Only When I Sleep – The Corrs

Assim que eu cheguei em casa hoje eu adormeci. E no sono tentei imaginar todas as fotos que já fiz. Imaginei também as fotos que ainda quero fazer e até mesmo algumas que eu quero colocar em minha parede. Destas que eu quero expor nas paredes da minha casa. Certamente que algumas não são minhas.

São de gente que espero ver ao meu lado, gente que nem sei se já conheço, gente que talvez nem exista. Por isso é tão gostoso esse pensar adormecido. Nele conseguimos deixar de lado tudo e se apegar a apenas aquilo que queremos. É somente nessas horas em que a nossa visão parcial consegue ser mais grande angular e ver além do que observa diante dos nossos olhos. Ésó nesses momentos em que as fotos trazem em si um toque surreal, digno das mais malucas edições e capaz de reproduzir com mais fidelidade as nossas pequenas buscas por prazer.

Nessas horas a gente consegue remover todos os filtros do pudor. Remove todos os filtros preconceituosos e deixa entrar toda a luz no filme a ser marcado pela foto. A cena eternamente registrada, assim acaba livre. Sendo livre ela se permite todo tipo de edição antes de chegar aos olhos de quem realmente vai apreciar tal clique.

Só assim se consegue passar tudo o que se deseja numa única cena. Só assim a gente entende realmente o que se quer. Sem amarras, sem retoques emocionais. Só mesmo edições que sirvam para realçar aquilo que realmente desejamos.

Nessas horas eu percebo que deveria adormecer mais, ou quem sabe “dormir mais acordado”. Percebo que viver um pouco mais sem essas amarras que sei terem sido criadas por mim mesmo me permitiriam criar fotos ainda mais belas e certamente ser muito mais feliz. Se me perguntar porque não durmo, provavelmente a  resposta pronta seja não sei ou me falta tempo. Mas se me apertar um pouco mais e exigir a resposta mais honesta, a mais real. Só nesse ponto é que você vai perceber que no fundo o que me falta não é tempo. O que me falta é coragem!

Chega então o momento de lembrar-se do leão do Mágico de Oz. Aquele mesmo que partiu em busca de coragem e descobriu depois de muito tempo que foi atrás de algo que já possuía. Fico pensando se eu não sou assim como o leão. Se a coragem que me falta já não existe no meu peito. Que as barreiras que eu mesmo crio possam ser retiradas por mim mesmo. Que de olhos abertos talvez eu seja capaz de fazer fotos tão belas quanto as que faço de olhos fechados.

Se no meu texto anterior eu disse que gostaria de juntar aos meus retratos, outras imagens, produzidas por outras pessoas, mas imagens que me toquem a ponto de eu achá-las perfeitas. Eu hoje admito que também tenho que oferecer um pouco mais. Tenho que além de oferecer os meus retratos mais comuns, os meus melhores retratos. Devo oferecer as melhores imagens que eu possa produzir até para que outras pessoas possam se encantar pelo que eu sou, acreditar naquilo que eu quero.

Não existe nesse caso uma perfeição estética. Existe sim uma perfeita sincronia entre forma e pensamento. Entre desejo e vontade. Entre autoconfiança e vontade. Aliás, muita vontade. Vontade suficiente para transformar aquela cena sonhada e surreal em algo palpável, natural e próximo. Algo que possa encantar não só a mim, mas também o outro.

Esse encantar é necessário. É para isso que tanto se fazem as fotos. Cada retrato nada mais é do que uma forma velada de dizer quero partilhar algo contigo. É oferecer ao outro o que se tem de bom, o nosso melhor e esperar em troca também o melhor lado de quem se aventura a dividir-se conosco. Uma divisão livre, sem barreiras, sem preconceitos e justamente por isso verdadeira. Como verdadeiro é o meu desejo de poder sonhar acordado e não mais sonhar sozinho.

Ideal Portrait – Hino=Kikuchi Quintet

 

 

Começo pedindo desculpas pela ausência de texto aqui na quarta-feira. Problemas na internet, muito sono e uma vida corrida me impossibilitaram de escrever. Até pensei em colocar um texto aqui na quinta, mas achei melhor deixar para o domingo.

Eu escrevo os textos minutos antes de postá-los, por isso o dia da postagem influencia muito o que vem para o blog. Posso ficar dias matutando um assunto e de repente surgir algo que me faça mudar de ideia e criar um texto completamente diferente do que seria publicado inicialmente. Hoje mesmo foi um desses dias. Tinha planos pra falar de tanta coisa, mas depois de um sábado corrido e uma manhã de domingo fria e preguiçosa ouvindo música tudo mudou.

