O Homem dos Olhos de Raio X – Lenine

Tudo aquilo que fazemos espelha nos que são mais próximos a nós

Dentre todas as formas de influência das ações, talvez a mais simples e visível seja a que é vista nos relacionamentos. Como uma pessoa apaixonada age, como uma pessoa por quem se apaixona age, como cada um reage ao outro. De certa forma retomo aqui algumas idéias e até uma frase que já usei antes, só que num momento de ira. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”, frase de Antoine de Saint Exupery num livro que eu confesso que odeio, O pequeno príncipe.

Devo admitir entretanto que a frase é ótima, traz um peso bastante forte a influência que causamos uns aos outros. Aliás dá um certo tom ao peso que devemos todos carregar por sermos responsáveis por todas as nossas ações com as pessoas que nos cercam.

Para falar disso demorei um pouco na escolha da música. Acabei parando no cantor e compositor pernambucano Lenine. Gosto muito do som dele, músicas divertidas, com uma levada interessante sem nunca perder a característica de sua terra, o cara abre a boca e você sabe que ele veio do Nordeste. De sua imensa lista de músicas uma conta uma história que tem tudo a ver com o que eu quero dizer. O homem dos olhos de raio x (clique aqui para ver o clipe da música), fala de como um homem ficou fragilizado ao sentir-se apaixonado por uma mulher. Mostra que todas as ações da amada geram reações fortes no cantor.

Isso conseguimos ver em qualquer relacionamento. O grau de envolvimento gera ações e reações constantes, o que um faz interfere no comportamento do outro de forma positiva ou negativa. Tem gente que leva na boa essa situação, tem gente que se sente amedrontado e tem gente que adora controlar o outro com suas reações.

Particularmente me preocupam as pessoas que se divertem manipulando aqueles que se interessam por elas. Pra mim são pessoas tão frágeis de caráter que nem mereciam ser amadas. Vejo como pessoas que fazem qualquer coisa para reafirmar a si mesmas que são amadas. Por outro lado, quem não percebe esse tipo de atitude também está sendo frágil e bobo. Tem tanta falta de amor próprio como quem controla e precisa aprender a observar o que acontece a seu redor.

É claro que todos temos nossos momentos de fraqueza. Nesses momentos é que costumamos ter as atitudes mais infames tanto conosco quanto com o outro. O que deveríamos fazer é nos policiar para evitar tais movimentos.

Entretanto, nem tudo o que ocorre nos relacionamentos gira em torno de manipulação emocional barata. Quando no flerte, buscamos quaisquer sinais de aceite da outra parte. Durante o relacionamento, os sinais de confirmação funcionam como gasolina para que o relacionamento continue fluindo e para que as ações realizadas continuem seguindo a mesma linha.

Um olhar atravessado, uma mudança no tom de voz, um telefonema não retornado podem servir de sinal de alerta. Muitas vezes esse alerta vem como sinal de desespero, precedido da frase: “O que eu fiz de errado agora?” Muitas vezes, entretanto, nada aconteceu de errado, apenas um mal dia, ou, num caso pior, o relacionamento ruiu porque tinha que ruir.

Esse ruir, entretanto, muitas vezes machuca mais do que deveria, gera uma certa dependência da relação e é nesse ponto em que ocorrem as manipulações que tento combater aqui. O choro público, uma declaração mais forte, promessas vazias acabam inclusive destruindo o que restou de positivo de um relacionamento. Terminar e aceitar isso de cabeça erguida talvez seja a melhor forma de se retomar uma história no futuro, quando os movimentos de um voltarem a modificar positivamente os movimentos do outro e não passarem a gerar movimentos antagônicos, a presença de um faz o outro se levantar e ir embora. O nome de um gera mal estar se pronunciado próximo do outro e assim vai. Para se manter como num estágio equilibrado, não adianta um apenas estar apaixonado como na música do Lenine, mas sim os dois devem saber o que sentem e se respeitar acima de tudo

So Far Away

Trazer para perto os que temem se mostrar

Fechando a semana de relacionamentos virtuais trago uma banda dos anos 80. Dire Straits é uma banda que eu curto muito. Fez muito sucesso principalmente com seu disco Brothers in arm, com vários sucessos. Um deles é justamente a música de hoje (clique aqui para ver o clipe da música) So far away. Ela fala de uma pessoa que retorna a uma cidade que não gosta sem o seu amor que está distante e deixa claro que a distância não é suficiente para diminuir esse amor.

