Cartão Postal

Só vou saber o que tem no alto da escadaria se eu tiver coragem de subir até lá.

Prometi continuar falando da busca por simplicidade. Aliás prometi falar disso nos relacionamentos. Ainda que eu não seja o melhor exemplo pra falar de relacionamentos (estou no grupo dos encalhados), confesso que gosto de viajar sobre o assunto.  Conversando com amigos sobre o tema, sempre surgem algumas frases comuns da parte da turma que ainda está solteira: “Eu nunca entendo o que ela(e)s querem?”, “Por que nunca falam o que estão sentindo?” ou ainda “Ela(e) parecia que estava me dando um mole tremendo e dei com os burros n’água.

Estamos sempre reclamando não entender o sexo oposto, não entender o que o outro deseja, quando na maioria das vezes, o que falta mesmo é coragem pra tomar as decisões mais óbvias. Quer um bom exemplo disso? Qualquer um já deve ter vivenciado ou visto, quando adolescente uma cena comum. O rapaz todo envergonhado olha para a garota de longe. Ele, doido pra se aproximar, não sabe o que fazer. A garota, vendo de longe, torcendo pro garoto se aproximar. Provavelmente os dois estudam na mesma sala de aula ainda. Não seria muito mais fácil um chegar perto do outro e dizer que está interessado na outra pessoa?

Esse seria o óbvio, mas e o medo do não? O medo da derrota e de ouvir isso na frente dos outros, ou pior, ter que falar para os amigos que não deu certo. Afinal ambos contaram para todos os amigos que existia um interesse e esses “grandes amigos”, fizeram o favor de espalhar pra todo mundo num raio de 100 km que existe um interesse de y em x e talvez vice-versa. Não, somos derrotados pela vergonha.

Isso não acontece só com adolescentes, qualquer pessoa terá sempre uma reação parecida, não importa a idade ou o relacionamento. É o medo de falar que o casamento não está legal e perder o(a) companheiro(a), é o medo de dizer um desejo mais íntimo ao parceiro e ser visto (a) como vulgar, até o mesmo e ter que recomeçar a própria vida.

Nessa linha de pensamento, uma música gravada pelo Cazuza e composta pela Rita Lee e pelo Paulo Coelho serve como um bom tapa na cara para a gente acordar. Recomendo que prestem atenção na letra de Cartão Postal. A praticidade exposta na letra é de cortante. Pra que sofrer na despedida? Eu sei que ter tanta maturidade assim é complicado e sei também que dói perceber as nossas derrotas e falhas, por mais anunciadas que sejam. Por mais que um relacionamento vá mal, terminar é assumir a nossa falha em fazê-lo dar certo. Por mais que a pessoa que você está paquerando não tenha nada a ver com você e todo mundo perceba isso. Levar um fora é doloroso, nos dá uma sensação de impotência e incapacidade.

O que barra muitas vezes a vida de uma pessoa é o medo de sofrer pequenos contratempos em sua busca. Uma das primeiras coisas que aprendi no meu tempo de praticamente de judô foi a cair. Se você não cai, não tem motivo pra levantar. Se você tem medo de cair, como pode querer jogar alguém? Esse é um dos princípios do esporte (calma gente tem muito mais coisa, só peguei o trecho que me interessava nesse assunto). Perder o medo para poder melhorar e fazer direito. Ser direto e preciso no que quer, só assim testando, você saberá realmente se a sua resposta será positiva ou não.

Eu me amo, não posso mais viver sem mim…

A luta pela sobrevivência é a maior prova de amor por si próprio

Mais um post na linha do manual do encalhado…rs. Hoje começo ao som de Ultraje a Rigor. Rock bruto e engraçado e pra esse dia de hoje perfeito. Sim, tem o pessoal que ficou horas no shopping procurando o presente certo pra declarar o seu amor. Tem também quem aproveitará a data para mostrar dotes culinários escondidos ou conhecerá aquele lugar que imagina ser especial para si e a pessoa amada. Mas tem bem mais gente.

