Tarde Vazia – Ira e Samuel Rosa

 

Nesses dias de correria eu penso em coisas que queria viver. Penso que se tivesse tempo talvez pudesse sentir coisas que me fazem falta. Mas também penso em como muitas vezes não aproveito meu parco tempo livre.

Tempo, o velho inimigo de sempre. Aquele que me desafia a todo instante e me pede pressa muitas vezes, noutras simplesmente teima em não passar. Age como se cada segundo fosse eterno e eu não estivesse congelado nesse sistema.

Eu vivo assim nessa briga eterna com Cronos, buscando entender da melhor forma os devaneios dessa coisa que me prende entre segundos, me sufoca enquanto me apressa e me entedia enquanto demora para passar. Sei que tem gente que lida muito bem com isso. Sabe organizar seu tempo de forma a curti-lo em sua essência. Tem gente que sabe aproveitar cada segundo e dele faz festa e alegria para si. Infelizmente não é o meu caso.

Nem é o fato de eu ser desorganizado. Posso até confirmar isso, mas sou bem menos do que parece. Nem posso culpar o fato de fazer muita coisa. Isso realmente acontece, mas nem sempre é essa a verdade. Caso fosse esse o problema, eu nunca reclamaria quando o tempo parece caminhar mais lentamente que o habitual, eu simplesmente aproveitaria esse “alongamento dos segundos” em algo mais útil e quem sabe prazeroso.

É simplesmente falta de jeito e muitas vezes desencontro de agendas. Nesse último fim de semana, por exemplo, até tentei entregar um presente que está comigo a meses, para alguém que vinha de outra cidade até a minha. Mas sempre que olhava no relógio, percebia que o dia havia se esvaído entre meus dedos ainda faltava coisa demais para ser feita. Só me resta pedir desculpas e esperar uma próxima chance.

As coisas que não dependem só de você para organizar o tempo também incomodam. Muitas vezes você até se programa e segue seu cronograma, mas infelizmente, algo muda com o passar do tempo e te impede de fazer tudo o que planejou. Aliás, isso é algo bem comum. Muito mais comum do que parece. Só que são fatos que nem valem a pena reclamar. Não temos controle algum sobre isso. É aquela fila no exame que demora muito mais do que o previsto, é o acidente que piora o trânsito, ou até o caminho inteiramente livre que faz com que você chegue duas horas mais cedo no local combinado e fique sem ter o que fazer por um bom tempo.

Eu não falaria sobre isso hoje, acho que nem escreveria nada, confesso. Mas voltando pra casa, assim que liguei o rádio, ainda no estacionamento da escola. Começo a ouvir os primeiros acordes da música que dá nome ao post. E fiquei uns minutos viajando nos versos do Edgar Scandurra. Imaginando uma tarde como essa. Aparentemente livre e sem peso. Sem a culpa por não ter feito algo ou o excesso de tédio. Apenas uma tarde vazia, preenchida basicamente por um telefonema especial.

Fiquei pensando em quantas vezes sentimos a sensação de vazio e tédio. E mais ainda, em quantas vezes esse tédio poderia ser suprido por coisas simples, como um telefonema, um passeio, um café ou mesmo relaxar ouvindo uma música que fazia tempo não estava em seu playlist. Quantas vezes esquecemos de valorizar essas pequenas coisas. Atos que poderiam tornar o passar das horas menos pesaroso, mesmo quando as horas passam mais rápido do que deveriam.

Mesmo com a total falta de tempo, eu vim aqui escrever. Escrevi rápido porque o texto foi todo sendo construído enquanto em dirigia para casa. Aproveitei as curvas da rodovia, o som no rádio e a vontade de falar algo para juntar tudo nas idéias que compõem esse texto. Pode não ser o mais belo, pode não ser o mais profundo, pode nem mesmo ser minimamente poético ou aceitável. Mas ele fala algo que eu preciso ouvir e isso já lhe dá um valor difícil de calcular.

Afinal, me fez desejar de modo intenso duas coisas. A primeira é aprender a curtir melhor meus momentos de pressa , que são constantes, mas se aproveitados de maneira mais eficiente podem render mais e ainda assim serem mais divertidos. Basta eu aprender a relaxar mesmo nessa correria. Já tive fases da minha vida em que fazia isso com certa facilidade, por que não hoje? Por que não voltar a fazer isso todos os dias?

A segunda é o desejar ter um dia desses de tarde vazia, onde algo simples e singelo faça valer o dia. Curtir um pequeno ócio quando ele for possível. Aproveitar pequenas folgas sem sentir culpa e pesar por isso. Aprender a ter boa companhia do lado, apenas pela companhia. Aproveitar um telefonema, uma conversa que não precisa ser formal, que poderia e deveria ser alegre. Quem sabe assim eu me torne alguém mais agradável do ponto de vista social.