Fiquei lembrando de cenas isoladas e da saudade que tenho de sair por ai clicando. Fiquei lembrando de pequenos fatos e da forma como eu interpretei cada um deles. Dando uma roupagem totalmente particular a coisas extremamente simples que vivenciei e que não fazem sentido pra mais ninguém.

Essa forma pessoal de ver as coisas é extremada quando eu tenho uma câmera em minhas mãos. Quando consigo de um todo particular separar uma pequena cena mais particular ainda. Uma visão totalmente pessoal e parcial de algo. São momentos em que não preciso me preocupar em ser justo, não me preocupo em ser verdadeiro. Me preocupo apenas em ser honesto com os meus sentimentos. Quero mostrar para os demais aquilo que eu consigo ver e sentir. Quero eternizar a minha visão parcial do todo. Se existem outras coisas ao redor e eu não as capto, pouco importa, só importa naquele instante aquilo que me chama a atenção.

Frase egoísta? Muito menos do que aparenta. No fundo eu queria que mais pessoas apresentassem o seu retrato ideal do que observam. Mais pessoas deveriam seguir além do lugar comum e deixar claro o que sentem, com o que sonham, o que lhes faz falta. Aceitar tudo o que nos oferecem como sendo o máximo e o único necessário.

É claro que é preciso ouvir o outro. É claro que é preciso saber que nossos olhos não nos trazem a verdade, apenas talvez a nossa verdade. Mas é preciso respeitar essa verdade pessoal, esse desejo. É preciso aceitar o que se sente e a partir daí sair do próprio mundo com seus próprios sonhos. Adentrar no mundo real e coletivo com objetivos para que se saiba o que fazer e pelo que lutar.

Acho que é por isso que eu só consigo fazer fotos extremamente pessoais. Nunca curti a ideia de fotografar festas e eventos. Mesmo publicidade. Até já fiz um ou outro clique nessa linha, mas nunca curti. Pode até exigir mais técnica, mas acaba exigindo menos linguagem. Eu não posso mostrar apenas aquilo que vejo (e no caso é o ver com os olhos e com os sentimentos) tenho que mostrar o que outra pessoa vê. Algo extremamente complicado.

Demorei tempo demais pra aprender a fazer meus retratos. Por isso entendo tanta gente que não consegue ainda dizer o que deseja de forma clara. Eu mesmo as vezes ainda travo. Travo porque é difícil muitas vezes encontrar o equilíbrio entre o que eu quero e o que os demais querem. É difícil perceber o momento em que a foto na parede será a que eu bati ou a que outra pessoa bateu. Mais difícil ainda tem sido encontrar quem tenha tirado fotos parecidas. Gente que tenha sonhos parecidos e que de uma forma ou de outra queira caminhar junto.

As vezes até encontramos pessoas que possuem retratos parecidos com os nossos. Gente que aponta suas lentes para os mesmos pontos que a gente. As vezes mais pra um lado, outras vezes com mais ou menos luz, mas gente que tem interesses similares. É essa gente que eu busco. É a gente que eu quero para meu convívio.

Busco para meus amigos não quem tire sempre fotos iguais as minhas, mas sim gente que faça seus retratos e divida comigo algumas cenas. Gente com quem eu consiga fazer uma exposição com fotos minhas, fotos suas e fotos feitas em conjunto. Gente que eu queira estar ao lado por ser gente que apesar das diferentes consegue sonhar vez ou outra os mesmos sonhos que eu. Apreciando os retratos que faço e produzindo retratos que eu também admiro de tão perfeitos que parecem aos meus olhos.

A Forest – The Cure

Os peixes se enxergam livres porque não percebem os limites do aquário

E viva as redes sociais! Li hoje uma frase no perfil do facebook de uma amiga que inspira o post de hoje. Ela, como eu, é amante de fotografia. Ela, como eu, gosta de ver a fotografia como algo além do simples clicar. Enxergamos fotografia como uma forma de expressão humana. Diferentemente de mim, ela tem muito mais bagagem e conhecimento pra falar do tema. Mas vamos trazer a frase pra cá.

“As fotos não mentem, mas mentirosos podem fotografar”. Lewis Hine

A frase veio acompanhada de um comentário onde se fala que o ângulo em que uma foto foi batida dá a impressão de que o presidente americano, em sua visita ao Brasil ficou de olho no traseiro de uma estudante.