História bonita não acham? Justamente é isso que acreditam as pessoas que buscam namoros pela internet. A importância não é nada comparada com o amor. O amor não tem fronteiras. Nos últimos posts eu falei de relacionamentos totalmente virtuais, porém, algumas pessoas saem desse mundo virtual e trazem para a realidade.

O trazer para o mundo real onde as coisas não são tão facilmente ajustáveis é o ponto mais interessante de tudo. Você se arrisca a ver tudo aquilo que sonhou entre bits ruir ao perceber que a outra parte digita melhor do que age. Por outro lado existem surpresas positivas. Conheço histórias (sim é bem mais que uma) de pessoas que se conheceram através da internet e descobriram que o ao vivo não era somente bom, mas melhor do que o virtual.

É claro que não citarei nomes, mas duas amigas minhas pelo menos trocaram realmente de cidade, aliás trocaram de continente em busca do amor, e pelo tempo em que estão nesses relacionamentos e a forma como falam de suas novas vidas e do que estão fazendo na sua reconstrução profissional fora do país, só posso dizer que as histórias realmente deram muito certo. Um final mais do que feliz.

Isso falando de gente que mudou até de país. Se eu for olhar para gente da mesma cidade ou de cidades aqui mesmo no Brasil, a lista é até grande. Afinal, a internet funciona apenas como mais um canal de comunicação. Se conhece gente no trabalho, na escola, na rua, por que não na internet? Essa é uma fala constante de algumas pessoas e sou obrigado a concordar com ela em gênero, número e grau. Você conhece as idéias das pessoas e se relaciona com elas.

As pessoas também acabam entrando em chats, sites de relacionamento e até mesmo em sites especializados em formar casais. Agências de namoro modernas e virtuais, onde as pessoas colocam seus perfis, dizem o que querem, o que gostam e o que buscam. Uma forma a mais de driblar a solidão.

Eu particularmente nada tenho contra estes meios todos. Confesso que acho alguns deles mais engraçados do que outros. Nos chats, por exemplo, achei coisas super engraçadas. Ainda é claro a forma como alguns se fantasiam nos chats. Lê-se coisas como eu adoro baladas, saio pra dançar todo fim de semana, mas a pessoa está a 1 da manhã teclando todos os dias na mesma sala de bate-papos. Isso é comum. Talvez esse seja o risco, seja a pessoa que frustre ao se conhecer. Talvez seja alguém que queira sim sair pra dançar, mas não tem coragem de fazer isso só e é capaz de ao fazer isso, mesmo acompanhado, a pessoa não consiga se sentir a vontade.

Ou ainda pessoas que não se sentem a vontade com a própria imagem e mandam fotos de outras pessoas, escondem quem são e mentem a respeito de si mesmos. Essas pessoas são o risco de se passar do virtual ao real. Na verdade pessoas acabam se aproveitando do sofrimento de outros e podem até ser perigosos.

Mas reparem, eu não sou contrário a essa passagem do virtual para o real, na verdade a acho até bastante útil e talvez a verdadeira função da internet, unir as pessoas, comunicar, relacionar. Só digo que devemos sempre tomar alguns cuidados. Coisas simples como não se expor mais do que se deve (isso vale pra adolescentes principalmente). Vai conhecer uma pessoa? Procure um lugar público e pelo menos deixe com alguém o local onde você vai estar e maneiras de contato. Procure referências sempre. Não custa nada se prevenir.

Eu mesmo uso a rede para me contactar com novas pessoas, fiz e faço amigos, conheço gente e não sinto medo em afirmar isso. Apenas procuro fazer isso de forma segura e sou daqueles que não acredita que o mundo virtual substitui o real, ele pode apenas ampliar um pouco mais as opções. Se você quiser contar alguma boa história sobre relacionamentos virtuais que passaram ao real, será bastante interessante ler. Aguardo as histórias.

Já sei Namorar

o amor da sua vida pode estar muito além de onde sua vista pode alcançar

Sexo virtual foi o tema de terça-feira. Hoje ainda continuamos no mundo virtual, mas em outra instância. Ainda nos relacionamentos, mas agora falo dos namoros virtuais, relacionamentos que nascem e crescem na internet e do uso da ferramenta para manter e aquecer alguns relacionamentos.

