"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

nunca cause dor no outro por descaso
nunca cause dor no outro por descaso

Tem situações em que nós ficamos tomados pela raiva. Loucos de desejo de vingança. Algumas ações nos tiram do sério de tal forma que acabam expondo nosso pior lado. O bom senso se perde, junto com ele toda a tão bem desejada boa índole e respeito ao próximo somem de forma rápida e direta.

A sensação de sentir-se traído é uma dessas situações. Sentir-se enganado é terrível. E é justamente assim que tenho me sentido a alguns dias. Na verdade essa sensação incômoda vem e vai a algum tempo. antes das piadinhas maldosas, não é a típica dor de corno, afinal um solteiro não pode sentir esse tipo de dor.

Tem dias em que dói muito, como hoje. Sinto-me traído no ponto mais íntimo. O descaso as vezes é o que mais incomoda. É claro que fazer qualquer coisa esperando uma resposta específica de alguém é no mínimo burro e totalmente imbecil, mas algumas coisas são realmente padronizadas.

Espera-se encontrar carinho como resposta para carinho, respeito como resposta para o respeito e descaso como resposta para o descaso. Sei que essa linha é totalmente pavloviana, mas a não ser que ações absurdas tenham sido condicionadas no ser, a resposta padrão esperada é essa. Você não trata com descaso quem te trata com respeito. Ao menos eu não espero isso de ninguém que eu realmente respeite.

É ai que eu vejo traição. Falo da traição existente na quebra desse protocolo social. Me sinto traído algumas vezes por causa disso. Tem gente que se sente usado, eu nunca me sinto usado. Faço algo por alguém porque quero bem essa pessoa, faço algo por alguém porque de certa forma me faz bem ver o outro bem. O que incomoda muitas vezes é um tipo velado de descaso.

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga
as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

Até entendo o motivo deste descaso, dos tais sumiços e de certa forma respeito isso. é um direito de cada um agir como quiser, fazer o que quiser e buscar aquilo que lhe é necessário nos momentos em que surgem os problemas. A forma como isso é feito também é uma arma de cada um, cada pessoa faz o que acha justo e correto.

Se eu entendo a ação, por que me sinto traído? Nunca esperei prontidão, o carinho, ou o desapego com que trato algumas questões, isso é a forma como eu atuo, cada um tem a sua. Mas respeito é algo simples. Alguns sentimentos são absurdamente primários, principalmente os meus, eu sou sentimentalmente primário, não acesso sentimentos mais complexos em relação ao outro, vou pouco além do gosto e não gosto. Queria apenas saber o que realmente acontece, me sinto jogado no vazio muitas vezes.

ações simples podem salvar alguém
ações simples podem salvar alguém

E pior do que a traição do outro é a minha própria traição. Viver já não é fácil. Se traindo fica mais difícil ainda. E nesse aspecto eu me traio muito. Parece que acredito em contos de fadas que eu mesmo crio como falsas esperanças para um mundo aparentemente melhor, que na verdade não é melhor. Sei que deveria dizer não algumas vezes, mas também assumo que nunca vou fazer isso. Se assim o fizer fica a sensação de saber que poderia ter feito algo simples pra alguém que faria a diferença e não fiz, por mais que isso me magoe (e magoa no final), fazer é muito mais prático.

Nesse desabafo todo, no fundo eu acho que só queria que as pessoas todas se lembrassem da frase escrita por Saint-Exupéry (eu odiei ler o Pequeno Príncipe, mas tenho que admitir que ele merece ser lido): “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

Aceitar ou não

Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...
Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...

Dois comentários sobre meu último post fizeram pensar. Cada um a seu modo trata justamente do que acho mais importante na existência humana. A capacidade de ter opiniões pessoais e a partir delas  tecer comentários que podem ou não ser aceitos. Eu, particularmente neste blog, e confesso que em todos os aspectos da minha vida, não quero apenas ser aceito.

Não me vejo como criança mimada que não pode ser contrariada, muito pelo contrário, tento ser um adulto que sabe que vai ser questionado, aliás é o que mais busco aqui neste espaço.

