, seja qual for a dor que se sinta.

Tem outro ponto em JJ que me fez pensar muito na vida que levo. JJ em momento algum canta para o grupo, toca ou compõe, ele parece brigado com a música. Porém, ele nunca deixou de ser o músico que é. Antes de se considerar qualquer coisa, ele é um músico. Eu falei bem por cima disso no texto homenagem. Homenageei alguém que é sem precisar mostrar nada a ninguém. Eu muitas vezes me pergunto se deixo minha essência tão clara quanto a pessoa homenageada e JJ deixam.

Um lado interessante está além da qualidade. JJ é músico mesmo que não tenha a qualidade e o carisma de um mega astro, ele é quem é, não precisa sonhar em ser John Lennon. Eu, bem ou mal, me considero um artista, um poeta (não sonho em ser Drummond, mas quero ser eu mesmo) e um fotógrafo (que não quer ser o Ansel Adams). Preciso entender que eu sou apenas eu. No que isso tem de bom ou de ruim.

Até acredito que JJ tinha sim motivos convincentes para se matar. Se a coisa está ruim, essa seria uma mudança bastante radical, mas uma mudança. Não sei se eu fugi de mim mesmo de forma semelhante a ele. Espero que não, mas também me sinto muitas vezes oprimido, sozinho e perdido. A solidão vem do fato de eu simplesmente não conseguir ler e ser lido nesse mundo que me cerca. E ai falo não dos meus textos (tá eu confesso que adoro ler os comentários de quem visita este espaço), mas sim falo dos sentimentos que eu deveria sentir e entender.

Too Old To Rock'n roll Too Young To Die – Jethro Tull

A calma e a perseverança que nos levam a sempre fazer o que a gente faz da melhor maneira possível

Mudo hoje o tema para um breve texto. Sei que ainda falta fazer o texto do JJ pra fechar a série sobre o livro Uma Longa Queda. Só que hoje me deu vontade de fazer um post diferente, sobre outro livro que li e de certa forma também uma breve homenagem a quem me emprestou esse livro.

Terminei nesse final de semana a leitura de O Velho e o Mar do Hemingway, a melhor definição que eu tenho sobre esse livro é a de que foi uma leitura especial, providenciada por alguém também especial. Alguns detalhes do livro me fizeram pensar no livro do Hornby que estou citando no blog e também na pessoa que me emprestou o livro. A história do velho pescador pra mim tem uma trilha sonora fácil, nem é o chavão clássico de se utilizar algo gravado por músicos cubanos, principalmente os que participaram do filme Buena Vista Social Club. Eu confesso que sou mais rock (apesar de adorar esse filme e esses músicos). Escolhi Jethro Tull, uma banda de rock progressivo que adoro e a música Too Old To Rocknroll Too Young To Die (clique para ver o clipe).

Como relacionar a aventura de um velho e pobre pescador, com uma música do Jethro Tull e com uma de certa forma homenagem a alguém que eu acho legal? Tudo pode parecer confuso, mas possui a sua lógica. Primeiro porque eu recomendo fortemente 3 coisas, ler este livro, ouvir esta música e banda e conhecer essa pessoa. Não que isso seja razão suficiente para um post, na verdade não é mesmo, mas já serve de início pra minha escrita.

Vale lembrar alguns fatos do texto de Hemingway. O pescador perde seu ajudante por estar a vários dias sem conseguir pescar nada. O jovem o adora, mas sua família o obriga a ir com outro pescador, isso, no entanto, não diminui o entusiasmo e nem o respeito sentidos pelo jovem com seu primeiro mestre. O pescador, mesmo velho, castigado pelo tempo e sem sorte, parte todo dia. Reconhece sua sorte e mesmo assim nunca desiste de tentar o melhor. Sua luta com o gigantesco peixe e com os tubarões o faz ir até seus limites e mesmo assim ele não desiste. Ao retornar, exausto, age como se apenas tivesse sido mais um dia comum.

A música do Jethro Tull fala um pouco da passagem do tempo, de como é difícil encarar a realidade. O tempo passa para todo mundo, mesmo que tentemos esquecer ou fugir disso, o tempo passa. Como passou para o velho pescador. Porém, mesmo assim, ele nunca deixou de ser quem é, de acreditar e ser quem ele realmente é. Você pode até sentir-se velho para o que fazia com vigor antes, mas deve lembrar-se que ainda está jovem para morrer, na verdade deve apenas diminuir o ritmo e se adequar a sua realidade. Eu gostaria de poder me dar tão bem com o tempo como o velho pescador, mas confesso que o tempo é provavelmente meu maior inimigo. Vez por outra falo disso por aqui. Quem sabe um dia essa briga não tem um vencedor.