Tem gente que como eu vai “comemorar” sozinho. Gente que vai se produzir pra si mesmo, trocar uns amassos com o espelho e romanticamente ver um filme legal sozinho, depois de um jantar caprichado preparado com todo carinho pra pessoa mais especial que já teve a oportunidade de conhecer. VOCÊ MESMO/A!!!!

Observem a letra, ela não é fantástica?

Há tanto tempo eu vinha me procurando
Quanto tempo faz, já nem lembro mais
Sempre correndo atrás de mim feito um louco
Tentando sair desse meu sufoco
Eu era tudo que eu podia querer
Era tão simples e eu custei prá aprender
Daqui prá frente nova vida eu terei
Sempre a meu lado bem feliz eu serei

Refrão
Eu me amo, eu me amo
Não posso mais viver sem mim

Como foi bom eu ter aparecido
Nessa minha vida já um tanto sofrida
Já não sabia mais o que fazer
Prá eu gostar de mim, me aceitar assim
Eu que queria tanto ter alguém
Agora eu sei sem mim eu não sou ninguém
Longe de mim nada mais faz sentido
Prá toda vida eu quero estar comigo
Foi tão difícil prá eu me encontrar
É muito fácil um grande amor acabar, mas
Eu vou lutar por esse amor até o fim
Não vou mais deixar eu fugir de mim
Agora eu tenho uma razão pra viver
Agora eu posso até gostar de você
Completamente eu vou poder me entregar
É bem melhor você sabendo se amar

 Precisa falar mais alguma coisa? Na verdade a questão toda se resume a isso, ame-se, você tem que ser legal pra você mesmo. E ai irradiando felicidade acaba aparecendo alguém que queira saber o que essa pessoa que te deixa tão divertido tem a oferecer e ai, tudo resolvido.

Falo desse assunto hoje devido a repercussão do post anterior (É impossível ser feliz sozinho). Em certas parte do post eu disse que era possível sim ser feliz sozinho. Hoje, no dia dos namorados, passo a discordar de forma veemente disso. É impossível, porque se você não está bem nem com você mesmo, não pode mesmo ser feliz. Essa é a grande sacada. enamorar-se por você.

Tem que ser um amor verdadeiro, daquele de se cuidar mesmo. Não falo de cuidar da aparência apenas, mas principalmente da cabeça. Tem que estar loucamente apaixonado, a ponto de irradiar felicidade por todo o corpo. Você tem que respeitar as idéias que tem, ver a beleza onde ela existe e não ligar pra falta de beleza e pequenos defeitos desse seu amor eterno. Até porque se você ficar lembrando toda hora do cabelo que se foi, da barriga que cresceu ou do fato de torcer para o corinthians como defeitos, todo mundo vai passar a ver isso em você como coisas ruins.

Então, eleve as boas idéias, mostre como seu amor tem um humor divertido e pode ser uma boa companhia, mostre que acha seu amor lindo/a. Discutia com um amigo meu que todo relaciomento pra funcionar bem tem que ser composto de 3 casais, os dois envolvidos, e cada envolvido consigo mesmo. É nessa linha que eu estou caminhando e pensando. Tanto que hoje, meu dia dos namorados será comemorado comigo mesmo, da forma como disse lá em cima. Muito bem acompanhado comigo mesmo (a não ser que algo mude tudo até o final do dia…rs), bom filme e bom jantar, só descarto o vinho…rs

É impossível ser feliz sozinho…

Flores a todos os enamorados

Muita gente me pediu pra escrever sobre o Dia dos Namorados. Confesso que ao ler tais pedidos fiquei com uma sensação estranha. Um misto de tristeza e até certo ponto alegria. O lado triste da história foi perceber que continuo no clube dos encalhados e carentes, fazer o que? Até já faz um bom tempo que estou nessa, falta encontrar ou ser encontrado por alguém. Enfim, isso de certa forma precisa de alguma alteração, paixão ainda é algo que me motiva, falei disso no post Aprendendo a Falar e a Viver, onde falo de como nasceu meu primeiro livro, mas enfim, passado infelizmente ou felizmente, sei lá, é passado.

