That Thing You Do – The Wonders

Estou esperando a sua playlist, ok? Fale comigo

Mais um dos pensamentos da quarentena aflorando. Enquanto não posso lançar meu livro procuro trabalhar nele e até por achar importante que ele seja uma obra coletiva, faço um convite para você também tomar parte da sua criação.

Ok, o texto está pronto. Mas ele é formado pela trilha sonora de um período da minha vida. Sendo mais justo, pela trilha da maneira como eu li uma série de fatos importantes em minha vida e como eu mudei meu olhar sobre o mundo e minha existência. 

Parte da brincadeira foi a de me imaginar como um rockstar. Que músicas eu comporia e o que eu queria dizer com elas. Como essas canções poderiam contar a minha história e mesmo como é que eu as organizaria num disco. Sou do tempo das bandas de garagem e dos lançamentos dos discos como evento. Fazer o que, o tempo passou pra mim. Adoro os serviços de streaming, mas ainda penso em algumas obras como fechadas e alguns discos só fazem sentido pra mim se ouvidos totalmente. Mania de velho.

Nunca toquei numa banda, faltava habilidade e coragem. Nunca compus, o máximo foi escrever poesia, mas sendo sincero, só uma ou outra digna de nota. Mas a música sempre teve um papel importante em minha vida e é isso que eu quero marcar nesse livro. Canções sempre marcaram histórias e fases da minha vida.

Justamente por isso eu convido outras pessoas a me enviarem suas playlists. Já recebi algumas, mas quero mais. Quem se interessar, por favor separe cerca de 12 músicas (é o que costuma vir num disco de vinil) e dê um título para sua lista. Com isso em mãos prometo fazer uma brincadeira legal.

A ideia é que você se imagine como um grupo musical fictício desses de filmes como o The Wonders (da música deste post) ou o Spinal Tap. Será legal ver você quais são as músicas da sua vida. E ai o critério é seu, gosto, importância, lembrança de um momento, tanto faz. A trilha é sua. Ela fará parte do lançamento, deste blog, do Spotify e do Instagram do livro. 

Vou tratá-lo como uma estrela pop e produzir o material com o maior carinho do mundo. Aos que se preocupam com o anonimato, fiquem tranquilos, preservarei o nome de todos os autores das playlists. Será apenas um exercício divertido tanto para vocês na elaboração das listas, quanto para mim ao conhecê-los um pouco melhor e tentar produzir algo bem legal.

Aguardo suas listas gente! Entre em contato para saber como participar!

Outono – Djavan

Nada mais belo que o entardecer do outono…

Fins de tarde no outono tendem a ser tão lindos. Os dias começam pouco a pouco a diminuir e as noites caminham para o máximo quando começar o inverno. O azul do céu é todo próprio, a luz do Sol vem de um jeito diferente das outras estações e refrata de outra forma. Tons amarelos, laranjas e vermelhos colorem cada fim de tarde.

Milhares de fotos postadas nesta pandemia. Vejo gente dizendo que não lembrava de um céu tão bonito quanto este. Talvez apenas a gente não tivesse parado para olhar. Os céus de outono surgem todo ano diante dos nossos olhos, só que a correria do cotidiano nos faz apenas prestar atenção no relatório a ser entregue, no ônibus lotado e na correria para tentar chegar em casa e quem sabe ainda encontrar a família desperta para um boa noite.

Em tempos de pandemia e desaceleração obrigatória, todos tivemos que parar e paramos. Todos pudemos olhar o que nos cerca, inclusive como é belo o céu ao entardecer. Parece uma ação simples, mas é mais simples ainda perceber que o mais comum é não olhar. Pena, pois se parte do nosso tempo fosse dedicado a apreciar o que está ao redor, com certeza perceberíamos que tem muita coisa bela diante dos nossos olhos.

E aí uma nova brincadeira, tentar entender o que é o belo. Cada um tem um gosto e um senso estético próprio. Cada um é sensibilizado por uma cena diferente, eu não sei o que vai te tocar e você não sabe o que me toca.

Ontem mesmo, dentro da aparente moda de ver os fins de tarde, postei uma foto do entardecer aqui da laje da casa dos meus pais. Lugar onde estou em quarentena. Uma cena que se repete inúmeras vezes e já cliquei diversas vezes. Inclusive foi uma das minhas primeiras fotos quando passei a levar o hobby a sério. 