Como tenho feito nos últimos posts, coloco um link pra um clipe de uma música que serve de título para o post. Hoje resolvi usar Já sei namorar dos tribalistas, clique aqui para ver o vídeo no youtube. Os Tribalistas foram um projeto de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, consta que reunidos para gravar um disco solo do Arnaldo Antunes, os 3 começaram a compor algumas músicas e resolveram lançá-las em um cd. O resultado fez muito sucesso no Brasil e algum sucesso no exterior.

A música escolhida fala da frivolidade das relações hoje, afinal diz que já se sabe namorar, beijar de língua, só falta sonhar mesmo, porque o resto todo já se sabe. Um verso entretanto me chamou a atenção, logo na primeira estrofe aparece a seguinte afirmação: “Já sei onde ir/ Já sei onde ficar/ Agora, só me falta sair” realmente para muita gente falta sair. Falta partir para o mundo real e é esse o mote.

Não estou em uma campanha contra o mundo virtual, afinal eu mesmo passo horas e horas por semana usando a internet para as mais diversas atividades. Apenas estou tentando dissecar parte do que ocorre aqui no mundinho virtual. Nesse aspecto, também não quero dizer que todo mundo deve ganhar as ruas e se relacionar com todo mundo das mais diversas formas. Apenas quero falar que tem gente que só se relaciona via computador.

Diferente do pessoal da terça-feira, que faz do sexo virtual sua única forma de sexo, as pessoas que fazem uso da internet para namorar buscam outro tipo de satisfação, não é um prazer mecânico, mas sim uma ação emocional e sensorial. As pessoas querem se conhecer, querem sentir-se amadas e querem amar. Para tanto precisam de alguma intimidade com outras pessoas e essa intimidade é o namorar.

Onde as pessoas se conhecem? Locais costumam ser padrões, como trabalho, vizinhança, escola, igreja, clube, cursos, enfim, quaisquer lugares onde se tenha espaço para ser visto e tempo suficiente para se mostrar quem realmente se é. É claro que existem os casais que se formam nas baladas e em encontros fugazes e mesmo assim passam a vida toda juntos, mas a regra é as pessoas se conhecerem e se empolgarem com um certo tempo de contato.

Nesse ponto a internet acaba tendo certas vantagens, visto que, o que se vende são apenas as idéias, as imagens muitas vezes são forjadas (idéias também, mas isso é mote pra outro post), as pessoas falam o que pensam e emitem opiniões e acabam por agrupar-se de acordo com o que pensam. Ai podem surgir relacionamentos desse contato virtual, não pelo interesse físico, mas por um suposto interesse de idéias.

Parte desses relacionamentos sobrevive todo o tempo no mundo virtual. Pessoas de países diferentes, cidades diferentes, mundos diferentes conversam entre si através de um computador. Chegam a virar confidentes e, de alguma forma estranha, chegam mesmo a enamorar-se mesmo sem o contato físico e real. Aqui, entretanto, diferentemente do que disse sobre sexo virtual, o peso da imaginação é bem menor, é claro que existe, mas existe também uma pessoa real, que imagina-se saber o que pensa sobre determinados assuntos e é justamente por essas idéias que as pessoas se apaixonam. Existem casos que vão pro mundo real e dão certo e casos que naufragam (eu vou falar desse tipo de coisa no post de domingo).

As pessoas criam encontros virtuais e marcam horários com chats e câmeras com a mesma seriedade que se vai com a(o) namorada(o) ao cinema ou a um restaurante. Raramente é algo escondido, não existe motivo pra isso ser escondido, existe cobrança, existe o tal relatório diário de como foi seu dia, existem todas as convenções de um namoro real, afinal para os envolvidos é um namoro, apenas sem o contato físico que existe nesse tipo de relação. Para mim, alguém ligado ao mundo real a história inicialmente pareceu coisa de louco. Conversando com gente que passou ou passa por isto comecei a entender a lógica.

Para quem namora por computador, isso não é forma de suprir carência, é apenas a maneira que encontraram de se aproximar da tampa de sua panela independente do local onde ela esteja e em muitos casos, realmente existe uma passagem para o mundo real. Esse tipo de relacionamento não é para todo mundo, eu não me veria realmente preso a alguém que não vá ver e tocar e que mora a uma distância irreal de mim, mas tem gente que encara isso e até mesmo se programa para diminuir essas distâncias. Cada um sabe como lida com aquilo que lhe incomoda. No fundo, o que importa é que as pessoas sempre partam em busca de sua própria felicidade.