Alguma música já lhe trouxe algum insight desse tipo? Que tal falar disso aqui? Conte sua história e a música. Diga o que ela lhe trouxe de bom.

Envelheço na Cidade – Ira!

foto antiga, mas eu comemorei quando consegui tirar essa foto

Hoje é meu aniversário. Tem um monte de gente querida me ligando, cumprimentando, mandando e-mail e coisas do gênero. É legal, de certa forma a gente se sente querido, é uma forma de carinho. Entretanto, fica sempre aquela pergunta, afinal o que eu estou comemorando mesmo?

É uma pergunta meio estranha. A maioria responde, cara, comemora que você está vivo. Poxa, mais um ano que você está aqui enchendo o saco na terra. Olha só tudo o que você conquistou nesse período. E milhares de outras frases feitas e lógicas com teor semelhante. Talvez eu seja um cara negativo por natureza, mas confesso que não consigo ver o mundo dessa forma. Talvez por isso muitas vezes bata uma certa tristeza nessas datas.

Eu inicialmente até tinha escolhido uma música mais alegre pro tema. A Marilyn Monroe canto pro presidente Kennedy. Pena que não achei nenhum vídeo bom disso no youtube, digamos que a história contada é melhor que o vídeo. Ai me sobrou outra opção. Envelheço na Cidade (clique para ouvir), música da minha adolescência, do IRA, uma banda que eu adoro.

A música ressalta que o tempo passa e de certa forma questiona a comemoração do aniversário. É justamente o que eu estou fazendo. Vou comemorar o que? O fato do planeta ter dado mais uma volta ao redor do Sol desde que eu chorei pela primeira vez? Ok, nem precisa ser tão trágico. A questão é que não vejo motivo real pra comemorar.

Tem a ideia padrão de se dizer que estou com saúde, num emprego legal, produzindo, escrevendo, etc. etc. etc. Tudo isso vale até a página 2. A saúde está longe de ser 100%, está legal, apenas isso. O produzir, sei lá, me parece estranho você comemorar por conseguir fazer algo que você sabe que consegue fazer. É diferente de um atleta bater um recorde mundial no qual ele acreditava. É como um chef de cozinha comemorar conseguir fritar um ovo. Não é nada demais, infelizmente é apenas aquilo que você faz sempre, nenhum mérito em conseguir.

Pequenos avanços em áreas onde realmente temos dificuldades sim merecem comemoração. E nessas áreas infelizmente eu ando devagar pra caramba. Não tive nenhuma conquista (nem pequena) nesses pontos. Chego a dizer que retrocedi em muitos pontos. Não consegui ser mais sociável e menos servil nas relações interpessoais. Ainda costumo ter medo das pessoas. Não consegui entender direito as minhas próprias sensações, imagine as dos outros. Continuo extremamente lógico e pouco sentimental. Toda vez que as sensações surgem no cerne de qualquer assunto, eu continuo perdido.  Meus últimos posts até falam um pouco dessa minha falta total de jogo de cintura nessa aspecto da minha vida.

É claro que, como dito no início do post, tem o lance do carinho das pessoas. Essa acaba sendo a única real vitória. Mas admito que me cobro bastante. Nesse sentido, percebo que não tenho vitórias minhas a comemorar. Tenho muita coisa pra fazer antes de realmente merecer os parabéns.

Receita Para se Fazer um Herói – Ira!

Quando aprenderemos a ver o melhor das coisas mais comuns?

Primeiro post pós carnaval, hoje falo da construção do herói. Penso um pouco ainda no Forrest Gump, Forrest foi construído. O homem comum que foi feito famoso e tomou parte de grandes acontecimentos. Seja na guerra, seja pescando camarões seja correndo. Forrest apenas viveu. Como todo mundo vive.

Pensando exatamente nesse ponto, hoje eu 3 blogs que visito de vez em quando. São de amigos. Pessoas comuns, mas que de certa forma poderiam ser feitas heróis, por se destacarem em alguns aspectos. Por fazerem bem algumas coisas e justamente por quererem mesmo ser pessoas comuns, com defeitos como qualquer um tem.

A música escolhida também tem uma forte razão de escolha. Receita para se fazer um herói (clique para ouvir) é uma música do disco Psicoacústica. Na época o Ira! Fazia a cabeça da juventude, seus dois primeiros discos venderam muito, mas esse terceiro trazia uma forma diferente da banda tocar e justamente por isso (apesar de ser muito bom) foi um fracasso de vendas. Ser um herói de certa forma também significa responder aquilo que se espera de você, não sair de uma determinada linha.