Fotos de por do sol sempre estão entre as mais clichês. As mais comuns e talvez as mais simples de tirar. Raramente a câmera erra, mesmo no automático. Raramente o enquadramento é errado, afinal é só apontar para o ponto mais bonito e clicar. No máximo um pequeno ajuste de cores no pós processo e olhe lá.

E fazem um sucesso tremendo, mesmo muitas vezes falando bem pouco para quem fotografa. Vejam só. publico geralmente fotos que me falam muito mais. Que me exigiram muito mais aprendizado para fazer e tem mensagens mais profundas. Não que eu seja um grande artista, estou bem longe disso, mas reparo que não é isso que importa e sim o que cada um sente ao interagir com o que você mostra. 

É preciso nunca esquecer isto. Por mais que algo tenha um valor inestimável para mim, não posso esperar que tenha o mesmo para outro. O sentimento de cada um é único e deve ser respeitado. E mais do que isto. Num momento duro como o atual, por acaso realmente é capaz de existir algo mais reconfortante e acolhedor do que um belo fim de tarde outonal? Eu duvido.

Medo do Medo – Paralamas do Sucesso

Quando é o seu medo que mantém sua sanidade…

Já que citei a série Monk nesse primeiro texto da volta, ficarei mais algum tempo falando dela. Gosto muito da série. O detetive cheio de traumas e com grande habilidade e observação é um personagem intrigante e que me faz pensar. Tirando o óbvio do superar medos e utilizar limitações a seu favor, é possível visitar outras linhas de pensamento. Hoje mesmo sigo uma extremamente pessoal.

Quase usei esta música no livro (que vai sair assim que a crise passar). Falar do medo é de certa forma uma constante para um medroso contumaz como eu. Consigo ver diversas nuances do assunto e ele parece não se esgotar. Talvez pelo fato de que infelizmente o medo nunca se afasta de mim.

E nesses tempos de COVID 19, onde todos ficam presos dentro de suas casas (ou deveriam para que a gente possa retomar a vida normal o mais rápido possível), é justamente o meu medo que mantém a minha sanidade. Estranho isso, mas confesso que a pandemia me jogou no melhor lugar imaginável e da melhor forma possível. E eu sinto uma certa vergonha disso, afinal, minha comodidade vem acompanhada do desespero e da desgraça de muita gente.

Preso em casa, sem poder sair, posso dizer sem medo de errar, estou tranquilo. Não preciso interagir muito. Por ser do grupo de risco, realmente não saio e se o fizer, será totalmente paramentado, com máscara e tudo mais. Uma máscara que certamente me fará sentir-se protegido, por não precisar falar com ninguém. Uma sensação ampliada dos fones de ouvido que me acompanham todo dia. Eu me cerco num mundo meu e através dele é que eu consigo passear sem ser importunado pelo mundo em que todos os outros habitam.

Esse é também o mundo do Monk, o detetive que faz das suas manias uma ferramenta de isolamento e ao mesmo tempo aproximação. Talvez se não fosse tão exagerado, Stottlemeyer, Natalie, Sharona, Randy, os poucos que realmente fazem parte do universo de Monk são os que no fundo ele permitiu e tiveram a paciência necessária para vencer as barreiras que ele criou. Ele se sente protegido com poucos e são apenas estes que ele deixa chegarem perto dele.

Eu percebo que sou um pouco assim. E nestes tempos de isolamento, parece que finalmente me sinto livre. Mu aniversário mesmo foi comemorado dessa forma e eu estive muito bem. Os cumprimentos a distância e poder ficar sozinho em casa foram um alento. Não que eu não goste das pessoas que me cumprimentaram. Gosto muito delas, admito. So o contato muitas vezes é excessivo para mim. Eu suporto no cotidiano, mas ao fim do dia me sinto cansado de um jeito que nem sei como explicar. 

Não é físico, mas mental, e isso se reflete num corpo dolorido e cabeça cheia e pesada.  Só que eu gosto e vejo valor no que faço. Antes até me sentia mais invisível. Conseguia ir fazer o que tinha que fazer e voltar para casa ao fim do dia. Sem interagir mais que o necessário, sem me expor tanto quanto hoje. Em que até mesmo definir o que tenho que fazer é obscuro. 

Talvez por isso eu comemore essa loucura toda. O poder voltar ao meu mundo neste momento de crise mundial e pessoal. O poder me reorganizar e entender quais passos devo seguir para continuar sendo uma pessoa relevante e útil e ao mesmo tempo me preservar. Por mim, confesso que só sairia de casa novamente quando tudo isso estivesse resolvido. Tanto no mundo quanto dentro de mim.

