Exército de um Homem Só – Engenheiros do Hawaii

 

 

Fazia tempo que eu não saia com a câmera nas mãos. Fazia tempo que não tentava mostrar a mim mesmo o que vejo através das minhas velhas lentes sujas. Troquei os óculos e aproveitei a sexta-feira chuvosa. Se de manhã me rendi ao trabalho de professor. A tarde eu fui aluno, e aproveitei o frio, a chuva, uma cidade que deveria estar vazia e fui de encontro a alguns dos meus medos mais dolorosos.

Fazia tempo que eu não andava por Sampa. A cidade em que morei, cidade para onde pretendo voltar e cidade que me causa um tipo de medo estranho que as vezes chega a me paralisar. Nisso a chuva e o frio foram camaradas. A água na cabeça e o vento no rosto me fizeram procurar algo além do meu medo e da minha dor. Procurei encontrar o medo do outro. O desespero de quem vive invisível numa cidade onde tudo está exposto. Tudo está tão diante dos olhos que fica muito mais fácil não ver nada. Seguir adiante como se só a nossa própria existência importasse.

Eu ando pela rua e procuro nos rostos algum sinal. Um aprove ou desaprove em relação ao meu olhar. Por vezes até penso em erguer a câmera e apontar as lentes para alguém. Só que ai os olhos que encontram os meus nada falam. E eu me pergunto se tenho o direito de expor aquele ser. Se tenho direito de mostrar ao mundo alguém que quer se esconder. Será que uma foto não é explorar o outro? De que forma meu clique vai servir para fazer algo pelo fotografado?

Fico tanto tempo nesse tipo de luta interna que me recuso a clicar. Vejo ao meu lado gente que faz isso com naturalidade, beleza e maestria. Gente que sabe o modo certo e que acredita fazer a coisa certa ao apontar a sua lente para qualquer ponto, qualquer pessoa e em qualquer situação. Até pensou em fazer uma revolução através de uma imagem. Penso nos grandes fotógrafos que cobrem guerras, cobrem cidades, fazem da dor humana a sua arte. Eu queria ter a coragem que eles tem,mas não tenho.

Me sinto é acuado. Invadindo um espaço que não é meu. Talvez por isso andar pela cidade me machuque tanto hoje. Eu que fui office-boy quando criança, hoje tenho medo daquelas ruas que foram minhas durante muito tempo. O medo vem do fato de que eu já não consigo deixar de ver a cidade perder-se diante dos meus olhos. O medo vem da culpa. Vem da percepção que um mundo cai diante dos meus olhos e eu nada faço para evitar isso.

É gente que passa fome, gente que se droga, gente que se vende do modo mais baixo, podre e degradante possível. É gente que não vive, apenas sobrevive da caridade de quem passa e nem percebe isso. Ao lado do mendigo passa o engravatado, almofadinha que quase pisa no corpo do mendigo, para ele, invisível, apenas uma peça decorativa nessa estranha paisagem urbana.

Incrível como isso me incomoda. A cegueira branca do Ensaio Sobre a Cegueira pareceu bem mais próxima de mim do que nas páginas do romance do Saramago. Erguer a câmera e apontar para alguém e nada ver. Ver-me tão cego quanto a maioria que caminha diariamente pelas ruas. Tão cego quanto eu já fui no passado.

Voltei para casa pensando no que existe ao meu redor. Voltei para casa pensando no que tenho feito. Dirigi percebendo que tenho sim um papel social a ser desempenhado. Percebi que não posso deixar tudo para lá e fingir que nada acontece. Se me incomoda eu tenho que gritar, fazer como fizeram os que me acompanhavam, que viram a cidade por seus olhos e clicaram aquilo que até lhes incomodou. Dizer ao mundo.

Posso parar ou seguir adiante. A escolha é somente minha. A escolha é de cada um de nós. Parar e fingir que nada acontece ou seguir adiante tentando mudar o que parece errado. Seja com cliques, seja com frases, é importante mostrar as armas. Afinal, se eu me calo, meu silêncio será visto como aprovação a tudo aquilo que me cerca.

Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém – Engenheiros do Hawaii

 

Muita gente que visita o blog sabe que eu sou professor. Alguns amigos mais próximos sabem que eu sempre me questiono sobre o que deve ser ensinado para cada pessoa. Sempre me questiono sobre a importância real daquilo que ensino. Penso que tenho que formar seres pensantes e principalmente inseridos na sociedade. Penso também que infelizmente não posso sofrer pelo outro, por mais que goste dos meus alunos, sei que só estarei sendo realmente justo com eles se deixar que sofram, como vão sofrer no futuro. O período escolar acaba funcionando como preparação para a vida dura que cada um deles terá pela frente num futuro mais ou menos distante.