E quem me proporcionou essa leitura? O que tem a ver com o livro? Muita coisa. Primeiro o fato de ser uma pessoa extremamente humana e até certo ponto transparente, o que é extremamente raro nos dias de hoje. Todos temos dias de bom e mau humor, aceitar isso é simplesmente aceitar-se humano, aceitar-se como realmente se é. Algo que eu confesso, gostaria de fazer com mais facilidade do que faço hoje. Eu seria alguém mais tranquilo se soubesse me comunicar com um olhar ou um sorriso, da mesma forma que essa pessoa faz.

O pescador também se preocupa muito com a qualidade daquilo que faz, irritar-se com falhas no processo as vezes parece medo, eu enxergo isso como responsabilidade. Quem não se chateia quando algo foge do controle? Eu, dentro de uma linha de raciocínio pessoal, acabo me preocupando demais com possíveis soluções ou porquês que geralmente me esqueço de perceber aquilo que sinto. Ai está mais uma coisa para aprender.

Ainda poderia dizer muito mais, como o fato de não precisar mostrar ter conhecimento, somente ser o que se sabe, assim como o pescador, ou mesmo, a força pra continuar sempre tentando pescar o enorme peixe, mas ai vai parecer excesso de rasgação de seda…rs

Também não quero apagar tudo sobre o livro do Hornby, JJ de certa forma acaba aparecendo um pouco aqui também, mas isso fica pra um próximo post.

Sobre a música, bom a pessoa ainda está extremamente jovem e pode curtir o rock e está a anos luz de ter idade pra morrer.

Too Old To Rock’n roll Too Young To Die – Jethro Tull

A calma e a perseverança que nos levam a sempre fazer o que a gente faz da melhor maneira possível

Mudo hoje o tema para um breve texto. Sei que ainda falta fazer o texto do JJ pra fechar a série sobre o livro Uma Longa Queda. Só que hoje me deu vontade de fazer um post diferente, sobre outro livro que li e de certa forma também uma breve homenagem a quem me emprestou esse livro.

Terminei nesse final de semana a leitura de O Velho e o Mar do Hemingway, a melhor definição que eu tenho sobre esse livro é a de que foi uma leitura especial, providenciada por alguém também especial. Alguns detalhes do livro me fizeram pensar no livro do Hornby que estou citando no blog e também na pessoa que me emprestou o livro. A história do velho pescador pra mim tem uma trilha sonora fácil, nem é o chavão clássico de se utilizar algo gravado por músicos cubanos, principalmente os que participaram do filme Buena Vista Social Club. Eu confesso que sou mais rock (apesar de adorar esse filme e esses músicos). Escolhi Jethro Tull, uma banda de rock progressivo que adoro e a música Too Old To Rocknroll Too Young To Die (clique para ver o clipe).

Como relacionar a aventura de um velho e pobre pescador, com uma música do Jethro Tull e com uma de certa forma homenagem a alguém que eu acho legal? Tudo pode parecer confuso, mas possui a sua lógica. Primeiro porque eu recomendo fortemente 3 coisas, ler este livro, ouvir esta música e banda e conhecer essa pessoa. Não que isso seja razão suficiente para um post, na verdade não é mesmo, mas já serve de início pra minha escrita.

Vale lembrar alguns fatos do texto de Hemingway. O pescador perde seu ajudante por estar a vários dias sem conseguir pescar nada. O jovem o adora, mas sua família o obriga a ir com outro pescador, isso, no entanto, não diminui o entusiasmo e nem o respeito sentidos pelo jovem com seu primeiro mestre. O pescador, mesmo velho, castigado pelo tempo e sem sorte, parte todo dia. Reconhece sua sorte e mesmo assim nunca desiste de tentar o melhor. Sua luta com o gigantesco peixe e com os tubarões o faz ir até seus limites e mesmo assim ele não desiste. Ao retornar, exausto, age como se apenas tivesse sido mais um dia comum.

A música do Jethro Tull fala um pouco da passagem do tempo, de como é difícil encarar a realidade. O tempo passa para todo mundo, mesmo que tentemos esquecer ou fugir disso, o tempo passa. Como passou para o velho pescador. Porém, mesmo assim, ele nunca deixou de ser quem é, de acreditar e ser quem ele realmente é. Você pode até sentir-se velho para o que fazia com vigor antes, mas deve lembrar-se que ainda está jovem para morrer, na verdade deve apenas diminuir o ritmo e se adequar a sua realidade. Eu gostaria de poder me dar tão bem com o tempo como o velho pescador, mas confesso que o tempo é provavelmente meu maior inimigo. Vez por outra falo disso por aqui. Quem sabe um dia essa briga não tem um vencedor.