Criamos heróis o tempo todo. Modelos de destaque em áreas que de alguma forma são importantes para nós. Buscamos referência em alguém que nos pareça comum o suficiente e ao mesmo tempo destacado naquilo que observamos. Alguns podem dizer que não precisamos de ídolos. Eu dentro da minha linha de raciocínio discordo totalmente disso.

Nos momentos de maior crise interna, esses modelos de superação que são os heróis servem para fazer com que possamos sonhar em vencer nossos medos momentâneos. Não falo da idolatria doentia, do deixar de viver a própria vida para tentar viver a vida de um ídolo, mas sim a busca por inspiração e a sensação de que os medos podem sim ser vencidos.

Nessa linha de raciocínio, o herói é formado simplesmente pela observação e inspiração, ou como canta o Ira!,

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.

Pegamos um homem comum, de estatura moral comum e vemos o que ele faz melhor do que os outros, mesmo sendo normal e comum. E o idolatramos exatamente por isso, por se tornar um bom modelo de homem bom.

Parece estranho, mas eu separei 3 modelos dessa minha forma de pensar pra deixar claro o que eu quero dizer. O primeiro exemplo vem do primeiro blog que eu passei a realmente acompanhar. O Desculpe Não Ouvi (clique para ver o blog), da Lak, uma amiga deficiente auditiva que até fez um blog que gira sim em torno disso, mas que principalmente trata do assunto com um bom humor e leveza louváveis. Impossível não idolatrar alguém que leva seus problemas a um nível quase caricato e sério ao mesmo tempo. Por mais que ela negue é um exemplo a ser seguido e idolatrado. Alguém que se quer copiar nos bons exemplos. Na maneira de levar a vida.

Nessa mesma linha, tem outro blog o da Dona Flor (clique para visitá-lo). Uma amiga que depois de várias peripécias em sua vida, acabou casando com um alemão e se mudando pra um pequeno vilarejo na Alemanha. Imagine como seria repensar todos os seus sonhos e forma de viver, saindo de uma cidade grande e se mudando pra um local onde não tem nada. Onde não se conhece a língua, onde todos de olham de maneira estranha. Bom ela enfrentou tudo isso. Enfrenta na verdade. Seu blog é a melhor forma de perceber isso. No começo trazia pequenas reclamações do modo de vida novo. Agora traz textos de alguém que está refazendo a própria vida e sonhos. Algo que todo mundo deveria fazer, parar de reclamar dos problemas e buscar soluções dentro de nossas possibilidades.

O terceiro blog é de um amigo fotógrafo, o Fernando Paes (clique para ver seu blog). Todo mundo que me conhece sabe que eu abomino fotos de casamento. Nem considero esse tipo de foto arte ou algo parecido com isso. Vejo como uma cerimônia falsa e as fotos como algo mais falso ainda. Esse amigo meu vê isso de forma totalmente diversa. Ele realmente adora isso, tanto que reestruturou toda a sua vida profissional pra poder se dedicar ao máximo a aquilo que acredita, fotos de casamento. Nesse ponto o que interessa é a forma como ele vê esse trabalho. Ele realmente acredita que ao fazer isso estará fazendo algo de bom para os noivos, é quase como se seu trabalho fosse um presente. Ele faz porque acredita e acredita que é algo importante para outra pessoa. Quem não quer fazer algo que seja importante para o outro? Quem não quer ir além da própria necessidade e suprir a necessidade do outro?

Reparem são 3 pessoas comuns, com defeitos como qualquer um. Porém, cada um deles tem algo a ser copiado. Algo a ser idolatrado. Qualquer um dos 3 pode sim ser considerado um herói em algum aspecto. Heróis não precisam de super poderes, precisam de boas ações e principalmente parecerem com aquilo que a gente conhece. Herói tem que ser alguém comum, afinal, são os heróis de carne e osso que realmente idolatramos.

O Homem é esperto, mas a morte é mais – Ira

Fugir é mais corajoso do que fazer o outro pagar por seus erros

Teve gente que me perguntou porque eu estava demorando tanto pra escrever. A bem da verdade era pra este ser meu último texto, mas algumas coisas (in)felizmente mudaram. Continuo falando da minha visão a partir da observação dos personagens de Watchmen. Hoje é a vez de Ozymandias, o tal homem mais inteligente do mundo. Enquanto escrevo, três músicas tocam alternadamente e uma delas dá nome ao post. O homem é esperto mas a morte é mais do Ira (clique para ver e ouvir), Trip at the brain do Suicidal Tendencies (clique para ver e ouvir) e a bastante divertida e mordaz(quase virou título do tópico) Elza dos Mulheres Negras (clique para ver e ouvir).

