Going Home (Theme from Local Hero) – Dire Straits

 

 

O tempo agora afrouxou um pouco. Sobra espaço para fazer coisas diferentes. Dormir foi a primeira coisa que consegui fazer nessa quase folga. Fora isso, também tive tempo para fuçar em alguns livros, voltar a ler com calma e prazer era algo que eu precisava fazer. Dias atrás falei sobre escrita num evento sobre leitura. Cheguei a dizer no evento que para escrever bem é preciso ler bem e bastante. Eu próprio não estava conseguindo fazer aquilo que tinha pregado a um pequeno grupo de jovens.

Agora com um pouco mais de tempo disponível, consegui pegar um livro da imensa pilha que tenho aqui em casa pra ler. Peguei dois na verdade. Mas um eu cito depois. O livro que vai ser vir pra uma pequena série de posts nesse fim de ano se chama Slam, foi escrito pelo Nick Hornby, autor inglês que tem uma escrita que costuma me divertir muito. Recomendo a leitura de Febre da Bola, Uma longa Queda e de seu mais famoso livro Alta Fidelidade, entre diversos outros.

Slam fala de um jovem inglês que adora skate, é fã do Tony Hawk e sofre alguns reveses pesados em sua vida. Mais pra frente eu pretendo falar desses reveses até porque muitos deles acabam sendo a razão de eu ter me tornado professor. Hoje eu pretendo falar da idolatria, da forma como todas as respostas para a vida de Sam (o jovem do livro) busca todas as suas respostas em alguém e faz desse alguém o guru de sua vida.

É normal termos esses ídolos, eu tenho os meus. No começo de nossas vidas, os ídolos iniciais costumam ser nossos pais, depois personagens de desenhos ou programas de TV, quando crescemos, passam a ser pessoas reais. Depois a gente cresce, e dependendo de como a gente é, passa a sonhar em ser herói para alguém, seja como pai, seja como modelo. E no caso desse ser herói, nada tem a ver com se achar superior, mas sim achar que as pequenas escolhas que a gente faz durante a vida realmente apresentam algum sentido.

As vezes me pergunto se não foi isso que me levou a ser professor. O último post de certa forma fala do que eu tenho sentido com meu trabalho. Fala de como muita gente entrou em minha vida sem pedir licença, abriu a geladeira, pegou uma bebida (refrigerante porque a cerveja da geladeira está vencida há tempos) e se jogou no sofá, provavelmente mudando o canal de TV, tirando da ESPN e colocando na MTV.  Eu os vejo indo e vindo de forma pontual, mudando pouco a pouco minha vida e também espero de alguma forma mudar a vida deles de alguma forma positiva.

Para alguém que sempre foi viciado em histórias de super-herói, tornar-se um tipo de modelo para a vida de alguém é quase um resquício de um sonho adolescente/infantil. Isso também me motiva a ser quem sou. Eu tento ser alguém melhor por acreditar que de repente alguém me siga como exemplo e acabe buscando isso também. Sei que é bobeira falar isso, mas de certa forma, eu me preocupo muito com os erros dos mais próximos e de maneira inconsciente acabo achando que esses erros são meus também, que se eu tivesse agido diferente, aqueles erros poderiam ter sido evitados.

Não espero (e sinceramente não quero isso de modo algum) que alguém faça comigo o que Sam faz com Tony Hawk no livro. Eu espero gente livre, que saiba pensar e ponderar todas as suas ações por si próprio. Quero ser exemplo pra gente independente como são os meus ídolos. Modelos de gente que tenta (ou) fazer as coisas sempre da melhor e mais justa maneira possível. Gente que se preocupa (ou) não só consigo, mas com as conseqüências de cada um de seus atos.

Aliás dentro dessa loucura que eu escrevo agora, vale lembrar algo que eu já escrevi em outros textos por aqui. Não acredito num ídolo único para todos os aspectos da vida de uma pessoa. Todo mundo em algum momento comete um erro e seguir esses erros não parece ser algo inteligente. A gente deve seguir as boas idéias, coletar o melhor de cada um e entender que cada pessoa tem algo a oferecer. Não é porque eu idolatro a forma de um poeta escrever que tenho que ter a mesma visão política que ele. Não é porque adoro a forma como uma banda toca que devo aprovar tudo o que ela faz fora do palco.

Mesmo assim, confesso que me bate um certo orgulho quando alguém me diz ou escreve falando que leu um livro porque eu citei, ouviu uma música por minha causa ou até (o supra sumo do se achar) me vê como exemplo pra alguma coisa (que não seja pras besteiras e cabeçadas da vida). O texto ficou mesmo meio melancólico em alguns pontos, por isso a trilha. Adoro Dire Straits, banda que ouvi muito na minha adolescência. No caso da música, ouvi pela primeira vez numa fita cassete gravada por uma amiga. Na fita tinha muita coisa de rock progressivo e entre as músicas de Pink Floyd, Yes e Emerson, Lake & Palmer havia essa música perdida. Foi justamente a música que ouvi muitos anos depois quando organizava minhas coisas pra mudar de casa e coloquei a fita pra tocar, cada acorde me trouxe milhares de lembranças boas e saudades de um tempo em que apesar da rebeldia adolescente, conheci muita gente que me fez ser a pessoa que sou hoje.

Espero que goste da melodia, espero que curta o texto e que nele encontre todas as pessoas que construíram a pessoa que você é hoje. Eu penso que infelizmente não pude agradecer a todos, mas faço desse texto uma forma de agradecer a todos os meus heróis locais, aqueles que me salvaram do vazio imenso e se tornaram os grandes modelos do adulto que eu sou hoje, além daqueles que entram diariamente em minha vida e me ajudam a tentar ser alguém melhor.