Ai vem a questão, ele realmente olhou, ou o fotógrafo imaginou que ele olhou? Qual a verdade no fato? Ou mais importante que isso, em qual das verdades vale a pena acreditar? O que vale a pena ser levado a sério no caso? Faço essas perguntas porque vejo o caso visto de outra forma. Cada pessoa tem a sua verdade e acredita nela. A forma como essa verdade é passada adiante é que vai tornar isso socialmente verdadeiro ou não.

A tal foto, se distribuída e publicada por vários veículos de comunicação e discutida como verdade se tornará real para a maioria. E todos passarão a ver aquilo como real, independente do grau de verdade da cena. Até porque fotografias nunca são reais, elas são apenas aquilo que o fotógrafo enxerga, isso dependendo do grau de miopia social, moral, ética ou comportamental que a pessoa que opera a câmera tenha. Assim como os artigos publicados, os jornais veiculados.

Todo fato depende dessa linha de verdade relativa. Dependendo de onde você olhe pode ter uma impressão diferente do assunto. E é essa impressão que você sempre vai divulgar. De acordo com seu poder de persuasão, isso pode ou não ser considerado verdade por todos. Exemplo mais clássico disso é a comemoração do Natal em dezembro. Qualquer pesquisa mínima mostra que o Natal com certeza não ocorre nessa data e mesmo assim grande parte da população mundial faz festa no dia. Vale o mesmo raciocíonio para o início do ano. Alguém no passado escolheu um dia sem qualquer marcação lógica e todo mundo aceitou.

Hoje vemos pessoas reclamando do poder da mídia, fazendo campanhas contra determinadas emissoras, dizendo que elas são possuidoras do poder e tudo mais. Acontece que na verdade o que a maioria dessas pessoas quer é apenas mudar quem influencia mais o todo. Provavemente trocando de lugar com quem tem mais força de persuasão.

Outro ponto dessa linha de pensamento é a nossa auto ilusão. A canção do The Cure, A Forest, conta a história de alguém que acredita ver algo que na verdade é irreal. Quantas vezes isso não ocorre conosco? Acreditamos piamente em algo que não existe. Em algo que só nós vemos porque foi totalmente criado em nossa mente.

Quando a ilusão é puramente pessoal, o único prejudicado é quem tem a ilusão. Mas e quando a ilusão é propagada aos quatro ventos e vendida como verdade? E quando todo um mundo vive num universo falso? Nem falo do exagero de um mundo Matrix, mas sim de coisas simples, como acreditar que manga com leite faz mal. Deste ponto para acreditar que um político pode ser visto como salvador do povo, temos um passo curto demais.

Eu trabalho como professor e me preocupo muito com a forma como meus alunos enxergam as verdades que tento passar a eles. Primeiro porque essas verdades são minhas, não obrigatoriamente deles e segundo porque eles tem que ter poder de decisão e compreensão sobre aquilo que vão considerar como verdade e não aceitar a primeira visão que recebem de qualquer tema sem uma forte reflexão interna.

Porque aceitar que existam diferentes verdades acaba sendo inerente da nossa espécie, mas não questionar isso a ponto de aceitar que outros definam quais serão as verdades que devemos aceitar sem pensar muito no assunto é fazer-se de prisioneiro do pensamento alheio, é abrir mão daquilo que provavelmente nos torne realmente humanos.

O que você pensa sobre isso?

Let it Be – Across the Universe

Quem não se encanta com um belo sorriso como esse?

Essa semana foi corrida a maluca, mas as ferias chegaram, finalmente chegaram, eu preciso e muito delas pra tentar colocar a cabeça no lugar e mesmo tentar produzir algo diferente (tudo bem que mais de uma semana já me cansa, mas isso é pro próximo post). Eu até poderia continuar falando do Saramago, mas as férias me fazem falar de outra coisa. Não só as férias, mas também algumas conversas que tive nessa reta final.

Tenho conversado com bastante gente nesses dias e invariavelmente eu vejo várias delas tristes, cansadas, desanimadas. Excesso, esse seria o primeiro movimento a se pensar, certo? Foi a minha primeira ideia também, e achei que isso resumia tudo, mas na verdade, a coisa só toma esse caminho até a página 2. A coisa é bem mais profunda e dolorosa.

Uma pessoa não cansa de me dizer que somos o reflexo daquilo que o outro enxerga. Já tivemos discussões a respeito disso, na maioria das vezes eu discordo. Confesso, entretanto que nesse caso sou obrigado a dar mão a palmatória e admitir que realmente estava enganado. É justamente isso que vejo nessas pessoas o tempo todo. E só cheguei a essa conclusão quando percebi que isso acontecia claramente comigo, a partir deste ponto, extrapolar foi algo bastante simples.