Hoje falo sobre isso devido a conversa sobre acessabilidade e coitadismo. Não acho que precise citar nomes, não vale a pena. A questão entretanto é profunda e merece discussão. Aos que já me viram pessoalmente, sabem que sou negro e contrário ao sistema de cotas raciais. Veja eu acho que vale a pena ressaltar o raciais. Se for pra ter cota que ela seja definida pela renda, não pela cor da pele. Não vejo nos dias de hoje um racismo tão forte a ponto de uma raça precisar de medidas afirmaticas, até já falei aqui antes disso, o preconceito aqui é maior contra o pobre do que contra o negro.

Acho que devemos sim oferecer chances iguais a todos, mas as chances não são a de chegar ao pote de ouro no final do arco-íris sem perceber o que faz cada um chegar lá. As chances devem ser as de fornecer as mesmas ferramentas para que cada um construa o seu caminho e possa mostrar que realmente é bom, tendo condições iguais de preparação. Colocar em disputa uma pessoa com tudo a sua disposição com alguém que mal tem acesso a alimentação é realmente algo complicado. O ideal é dar condições mínimas aos dois. Mas mais importante do que isso, eu não posso pensar por outra pessoa. Não posso decidir o que ela vai fazer nem mesmo o que é melhor para cada um. Só posso é dar condições similares.

O título do post vem de uma reportagem que me deixou estarrecido. O texto publicado pelo Correio do Brasil em 11/08 diz que pode ser obrigatório para os deficientes auditivos aprender LIBRAS nas escolas. Eu acho isso perigoso. Na verdade acho excludente e temerário para os próprios surdos. A meu ver esse tipo de obrigação mais limita do que liberta.

Não vou aqui fazer campanha contrária a LIBRAS, ela é importante e funcional e deve sim ser oferecida a qualquer pessoa que queira aprender, mas também conheço uma parcela grande de surdos que são oralizados, fazem leitura labial e portanto fazem uso do português como forma primordial de comunicação (para quem não sabe LIBRAS é uma língua própria, diferente da língua portuguesa, quem sabe libras não necessariamente sabe português). Para que obrigar alguém a ser alfabetizado numa língua restritiva? Eu falo restritiva pensando no que disse no começo do texto. Educar é preparar para o sofrimento posterior. A maioria dos empregos oferecidos depende da comunicação oral ou escrita em língua portuguesa, se a pessoa não se comunica em português fica alijada dessas vagas e dependente de subempregos conseguidos por cotas que pagam salários extremamente baixo e não exploram a capacidade real das pessoas.

Uma solução seria todo mundo ter que falar LIBRAS, algo impossível, visto que se alguém for investir numa segunda língua, vai fazer isso em algo que aumente sua vida profissional e infelizmente LIBRAS não se enquadra nesse caso. Outra seria uma reforma para que LIBRAS fosse uma forma diferente de se comunicar em português e não uma língua a parte, algo similar ao que ocorre com Braile.

Finalmente a cada vez mais nos aproximamos de um período onde pessoas com deficiência não são mais escondidas da população. Finalmente a cada dia percebemos avanços para que todos possam ter acesso semelhante ao que o mundo oferece. Estamos num período de melhoria do acesso, dando ferramentas para que as pessoas possam lutar de igual para igual. Mas ainda algumas coisas parecem jogar contra. Falo isso porque no caso, obrigar o surdo a ser alfabetizado em LIBRAS mais limita do que liberta. Ao invés de ampliar a capacidade de comunicação com o mundo, limita a um pequeno grupo.

O que pergunto ao final do texto é porque ao invés de se obrigar alguém a aprender LIBRAS não se oferece a todos os deficientes auditivos fonoaudiologia para que ele possa além de LIBRAS também ter acesso ao português e assim ter mais um canal de comunicação com o mundo, seja ele através da leitura, do mercado de trabalho, do convívio com um número maior de pessoas?  De novo ressalto, LIBRAS é importante e deve ser oferecida a quem quiser aprender, só não se pode impor o seu uso  a todos os surdos.

A Revolta dos Dândis – Engenheiros do Hawaii

Por mais que nos imaginemos diferentes, queremos sempre as mesmas coisas

Voltando ao livro do último post. Gosto de algumas sacadas dos personagens criados pelo Nick Hornby. Não que ele crie tramas complexas ou profundas. Quem quer profundidade não deve passar perto dos seus livros. Mas as histórias são bem escritas, os enredos ao menos para mim são bastante interessantes.