Erotica

Criar uma imagem falsa sobre ser belo e atraente às vezes funciona como fuga para algumas pessoas

Continuo falando de Internet nessa semana. O tema é bastante vasto e a forma como nos relacionamos com ela sempre traz a luz diversas boas idéias para se discutir. Hoje voltando para casa do trabalho (viva, férias!!!) Rádio ligado numa emissora que não falava do trânsito (viva, férias!!!) e as músicas rolando. Eu estava meio sem idéias pra música de hoje. Quero falar de um tema meio pesado. E até controverso. Sexo Virtual. Pensei em colocar eu sei do Legião Urbana, pensei em alguma outra canção eletrônica como a Computer Love, mas nada me agradava.

Ai o rádio me deu a solução. Fazia um tempão que eu não ouvia Madonna. Nessa onda de comoção pela morte do Michael Jackson, a rainha do Pop seria a melhor solução. Enquanto Michael sempre fez de tudo pra infantilizar-se, Madonna explora a sua sexualidade ao máximo, canção como Material Girl, ou Like a Virgin exploram bem o assunto sexualidade.  Logo para o que eu pretendo discutir hoje, ela é a artista ideal. Dentro do seu repertório, a música que mais me cativou para o tema foi a mais escancarada. Erotica,música que dá título ao álbum lançado em 1992 praticamente descreve uma transa. E é justamente disso que quero falar. Talvez use Justify my love no próximo post.

Calma pessoal, não vou aqui ficar contar preferências ou narrar contos eróticos, nem tenho cacife pra isso. Mas vale a pena falar de algo que até hoje nunca entendi. O sexo virtual. Conheço gente que só paquera, namora e transa pelo computador. Gostaria de saber como isso é possível. Fantasiar até faz parte do jogo, mas apenas fantasiar me parece até certo ponto medo demais.

Outro dado interessante é o alto número de sites eróticos que existem na internet principalmente a quantidade de gente que dá vida a esses sites, muitos deles com acesso restrito. As salas de chat erótico também fazem um sucesso tremendo e ver o que as pessoas buscam nelas em parte é o tema deste post.

Conhece-se gente em tudo quanto é lugar, até na internet. Isso é um fato normal e corriqueiro. Ao se conhecer as pessoas, a tendência é que relacionamentos surjam, amizade, ódio, namoro, casamento, seja lá o que for, as pessoas se relacionam de uma forma ou de outra. Com o advento da internet e a facilidade de comunicação surgiu uma parcela da população que se comunica e até jura amizade e fidelidade mesmo sabendo que nunca vai se ver ao vivo. E dentro desse grupo, vale a pena falar de outro grupo. Um pequeno grupo que cria todas as suas relações, inclusive as sexuais totalmente pela internet.

Para escrever esse texto, por uma semana visitei chats eróticos de grandes portais como Terra e Uol, queria entender o que era aquilo que as pessoas me falavam e principalmente ver se valia a pena gastar teclas com o assunto. E confesso que rendeu muita risada e principalmente medo.

Eu ri de muitas das histórias que li nos chats, dos comportamentos que observei e tive medo de algumas ações. Tem horas em que você percebe que as pessoas envolvidas naquele espaço virtual enxergam aquilo como realidade e fazem de tudo para viver aquilo como real. Procurei conversar com algumas pessoas sobre o que exatamente ocorre ali, porque fazem uso do espaço e coisas do gênero. Poucos estiveram abertos a esse tipo de contato.

Mas no geral, o que encontrei foram pessoas tímidas que disseram não conseguir nada fora dali, nem mesmo conhecer pessoas ao vivo. Então criam um personagem e expressam toda a sua sexualidade reprimida ali. Vivem aquilo de forma intensa e sentem aquilo como se realmente fosse o sexo mais real, divertido e saudável da face da Terra.

Tem o grupo dos que se dizem frustrados com seus relacionamentos reais e buscam apimentar as relações, partindo inclusive para encontros reais e algumas vezes com seus parceiros do mundo real, mas isso é tema pra outro post. E o terceiro grupo, menor, é o de gente que entra ali simplesmente pela farra, tirando sarro da situação e dos envolvidos, inclusive eles mesmos, por passarem horas de seu dia imaginando coisas e escrevendo para que possam se masturbar. As pessoas que buscam realidade mesmo, conhecer as pessoas ao vivo e tudo mais formam um grupo extremamente pequeno.

