Blood Like a Lemonade – Morcheeba

 

 

Semana passada, depois de um bom tempo consegui ir ao cinema. Eu que gosto da tela  grande, devido a correria, a falta de tempo e principalmente de companhia me vi afastado de um dos meus passatempos prediletos. Por sorte, consegui juntar num dos parcos espaços de tempo livre um filme razoável, uma companhia extremamente agradável e gentil e a disposição para sair de casa rumo a uma sala de cinema em pleno feriado prolongado.

E assim me vi assistindo Abraham Lincoln. Uma fantasia sobre a Guerra da Secessão, onde vampiros tornam-se os grandes vilões da história. Um filme que inicialmente não me dava grandes alentos além de uma tarde agradável de cinema em boa companhia. Só que, grata surpresa, me divertiu mais do que o esperado e levantou algumas questões bem interessantes. Pena não ter tido tempo de discutir essas questões logo após o filme.

Pouco mais de uma semana depois, trago para cá os pontos em que o filme me inquietou. De certa forma busco assim ampliar o número de pessoas com quem falo sobre o tema (esse é o lado mais divertido de ter um blog, posso saber o que quem me lê pensa, basta vocês mandarem os seus comentários).

Logo de cara, a ideia do maior presidente norte americano ser visto como um caçador de vampiros parece totalmente maluca. Transpor para a fantasia um personagem real tão forte no imaginário do seu povo me pareceu um risco demasiado por parte dos produtores. Eu não tive acesso ao livro que deu origem ao filme, mas confesso que fiquei com vontade de ler. Não imaginei que transformar o maior  evento da história de um país numa fantasia de terror pudesse dar certo ou gerar algum tipo de reflexão, me enganei totalmente nisso.

Após ver o filme, li alguns críticos fazendo uma relação similar a minha entre os vampiros e alguns fatos históricos. Ao considerar os sulistas como em sua maioria escravocratas, transformá-los em vampiros e dizer que eles consumiam o sangue de seus escravos não chega a ser tanta loucura. Assim como não pode ser visto como loucura o fato de termos também vampiros infiltrados no norte e mesmo vampiros que detestam os próprios vampiros. Meandros políticos comuns até hoje. Não existe um grupo totalmente homogêneo em lugar algum e mesmo no norte, a igualdade racial era uma realidade bem distante. Basta ver que em 1968, negros norte americanos ainda precisavam fazer protestos por direitos iguais em eventos de grande porte como os Jogos Olímpicos. Aliás, dizer que a igualdade racial é algo real a 100% da população norte americana seria uma grande mentira (no Brasil nem se fala, falta muito ainda).

Nesse ponto o filme funciona. Transforma o já mítico presidente em um ser ainda maior. Alguém que luta não só pela unidade americana, mas pela alma de seu povo. Alguém que acima de tudo precisa enfrentar um monstro aparentemente muito mais poderoso do que ele e que faz isso de peito aberto, utilizando tanto o machado que lhe alimentou por muito tempo quanto o cérebro. Diferente de seu mestre na arte de caçar vampiros, Abraham encontra uma forma de resolver de uma vez o problema, mesmo que isso doa nele e de fato dói muito.

Isso é algo que me faz sentir inveja da cultura norte americana. A forma como eles tratam seus ídolos. Aliás, eles realmente possuem ídolos históricos. A gente não. Parece que o nosso povo procura o erro. Parece que o nosso povo inveja a vitória alheia e até pior do que isso, idolatra quase sempre aquele que não pode ser visto como o realmente mais capaz. A gente foge da competição, quem se destaca uma vez perde o direito de errar.

Fico pensando na minha lista de heróis brasileiros, muitos cientistas com grandes descobertas, alguns atletas, artistas. Gente que fez a nossa história. Fico pensando em como esses meus heróis são tratados. Os do presente precisam a todo momento provar algo novo para se manter no imaginário popular, os do passado são logo esquecidos. Seus podres são escavados e divulgados, como se fossem algo maior do que o lado bom de cada um. Como se cada um de nós esquecesse que também erra.