O que torna aos meus olhos esses enredos interessantes é justamente o perfil retratado. Homens entre os 30 e 40 anos com todas as frustrações previsíveis em pessoas comuns dentro de determinado perfil. Justamente o perfil em que eu me encaixo, gente que curtia música pop rock dos anos 80 e depois cresceu buscando coisas nessa linha. Até a literatura lida acaba sendo a mesma e citada, por isso previsível. Não continuarei falando disso agora, mas de um aspecto que surge exatamente nesse ponto. A dificuldade em se aceitar perfeitamente comum, o homem comum.

Até já falei desse perfil em outros posts, mas a leitura do livro me motivou a retomar o tema, agora com alguns argumentos novos na minha escrita. Como disse no post anterior, o livro realmente mexeu comigo e me fez pensar. Trouxe a tona uma série de questionamentos que eu já apresentava, só não tinha coragem suficiente pra assumir e falar de alguns deles provavelmente me fará bem.

Quero começar com uma afirmação do Rob Fleming no livro. Um dos momentos em que o personagem se apresenta mais pleno é quando ele afirma que uma de suas principais qualidades é ser mediano. Em tudo. Não é bonito ou feio, não é burro e nem chega a ser um gênio, segundo ele mesmo diz, o melhor dele é estar na média.

Na primeira vez que li isso no livro, confesso que encarei culto ao derrotismo, alguma coisa parecida com o olha eu não bom em nada, mas também tem muita gente muito pior do que eu em tudo o que eu faço. Só mais adiante é que fui ter outra leitura do texto. Isso aconteceu quando eu comparei a vida até certo ponto medíocre do personagem com a minha vida e em escala maior com outras vidas que eu observo diariamente.

Quando a gente conversa com qualquer pessoa percebe que cada um traz consigo uma série sobre expectativas sobre a vida. Uma carga imensa de sonhos e prováveis ações que possam levar a realização desses sonhos. Entretanto, por mais que se diga que os sonhos variam, no fundo a variação acontece sempre em cima de temas universais, a saber, a vida pessoal e a vida profissional. Não foge muito disso.

O que acaba sendo engraçado é perceber que a maioria da

s pessoas acaba sim vivendo numa zona mediana, se dando mais ou menos bem nos dois lados e ai leva-se em conta que o grau de satisfação só pode ser medido pela própria pessoa, ou pelo menos analisando pessoas dentro da mesma realidade. E mais engraçado que isso é perceber que no fundo o que todos queremos é ser um pouco Rob Fleming, medianos.

Como assim medianos? E o destaque? E a busca pelo máximo isso é o que mais se vê por ai, muitos devem pensar. Mais ai eu discordo. Todo mundo quer uma área de destaque, apenas uma e no resto quer apenas a média do seu grupo. Fleming era o exagero nesse ponto, mas não posso deixar de dizer que no fundo sua maneira de pensar faz muito sentido.

O que as pessoas querem é um emprego legal, com certo reconhecimento do que se faz, uma família organizada e amorosa e uma das frases que eu mais ouço em todos os diálogos onde esse tipo de assunto aparece, as pessoas só querem mesmo o que todo mundo quer.

Isso me lembra outro livro do mesmo autor (e que eu já citei aqui), chamado Uma Longa Queda, onde um personagem em certa passagem da história percebe que é um músico, não o melhor músico do mundo, mas é um músico no que isso traz de positivo e negativo. É de certa forma a postura que é pregada pelo Fleming, você tem sua vida, ela é sua no que tem de bom e no que tem de ruim, suas qualidades são só suas, assim como seus defeitos.

Saber o seu tamanho dentro desse sistema é que é o grande prêmio nesse jogo. Saber sonhar dentro do que você pode, saber o tamanho do passo e onde pisar, saber exatamente o que você é para que seus desejos possam ser reais e as frustrações mínimas. Isso requer uma coragem que eu pelo menos não sei se tenho. Falo de coragem porque é necessário enfrentar a dor de se perceber que você ainda não atingiu o nível necessário para o passo seguinte e ai, antes de dar esse passo é preciso se preparar e ter paciência, algo que nem sempre é fácil.