Ok, esse é o lado triste, onde estão as coisas boas nessa história? Bom, nesse tempo todo de encalhe (ops seria melhor escrever solidão), aprendi muito sobre mim mesmo, cresci como pessoa. Cresci a ponto de levar a solteirice na esportiva, sem tanta neura. Outro ponto divertido foi justamente receber os pedidos pra falar do tema. Esse flerte com quem me lê é divertido, eu gosto de saber o que quem me lê pensou ou sentiu do meu texto. Me ajuda nessa cruzada por auto conhecimento e também torna esse espaço mais democrático. Como disse a quem neguei a liberação de comentários, evito sempre comentários que por serem pessoais demais podem expor quem os fez.

Mas voltando ao tema. O encalhado aqui vai falar de uma data, ou melhor do que traz essa data de simbolismo. Começo usando justamente o verso do Tom Jobim. Adoro as músicas dele, gosto ds letras e das melodias, wave não é diferente. O verso entretanto pode até ser questionado. Eu sou daqueles que acredita que dá sim pra ser feliz sozinho. Que a felicidade está mais ligada ao indivíduo do que ao que se alcança, felicidade é algo interno.

É claro que o carinho de alguém, beijos apaixonados, uma frase bem colocada ao pé do ouvido, tudo isso faz sim diferença no nosso ânimo. Mas conheço gente que tem tudo isso e ainda assim não é feliz, como também conheço gente que é feliz sem ter a cara metade, a tampa da panela ou qualquer outro sinônimo popular que se ache. O importante é estar bem consigo mesmo, até para poder estar bem com os outros.

É claro que nessa época em especial me sinto como a música do Dominguinhos (Que falta eu sinto de um bem/Que falta me faz um xodó/Mas como eu não tenho ninguém/Eu levo a vida assim tão só/ Eu só quero um amor/Que acabe o meu sofrer/Um xodó pra mim/Do meu jeito assim/Que alegre o meu viver). Na busca por alguém que realmente mexa comigo. E que mostre também que o Jobim estava certo quando escreveu. Afinal, é ligar a televisão e ver comerciais, os filmes que passam se tornam todos românticos, qualquer restaurante tem promoção pro dia dos namorados, ficar livre dessa influência só se mudando pra marte, porque nas cidades pequenas (eu moro em uma) o assunto também é o mesmo.

E esse lado comercial da coisa por incrível que pareça traz um certo glamour ao evento. Olhando por ai, se percebem casais às vezes em fase mais decadente do relacionamento usando a data pra tentar se modificar, voltar a namorar naquele casamento de 30 anos. Serve de lembrança, tem gente que só lembra que tem alguém especial por causa dessas datas comerciais. E quem não tem, como eu, fica com inveja…rs

É claro que tem aquelas pessoas eternamente enamoradas, não pelo outro, mas pela vida, gente que sorri de e por tudo. Pra esses essas datas realmente não possuem sentido ou função alguma, assim como para aqueles apaixonados de plantão. Mas eles não são o grosso da população. Acho que é por isso que estas datas fazem tanto sucesso. Assim como acho que é por datas como essa que acabamos por crer, mesmo que estranhamente, em versos como os do Jobim.

No fundo é tudo pura viagem pra falar de um tema que o encalhado aqui não entende nada, mas espero ter emitido a minha opinião. Fica um abraço carinho (e cheio de inveja) a todos os leitores enamorados e a torcida para que os leitores solteiros como eu desencalhem até o dia dos namorados do ano que vem.

We are the champions…

As vezes a vitória está em conseguir e não em chegar na frente
As vezes a vitória está em conseguir e não em chegar na frente

Eu sei que prometi falar sobre meus limites. E confesso que até comecei a rascunhar o texto sobre o tema. O problema, as vezes eles aparecem, é que em certas ocasiões, situação do cotidiano mudam nossa linha de pensamento de modo brusco, nos obrigando a mudar de direção.