Posto isso, vale a pena retomar as duas idéias, tanto a Lak, quanto a Eve levantaram pontos discordantes passando por dois conceitos que possuem relação estreita com o que discutia. A Lak disse que podemos sim ter uma alma livre e a Eve procura me lembrar da diferença entre liberdade e independência. Ambos os assuntos serão tratados em  breve, provavelmente nessa semana ou na próxima. Porém, preciso ainda refletir um pouco mais antes de começar a falar de cada um deles.

Hoje, com base nessas leves e saudáveis discordâncias, quero falar de outro tema. O não ser contrariado. Acredito que sempre que mostramos qualquer coisa a outro ser (e nem precisa ser da nossa espécie) estamos nos apresentando a um tipo de julgamento. Seja a ração que você resolveu comprar para o seu cão ou o novo livro que você apresenta a seu editor. Tanto a ração quanto o livro podem ser aceitos por seus interlocutores como podem ser odiados. Isso é normal e faz parte da vida.

Uma amiga minha diz sempre no meio de nossos papos mais filosóficos que todas as ações só ganham significado a partir da interpretação do outro. Você só escreve porque alguém vai ler, se veste porque alguém vai ver, se cuida porque vai conviver com alguém. Ela pauta seu pensar em teorias do discurso, presentes em sua formação.

Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...
Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...

Minha formação é bastante diferente, sou o tipo de pessoa que analisa o comportamento humano da mesma maneira que observa o comportamento de uma formiga. Para mim somos apenas animais. Nos demais animais, fica clara essa urgência em se fazer presente no outro. Nas aves os machos cantam para serem aceitos pela fêmea, em alguns grupos de mamíferos, ser aceito no grupo garante a alimentação, todos os rituais de corte são fortemente impregnados pelo desejo de ser aceito.

Em nosso íntimo é claro que todos queremos que nossas idéias prevaleçam, todos querem ser aceitos dentro do seu grupo, seja por sua beleza, inteligência ou ações. Alguns de nós até mudamos nosso comportamento natural só para ser aceito no grupo. Quem não se lembra de uma ação que foi feita só para conquistar a pessoa amada? Quem nunca se pegou agindo de forma diferente diante de pessoas diferentes?

Minha psicóloga (segunda vez que a cito no blog, espero que ela não resolva me cobrar uma sessão a mais) já me perguntou mais de uma vez se eu não tenho medo de não ser aceito. A resposta sincera sempre foi não, realmente não tenho de forma exacerbada. Como todo mundo, sinto-me confortável ao saber que estou agradando.

A questão aqui, entretanto, passa a ser outra. Você pode ser contrariado e ser aceito ao mesmo tempo. Discordar é saudável, doentio é não permitir que discordem daquilo que você pensa. Pessoas que não aceitam isso tendem a uma ação ditatorial e principalmente deixam de aprender. Talvez deixar de aprender seja um dos meus maiores medos. Para quem age assim, talvez o medo maior seja o de perceber que ainda é preciso aprender.

Algumas verdades para nós são tão presas que dificilmente conseguimos julgá-las. Seja a fé, seja o time do coração ou mesmo a opinião sobre o aborto. Discutir isso de forma racional é que é difícil. Deixar algum espaço para que outras opções sejam apresentadas.

Leio muitas vezes no mundinho azul (Orkut) discussões que nascem e ganham corpo apenas porque os envolvidos assumem a postura de a minha verdade é a que vale e parece que ganhar essa disputa virtual tem o mesmo peso de uma vitória na vida real. Tudo para sentir-se aceito.

Na vida real, mulheres passam anos sendo maltratadas por maridos violentos e escondem o fato com medo de serem vistas como vadias. Pessoas de ambos os sexos entregam-se pelo mesmo motivo a ditaduras de beleza, comportamento ou ação apenas para agradar ao outro, mesmo que não agrade a si próprio.

No fundo todos somos iguais
No fundo todos somos iguais

Aceitar a crítica muitas vezes é doloroso. Principalmente nessas verdades irredutíveis que criamos, mas aprender a quebrar esses pontos é necessário. Sei que se faz necessário um aprendizado constante e longo para que consigamos superar nossos medos e vaidades, mas é necessário aprender a ser questionado.