Tendo largado a vida heróica antes da proibição governamental e sendo extremamente rico, Adrian Veidt sempre se vendeu como o homem mais inteligente do mundo, com total controle do seu corpo era tão veloz que conseguiu até pegar balas com as mãos. Uma figura estranha e bastante manipuladora. No fundo Adrian é o grande vilão da história, vai aos poucos caçando (e desacreditando) aqueles que ele julga poderem atrapalhar seu plano de “salvamento” do mundo.

Para ele, desastres globais fariam o homem deixar suas diferenças de lado e levariam ao fim das guerras, no caso da história, a Guerra Fria seria findada e o mundo entraria num período de paz. Mas a que custo? Ao custo de milhares de vidas que nem saberiam o que estava acontecendo, tudo porque Adrian Veidt acreditava ser este o caminho.

Por acaso a sua forma de ação acaba funcionando, pelo menos até certo ponto, e isso até onde a história termina. O leitor é levado à dúvida pela cena final. Mas confesso que isso não importa. A análise que quero fazer aqui é outra. Quero levar a discussão para a pressunção de Veidt. Ele realmente acredita poder decidir por todo o mundo o que é certo e o que é errado. E nesse ponto consegue ser mais insensível que o Dr. Manhattan. Sua verdade está acima da verdade de todos os outros porque ele é mais inteligente do que todos os outros e ele carregará o fardo da escolha que não disponibilizou a mais ninguém.

Em uma escala menor, quantas vezes não agimos de forma parecida e a meu ver covarde? Quantas vezes não acreditamos que a nossa visão sobre determinado tema é a correta e o mundo todo deve acatar isso sem questionamento algum? Não sei se enxergo isso como prepotência ou covardia. Provavelmente um pouco dos dois e recheado com bastante medo, medo de ouvir uma opinião diferente da nossa num assunto que diga respeito a mais pessoas.

Porque falar disso agora? Eu sinceramente tinha em minha cabeça a idéia de me matar agora na virada do ano. Sem motivo especial para escolha da data mas com motivos pessoais mil pra encerrar uma situação que me incomoda a muito tempo. Vendo Ozymandias sacrificar outras pessoas ao invés de resolver o problema da forma mais honesta me pareceu covardia. Se ele (assim como eu) não se acostuma e nem gosta do mundo em que está inserido mas percebe que as pessoas ao seu redor gostam, quem deve se retirar do mundo? As pessoas que gostam dele? Óbvio que não.

Já deve ter dado pra perceber nos diversos posts desse blog que eu não consigo me sentir a vontade aqui. E confesso que não culpo ninguém por isso. O problema é apenas meu, o lugar não me agrada eu deveria ter o direito de me retirar dele e deixar espaço pra quem se sente confortável e adora isso aqui. Afinal as escolhas deveriam ser sempre pessoais. No meu caso, pelo menos por enquanto tenho que abortar o projeto, algumas pessoas precisam de mim nesse momento e simplesmente não posso cair fora como gostaria. O jeito é tentar me incomodar o mínimo possível com a forma como esse mundo e eu nos relacionamos. Depois de quase 35 anos, acho pouco provável começar a apreciar a vida de forma plena como vejo a maioria das pessoas fazendo, então é fazer o que deve ser feito da melhor maneira possível enquanto o tempo passa.

Aqui vale retornar ao pensamento maluco do Adrian Veidt. Ele escolheu um modelo, acreditava que poderia ser até maior do que ele e de certa forma foi a única pessoa com quem se relacionou. Eu não sou nem tão pirado e muito menos tão “inteligente” quanto Ozymandias, me relaciono com mais gente, interajo mais, só não me sinto feliz com isso. Poucas vezes fui feliz, pra ser bem honesto.

Talvez a nossa maior diferença seja o fato de que eu não consiga ver as pessoas de cima (e nem poderia fazer isso, sou como qualquer um). Esse achar-se superior a mim parece mais uma defesa do que realidade. Uma forma de fugir do seu verdadeiro mundo é tentar controlar o mundo dos outros, não aceitando as falhas que se tem e muito menos reconhecendo os diversos erros que cometemos.

O problema maior é conviver com a nossa pequenez diante de tudo o que nos cerca. Situações corriqueiras nos mostram que simplesmente aquela situação não é para nós e o máximo que podemos fazer é sairmos da situação ou aceitarmos o meio e apesar de toda dor sentida continuarmos existindo dentro desse mundo. Cada um faz as suas opções. Eu tive que refazer as minhas.