Isso é mais flagrante em pessoas como eu. Eu me considero muito mais bem preparado na vida profissional do que na pessoal, como disse no post anterior, me sinto um bebê no que tange a minha vida pessoal. Muitas das coisas que eu quero são óbvias pra muita gente, são até simples, mas ainda estão além do que eu me percebo capaz de conseguir. Aliás, essa imaturidade acaba atrapalhando também a vida profissional, mas isso é outro papo. No fundo, a nossa vida não pode ser vista como extremos (como os que aparecem na música que dá título ao post), se separarmos demais as coisas acabamos nos perdendo e não sabendo exatamente quem somo e o que queremos.

O que importa dizer é que é frustrante ver que num aspecto você vai muito bem e no outro vai muito mal. Isso a gente acaba percebendo em diversas pessoas, que ou abrem mão da carreira pela vida pessoal ou o oposto e em determinado período da vida sentem falta de algo. Nesse ponto o ideal é ser meio Rob Fleming, não ser exatamente o melhor, mas também estar longe de ser o pior, claro dentro do seu grau de análise.

Diferente do que o personagem prega, eu ainda acredito que é perfeitamente possível ter um ponto de destaque que seja sem alterar o equilíbrio do resto, desde que esse ponto de destaque não sirva como fuga de tudo o que vai mal.

Muros e Grades – Engenheiros do Hawaii

nós criamos nossa própria prisão e jogamos a chave fora

No meu último post eu comecei a fazer uma leitura pessoal do filme Rain Man. Como escrevi, este é provavelmente o filme que mais me toca e talvez seja o filme que mais tem coisas que me tocam. No último post, eu tratei do fato de sentir-me usado em alguns momentos. Nada contra a necessidade do outro ser chamada a conversa principal. O problema é quando você percebe que a importância de sua existência reside no fato de você ser necessário em algum momento para o outro. Quando não está sendo necessário, muitas vezes sua presença sequer é tolerada. Eu de certa forma estou cortando esse tipo de contato da minha vida.

O de certa forma acontece justamente pelo tema do post de hoje. Algo que eu a uma semana tinha me proposto a escrever, mudei de ideia no meio do caminho e fiquei assim, sem saber se escrevia ou não por dias a fio. Talvez por tratar de assuntos mais pessoais do que eu gostaria, talvez por expor de direta demais alguns medos e sentimentos que eu tenho. Enfim, depois desse tempo todo remoendo, acabei decidindo ao menos dar uma pincelada no tema, da forma como eu conseguir tratar. Provavelmente isso sirva como forma de desabafo ou até como uma justificativa real para aqueles que eu simplesmente deixei de manter contato pelos motivos descritos no post anterior.

A música que eu escolhi é uma música dos Engenheiros do Hawaii, chamada Muros e Grades (clique para ouvir). A letra fala que o medo que sentimos acaba levando toda a nossa essência, nossos sonhos e desejos se perdem nessa disputa entre o medo e a vontade. Eu entendo bem isso, afinal, certamente nessa disputa entre medos e desejos, o medo está ganhando de goleada e a tempos. Meus medos mais banais definem de forma clara a forma como eu atuo em cada momento da minha vida.

Voltando ao filme, o personagem de Dustin Hoffman, acometido por comportamento autista, acaba agindo de forma parecida. Vive encarcerado em seu mundo. Tudo o que escapa de sua compreensão é visto como estímulo aversivo grave. É sentido como algo doloroso, um ataque a sua segurança. De certa forma é assim que eu vivo. Aliás, de certa forma não. De todas as formas possíveis e imagináveis.

Nesses tempos sombrios pra mim, eu tenho pensado muito em minhas atitudes. Percebo que me enclausurei numa prisão pessoal. Por opção e por incapacidade minha acabei sim me isolando do mundo. Até ai, nada demais nisso. Afinal, é preciso ser honesto, que mal existe nisso? Se foi uma opção pessoal, qual o drama da história? O drama reside na percepção tardia disso.

Sabe quando você fica grande parte de sua vida procurando algo e de repente percebe que não existe uma possibilidade real de atingir isso? É dessa forma que eu estou me sentindo agora. Pelo menos o personagem de Dustin Hoffman nunca se preocupou com o que faltava, apenas se prendia a aquilo que estava ao seu alcance em todos os momentos e refutava cada contato diferente.

Como qualquer pessoa normal, tem coisas que eu consigo fazer e tem coisas que eu não consigo. O que me incomoda é não conseguir fazer coisas extremamente simples socialmente falando. Ter um baita medo absurdo das pessoas, ter medo de situações sociais e me ver livre apenas quando estou produzindo algo que eu consiga entender (ou seja trabalho). Ir a uma festa chega a ser doloroso, ver um filme sem ter que relacioná-lo com algo que eu vá produzir depois é impossível, tudo tem que estar ligado a tudo e dessa forma eu acabo me vendo cercado por muros e grades dentro de um recinto que eu mesmo criei e me aceito. A vida só existe pra mim se fizer sentido. Isso não chega a ser ruim, também não é bom, isso é óbvio.

