Just A Memory – Duke Ellington & Johnny Hodges

 

 

Domingo quente em sampa. Roupa para lavar, louça para lavar, casa para limpar. Muita preguiça e tudo isso  para fazer. Mais fácil postergar um pouco. Deixar pra lá e adormecer até o jogo do meu time. Enquanto espero, deixo a mente viajar e tento pensar no que eu vou colocar no blog hoje. Tento relembrar as conversas da semana. As ideias descartadas nesse tempo. Procuro olhar no baú do meu cérebro o que realmente ficou.

Quinta-feira eu ri muito. Confesso que a anos eu não ria tanto. Os motivos foram vários, nem vale a pena relembrá-los, afinal a graça de tudo não se repetiria. Não eram as piadas o importante, mas o contexto onde elas surgiram. Repetir tudo de novo com certeza seria frustrante. Foi uma experiência agradável que passou e que assim vai ficar na memória.

Foi tudo perfeito nessa quinta? Claro que não. Eu ainda consigo lembrar de momentos complicados, alguns até tristes. Mas tem um momento bom que se sobrepõe a tudo isso. É o momento que vai ficar. Apenas uma memória vai sobreviver ao tempo e ainda bem que é uma boa memória.

No fundo é só isso que sobra de tudo que fazemos. Memórias que marcam e conseguem sobreviver aos nossos dias. Posso ter passado um dia agradável ao lado do amor da minha vida. Posso ter tido os maiores prazeres que a mente um dia sonhou em possuir. Se ao final de tudo acontece ao terrível. Aquele dia ou até aquela pessoa ficará marcada pelo momento ruim, não pelos momentos bons. Essa visão parcial, infelizmente ocorre e digo infelizmente porque ela é apenas isso, uma visão parcial. Apenas uma memória fragmentada que nos faz julgar algo.

Fico aqui pensando se eu não julguei de forma precipitada as pessoas que me cercam. Se não valorei errado por me prender a uma única sensação marcante. Talvez algumas pessoas mereçam uma segunda chance. Talvez tenha dado mais chances do que devia a quem não merece. Provavelmente eu deveria ter feito uma análise mais criteriosa antes de tomar cada decisão.

Eu sei que todo mundo age assim. E sei que somos muitas vezes cobrados por decisões rápidas. Não temos tempo muitas vezes para deixar a coisa digerir. Até entendo isso em questões mais profissionais. Mas e as sentimentais? Não vale a pena ficar apenas na primeira impressão. Vale a pena viver a história e dar tempo ao tempo. Vale a pena deixar que a pessoa não se torne apenas uma memória, mas várias memórias.

Eu geralmente faço isso. Vejo as pessoas como várias memórias. Se gosto de alguém é porque me lembro desse alguém por diversos momentos bons, alguns ruins e muitos neutros. Se desgosto é porque o número de lembranças ruins é muito maior do que o de bons. Mas percebo que vez ou outra fui injusto. Elegi como inimigos algumas pessoas que não mereciam tal alcunha. Julguei cedo demais sem o devido direito de resposta. Nesses casos, infelizmente quem mais perde sou eu. Sou eu que perdi o convívio e o contato de gente que tinha muito a me acrescentar.

Até por isso eu penso em novamente dar mais tempo ao próprio tempo. Em conviver mais antes de poder julgar. Em entender melhor cada momento e só então escolher o que quero para mim. Vou continuar oferecendo sempre a mesma face. Vou continuar sendo sempre quem eu sou. Vou continuar não gostando de algumas coisas e adorando outras. Vou como todo mundo ter meus momentos de ódio e de alegria. Mas só vou julgar alguém quando eu tiver memórias suficientes. Ninguém é perfeito por me fazer sorrir uma vez. Ninguém é descartável por me levar as lágrimas numa primeira vez.

Só me resta então pedir desculpas a todos os que julguei de forma apressada. Tanto os que eu amei sem merecerem meu carinho quanto os que eu odiei sem merecerem minha ira. Por sorte foram poucos. Por azar eles existiram. O bom é que tudo isso me trouxe de novo um pouco de juízo e vontade de corrigir as besteiras que eu já fiz.

21st Century Schizoid Man – King Crimson

Infelizmente nós nos escondemos ao invés de assumir que erramos

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Já fazia um tempo que eu não passava por aqui. Uma série de pequenos problemas me fez sumir do blog por esse tempo. Um misto de ressaca causada por problemas de saúde do meu pai, excesso de trabalho e até das eleições (que ainda terão segundo turno para presidente). Enfim,  tudo passou, ou talvez seja melhor dizer está passando, as coisas seguem seu caminho e novos problemas e novas alegrias surgem.

O que me fez vir aqui escrever depois de todo esse tempo foi um fato corriqueiro. Hoje fiz um passeio rápido no parque CEMUCAM, parque da prefeitura de São Paulo, situado já no município de Cotia. O parque é bonito, cheio de verde, com ciclovia, espaço para corridas e tudo mais. Até espaço pra camping tem, mas devido a falhas na segurança, ai está algo que eu não recomendo.

Bom, estava eu no parque, andando quando de repente um golden retriever salta nas minhas costas do nada. Os donos do animal se desculparam? Claro que não, chamaram o animal de volta, entregaram de novo a guia para uma criança e passaram por mim como se nada tivesse acontecido. Fiquei pasmo, o mínimo a se fazer era pedir desculpas e perguntar se eu estava bem, o animal tinha focinheira, mas é um animal grande e se eu não fosse também grande provavelmente teria me machucado, sorte que minha câmera fotográfica não quebrou, apenas uma camiseta rasgada nas costas pelo animal.

E assim vivemos nesses dias. Cada vez mais na defensiva em todos os aspectos. Fugindo de responsabilidades básicas. A culpa é do cachorro que saiu correndo e não do responsável pelo animal. A culpa de se eleger um Tiririca da vida é dos políticos que não fazem por merecer os votos e não de quem votou nele. A culpa pelo feijão ter queimado é da panela e não de quem cozinha. Enfim a culpa é sempre do outro, nunca minha.

Tento aqui exorcizar alguns de meus erros, assumir algumas de minhas culpas, talvez não consiga assumir todas, mas deveria, todos deveríamos fazer isso, até como forma de tentar melhorar como ser humano e melhorar esse mundo em que vivemos.

Eu voltei pra casa ouvindo uma música do King Krinsom que achei que tinha tudo a ver com o que eu queria dizer nesse posto. 21st Century Schizoid Man é uma daquelas músicas em que a letra não diz absolutamente nada. Várias músicas encaixam-se nesse perfil, isso é importante ser ressaltado. Porém, nessa música, a viagem toda acaba fazendo algum sentido, mesmo que raso.

Escrita em 1969, a música fala de problemas que assolavam o período em que foi escrita, mas 40 anos depois e no século seguinte, pode-se dizer que o tal homem esquizóide vive os mesmos problemas do homem do século passado. Mulheres inocentes violadas, crianças esfomeadas, a mesma paranóia de sempre. O descaso social que existia naquele período ainda é encontrado, talvez com diferenças, mas ainda com bastante força.

Temos que mudar nossa linha de ação e fazer algo para que no próximo século, os próximos homens esquizóides não vivam aquilo que vivemos hoje, o descaso com tudo, inclusive com a nossa própria culpa. Temos que ter a coragem de assumir os nossos erros, sem isso que capacidade temos de apontar os erros dos outros? Eu fiz isso com o cão, mas será que agi certo apontando o erro deles e não pensando nos meus?