Nesse jogo virtual, me intrigou o primeiro grupo. Gente normal que se acha menos, gente que fantasia para poder ter uma sensação real que não consegue. Gente que tem medo e nem sabe ao certo do que. Um número extremamente alto de gente que foge de sua própria realidade.

Vejam, eu não critico a fantasia, acho saudável até. A indústria erótica movimenta muita grana e de forma honesta emprega muita gente. Estimula e brinca com o desejo de muitas pessoas e de muitas formas. Em alguns casos, realiza esses desejos ou os torna viáveis. O que eu critico aqui é o apenas fantasiar, viver num mundo de fantasia sem ter consciência disso. A música da Madonna fala de muitos desejos, brincadeiras e formas de se satisfazer sexualmente, se a pessoa se sente atraído por elas, por que não fazer ao vivo? Por que apenas fantasiar na frente de um computador?

(I Can’t Get No) Satisfaction

Ver essa cena não se compara a sensação de voar, existem coisas que não podem ser reproduzidas virtualmente

A internet hoje é vista como fonte de saber, entretenimento, lazer e até socialização. Já tenho falado disso a semana toda. Pretendo seguir com o tema pela próxima semana também. Hoje eu quero falar do uso que alguns de nós fazemos do mundo virtual. De fonte de prazer e realização. De um meio onde podemos encontrar toda a felicidade que não encontramos no cotidiano real.

Essa busca por um prazer quase viciante e irreal me fez buscar uma música super famosa dos Stones. Todo mundo conhece a banda e provavelmente todo mundo conhece a música que separei. (I Can’t Get No) Satisfaction é talvez uma das músicas mais conhecidas do mundo. Coloquei um link para a versão tocada pela banda no Rio de Janeiro alguns anos atrás, vale a pena clicar na música e ver e ouvir o som.

A letra da música parece levar a uma busca louca por algum prazer que motive a pessoa. Dirigir não é suficiente, ver TV não é suficiente, sexo parece ser a busca, mas as garotas fogem do cantor. E sua busca continua por prazer, ele quer prazer  porque nunca consegue se satisfazer. Talvez seja isso que leve uma grande parcela da população a ficar tanto tempo na frente de um computador buscando prazeres estranhos.

E aqui eu falo de prazeres estranhos não menosprezando as sensações, mas sim porque são prazeres do mundo real, levados de alguma forma para o mundo virtual. Não digo aqui se tratar de um complexo de Júlio Verne, onde alguém que mal pode sair de seu quarto consegue obter informações de todo o mundo dando a impressão de que tem total controle sobre essas informações. Isso é até factível e lógico. Usar conhecimento para gerar conhecimento é sempre algo interessante.

É claro que eu não quero que as pessoas parem de visitar o Museu do Louvre para fazerem visitas virtuais, a sensação seria totalmente diferente em cada um dos casos, mas uma visita virtual ao museu pode sim acrescentar algum tipo de informação útil. O que complica na verdade é quando não nos pegamos ao ato e sim a sensação gerada pelo ato.

Voltemos aos Stones, Mick Jagger quando fica pulando no palco e cantando: “Não consigo ficar satisfeito”, fica por acaso diferente das pessoas que criam toda a sua rede de relacionamentos e sensações no mundo virtual? Jogar todas as sensações no mundo virtual tem o mesmo peso de dizer o mundo real não presta. Tem o mesmo peso de dizer eu sou incapaz de viver sensações ao vivo, então as invento.

E dentro desse processo de invenção temos as pessoas que se reinventam totalmente. São as pessoas que acabam mudando nomes e imagens. Vendem-se com outro perfil, centímetros a mais, quilos a menos, músculos a mais, defeitos visíveis a menos. Pessoas altamente tímidas e inseguras que mudam completamente de comportamento protegidas por uma rede de cabos de fibra óptica.

Enquanto isso funciona como uma fantasia leve não existe problema algum. O problema é quando a pessoa simplesmente apaga seu mundo real e vive apenas em função desse personagem virtual que criou. Ao invés de tentar cada vez mais se aproximar no mundo real desse ideal criado, a opção acaba sendo destruir o real e viver cada vez mais o virtual. Como se só ele fosse possível de trazer algum tipo de felicidade e conforto para a pessoa.