Confesso que foi a primeira coisa que pensei antes de criar este blog. Estou pronto para que as pessoas digam que não gostam do que eu produzo? Só quando eu tive a certeza interna de que a resposta para isso é sim, é que tomei coragem para me aventurar nesse universo de escrita. Em alguns pontos infelizmente ainda não cheguei ao ponto de agüentar ser questionado, nesses pontos o que faço? Simplesmente não os ponho a prova. E você? O que faz? O que pensa a respeito?

Free as a bird…

Será que somos livres como pássaros?
Será que somos livres como pássaros?

Vinha pra casa, voltando da casa dos meus pais. Dia das mães, dia de reunir a família, como Natal, dia dos pais e outras datas. Corrida pra comprar um presentinho agradável (esse ano a conta bancária não permitiu, foi mal dona Nair), filas em shopping center, almoçar fora, um churrasco, essas coisas todas.

Enfim, voltava pra casa dirigindo, no intervalo do jogo (meu time perdeu, fazer o que?) mudei de estação e os versos da música que dá título ao post começaram a ecoar. Fiquei pensando, eu sou livre. Sou livre como qualquer pássaro. Era ao menos isso o que vinha na minha mente naquele momento.

Mas a música acabou, voltei ao jogo, confesso que estava tão morno que mal prestava atenção no que o radialista dizia. Comecei a pensar de novo na música, na tal liberdade dos pássaros. E vi que não sou tão livre, até já falei um pouco disso no post que inaugurou este blog, mas me deu vontade de retomar o assunto, questionar um pouco essa liberdade.

Vejam, eu moro sozinho, posso fazer o que quiser, não tenho horários muito rígidos e sou o dono de minha vida. Essa frase poderia ser meu mote, ou o mote de milhares de pessoas. Mas um olhar mais próximo trás outras verdades. O que me faz preocupar-me com o dia das mães? Dia dos pais? Natal (e eu nem acredito em deus, imagina em jesus)? Mas essas datas acabam mexendo comigo. Penso nos presentes deles e me policio pra visitá-los. Com a sexta-feira santa é mais ridículo ainda. Por que um ateu vai se preocupar em comer ou não carne nesse dia? Confesso que só me livrei desse dogma a muito pouco tempo, passando a comer o que está disponível, independente da origem do alimento.

Será que eu tenho a liberdade de escolher mesmo o que vou comer? E esse beija-flor?
Será que eu tenho a liberdade de escolher mesmo o que vou comer? E esse beija-flor?

Se viver assim é ser livre, nem imagino o que seja viver preso a algo. É claro que algumas convenções são úteis na vida social, mas e as que não são? Me lembrei do filme Homem Bicentenário, onde o robô vivido pelo Robin Williams queria se tornar humano. O filme é muito interessante, mas dói pensar que no fundo a única conquista realmente humana do robô foi a morte.

Extrapolando isso para o que vinha falando, eu não sou realmente livre, de certa forma sou um autômato que se acha livre, porque tenho hora pra cumprir, como o que é socialmente aceito, minhas roupas também fazem parte dessa identificação. As escolhas realmente livres acabam sendo poucas, como a pessoa amada. Mas mesmo assim, o amor parece parte dessa programação, caso contrário a forma como isso ocorre não seria tão parecida para todo mundo.

Se analisarmos friamente as pessoas, vemos desejos parecidos, parecemos pacotes programados, com desejos pré-definidos, habilidades vindas de fábrica e que usam a escola para aprender a se relacionar com outras pessoas robôs também programadas. E o mais engraçado é que esse programa ainda traz dentro de si a pretensa sensação de ser livre para fazer as escolhas que queremos, mesmo que estas sejam sempre óbvias e previsíveis.

Não somos livres como pássaros, mas livres como robôs (FREE AS A ROBOT)…

Será que eu cresci?

Por que crescer é tão difícil?
Por que crescer é tão difícil?

Hoje fui dar uma palestra numa escola pública de São Paulo. O Antonio Prudente , escola localizada na Vila Nova Cachoeirinha, na zona Norte da cidade. Um bairro longe do glamour da cidade, formado por gente comum, gente como eu. Eu vim de uma comunidade de certa forma parecida com a dos alunos que vi hoje.