E quem me proporcionou essa leitura? O que tem a ver com o livro? Muita coisa. Primeiro o fato de ser uma pessoa extremamente humana e até certo ponto transparente, o que é extremamente raro nos dias de hoje. Todos temos dias de bom e mau humor, aceitar isso é simplesmente aceitar-se humano, aceitar-se como realmente se é. Algo que eu confesso, gostaria de fazer com mais facilidade do que faço hoje. Eu seria alguém mais tranquilo se soubesse me comunicar com um olhar ou um sorriso, da mesma forma que essa pessoa faz.

O pescador também se preocupa muito com a qualidade daquilo que faz, irritar-se com falhas no processo as vezes parece medo, eu enxergo isso como responsabilidade. Quem não se chateia quando algo foge do controle? Eu, dentro de uma linha de raciocínio pessoal, acabo me preocupando demais com possíveis soluções ou porquês que geralmente me esqueço de perceber aquilo que sinto. Ai está mais uma coisa para aprender.

Ainda poderia dizer muito mais, como o fato de não precisar mostrar ter conhecimento, somente ser o que se sabe, assim como o pescador, ou mesmo, a força pra continuar sempre tentando pescar o enorme peixe, mas ai vai parecer excesso de rasgação de seda…rs

Também não quero apagar tudo sobre o livro do Hornby, JJ de certa forma acaba aparecendo um pouco aqui também, mas isso fica pra um próximo post.

Sobre a música, bom a pessoa ainda está extremamente jovem e pode curtir o rock e está a anos luz de ter idade pra morrer.

Buena – Morphine

A capa do meu livro talvez seja a maior expressão dos meus fantasmas exteriores, ao menos ao meu alcance

Chegou a vez da Jess, talvez a personagem mais engraçada da história toda. Uma típica adolescente dos filmes americanos que mostram jovens desajustados. Relacionamentos tortuosos, drogas, sexo, falta de sentido na vida e alguma busca por algum prazer irreal. Esse seria um bom resumo da Jess, faltando, é claro, citar que ela é filha do ministro da educação britânico, ou seja, chama, mesmo que não queira, os holofotes para si.

Menina que cresceu com vários demônios internos após o sumiço da sua irmã mais velha. Jess encontrou no desajuste uma forma mais fácil de se fazer percebida por seus pais e em menor escala por ela mesma como parte do mundo. Ao som de Buena (clique para ver o clipe), som do Morphine como a música escolhida para o post do Martin, consigo visualizar Jess caminhando por ai com seu demônio interior e o apresentando a todo mundo que ela conhece com a maior serenidade que um ato como esse pode ter.

Não vou falar dos desajustes da garota, nem vale a pena. Acho que o melhor agora é elocubrar sobre o que a levou a subir ao edifício, e ai nem falo dos fatos, mas das sensações envolvidas no processo todo. Os demônios interiores que cada um de nós vivemos carregando por toda a nossa vida.

Jess tem o fantasma de sua irmã pairando sobre ela e sua família. Nunca digeriu o sumiço de alguém que de certa forma dava equilíbrio a sua vida familiar. Dissecando a maluca inglesa eu fico pensando nos meus demônios, nas perdas que tive, não aquelas pequenas perdas diárias que temos todos os dias e no fundo nem deveriam contar como algo que altere o nosso humor, mas sim as grandes perdas. Aquelas que nos marcam profundamente, gerando cicatrizes bastante aparentes, ou, em casos mais graves, feridas que nunca se fecham.

Essas feridas profundas fazem com que a gente não consiga mais raciocinar direito, e de certa forma fazem com que o nosso comportamento todo mude em função das perdas. Esses demônios internos demoram a ser exorcizados. Infelizmente alguns deles persistem por toda a vida. Imagine o que é para um pai viver com a lembrança da morte de uma filha num acidente doméstico que ele poderia ter evitado? Ou uma criança que nunca brincadeira banal acaba causando feridas graves a um amigo? Difícil viver com essa carga. É claro que esses são casos extremos de culpa, mas servem para exemplificar bem o que eu penso.

Entretanto, vejo meus demônios de um jeito diferente. Seria uma enorme mentira minha sair por ai falando que adoro a vida e tudo mais. Tenho demônios demais pra isso. Só que, eu não quero de maneira alguma me tornar um demônio na vida de outras pessoas. Provavelmente é isso que me mantém vivo. A total falta de sanidade e o medo de fazer com que outras pessoas sintam as mesmas sensações tristes e pesadas que eu sinto são o combustível mais real e funcional que eu tenho pra não passar do suicídio teórico ao prático.