Dos meus ídolos cobro apenas boas atitudes naquilo que eles se destacam. Aliás, eu os idolatro apenas nesses pontos e não no todo. Não cobro coerência política de um atleta que mal teve acesso a estudo. Não cobro proeza física de um cientista. Cobro claro um sentido moral, mas com o mesmo peso que cobro de qualquer pessoa.

Sai do cinema imaginando se teria algum grande nome brasileiro que poderia ser reverenciado num filme dessa forma. Nem sobre Tiradentes temos grandes obras, um dos poucos heróis gerais do nosso povo. Fico triste ao pensar no nosso imaginário popular tão curto e a falta de reverência ao  nosso próprio povo. Afinal, sei que nada devemos a povo algum, temos gente boa e gente ruim como qualquer nação.

Porque se temos os nossos vampiros, também temos os nossos caçadores. Tem quem explore o próximo e quem faça de tudo pelo seu bem. Basta a gente dar valor e apreciar o que cada um tem de melhor. Até por isso eu agradeço quem me tirou de casa nesse dia. Um filme despretencioso me fez bastante feliz tanto pelo que me fez pensar quanto pela agradável companhia.

Walking On The Moon – The Police

 

 

Todos temos nossos heróis,modelos, pessoas que nos inspiram a sermos melhores e a fazer determinadas coisas. Pessoas que de uma maneira ou de outra funcionam como um caminho a ser seguido. Algumas vezes esses ídolos caem, outras cometem falhas graves e em alguns momentos se eternizam.

Nessa semana infelizmente eu perdi dois dos meus grandes ídolos. Um cai por uma falha grave e o outro se eternizou e não está mais entre nós. Ainda estou remoendo a falha do Lance Armstrong. Tentando aceitar a culpa daquele que sempre vi como um dos maiores ciclistas da história, com as suas 7 vitórias no Tour de France e que concorria na minha idolatria com o Miguel Indurain, que agora reina absoluto no meu carinho por ciclistas. Pelo menos até eu ter uma certa ideia do que realmente aconteceu nessa história de doping.

Por outro lado, outro nome segue agora realmente eterno. Passa para a história imaculado e seu grande feito ainda hoje é visto como algo sem precedentes na história humana. Infelizmente perdemos Neil Armstrong. O primeiro homem a pisar na lua e provavelmente o mais discreto de todos os grandes astronautas.

A figura de Armstrong me encanta por diversos fatores. A frase emblemática da sua conquista. O chegar a um novo mundo, talvez tão raro e difícil quanto foi para os primeiros homens sair da África ou para os primeiros navegadores chegarem até a Europa foi um grande feito. Mas para mim, maior que tudo isso foi a sua frase.

Carrego comigo sempre em pensamento o que ele disse. A frase que me serve de mote e de inspiração para cada ação minha. Talvez por isso eu tenha as vezes tanto cuidado com cada palavra que eu diga. Talvez por isso eu pese tanto as ações em cada momento. Meus pequenos passos podem causar grandes problemas, minhas frases mal construídas podem gerar muita tristeza e ofensa. Eu sou o responsável por  tudo aquilo que faço. E se consigo uma vitória, que ela seja apenas isso, uma vitória e não um totem a ser idolatrado.

Armstrong, foi a Lua, pisou no solo lunar antes de qualquer outra pessoa. Ao voltar ao nosso planeta, poderia ter uma vida toda baseada no seu sucesso único. Não foi o fez. Não transformou seu próprio valor em divindade. Fez da discrição um lema, tornou-se professor e agora infelizmente faleceu. Deixou-nos o exemplo de um grande homem que vale mais do que seu grande feito.

Se dias atrás eu via a Lua sorrindo para mim, hoje imagino que ela está triste. Talvez triste como eu me sinto com a perda irreparável. A lua perdeu seu primeiro visitante, eu perdi um ídolo e o mundo perdeu um modelo. Nos resta agora seguir o exemplo, lembrar que nossas ações podem gerar grandes influências em tudo o que nos cerca. Porque se um pequeno passo para um homem pode gerar um gigantes avanço para a humanidade, pode nos levar também a um grande retrocesso.