Aluno de colégio da prefeitura num bairro nascente e crescendo (hoje até shopping tem perto da casa dos meus pais), ônibus lotados, pouca infra-estrutura disponível e quase nenhuma opção de lazer.

A estrutrura na verdade pouco importa, acho que vale agora falar dos jovens que eu vi e conheci hoje. Não vou lembrar dos nomes deles, mas trago na memória seus rostos,trago as expressões de surpresa, alegria, em alguns momentos até desprezo, trago tudo comigo e com muito carinho.

Eu em diversos momentos me vi ali. Me lembrei dos sonhos de menino. Aliás fui lembrado por erstes jovens que me perguntaram muita coisa. Me lembrei dos autores que li quando criança, dos filmes e desenhos que assisti, das escolhas que tive que fazer, a grande maioria sem nem saber porque escolhi determinada opção. Eu vi nos olhos de alguns a surpresa quanto toquei nesse tema. As escolhas que somos obrigados a fazer a vida toda.

É uma escolha minha entender o que aparece no espelho
É uma escolha minha entender o que aparece no espelho

Vi nos olhos deles o medo que eu sentia nessa idade. Alguns tentavam até esconder isso, com olhares vazios, um pretenso ar de superioridade dos alunos e algumas vezes até ira nos olhos. São situações normais nessa idade. Você quer fazer algo mas não sabe ao certo o que. Sabe apenas que o mundo te incomoda. Você não faz parte de nada, ou de lugar algum.

Nessa fase, a maioria das escolhas não segue lógica alguma, você está começando a deixar de ser totalmente dependente das idéias dos seus pais, começa a pensar com a própria cabeça. Finalmente liberdade. O duro é saber o que fazer com ela.

Em geral o primeiro passo acaba sendo descambar para a ira. Reclamar dos horários impostos, duvidar de tudo o que dizem, querer quebrar todas as regras possíveis. Ou ainda, voce pode não suportar a pressão e simplesmente ser levado pelo vento, não pensar (espero que nenhum deles escolha essa opção). O melhor seria uma terceira via, o tal caimnho do meio, discordar sim, mas com consciência, reclamar e ouvir, pedir e doar, tudo em equilíbrio.

Sou igual aos jovens que vi hoje
Sou igual aos jovens que vi hoje

Não é fácil alcançar esse equilíbrio, na verdade nem na idade adulta isso é fácil. Mas vale a pena buscar esse caminho. Fazer-se ouvido por questionar com rigor e motivos. Ganhar credibilidade pelo que se é, sem força, apenas com a cabeça. Isso é crescer.

Falar com os jovens hoje me fez pensar nisso, será que eu cresci? Espero que sim, e principalmente, espero que eles cresçam com toda a força que pareceram demonstrar hoje.

Agradeço a vocês a oportunidade de ter dividido algumas horas do seu tempo comigo.

Ensaio Sobre a Cegueira…

Vista do Pico do Jaraguá - linha de poluição
Vista do Pico do Jaraguá - linha de poluição

Volto agora a discutir o olhar de cada um. Faço isso devido a conversas com amigos. Um termo que surgiu “cegos funcionais”, ficou martelando na minha cabeça. Primeiro porque não é a primeira vez que me deparo com esse tipo de discussão, e a primeira vez que me deparei com essa discussão e aprendi muito. Segundo porque como fotógrafo, uma das minhas maiores diversões é buscar cenas óbvias que apesar de óbvias são vistas por poucas pessoas. E terceiro, me intriga ver a quantidade imensa de pessoas que não percebe a imensa quantidade de informações que passa diante dos seus olhos a cada segundo.

O título do tópico vem de um livro que me marcou, de certa forma ele representa um instante extremamente importante da minha vida. O livro sempre me traz ótimas lembranças. E justamente essa tal cegueira funcional pode ser um dos temas levantados a partir da leitura da obra de Saramago. Não vou me alongar no que traz a obra, até porque é um livro que eu acredito que você leitor do blog merece descobrir página a página, aliás recomendo que você leia o livro antes até de ver o recente filme.