A culpa que as pessoas erroneamente carregariam pelos meus atos poderia gerar uma grande reação em cadeia. Por mais que se diga que a culpa nunca é de quem ficou, mas sim de quem partiu, dificilmente as pessoas conseguem se isolar dessa sensação. Nesse sentido, o suicídio acaba sendo algo extremamente irresponsável. Não vou me alongar muito nesse tema, porque quero voltar a falar disso depois do post do JJ que será o próximo, mas ainda quero falar bastante disso até o final desse ano.

Early to Bed – Morphine

O urubu-rei pode até ser rei, mas nunca deve esquecer que antes de tudo é um urubu

 

Hoje continuo falando do livro do Nick Hornby. Continuo falando dos personagens principais, da forma como eles foram parar no topo do edifício e de como isso pode a meu ver se refletir em mim e até em outras pessoas. O nome de hoje é Martin Short. Homem famoso, bem sucedido, pai de duas filhas, casado, apresentador de TV, figura para lá de pública. Tinha tudo para ter uma vida boa e tranqüila até que jogou tudo pela janela.

Não agüentou as investidas de uma menina de 15 anos, foi pra cama com ela e nessa mesma cama deixou toda a sua vida. E segundo falas do personagem, apenas por sexo. Não existia nenhum tipo de sentimento, apenas desejo e tesão. Martin perdeu emprego, amigos, família, foi preso e nem podia sair às ruas após, alvo que era de olhares e comentários das pessoas.

Fico imaginando o personagem caminhando por Londres ao som de alguma das músicas da banda que acho que melhor traduz o livro, Morphine. Um grupo norte-americano formado por bateria, baixo de duas cordas e sax, sem guitarra que infelizmente terminou em 1999 com a morte do band leader Mark Sandman num palco em Roma, vítima de infarto fulminante. Vasculhando as músicas da banda (que voltará nos demais personagens daqui pra frente), encontrei uma que acho que traduz bem isso Early to Bed (clique no nome da música para ver um clipe), que diz que dormir e acordar cedo limita a vida noturna das pessoas, limita a vida social, limita a própria pessoa a um microverso onde a companhia acaba sendo a tela da TV.

No fundo isso realmente aconteceu com Martin e provavelmente o peso disso tudo é que fez com que ele tivesse a idéia de se matar. Entretanto, é nesse ponto que vale a pena começar a brincadeira com as palavras. Uma análise mais rápida pode nos levar a um caminho mais rápido e simplista. Ele cometeu um erro e merece pagar, ele é o único culpado por seus atos. Até certo ponto isso é verdade, mas e o julgamento do crime? Até falei sobre o tema neste post de maio. Temos pesos e medidas diferentes para cada pessoa.

Talvez Martin tenha sofrido um pouco disso, o peso do julgamento me pareceu muito mais forte do que seria se ele fosse uma pessoa comum e desconhecida. É claro que isso não apaga a canalhice que ele cometeu. Pensando ainda nessa linha, talvez o fato dele não ser alguém comum também tenha criado em sua cabeça a falsa aura de proteção para qualquer ato imbecil que ele viesse a cometer.

Procurando ser mais claro. É comum vermos pessoas com algum tipo de pequeno poder, e ai chamo de pequeno poder coisas simples como um chefe de setor, um recém-promovido, uma pessoa desejada por várias outras, um aluno popular, um cantor de bairro, até os extremamente populares. Em uma ou outra instância, aliás, todo mundo é poderoso em algum ponto. O que pode causar problema é esse poder se tornar mais forte do que a razão, e a pessoa faz uso desse poder como se ele fosse uma capa protetora que o livrasse de qualquer besteira.

Quando a pessoa percebe que não possui esse poder todo, ou em alguns casos a importância que acredita ter naquele pequeno círculo, seu mundo cai. Tudo parece desabar e a sensação de desespero pode ser fatal. Procurando me colocar no lugar do Martin, provavelmente não seriam as perdas que me fariam querer pular do prédio, mas sim a descoberta de que depois de tantos anos me enganando eu não era nem 10% do que acredita ser. Era tudo uma fantasia criada por meia dúzia de bajuladores e principalmente pela cabeça do personagem.

Afinal, sejamos honestos. Temos orgulho das coisas que fazemos. As pequenas conquistas e muitas vezes gostamos de ser reconhecidos pelas nossas vitórias ou ações que acreditamos ser importantes. O problema muitas vezes está em reconhecer que essas situações só são verdadeiramente importantes para nós. Todo o resto do universo segue seu curso sem se importar muito com o que fazemos. Recolher-se a própria insignificância é algo extremamente difícil.