“Ouve o que eu te digo / Vou te contar um segredo / É muito lucrativo / Que o mundo tenha medo / Medo da gripe / São mais uns medicamentos / Vêm outros vírus / Reforçar os dividendos”

It’s a Jungle Out There – Randy Newman

Por enquanto, se conseguir fique em casa e se puder ajude quem está passando fome!

E o isolamento social segue firme e forte. Evitando o máximo possível mortes desnecessárias devido a falta de leitos e respiradores nessa pandemia. Todos em casa, pelo menos todos aqueles que podem. Com isso a cidade vazia e um clima pré apocalíptico toma conta de todos. Nunca vi tanto medo nas pessoas. Nunca senti tanto medo no ar. Nunca vi tanto desespero.

E o medo vem de diversos pontos, não só do vírus, mas também da fome e do desemprego. Algo precisa ser feito e me parece que não vai. É preciso entendermos que não existe uma vida mais importante do que a outra. Não é uma escolha tão simples assim. Por isso o medo.

E nesse tempo trancado em casa, é preciso encontrar o que fazer. Estudar, aprender coisas novas, produzir e até escrever, por que não escrever? Voltei a escrita. Tem livro novo chegando por ai. Lanço assim que este inferno todo passar e todos possam circular livremente pelas ruas. Até lá retomo o blog. Faz tempo que não vinha aqui, uns 4 anos. Vivi muita coisa nesse período e no fundo, o que percebi é que acabei mesmo retomando velhos hábitos. Então nada melhor do que fazer algo que me deixa feliz, escrever.

Tenho visto muita coisa nos serviços de streaming, séries e filmes me acompanham em muitos momentos. É preciso de alguma forma manter a sanidade. Uma das séries que tenho visto bastante é Monk. Um personagem que dentro de todas as suas manias tem tudo a ver com o nosso atual momento. Principalmente quando a gente pensa em todos os medos que ele sente.

A música tema, inclusive, pode muito bem servir de trilha sonora para essa fase que o mundo vive. “É uma selva lá fora / Desordem e confusão por toda a parte / Ninguém parece se importar / Bem, me importo! / Hey, quem está no comando aqui? / É uma selva lá forma / Tem veneno no muito ar que nós respiramos. / Você sabe o que tem na água que você bebe? / Bem, eu sei, e isso é assombroso!”.

É isso que vivemos desordem e confusão e medo. E no momento todos parecemos ter transtorno obsessivo compulsivo. Todos querem se proteger e proteger os seus. Todos querem também levar comida para casa e manter seus empregos e salários. Todos queremos fazer a coisa certa e ninguém parece saber que coisa é esta.

No fundo, o que falta é alguém com a perspicácia do detetive. Alguém que consiga juntar os pontos e indicar o melhor caminho a ser seguido, sem procurar culpados, preocupado apenas com a solução. Por enquanto, se conseguir fique em casa e se puder ajude quem está passando fome!

Falling to Pieces – Faith no More

falling

Vejo muita gente comemorando a saída da presidente e entrada do vice como agora presidente oficial. Sinceramente não vejo motivo pra comemorar. Nunca me senti representado pela Dilma, aliás, me sentia mal representado em diversos aspectos. Mas confesso que nunca comemoraria uma queda.

Como comemorar uma falha?  O fato de um governo dar errado, significa que o país naquele momento falhou. A queda da presidente é mais para ser sentida do que ser louvada. Até porque o motivo da queda não é consenso nem entre quem estuda a fundo a legislação. Pra mim, ela só caiu porque não tem mais apoio no Congresso, é o nosso presidencialismo de fachada, onde o executivo leva a culpa, mas não faz nada sem o legislativo.

Ainda no quesito frustração, vale lembrar que essa história poderia ter ocorrido em governos anteriores. Lulla e FHC tiveram vários pedidos de impeachment (tão malucos quanto este) que não passaram apenas pela força destes no congresso. Ou seja, pau que dá em Chico bate também em Francisco. De novo a nossa sempre irresponsável oposição (independente de quem seja governo ou oposição) se preocupa mais em encher o saco do que realmente fazer algo produtivo.

Isso, entretanto não serve pra transformar a ex-presidente em mártir. Ela não é santa e nem deve ser beatificada. Caiu porque cometeu seus milhares de erros políticos. Caiu porque para chegar ao poder escolheu seus companheiros de campanha e achou que eles não precisavam ter voz ativa em seu governo. O PT não é culpado pelos erros desse governo. Os erros são culpa do PT, do PMDB, do PSD, do PR, do PROS e de todos os partidos da base aliada. Se era pra tirar, que saíssem todos (e nem vem com essa de Aécio, novas eleições por favor e de preferência com uma reforma política e partidária séria, para que tantos partidos?).