E de certa forma foi o que fiz. Nos últimos dias vivi situações inesperadas. Nada muito maluco, mas pequenas coisas que me fizeram rever o que escreveria, um assunto se fez mais urgente na minha fala. A questão do prazer nas vitórias. E aqui falo de qualquer tipo de vitória, seja um prêmio nobel, seja conseguir chegar no horário certo no trabalho mesmo com todo o trânsito de uma cidade grande.

Entretanto, mais importante que as vitórias são as relações que temos com elas. O quanto aquilo que parece ser importante naquele momento realmente nos motiva. Ou mesmo o que a conquista vai alterar em nossa vida. E nem penso aqui em grandes alterações, mas sim em coisas simples, como chegar no horário no trabalho vai fazer com que o chefe não se irrite e que pare de pegar no meu pé. Ou, chegar em casa mais cedo pode te permitir ter mais tempo para preparar um bom jantar.

Essas são as conquistas básicas, é claro que a relação com a vitória tem muito a ver com o prazer que se sente com cada conquista, muitas vezes coisas mais óbvias nos motivam mais do que grandes vitórias aos olhos dos outros. Até porque o sabor de cada conquista é pessoal. Tenho uma amiga que diz que a maior vitória da vida dela foi ter conseguido dirigir um carro de sua casa até a universidade. Parece pouco, mas para ela foi uma vitória e tanto. Já um grande amigo fala que sua maior vitória foi ter desistido de um curso na faculdade e partido pra outra vida.

Para alguns, só interessa chegar na frente
Para alguns, só interessa chegar na frente

A minha grande vitória? Provavelmente ter feito o livro para quem fiz da maneira que fiz, achei que foi uma homenagem justa para quem viveu comigo provavelmente alguns dos momentos mais felizes que eu tenha tido em toda minha vida. E falo isso tendo obtido até alguns prêmios meritórios mais famosos, tanto com fotografia, como com poesia e até no meu trabalho como professor.

Isso porque minha maior vitória até aqui é celebrar um momento legal que eu vivi. Conheço gente, entretanto que sente alegria apenas nas grandes vitórias, nos grandes prêmios, no reconhecimento profissional, na demonstração de poder e força. Essas pessoas estão igualmente certas em sua visão. Afinal, cada um sabe o que é importante para si.

O que estraga tudo, entretanto é quando a vitória vem manchada, mas isso será assunto para um novo texto. Apenas para efeito de curiosidade, você tem alguma história de vitória manchada que gostaria de repartir? Talvez ela sirva de exemplo no meu próximo texto. E de novo, valeu pela visita.

Somos quem podemos ser

A liberdade um pouco acima e a independência, são duas matizes que andam lada a lado em qualquer pessoa

Eu adolescente ouvia discos de vinil. Num dos que eu mais gostava, Humberto Gessinger cantava o verso acima. Nessa música ele falava das descobertas que foi fazendo ao crescer. Quando descobriu, por exemplo, que as nuvens não eram de algodão. Ganhou liberdade com o tempo e aparentemente passou a tomar suas próprias decisões.

Por que aparentemente? Justamente pelo verso inicialmente separado. Em nossa vida não somos quem realmente somos ou gostaríamos, mas sim quem podemos ser. Vários fatores influenciam a nossa ação e o nosso pensamento. Sejam os amigos, os livros, as viagem que fazemos, filmes que assistimos e qualquer coisa que vivenciamos nos ajuda a ser quem somos.

As nossas frustrações é que nos limitam. Elas que acabam dando o limite dos moldes que seguimos. Conforme dito em outros posts, nossos ídolos e a forma como eles nos tocam também modificam nossa formação. As escolhas das tribos que cada um pretende ingressar, frases soltas que surgem nos nossos ouvidos em momentos delicados. Os fatores são tantos que é praticamente impossível uma pessoa conseguir mostrar ao mundo apenas a sua essência.