Cotidiano – Chico Buarque

entender e ajudar a minimizar a dor do outro deveria ser algo extremamente simples e comum, pena que não é...

Como eu havia prometido, começo agora a dissecar um pouco os personagens do livro “Uma Longa Queda” de Nick Hornby. Repito que adorei o livro e recomendo a leitura, me fez pensar num monte de coisas diferentes. Me fez entender e talvez me ajude a elaborar algumas de minhas neuras e o que é melhor, fez isso me divertindo. Fazendo meu cérebro trabalhar.

Aliás, falando nesse tema, fazer o cérebro trabalhar, escolhi pra começar a personagem aparentemente mais frágil do grupo dos suicidas. Maureen, mãe solteira de uma criança portadora de deficiência, o livro não deixa claro qual, mas sabe-se que seu filho não interage com o mundo ao seu redor. A dor que ela sente me remete até certo modo a uma música do Chico Buarque, Cotidiano (clique no nome da música para assistir a um vídeo dele cantando a música).

Apesar de a música falar da mulher sentir certa alegria em todo dia repetir as ações com e para o seu homem (sem discussões sobre machismo, ok? O assunto é outro), nem todo mundo se sente bem com essa falta de mudanças e perspectivas. Maureen se sente mal com o que vive. Não aguenta mais dedicar todo o seu tempo aos cuidados de Matt, seu filho. Não aguenta mais perceber que não vive mais sua vida, não faz nada e nem vê a possibilidade de voltar a fazer. Quantas vezes não nos sentimos presos dessa forma? Quantas vezes parecemos escravos do cotidiano fechado que nos cerca.

Acordar cedo, correr para o trabalho, ao fim do dia correr para a faculdade, chegar em casa cansado e adormecer para repetir tudo no dia seguinte, chega-se ao final de semana e é hora de limpar e arrumar a casa, ir ao mercado, fazer o que ficou pra trás durante a semana. Tudo é feito quase mecanicamente. Bem vindo a vida moderna diriam alguns, mas será que isso tudo é necessário? Conheço um número relativamente grande de pessoas que se sente oprimida o suficiente para se queixar de sua agenda e alguns até poderiam mesmo se matar pela forma como são oprimidos diariamente pelas obrigações. Falta tempo para conseguir ser quem realmente se é.

Até poderia dizer algo sobre falta um culto ao ócio ou algo do gênero, mas não é isso, muitas vezes a falta de atividade pode ser tão dolorosa quanto o excesso de atividade. O desemprego causa suicídios, causa desgosto e muitas vezes sair de uma situação dessas é muito mais difícil do que se pensa.

Nesse ponto Maureen acaba atuando como a voz mais forte de uma multidão insatisfeita com a própria vida. Alguns podem simplesmente dizer, mude sua vida e siga adiante, pare de encher a paciência. A questão é que muitas vezes não se sabe como fazer isso, ou não é possível mudar. Maureen mudou de alguma forma, não conto como foi para que você não desista de ler o (ótimo) livro.

Eu tentei me colocar no lugar dela. Confesso que parte da dor dela acaba sendo minha também, mas em outra instância. Algumas coisas eu poderia e deveria fazer de modo diferente, outras acredito mesmo ser esta maneira repetitiva a melhor possível e até a maneira necessária. Por outro lado, a ignorância (aqui no sentido de ignorar, desconhecer) de Maureen para alguns temas óbvios, me deixou extremamente pensativo.

Fiquei um tempão pensando nisso. O tamanho do mundo de uma pessoa varia de acordo com o que ela vive. Seus sonhos e desejos provavelmente vão ser limitados pelo tamanho de seu mundo. Como o mundo de Maureen era extremamente pequeno se comparado aos outros suicidas, seus desejos mais fortes pareciam bobeira aos olhos dos demais, só que para ela eram algo extremamente importante e forte.

Tentando chegar um pouco mais fundo nessa linha, como cada pessoa conhece e vive coisas diferentes, cada um possui um mundo diferente do outro. Os desejos de um, nesse caso, podem parecer extremamente ridículos e simples para o outro e vice-versa. Ai meu lado mais humanista e Pollyana (sim eu li Pollyana e Pollyana moça, mas não espalhem, por favor) me diz que o correto seria um ajudar o outro a chegar aos seus sonhos e resolver seus problemas, é bem mais fácil resolver a dor do outro do que a sua. O que pega é que infelizmente não é dessa forma que agimos, assim, diariamente mais e mais Maureens se suicidam, eu posso falar por mim, já pensei nisso algumas vezes e por motivos que a grande maioria das pessoas acharia banal.