Esses personagens passam a ganhar vida própria e tomam tudo o que deveria ser da pessoa, seu tempo, seu lazer, suas idéias e suas ações. O vício virtual chega ao nível de pessoas não conseguirem mais fazer nada que não seja ligado a rede. Todos os namoros são apenas virtuais, todos os amigos estão numa rede social na internet. A preocupação diária passa a ser chegar em casa o mais rápido possível para encontrar os amigos, sendo que na verdade esses amigos nunca foram vistos, possuem rostos, vozes e imagens criados virtualmente também.

Busque seu prazer, faça uso da rede, mas faça uso racional, faça com que o mundo virtual auxilie o real e não o oposto. É no mundo real que a gente ri, chora, tem medo e fica alegre. É no mundo real que a gente consegue ouvir os Stones berrando que não conseguem se satisfazer. Semana que vem eu continuo com isso. Quero falar de relacionamentos que começaram pela net e dão certo, os que falham e até sexo virtual, algo que confesso acho absurdo….rs

Pessoal, seu comentário me ajuda muito a escrever, mande sua opinião, fale o que achou dos textos e mesmo dê novas idéias para este espaço. Escrevemos porque outra pessoa vai ler e a resposta do leitor é sempre importante.

Computer Love Computerliebe

Buscando companhia e fugindo do contato

Pensando no tema dessa semana fui buscar músicas para ilustrar o que eu quero escrever. Confesso que já tinha alguma coisa em mente. Talvez uma das escolhas mais óbvias tenha sido a música que separei para hoje (mais óbvia que a do Gil de terça-feira passada). Provavelmente eles sejam os pais da música eletrônica, com seu som baseado em teclados e sintetizadores.

O Kraftwerk nasceu nos anos 70 e até hoje é considerada uma das bandas mais influentes da história. Escolhi uma de suas músicas pela letra. Computer Love (ou computerliebe). Ela fala da busca de um encontro no mundo virtual e isso em 1981, o clipe criado pela Dadaistique (clique no nome da música) retrata bem uma idéia que ainda existe nos tempos atuais.

Hoje vou falar da busca por relacionamentos virtuais. Nas grandes cidades a solidão tem funcionado quase como uma prisão para uma parte das pessoas. O ritmo acelerado, as diversas obrigações diárias, o medo de se expor e a fragilidade existente nas pessoas acaba tornando elevadíssimo o número de pessoas que sofrem com a solidão, mesmo cercados por milhares e milhares quase diariamente.

Estamos nos tornando cada vez menos sociais. O contato entre as pessoas diminui, apesar de ser fácil ver bares lotados, festas lotadas, cinemas lotados, estádios lotados. As pessoas não se conhecem. Basta uma conversa com pessoas de gerações anteriores. Antigamente era comum as pessoas se conhecerem numa festa de bairro, num ônibus, até num mercado. Hoje, eu vou ao mercado quase todo dia, vejo sempre as mesmas pessoas por lá e confesso que mesmo depois de 2 anos, não sei o nome de ninguém.

Shopping centers lotados pessoas andando de um lado para o outro, quase sempre apresadas. Quantas se falam durante esse passeio? E nos parques? Praias? Metrô? Vivemos um período de medo, temos medo do outro, aquele que está ao nosso é hoje fonte de medo.

E ai chegasse a casa, liga-se o computador e a internet. Faz-se o que? Busca-se gente. Busca-se contato, o mesmo contato do qual se fugiu o dia todo. Chats, sites de relacionamento virtual, agências de namoro e tudo mais viram opções para uma turma que perdeu a coragem de se expor no dia a dia.

Ama-se pelo computador, conheço gente que só vive de relacionamentos virtuais, conversa horas com pessoas que estão distantes, do outro lado do mundo. Mas não sabem sequer o nome dos seus vizinhos, aqueles que numa emergência teoricamente seriam as primeiras pessoas a serem procuradas.

Não estou aqui fazendo coro contra o mundo virtual. Apenas quero dizer que a gente não pode exagerar. Se buscamos pessoas reais no mundo virtual, por que não buscar pessoas reais no mundo real? São as mesmas pessoas. Imagino a cena, um cara indo a padaria de manhã cedo, compra pão e leite, compra o jornal e umas revistas na banca ao lado da padaria. Uma mulher muito bonita passa por ele, ambos se olham e viram o olhar pro solo. Ela compra seus pães, compra também algo da banca, ficam minutos por ali lado a lado, até observam a mesma revista. Sem dizer uma palavra um ao outro. Nem um bom dia.