Essa é mais uma vertente de nossa falsa liberdade. No fundo nossas escolhas todas acabam sendo definidas por limites que não nos pertencem. E ai eu chego perto de começar uma discussão levantada pela Eve. A relação entre liberdade e independência. Não somos totalmente livres porque nossas escolhas são sempre dependentes de variáveis externas a nossa vontade, mas sempre somos independentes nas escolhas que fazemos após termos a liberdade definida.

Vejo, nesse caso, a independência como fruto das escolhas coletivas e a liberdade como a escolha pessoal. Assim encaro a independência como um ideal democrático e a liberdade como um ideal anárquico. Dentro dessa minha limitada linha de pensamento, os homens só são livres dentro de uma realidade definida, nesse caso o tão aclamado sentimento de liberdade é apenas a sensação de comodidade em perceber-se dentro das regras sociais do local onde se está inserido e ai então a possibilidade de se agir tranquilamente de acordo com novas escolhas, as escolhas independentes.

Quando começamos a crescer, essa situação aparenta ser mais confusa em nossas mentes. Quem não foi um adolescente questionando regras? Quem nunca ficou irritado por não poder fazer aquilo que queria? Uma brincadeira de amigos é que na adolescência todos temos em nossas mentes o furor revolucionário das esquerdas tradicionais, por isso tanta revolta e briga popular dentro de grupos estudantis, que se espelham em ídolos bastante padronizados como Che Guevara e Fidel Castro, no caso dos estudantes brasileiros.

Ai o tempo passa e as idéias políticas e sociais de cada um mudam, ampliando o leque de escolhas, quando um pouco mais velhos nos sentimos mais livres para fazer nossas reais escolhas, podemos sair da tribo e ai, realmente independentes podemos escolher se voltamos para a tribo dos esquerdistas ou se mudamos para outra, tudo dentro da nossa pequena liberdade limitada.

Reparem nas canções adolescentes, a inquietude com o sistema é recorrente, bem como o amor, o desejo e o prazer. Os mesmos autores, quando um pouco mais maduros, mudam seu discurso e as letras passam a falar de inquietudes pessoais, as reclamações sociais são outras, já não se quer derrubar todo o sistema, mas sim reclamar de pontos determinados dele, as revoluções deixam de ser totais e passam a ser pontuais.

Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente
Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente

Para mim, o entendimento da independência é mais lento do que o desejo de liberdade, talvez por isso eu ache que as pessoas mais maduras são as que conseguem situar-se bem com esse tipo de sentimento. São pessoas que conseguem tranquilamente aceitar a existência de limites sociais para seus desejos e conseguem brincar com esses limites ampliando sua parca liberdade, mostrando-se independentes.

Você se acha uma pessoa independente neste conceito? Gostaria de ampliar sua liberdade em que aspectos? No próximo texto, eu provavelmente deva falar um pouco dos meus limites e da forma como eu lido com eles.

O certo e o errado

minha avó até hoje não entende que eu não curta entrar numa igreja
minha avó até hoje não entende que eu não curta entrar numa igreja

Modelos de certo e errado fazem parte da nossa formação desde o primeiro choro. Essa definição é bastante sutil e em alguns casos difícil de definir. Até porque a verdade de cada um é variável. Cada pessoa acredita agir da maneira mais correta segundo seus preceitos e crê piamente na sua linha como a mais correta para toda a humanidade. Provavelmente essas diferenças de pensamento são o principal motivo pra maioria das brigas que encontramos por ai. Certamente os dois lados de uma guerra acreditam que a sua luta é justa.