Mas voltando ao tema. Primeiro quero falar de modo mais sutil, voltando a imagem que abre o tópico, não a cena, mas o fato concreto, observe essa foto, ela foi batida no Pico do Jaraguá em São Paulo, local de onde se pode avistar grande parte da cidade. A foto está razoavelmente bem feita, as cores estão bem vivas e a cena é relativamente bonita. Outra foto também da cidade de São Paulo, o céu anoitecendo e o vermelho forte deixa a cena bastante bonita e interessante. 

Qualquer um gostaria de ver essas cenas, de poder estar em locais em que isso é bem visível, certo? Errado A beleza das cenas nesse caso provém de poluição, o ar sujo da cidade grande acaba proporcionando essas belas cenas, cheias de cores fortes e contrastantes. 

Belo e poluído
Belo e poluído

Mas o que isso tem a ver com o olhar? Podemos escolher duas linhas para tratar o assunto, a primeira e mais rapidamente apresentável é a de mostrar que as aparências não mostram nada, que o que vale é realmente aquilo que se é e não o que se apresenta. Mas isso seria um caminho extremamente moralista e não é exatamente o que eu procuro como mote aqui nesse espaço. 

O segundo e para mim mais interessante caminho é o de que a informação possui um peso diferente para cada pessoa. Não exatamente como o texto anterior onde a visão de cada um podia levar a um caminho diferente. Nesse caso o que vale é a informação que cada um possui. 

As cenas são visualmente belas, mas quando temos a informação do que traz a beleza para as mesmas, talvez nossa opinião mude. Talvez, entretanto possamos seguir outra via, dizendo que é o preço que se paga pelo progresso. E se assim for o que se faz é apenas um juízo pessoal de valores. A pessoa com a informação tira as conclusões que desejar. Eu posso olhar para o preço do dólar baixando e achar interessante pela valorização do real ou ruim pela dificuldade de exportações e em nenhum dos casos estarei errado. 

E isso é bastante interessante no que se refere a possibilidade de podermos crescer como pessoas. A questão é saber se estamos abertos a ouvir novas opiniões e discuti-las. Se assim for ótimo. Caso ocorra o contrário, a intolerância e a violência acabam ganhando mais válvulas de escape, temos que perceber que nem sempre estamos certos (acho que na maioria das vezes erramos) e por isso é necessário aprender a ouvir. 

espuma nas águas do rio Tietê em Santana do Parnaíba
espuma nas águas do rio Tietê em Santana do Parnaíba

Obs.: falando nisso, gostaria de ouvir o que vocês leitores acham desse espaço, mande uma mensagem para que a gente possa interagir sobre os temas discutidos, participe, mande sugestões de temas e idéias.

Obs(2).: Aos que acompanharam o drama da Claudia com a perda de seu cão, temos uma boa notícia, ele foi encontrado!!!!

Torcida

Garoto que deve sonha em um dia defender as cores do seu time do coração
Garoto que deve sonhar em um dia defender as cores do seu time do coração

Hoje teve a final de vários campeonatos estaduais, dos principais, São Paulo (Timão Campeão, eu estou comemorando aqui com a camisa do time), Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e por ai vai. No Rio Grande do Sul o Inter já tinha definido a fatura. Parabéns aos vencedores, que os vencidos levem a derrota na final numa boa.

Não vim aqui hoje falar de futebol, ou melhor não do esporte futebol, da ação que acontece dentro das quatro linhas. Hoje a idéia é outra. Quero falar do ato de torcer. Um ato estranho que nos leva a fazer coisas absurdas. Muito absurdas se formos analisar friamente.

Eu não saberia dizer o que me leva a ser corinthiano, sei apenas que é o time que mais mexe comigo, assim como pra outras pessoas o time que mais mexe é outro. Sei de minhas lembranças mais antigas do futebol. Lembro do time da Democracia e jogadores como Sócrates, Zenon e Casagrande. Também lembro com força da seleção brasileira de 82, eu chorei no terceiro gol da Itália.

A torcida acaba sendo sempre irracional, quero que meu time vença, quero poder sair com a camisa pelas ruas e tirar sarro dos amigos que torcem pra outros times. Quero isso sem saber o motivo. Alguém sabe o que o leva a torcer pelo seu time?