Conviver com essa limitação social é o problema, decidir se vale a pena aceitar viver dessa forma limitada é que torna a questão interessante. Eu juro que não sei até que ponto esse tipo de coisa vale a pena. Ter desejos e vontades que não compreendo e justamente por isso não consigo sanar é onde a coisa aperta. Entender o motivo que me leva a enjoar de determinadas situações comuns e me entregar facilmente a coisas que com certeza causam desgosto a maioria das pessoas parece ter explicação.

Explicação também surge para outro fato. Agora faz sentido a dificuldade que eu tenho de agir quando saio de minha zona de conforto profissional. Trabalhar sempre foi a parte fácil. Viver a impossível. Toda vez que eu tentei viver algo, me atrasei em todo o resto, pela simples incapacidade de entender o que exatamente é viver e sentir. Eu não sei ler sentimentos.

Por enquanto sigo no dilema, sem no entanto me irritar mais com isso. Sigo fazendo aquilo que eu sei fazer e provavelmente agora devo fugir mais ainda daquilo que não entendo. Como já disse diversas vezes, nada é para todos e entender e aceitar isso torna a nossa existência bem mais calma. Viver, trabalhar, sentir, falar, gritar, andar, existir, amar, odiar qualquer ação humana exige uma certa dose de habilidade individual, se você não possui essa habilidade, deve recolher-se a sua insignificância e não se martirizar por isso. Devemos nesse ponto ser como foi o personagem de Dustin Hoffman

Alívio Imediato – Engenheiros do Hawaii

Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra
Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra

As atitudes imbecis que tomamos salvos pela desculpa do preconceito nunca passam impunes. Sempre machucamos alguém ou prejudicamos grupos nessas ações impensadas. Em alguns casos o preconceito é tão forte e tão sem sentido que carregam não apenas uma pessoa, mas diversas pessoas em uma mesma direção sem sentido. Ondas de ódio que crescem e crescem a cada momento, e de repente sem qualquer motivo aparente, pessoas brigam. Surgem guerras e sangue jorra. Seja entre duas nações, seja entre duas cidades, seja entre torcedores de times diferentes, seja de adoradores de deuses diferentes. Infelizmente essas guerras nunca fazem sentido.

É claro que existem motivos políticos, disputas por terras, disputas por dinheiro, muita coisa envolvida em conflitos diversos que observamos por ai. Porém, mesmo estes motivos políticos são sempre questionáveis. É a idéia da dominação plena sempre. Talvez por isso eu tenha escolhido a música que separei. Gosto bastante de Alívio Imediato (clique aqui para ver um clipe da música), uma letra meio nonsense como a grande maioria das canções dos Engenheiros do Hawaii que fala de conflitos diversos e da busca de alívio através da chuva ou da noite. Busca-se a redenção através de algum fenômeno natural, porque provavelmente se dependermos do homem, esse alívio nunca chegará.

Não que eu seja contra a luta pelo que se acredita. Penso que em alguns casos, para defesa, é necessário sim erguer as armas e garantir a própria sobrevivência. Não se pode aceitar tudo o que surge sem se defender, sem tentar garantir a sobrevivência de seu povo e de suas idéias. Porém, sou contra o uso da força para impor algo a outrem, sempre se deve existir negociação, conversa, deve-se evitar a violência.

O que acaba incomodando mais é que quase sempre são utilizados artifícios absurdos para validar o início desses conflitos. Ai preconceitos são inventados, reforçados e ampliados. A população, que se transforma em massa de manobra, é engolida por esses preconceitos. Esse trabalho é feito de tal forma e com tanta eficiência que logo a mídia passa a vender aquilo como correto e todo mundo passa a aceitar o conflito como legítimo, inclusive apoiando as mortes geradas nos combates.

Exemplos para esse tipo de ação existem aos montes. O problema é que o que resta é sempre a versão que o vencedor tem dos fatos. Racionalizar sobre isso torna-se complexo, mas esse exercício de análise é sempre enriquecedor. Será que sempre os vencidos são os vilões? Será que existem vilões? Qual a fonte de tanta ira? Essas são algumas das perguntas que eu pretendo tentar discutir a partir de hoje, provavelmente nessa semana e na próxima. Quer citar algum tipo de conflito para ser comentado? Aguardo seu comentário.