Passaredo – Chico Buarque

Essa estação viu parte daquilo que quero retomar

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Existem dias mornos, dias ruins, dias bons. Ontem eu tive um dia quase perfeito. Uma espécie de volta no tempo. Um retorno a dias felizes com coisas simples. Talvez apenas a percepção de que o tempo passou, muita coisa mudou, mas também muita coisa permaneceu exatamente como sempre foi, isso é bom. Sinais de maturidade junto com sinais de que nem toda a alegria juvenil se foi, aliás, muito pelo contrário.

Menos do que os fatos, no caso de ontem importam muito mais as sensações. Menos do que as ações, as reações ontem é que foram importantes. Como aliás deveriam ser sempre. Claro que os nossos atos são importantes, mas mais do que isso, o que nos leva a agir de determinada forma. Vale o mesmo pras reações, nós fazemos as coisas também porque a forma como cada pessoa reage ao que fazemos importa para a gente.

Isso resume meu sábado. Coisas triviais ganharam peso pelo que trouxeram consigo. Tem um filme até antigo que retrata bem o que senti ontem. Já citei ele no blog antes. Comédia romântica bobinha mas divertida.  Feitiço do Tempo de 1993 com o Bill Murray e a Andie MacDowell. Na história um homem é obrigado a viver o mesmo dia eternamente até que conquiste verdadeiramente o amor da mulher que lhe chama a atenção.

Aqui não falo da conquista, mas sim do viver eternamente o mesmo dia. Justamente foi a sensação que eu tive ontem. Acho que todo mundo tem seus deja vus, infelizmente a maioria das situações em que isso ocorre são momentâneas e sem uma real ligação com um fato passado. Algo bem diferente do que eu vivi ontem.

Vivi fatos que eu consigo relembrar exatamente dia, hora e circunstâncias em que eu vivi esses mesmos fatos no passado. Justamente por isso é que foi um dia tão bom. Foi bom perceber que algumas coisas podem retornar e que eu sou capaz de fazer essas coisas. O melhor foi olhar para esses fatos com muito mais maturidade e também com muito mais confiança. Hoje posso dizer sem medo que não repetiria erros do passado e que principalmente sei como alterar algumas coisas que não consegui alterar no passado.

Por isso a música escolhida para o post. Além do composititor (Chico Buarque), o tema também remete ao passado. A um tempo em que eu reconhecia as aves pelo canto e que aprendia a viver coisas novas. Aprendia a entender coisas novas.

Hoje que esse período todo de aprendizagem faz parte do passado, as sensações são muito mais saborosas. Coisas simples como fazer comprar, carregar coisas, andar pelo mercado relembrando fatos distantes tornam tudo muito mais saboroso. Ainda mais por perceber que não sou mais o menino que já fui. Posso ser jovem, ou jovial, mas deixei de ser menino.

Tem um verso da música que até parece bem com o que eu sinto nessa história toda “O homem vem ai” Mesmo tendo um sentido diferente do dá música, é saboroso poder dizer isso com todas as letras, EU HOJE SOU ADULTO!!! Adulto a ponto de até admitir reviver não só um momento bom, mas de reviver todo o passado, só que com outro olhar, agora com maturidade e não mais com a ideia do eu preciso e sim pensando que eu quero reviver o passado porque eu posso fazer isso de maneira saudável e feliz. Eu posso retornar sem medo de viver.

Me resta agora apenas reconquistar totalmente esse passado, algo que posso falar que tentarei porque é justamente o que agora EU QUERO!!!

Cotidiano – Chico Buarque

entender e ajudar a minimizar a dor do outro deveria ser algo extremamente simples e comum, pena que não é...

Como eu havia prometido, começo agora a dissecar um pouco os personagens do livro “Uma Longa Queda” de Nick Hornby. Repito que adorei o livro e recomendo a leitura, me fez pensar num monte de coisas diferentes. Me fez entender e talvez me ajude a elaborar algumas de minhas neuras e o que é melhor, fez isso me divertindo. Fazendo meu cérebro trabalhar.