Você que comemora a queda, espero que não fique cego e ache que tudo está resolvido. Vale lembrar que o atual presidente era vice, fazia parte do antigo governo e mesmo que não fizesse. Ele tem que ser cobrado. Tem que responder pelos seus erros, afinal ele é ficha suja, não?

Aos que choraram pela ex-presidente. Respeito os sentimentos, mesmo achando que não é pra tanto. Mas ao invés de se sentirem perseguidos, vale cobrar o novo governo e parar de querer criar mitos. A inocência passa longe de toda a turma que estava envolvida nessa história, não vale a pena se iludir por político.

Pensando nisso, sobra uma última reflexão nesse fla x flu político. Gente, direita e esquerda não são denominações de certo e errado. Ninguém é bom ou ruim por ter uma visão ou outra. Acreditar que só existe um caminho é de uma limitação de raciocínio incrível. Vejo gente bem formada e aparentemente bem informada ofendendo ambos os lados de uma forma que eu nunca imaginei ver em meu país. Nunca imaginei, aliás, ver meu país tão dividido numa briga em que infelizmente parece que todos os lados estão errados e que no fundo ninguém sairá ganhando, apenas os políticos. O povo? Seja a direita ou a esquerda, aparentemente só está servindo de massa de manobra para essa turma que nos governa.

Não consigo pensar numa música melhor pro nosso país do que essa que eu coloquei, afinal realmente eu vejo tudo caindo aos pedaços. Minha dúvida é será que a gente vai conseguir reconstruir?

Book of Days – Enya

O post de hoje nasceu de uma brincadeiras dessas que surge vez ou outra no facebook. Montar uma lista com os meus autores prediletos, ou melhor os que mais me influenciaram. Foi duro fazer a lista, mas nem é esse o caso. O primeiro foi o mais fácil. Posso até vez ou outra esquecer do nome do Nick Hornby, mas se esqueço do nome, não esqueço dos livros. O autor realmente fala comigo de forma quase terapêutica (ele não compete com minha psicóloga, mas tem seu espaço…rs).

Um livro em especial tem muito a ver com este blog. É ele que inspirou o formato. Tem uma obra chamada 31 canções em que o Hornby fala das 31 músicas mais importantes pra ele, não importa a qualidade das músicas e sim que ele gosta delas. Em geral canções pop e rock inglesas. Textos sem nenhuma pretensão de teoria musical. Textos de um fã das músicas para fãs do autor. Eu planejo escrever um livro assim, não com a genialidade do Hornby, ou com todo o seu público, mas de certa forma quero sim contar ao mundo minha trilha sonora e fazer pequenas discussões sobre ela. E nesse modo de pensar, o blog segue como um teste para o livro.

A música de hoje fala um pouco disso. Ao ouvir a Enya cantando eu sinto como se a cada verso os acontecimentos diários fossem todos escritos num grande livro que guarda toda a história. Tudo, é claro, sob o ponto de vista de quem detém o poder sobre aquele livro. Como se cada um de nós tivesse um livro próprio que só chegará ao fim com a nossa morte. E ai ao pensar na brincadeira e ouvir essa música, confesso que fiquei pensando em como seria o meu livro dos dias. O que será que estaria escrito nele?

Tenho que admitir que a maioria das páginas viria acompanhada de uma série de acontecimentos cotidianos extremamente chatos e sem muita ação. Provavelmente pouca coisa fugiria do levantou, saiu para o trabalho, voltou ligou a tevê e o computador, adormeceu e esperou o despertador tocar novamente. Nos poucos dias livres muda um pouco para adormeceu sem ter hora pra acordar. Quando abriu os olhos o sol já alto entrava pela janela, ligou a tevê e o computador até a hora de dormir. Teve medo de viver. Talvez essa seja a melhor reflexão.

Garanto que se em algum momento no lugar das ações, meus pensamentos fossem escritos, a história seria bem mais divertida. Se no campo das ideias eu consigo assumir meus medos e meus erros. Falta um pouco ainda pra passar para a ação, falta aquele empurrãozinho final. Preciso fazer isso o mais rápido possível para que no final meu livro tenha algo mais do que obviedades.

