Fear of the Dark – Iron Maiden

 

 

Hoje eu tenho sono, muito sono. A chuva cai lá fora, caiu o fim de semana todo. Eu até sai de casa, fui obrigado. Tinha coisas a fazer. Mas a chuva atrapalhou vários dos meus planos. Coisas que eu deveria demorar minutos para fazer, demoraram horas. A cidade parou, como sempre para quando a chuva vem forte demais.

Os últimos dias estiveram quentes, muito quentes e secos e a chuva era esperada. Sempre chove muito nessa época do ano. Sempre muita coisa acontece. Sempre muita coisa fica parada também, é engraçado como enquanto algumas coisas andam e outras travam. Assim como meu sono, ele está presente e forte, mas por mais que eu tente, eu simplesmente não consigo mais dormir.

Nesses momentos em que deito na cama, a luz apagada e os olhos fechados, parece que a vida toda passa diante dos meus olhos. Pesadelos tiram o meu sono como se servissem para me lembrar de toda a minha fragilidade como ser humano. E assim em muitas noite eu choro até cansar e só então adormeço. Eu choro sem nem saber o motivo, mas me sinto leve quando as lágrimas cessam. Em geral é nesse momento que relaxo. Poucas horas antes do despertador tocar. E assim vou cheio de olheiras rumo a um novo dia, esperando que eu consiga quem sabe entender o que me faz chorar toda noite.

O mais ridículo disso tudo é que eu nunca sei o que me leva aos prantos. Eu procuro as respostas faz tempo. Tento de todas as formas entender e nunca consegui chegar a algum lugar. Já pensei ser fruto da solidão. Já pensei ser fruto de algum medo bobo ou até mesmo a sensação acumulada de todas as derrotas diárias. Só que nem sempre eu estive sozinho, nem sempre eu senti medo e nem sempre eu tenho derrotas.

Muitas sessões foram gastas tentando entender o que se passa. O que tanto me incomoda. Enquanto eu olho pela janela e vejo a chuva cair lá fora. Enquanto eu tento adormecer e não consigo. Eu sinto um desespero crescente que me leva a um choro doloroso e triste.

Hoje eu resolvi sair na chuva, sentei lá fora e deixei cada gota me tocar. Na esperança de que elas lavem minha alma e levem consigo toda a dor que eu sinto. O medo que parece vir do escuro na verdade vem de lugar algum. Ou melhor vem de algum ponto obscuro da minha mente. Vem de algo que um dia quem sabe eu perceba o que é. Quando eu ficar maduro o suficiente para entender essa dor.

Porque as dores só são realmente dores quando a gente sente sem entender. A partir do momento em que elas passam a fazer sentido, se tornam coisas que a gente pode vencer. Talvez por isso se cante tanto o medo. Talvez por isso se crie tanto a partir de alegorias mórbidas, elas atraem, elas tentam mostrar para todos o que é que pode amedrontar, funcionando assim como uma forma de aprendizado, uma força nova que sirva para transformar os medos em piada.

Pensei até em colocar aqui medo da chuva, mas a chuva mesmo sempre me atraiu, nunca me assustou. Sempre gostei de correr por entre os pingos e sentir a pele molhada até que a roupa fria encharca e traz mais frio ainda. Isso nunca me incomodou. Sempre vi na chuva uma forma de limpar a mente. Gosto de ver a chuva cair como ela cai agora. Gosto de ver os desenhos que as gotas formam nas janelas e tento imaginar formas e respostas para meus problemas em cada tempestade.

Por isso eu coloquei o medo do escuro. Não que ele realmente me amedronte, mas sempre vi no escuro o prazer do desconhecido. O prazer da dúvida, o sentimento de não saber o que existe adiante, aliás, o que existe além dos olhos, já que eles nada podem ver no escuro total. É o momento de confiar nos outros sentidos, aqueles que a gente quase sempre esquece e muitas vezes nem sabe como usar.

Aliás talvez seja isso que me faça chorar tanto. Não perceber o que acontece nesse mundo onde eu existo. Nem sei porque eu existo aqui. Não sei porque nós existimos e tento sempre entender o que se passa ao meu redor. Mas sem ler as pessoas que me cercam fica muito difícil. Talvez eu sinta medo daquilo que deveria saber e não sei. Aliás tanta coisa assim existe. Tanta informação passa diante dos meus olhos sem que eu veja, próximas aos meus ouvidos sem que eu ouça, arranhando a minha pele sem que eu sinta. Mesmo que eu veja todo mundo ao meu redor reagindo a algo que eu não consigo perceber.

Não sei se você se sente assim as vezes. Mas eu me sinto assim todas as noites. Quando eu percebo que perdi muitas coisas no escuro em que vivo. Como se existisse uma venda em meus olhos me impedindo de ver aquilo que está diante de mim. Você já se sentiu assim alguma vez?