Aliás, falando nesse tema, fazer o cérebro trabalhar, escolhi pra começar a personagem aparentemente mais frágil do grupo dos suicidas. Maureen, mãe solteira de uma criança portadora de deficiência, o livro não deixa claro qual, mas sabe-se que seu filho não interage com o mundo ao seu redor. A dor que ela sente me remete até certo modo a uma música do Chico Buarque, Cotidiano (clique no nome da música para assistir a um vídeo dele cantando a música).

Apesar de a música falar da mulher sentir certa alegria em todo dia repetir as ações com e para o seu homem (sem discussões sobre machismo, ok? O assunto é outro), nem todo mundo se sente bem com essa falta de mudanças e perspectivas. Maureen se sente mal com o que vive. Não aguenta mais dedicar todo o seu tempo aos cuidados de Matt, seu filho. Não aguenta mais perceber que não vive mais sua vida, não faz nada e nem vê a possibilidade de voltar a fazer. Quantas vezes não nos sentimos presos dessa forma? Quantas vezes parecemos escravos do cotidiano fechado que nos cerca.

Acordar cedo, correr para o trabalho, ao fim do dia correr para a faculdade, chegar em casa cansado e adormecer para repetir tudo no dia seguinte, chega-se ao final de semana e é hora de limpar e arrumar a casa, ir ao mercado, fazer o que ficou pra trás durante a semana. Tudo é feito quase mecanicamente. Bem vindo a vida moderna diriam alguns, mas será que isso tudo é necessário? Conheço um número relativamente grande de pessoas que se sente oprimida o suficiente para se queixar de sua agenda e alguns até poderiam mesmo se matar pela forma como são oprimidos diariamente pelas obrigações. Falta tempo para conseguir ser quem realmente se é.

Até poderia dizer algo sobre falta um culto ao ócio ou algo do gênero, mas não é isso, muitas vezes a falta de atividade pode ser tão dolorosa quanto o excesso de atividade. O desemprego causa suicídios, causa desgosto e muitas vezes sair de uma situação dessas é muito mais difícil do que se pensa.

Nesse ponto Maureen acaba atuando como a voz mais forte de uma multidão insatisfeita com a própria vida. Alguns podem simplesmente dizer, mude sua vida e siga adiante, pare de encher a paciência. A questão é que muitas vezes não se sabe como fazer isso, ou não é possível mudar. Maureen mudou de alguma forma, não conto como foi para que você não desista de ler o (ótimo) livro.

Eu tentei me colocar no lugar dela. Confesso que parte da dor dela acaba sendo minha também, mas em outra instância. Algumas coisas eu poderia e deveria fazer de modo diferente, outras acredito mesmo ser esta maneira repetitiva a melhor possível e até a maneira necessária. Por outro lado, a ignorância (aqui no sentido de ignorar, desconhecer) de Maureen para alguns temas óbvios, me deixou extremamente pensativo.

Fiquei um tempão pensando nisso. O tamanho do mundo de uma pessoa varia de acordo com o que ela vive. Seus sonhos e desejos provavelmente vão ser limitados pelo tamanho de seu mundo. Como o mundo de Maureen era extremamente pequeno se comparado aos outros suicidas, seus desejos mais fortes pareciam bobeira aos olhos dos demais, só que para ela eram algo extremamente importante e forte.

Tentando chegar um pouco mais fundo nessa linha, como cada pessoa conhece e vive coisas diferentes, cada um possui um mundo diferente do outro. Os desejos de um, nesse caso, podem parecer extremamente ridículos e simples para o outro e vice-versa. Ai meu lado mais humanista e Pollyana (sim eu li Pollyana e Pollyana moça, mas não espalhem, por favor) me diz que o correto seria um ajudar o outro a chegar aos seus sonhos e resolver seus problemas, é bem mais fácil resolver a dor do outro do que a sua. O que pega é que infelizmente não é dessa forma que agimos, assim, diariamente mais e mais Maureens se suicidam, eu posso falar por mim, já pensei nisso algumas vezes e por motivos que a grande maioria das pessoas acharia banal.