Eu falei com gente que se dizia cansada e desmotivada por não saber se seu trabalho realmente está bem feito. Por não ter qualquer sinal do mundo que indique que a coisa está andando na direção certa. Eu vi muita gente perdendo o humor por ter a percepção (talvez falsa) de que aquilo que se faz com mais empenho e importância acaba tendo menos importância do que papéis que na verdade todos sabem que não levam a lugar nenhum, pelo menos na parte do processo em que se atua. Enquanto tudo o que se desdobra pra se fazer bem feito porque é onde realmente a coisa acontece, nem é levado em consideração.

Sem pequenas respostas positivas do que nos cerca, a nossa confiança vai sendo pouco a pouco destruída, perguntamos a nós mesmos para que seguir adiante, ou mesmo se temos capacidade para tanto. Os questionamentos muitas vezes acabam sendo mais dolorosos do que a realidade e isso traz uma forte depressão e medo. Temos medo de qualquer pequeno passo, qualquer ação passa a parecer irrelevante demais ou o que é pior, passa a ser vista como algo além das nossas necessidades. Eu tenho pontos em minha vida em que me sinto exatamente assim. Algumas coisas parecem não fazerem parte daquilo que eu posso alcançar.

Nessa linha e até pensando na música que escolhi e principalmente na foto que ilustra este post. Semanas atrás fiz um trabalho que de certa me reconfortou. Eu sou professor, apesar de um imenso medo de gente, eu trabalho com pessoas e por menos que se possa parecer. Eu realmente me importo com algumas pessoas que convivem comigo. Ver algumas delas sucumbindo diante de um monte de situações diversas, ver estas pessoas sentindo dificuldade pra realizar coisas que sabidamente elas realizariam em minutos, tanto por falta de confiança, quanto pelo excesso, me incomodou.

Surgiu, meio por acaso, a chance de fazer um “pequeno agrado” a algumas pessoas. Fiz fotos com um objetivo muito claro pra mim (que era diferente da de quem me propôs a atividade). Eu só queria mostrar numa fotografia que as pessoas fotografadas eram muito mais belas, inteligentes e especiais do que imaginavam naquele momento de desgaste físico e emocional causado pelo sistema maluco em que estavam inseridas.

Fiz assim algumas fotos das pessoas e um deles é o que ilustra o post. Foi divertida a percepção do trabalho. No início a grande maioria das pessoas estava com medo da câmera, uma insegurança forte diante do que seria feito. Após verem as imagens, gostaram do que viram. Isso me alegrou, até porque era o que eu queria. Fazer algo que mesmo que momentaneamente alegrasse as pessoas que eu cliquei.

A escolha da música também partiu disso. Eu estava na dúvida, confesso. Mas dois dias atrás tive acesso ao pendrive de uma das pessoas que cliquei e vi ali as músicas do filme Across the Universe. Eu adorei o filme (tenho em casa) e gosto pra caramba dos Beatles. Logo buscar uma música no filme foi até uma atividade divertida. Chegar a “Let it be” foi assim parte do processo e o vídeo é de uma cena do filme.

A escolha de “Let it be”, tem a ver com a forma como muitas vezes nos apresentamos. Necessitados de uma palavra sábia num momento de escuridão. Um afago vindo de alguma “mother Mary”,  que nesse caso específico eu tentei sei, não sei se consegui, mas ao menos alguns sorrisos mesmo que contidos eu consegui, como esse belo sorriso ai da foto.

É normal perceber que cada pessoa tem seu calcanhar de Aquiles. Um ponto onde se mostra mais frágil e que precisa sim de mais estímulo para acreditar que pode. Um ponto onde sua auto confiança parece menor, na maioria dos casos por besteira, mas essa besteira nos impede de agir. É como o atleta que rende mais se o técnico diz que ele pode fazer, o aluno que precisa da confirmação do professor a cada questão respondida ou o namorado que precisa a todo momento de alguma confirmação dos sentimentos da pessoa amada.

Tudo isso, é claro, fez-me pensar também na minha situação e assumir que ainda não sei se o que acontece comigo é falta de capacidade ou falta de retorno do meu entorno. Assunto pra muitas sessões de terapia e de certa forma um pequeno alento, vai que sou menos incapaz do que eu me imagino?

OBSERVAÇÃO:  Eu começo agora a também escrever em um outro espaço, um blog coletivo iniciado pela minha grande amiga Lak. Lá eu devo colocar um tipo diferente de textos, provavelmente mais poesia, já que estou disposto a publicar um novo livro de fotos e poesias ainda neste ano.

O link do blog está aqui (www.devaneioslucidos.wordpress.com) e também nos sites que indico