Quantos não torceram pelo Robert Scheidt nos jogos, mesmo sem saber as regras da vela?
Quantos não torceram pelo Robert Scheidt nos jogos, mesmo sem saber as regras da vela?

Se a torcida já é irracional no futebol, imagine em outras áreas da vida? Em programas de TV com calouros, ou diversos candidatos, sempre um é escolhido e se torce por alguém que você sabe que nunca vai ver, ouvir, ou encontrar de maneira próxima. Um herói pontual é escolhido por quem assiste o programa, que o diga os BBBs da vida. Ao ver um filme, ler um livro, assistir uma peça de teatro, alguns personagens também ganham mais força no nosso coração. E sem motivo real algum. Curioso isso. Ao menos para mim. Cantores que conseguem fãs clubes imensos, artistas em geram criam um grupo ao seu redor, chegamos a buscar pessoas nos nossos relacionamentos que tenham gostos parecidos aos nossos.

Faço parte de fóruns de fotografia (o que mais participo, o Mundo Fotográfico tem link ai do lado, na minha lista de indicações), e confesso que algumas vezes dou muita risada com eles. Vejo pessoas que torcem para empresas. Pessoas que torcem para que a concorrência suma, ou que adota uma marca e chegam a fazer propaganda gratuita e sem sentido de determinadas empresas, simplesmente por serem as empresas que produzem o material que usam.

Outros setores também ganham pontos com esse tipo de torcida de seus consumidores. Empresas automobilísticas, empresas de informática e até canais de televisão também passam a ser heróis acima de qualquer julgamento (uma força quase religiosa) e ganham rios de dinheiro com propaganda, pessoas que se fazem de outdoors ambulantes (e eu não me excluo desse grupo…rs tenho lá minhas empresas favoritas) de graça.

Por que tanta gente acompanha a vida de atores como o Daniel Oliveira?
Por que tanta gente acompanha a vida de atores como o Daniel Oliveira?

Nisso eu ainda não vejo problema, na verdade, vejo uma situação grave quando a torcida irracional é política. Nem precisa andar muito, encontramos pessoas que idolatram partidos ou políticos sem motivo real aparente ou sem  nada ganhar em troca, seja socialmente (o que seria o melhor e mais justo) seja até de forma escusa (o que eu condeno).

Políticos questionáveis como Paulo Maluf, possuem uma quantidade de votos já antes da eleição, independente de com quem concorram. Alguns partidos a direita ou a esquerda ou ao centro possuem eleitores independente do que preguem e por mais que façam besteiras no poder, continuam com eleitores fiéis que nada questionam.

O que nos leva a agir dessa forma?

Essa pergunta é que me inquieta. Eu penso que isso tem um pouco a ver com o meu post de abertura do blog, onde digo que no fundo todos vivemos dentro de uma prisão social e estética. Talvez esse comportamento de torcer seja parte disso. Outra hipótese que não exclui a primeira tem a ver com meu segundo post, onde discuto os medos que eu sinto. Será que não sentimos tanto medo das coisas que nos cercam que precisamos nos apegar a qualquer fagulha que possa nos reconfortar? Escolhendo assim pequenos grupos para pertencer dentro do grupo social principal.

Maria Rita até hoje tem que lutar contra a idolatria existente em torno do nome de sua mãe
Maria Rita até hoje tem que lutar contra a idolatria existente em torno do nome de sua mãe

Uma amiga, a Lak, me disse numa conversa que sente-se próxima de crianças e animais deficientes (vale a pena ler o blog dela, o desculpe não ouvi da lista ao lado). Diz que sente empatia por eles. Talvez por ser deficiente (auditiva no caso dela), ou talvez por sentir apenas empatia e carinho mesmo. É uma linha interessante para se analisar.

De qualquer forma, existe algo, socialmente falando, que nos faz agir de forma totalmente irracional e que nos aproxima de pessoas que nem conhecemos ou temos contato. Eu gostaria de saber o que é? Você tem idéia? Se tiver, me mande sua opinião, vamos discutir o assunto….