Essa diferença de valores, entretanto, é sutil demais pra ser definida claramente. E ai as leis se fazem necessárias. Em alguns casos leis mais simples, em outras leis complexas com interpretação mais difícil ainda. E isso não vale só para as nações, também se enxergam problemas no relacionamento diário que temos com as pessoas. Algumas pessoas podem achar normal cumprimentar todo mundo com beijos e abraços de manhã, outras pessoas simplesmente sentem ojeriza do toque alheio. Basta isso para que as famas de pegajoso e anti-social sejam imediatamente criadas no ambiente de convívio.

Até porque temos uma dificuldade imensa de aceitar o diferente e principalmente de aceitar a diferença naquilo que temos como básico no nosso comportamento. Minha avó até hoje estranha o fato de que eu me recuso a assistir uma missa ou mesmo que eu coma carne normalmente numa sexta-feira santa. Eu tenho dificuldade em aceitar também algumas coisas, mesmo racionalmente sabendo que é escolha da pessoa e que cada um tem seus motivos pra agir como age, sempre existem coisas que me incomodam.

E muitas vezes é difícil conviver com esse diferente, não é possível simplesmente se afastar da pessoa, as vezes ela acaba se tornando mais próxima do que você gostaria. É o chefe que você acha imbecil, é o amigo que não sabe guardar segredos ou a namorada que demora duas horas pra definir a roupa que vai usar e depois decide passar a noite em casa.

Enquanto isso, o seu chefe aguenta os erros no seu relatório, seu amigo suporta seu mau humor quando o seu time perde e a sua namorada suporta o seu gosto duvidoso para os restaurantes (é sempre o mesmo e sempre o mesmo prato). E no fundo achamos isso normal, buscamos os erros dos outros e não observamos os nossos.

eu acho a moda fútil, mas tenho amigos que adoram
eu acho a moda fútil, mas tenho amigos que adoram

Pode até parecer mea culpa em relação aos últimos dois posts, mas não é. É apenas um assunto que eu gostaria de tratar aqui e que trará nova discussão. Quando, no próximo post, eu discorrer sobre a falta de heróis no nosso povo. Só quis abrir a linha de pensamento falando um pouco sobre como é duro perceber que aquilo que me agrada incomoda terrivelmente o outro.

Inspiração para escrever isto? Ser síndico no condomínio onde moro. Acho que esse tipo de convivência mostra claramente como não sabemos respeitar as diferenças e acreditamos que a única verdade realmente válida é a nossa. Infelizmente muita gente pensa assim. E como professor, percebo que infelizmente muitos jovens hoje são criados a pensar assim, o que vale é a sua verdade e não a do outro.

Vamos brincar um pouco, que tal me contar algo que te irrita profundamente no comportamento das pessoas. Eu começo dizendo que a falta de clareza, a preguiça e o descaso de algumas pessoas me irrita muito, e você?

Aceitar ou não

Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...
Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...

Dois comentários sobre meu último post fizeram pensar. Cada um a seu modo trata justamente do que acho mais importante na existência humana. A capacidade de ter opiniões pessoais e a partir delas  tecer comentários que podem ou não ser aceitos. Eu, particularmente neste blog, e confesso que em todos os aspectos da minha vida, não quero apenas ser aceito.

Não me vejo como criança mimada que não pode ser contrariada, muito pelo contrário, tento ser um adulto que sabe que vai ser questionado, aliás é o que mais busco aqui neste espaço.

Posto isso, vale a pena retomar as duas idéias, tanto a Lak, quanto a Eve levantaram pontos discordantes passando por dois conceitos que possuem relação estreita com o que discutia. A Lak disse que podemos sim ter uma alma livre e a Eve procura me lembrar da diferença entre liberdade e independência. Ambos os assuntos serão tratados em  breve, provavelmente nessa semana ou na próxima. Porém, preciso ainda refletir um pouco mais antes de começar a falar de cada um deles.

Hoje, com base nessas leves e saudáveis discordâncias, quero falar de outro tema. O não ser contrariado. Acredito que sempre que mostramos qualquer coisa a outro ser (e nem precisa ser da nossa espécie) estamos nos apresentando a um tipo de julgamento. Seja a ração que você resolveu comprar para o seu cão ou o novo livro que você apresenta a seu editor. Tanto a ração quanto o livro podem ser aceitos por seus interlocutores como podem ser odiados. Isso é normal e faz parte da vida.