Porque mais importante do que belas palavras numa folha de papel seriam belas histórias gravadas nesse livro dos dias. E elas não existem em parte por fragilidade minha. Pena que mudar nunca é tão fácil quanto parece, mas um dia eu aprendo.

Like a Virgin – Madonna

30 criminosos destruíram uma vida. É essa a grande manchete de todos os jornais, ou pelo menos a leitura que eu faço dela. 30 criminosos, não consigo ler de outra forma. E diariamente milhares de outras vidas são destruídas de todas as formas possíveis e imagináveis. Dessa vez, porém, a dor parece maior.

Não pelo crime em si, que é realmente hediondo. Me incomoda muito mais a impressão de que tem gente tentando simplesmente fazer discurso em cima do sofrimento alheio. Aliás, infelizmente é o que mais se tem feito. Pessoas defendem bandeiras e usam tudo o que está ao seu alcance para provar que o seu jeito de pensar é o correto, esquecendo do principal, a dor de quem sofre.

Acho justo neste momento as mulheres levantarem suas bandeiras pedindo sim uma mudança de pensamento. O risco existe num comportamento perigoso que ainda reside em muitas mentes. Não mudo minhas fotos nas redes sociais, mas apoio a luta, é uma postura pessoal. Nem mesmo em causas que me afetam de maneira bem mais direta como o movimento negro me forçariam a tanto. Até por pessoalmente eu pensar numa linha bastante diferente destes movimentos.

É nessa diferença que surge o incômodo ao ver a maneira curta de pensar de alguns. Eu tenho amigos ligados a direita e a esquerda que defendem suas ideias de maneira clara e dentro de um nível alto de respeito e educação. Tenho visto, porém, gente que extrapola. Se eu já me incomodava quando as falas eram Petralhas x Tucanalhas ou Coxinhas x Mortadelas, ver a apropriação da tragédia de uma pessoa como bandeira política e usar isso como ofensa ao pensamento do outro chega a ser repugnante.

Para começar as ideias mais imbecis que li. Gente, uma vítima não pode ser acusada de ser a culpada pelo crime que sofreu. Não importa onde ela estava, com quem estava ou o que vestia. Digo mais, não importa nem mesmo seu sexo biológico (ou orientação sexual). Não existe maneira de colocar a culpa na vítima e não nos estupradores. Não é culpa do capital e nem dos “direitos humanos”. É culpa dos estupradores e ampliando a discussão em certa linha também de quem tenta de alguma forma dourar a pílula.

Lembremos que vivemos num país em que um deputado diz que não estupraria uma pessoa por ela não merecer (aliás, alguém merece?) e nada acontece a esse deputado. Lembremos que do outro lado, anos atrás uma candidata a cargo eletivo num partido que recebia apoio da comunidade LGBT questionou a orientação sexual de outro candidato em sua campanha e também nada aconteceu. Ambos estão ai com sua vida política em dia.

Mas voltando ao caso. Não me sinto culpado apenas por ser homem. Aliás, esse tipo de comportamento me soa extremamente populista. Eu nunca vou me sentir culpado ou estuprador em potencial por ser homem. Mulheres podem ser tão ou mais machistas do que homens e defender o machismo causa mais casos de estupro do que ter um pênis. Ao invés de pedir desculpas, faça algo de útil. De alguma forma tente fazer com que cada vez menos pessoas acreditem numa superioridade de um sexo sobre o outro.

E nem falo em ser feminista. Eu não sou. Não participo de movimento algum, já escrevi isso antes. Apenas acredito que não existem pessoas de primeiro ou segundo escalão seja por sexo, orientação sexual, cor da pele, dinheiro ou o que quer que seja que de maneira artificial seja utilizado para nos separar. Por isso tento do meu jeito mostrar isso a quem convive comigo. Procuro passar essa ideia aos jovens que formo, aos adultos que estão ao meu lado, e nessa troca, ouço as ideias de todas as pessoas com quem convivo também, independente da classe social, idade, raça, credo, cor ou o que quer que seja.

E o mais divertido dessa convivência, é perceber que muitos dos problemas podem ser resolvidos com ideias adotadas ligadas tanto a direita quanto a esquerda. Uma boa ideia não tem lado. Uma forma de pensar pode se tornar melhor ou pior de acordo com quem a utiliza. Se você assim como eu também se chocou com esse caso de estupro, apenas aja, não culpe ninguém além dos estupradores e faça de tudo para que novos casos como esse não ocorram mais em nosso país. Nessas horas eu queria entender porque a gente sempre esquece que mais de um caminho pode levar ao mesmo local.