Saem dali e cada um se dirige a sua casa, talvez até com a lembrança da pessoa que estava ao seu lado em sua mente. Porém, sem a coragem de falar algo. Eis que, coisas do destino. Entram num chat e acabam por conversar. O mundo virtual os aproxima. Conversa vai, conversa vem e se descobrem vizinhos. Marcam pra um tempo depois um encontro, quem sabe um café naquela mesma padaria? Qual seria a surpresa de ambos ao se reconhecerem?

Pois é, isso é possível e até provável no mundo atual. Fica-me a pergunta, por que temos tanto medo daquilo que buscamos? E nem falo de um relacionamento amoroso, falo de um relacionamento com o humano. Por que buscamos numa tela de computador aquilo que está a centímetros da gente? Por que fazemos a mesma coisa que foi dita nos primórdios da internet pelo Kraftwerk? E principalmente, como mudar isso?

Eu continuarei no tema, no domingo devo postar algo sobre relacionamentos virtuais, brincar com algumas histórias que conheço, algumas deram certo, outras nem tanto.

What a Wonderful World

Por que algumas vezes não percebemos o prazer de ver cenas como essa?

Fiquei pensando em como terminar o tema dessa semana. Sobre a busca pela simplicidade. O primeiro passo foi escolher a música do post. Queria algo que dissesse exatamente aquilo que eu tinha em mente. A idéia de que apesar de ser difícil, ser simples é sempre a maneira mais fácil de conseguir o que se deseja. Fuçando nos arquivos, passeando pela internet, acabei achando a música certa. Ouvir Louis Armstrong cantando What a wonderful world é um presente. Adoro a música e adoro o que ela me traz.

A busca do prazer nas coisas simples como o perfume de uma flor, um sol nascendo, a chuva no rosto num dia de verão. Coisas que qualquer um pode aproveitar, mas que pouca gente consegue curtir. Aos que moram nos grandes centros, geralmente culpamos a vida corrida, o stress e a bagunça diária por não conseguirmos reparar nessas belezas diárias.

Justamente por não nos atermos ao mais comum e corriqueiro, acabamos buscando coisas impossíveis, colocamos objetivos muito além da nossa realidade. Uma viagem ao litoral perto de sua cidade não vale. Tem que ser naquele paraíso perdido e distante. Comer uma feijoada num boteco com os amigos depois do jogo de futebol não vale, tem que ser o restaurante francês mais caro da cidade. O emprego tem que ser sempre o mais cobiçado e não o que versa sobre aquilo que você mais gosta.

Aliás, já nem sabemos mais o que gostamos ou não em alguns casos. Ficamos numa busca hedonista, prazeres complexos e falsos tentando esconder aquilo que deveria ser óbvio. Não atingimos os nossos verdadeiros prazeres porque muitas vezes os tornamos difíceis demais, devido ao medo de assumir nossos desejos.

Não quero aqui dizer que tudo se resume a ver o sol brilhar no horizonte, cantar numa roda de violão ao lado de uma fogueira ou tomar banho de rio. É claro que temos outros desejos sim. É claro que queremos e buscamos muito mais coisas. Eu tenho meus sonhos malucos, gostaria de viver das fotos que faço e dos textos que escrevo. Gostaria de ter um amor legal, gostaria de uma casa no campo (ops eu moro no campo…rs). Na verdade como qualquer um eu busco também sensações, todos buscamos.

O que eu questiono, na verdade, é essa busca pelo falso prazer. A busca incessante pelo algo novo, por preencher um vazio que nunca se preenche (eu tenho vazios assim, assumo, sou humano). Buscar no irreal algo que preencha um vazio real é a estupidez. Justamente porque é dentro da gente que se encontra a resposta.

Se você não consegue ser feliz consigo mesmo, como vai encontrar felicidade em algo? Não é a bebida, não é o sexo fácil, não é o status, o dinheiro ou qualquer outra coisa que vai te dar aquilo que você já deveria ter e não encontra dentro de si mesmo. Procure dentro de você e descubra o que realmente falta para que você consiga achar o mundo maravilhoso em suas nuances mais simples.

Eu busco isso, e até imagino que um dia vá encontrar o que procuro, até lá fazendo de tudo pra fugir dos falsos prazeres (aqueles que no fundo não me trazem prazer algum) e tento me focar nas pequenas coisas e nos desejos reais, satisfazê-los é o que procuro.