Uma amiga minha diz sempre no meio de nossos papos mais filosóficos que todas as ações só ganham significado a partir da interpretação do outro. Você só escreve porque alguém vai ler, se veste porque alguém vai ver, se cuida porque vai conviver com alguém. Ela pauta seu pensar em teorias do discurso, presentes em sua formação.

Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...
Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...

Minha formação é bastante diferente, sou o tipo de pessoa que analisa o comportamento humano da mesma maneira que observa o comportamento de uma formiga. Para mim somos apenas animais. Nos demais animais, fica clara essa urgência em se fazer presente no outro. Nas aves os machos cantam para serem aceitos pela fêmea, em alguns grupos de mamíferos, ser aceito no grupo garante a alimentação, todos os rituais de corte são fortemente impregnados pelo desejo de ser aceito.

Em nosso íntimo é claro que todos queremos que nossas idéias prevaleçam, todos querem ser aceitos dentro do seu grupo, seja por sua beleza, inteligência ou ações. Alguns de nós até mudamos nosso comportamento natural só para ser aceito no grupo. Quem não se lembra de uma ação que foi feita só para conquistar a pessoa amada? Quem nunca se pegou agindo de forma diferente diante de pessoas diferentes?

Minha psicóloga (segunda vez que a cito no blog, espero que ela não resolva me cobrar uma sessão a mais) já me perguntou mais de uma vez se eu não tenho medo de não ser aceito. A resposta sincera sempre foi não, realmente não tenho de forma exacerbada. Como todo mundo, sinto-me confortável ao saber que estou agradando.

A questão aqui, entretanto, passa a ser outra. Você pode ser contrariado e ser aceito ao mesmo tempo. Discordar é saudável, doentio é não permitir que discordem daquilo que você pensa. Pessoas que não aceitam isso tendem a uma ação ditatorial e principalmente deixam de aprender. Talvez deixar de aprender seja um dos meus maiores medos. Para quem age assim, talvez o medo maior seja o de perceber que ainda é preciso aprender.

Algumas verdades para nós são tão presas que dificilmente conseguimos julgá-las. Seja a fé, seja o time do coração ou mesmo a opinião sobre o aborto. Discutir isso de forma racional é que é difícil. Deixar algum espaço para que outras opções sejam apresentadas.

Leio muitas vezes no mundinho azul (Orkut) discussões que nascem e ganham corpo apenas porque os envolvidos assumem a postura de a minha verdade é a que vale e parece que ganhar essa disputa virtual tem o mesmo peso de uma vitória na vida real. Tudo para sentir-se aceito.

Na vida real, mulheres passam anos sendo maltratadas por maridos violentos e escondem o fato com medo de serem vistas como vadias. Pessoas de ambos os sexos entregam-se pelo mesmo motivo a ditaduras de beleza, comportamento ou ação apenas para agradar ao outro, mesmo que não agrade a si próprio.

No fundo todos somos iguais
No fundo todos somos iguais

Aceitar a crítica muitas vezes é doloroso. Principalmente nessas verdades irredutíveis que criamos, mas aprender a quebrar esses pontos é necessário. Sei que se faz necessário um aprendizado constante e longo para que consigamos superar nossos medos e vaidades, mas é necessário aprender a ser questionado.

Confesso que foi a primeira coisa que pensei antes de criar este blog. Estou pronto para que as pessoas digam que não gostam do que eu produzo? Só quando eu tive a certeza interna de que a resposta para isso é sim, é que tomei coragem para me aventurar nesse universo de escrita. Em alguns pontos infelizmente ainda não cheguei ao ponto de agüentar ser questionado, nesses pontos o que faço? Simplesmente não os ponho a prova. E você? O que faz? O que pensa a respeito?