Enquanto isso…

SAUDAÇÕES CORINTHIANAS A TODOS!!!

Procura-se

Roque, cãozinho desaparecido!!!
Roque, cãozinho desaparecido!!!

Uma amiga carioca (a Claudia) está desesperada procurando seu cãozinho Roquinho, a sua dor me comoveu, a ponto de colocar a primeira foto não feita por mim no blog e principalmente a tentar fazer dos leitores comparsas nessa busca pelo pobre animalzinho.

Sua busca vem acompanhada do seguinte texto: ROQUINHO SEM OLHO E SEM ORELHA, DESAPARECEU EM BENTO RIBEIRO, MAS FOI VISTO EM MADUREIRA! OFEREÇO RECOMPENSA! RAÇA: POODLE COR: CINZA ESCURO CARACTERÍSTICAS: NÃO TEM O OLHO NEM A ORELHA ESQUERDA ENTRAR EM CONTATO COM: CLÁUDIA OU ANDRÉ: 3018-4676 / 9280-5711 / 9191-0405

Percebe-se claramente que a busca é totalmente sentimental, não tem valor financeiro ou qualquer outro que se possa atribuir. Nos anos 80 Eduardo Dusek cantou troque seu cachorro por uma criança pobre, não é a questão, cada um possui aquilo que lhe completa e é justamente essa busca que virou o mote para o texto de hoje.

 

Vista de Serra Negra (lugar calmo pra passar as férias)
Vista de Serra Negra (lugar calmo pra passar as férias)

Pois é gente, procura-se, procura-se um amigo carinhoso, um amigo fiel, um amor verdadeiro. Procura-se. Todos procuramos algo no outro, algo que nos complete e que nos anime a dar os passos que damos todos os dias.

Muitas vezes o anúncio é de algo que já está provado e consagrado. Uma perda que nos faz falta e nos instiga a pensar que precisamos daquilo de volta. Eu procuro muita coisa, o último post fala disso descaradamente, do que eu procuro, e da forma como eu procuro algumas coisas.

Procuro um amor, procuro vencer meus medos, procuro acertar mais e errar menos. Procuro fazer o melhor possível no meu trabalho (quem não sonha em ser a pessoa perfeita, mesmo que não se saiba o que é perfeição?). Essa busca no fundo é tudo o que nos motiva a continuar fazendo as coisas que fazemos todos os dias.

Que mulher não quer se sentir bela como uma modelo?
Que mulher não quer se sentir bela como uma modelo?

Viver nada mais é do que procurar incessantemente respostas e prazeres que nos completem e melhorem segundo os padrões que acreditamos corretos. Sempre o que vale são os nossos padrões, muito mais do que os padrões sociais vigentes.

Você pode querer férias num lugar com uma vista maravilhosa, um trabalho no topo do mundo financeiro ou simplesmente terra pra plantar. Você pode procurar um amor fugaz, uma companhia pra uma noite de bebedeira vendo seu time jogar ou o amor da sua vida. Você pode procurar qualquer coisa e ninguém vai poder te questionar, porque ninguém sente aquilo que você sente. Da mesma forma que a dor é sempre sua, a alegria também será.

Falando da Claudia, ela quer seu cão de volta, alguns podem achar estranho, outros se sentirem solidários, mas ninguém vai poder questionar a sua escolha. Ninguém sabe o pedaço que o Roquinho preenche na vida dela. Talvez seja o mesmo espaço que meu livro preencheu em mim, talvez maior do que o espaço que a fotografia criou na minha vida.

Achar o cão não é mais importante do que o futebol de quarta à noite, nem menos importante do que a reunião do grupo de assistência social que vai doar sopa aos necessitados nas noites frias. A importância é sempre a mesma, porque mesmo sendo ações diferentes, vão tocar fundo as pessoas envolvidas.

Brincando com seu cão
Brincando com seu cão

 

 

Caro leitor, aproveite e conte seus desejos mais simples, vamos discutir sobre eles e por favor, caso tenha alguma notícia do Roquinho, avise a Claudia, se você pode fazer alguém feliz com um ato simples, por que não fazer? Eu desde já agradeço!!!