Rhapsody in Blue – Gershwin

 

 

Aprender a ver a vida de forma mais leve é algo que persigo a tempos. A busca constante por explicações, motivos, razões me cansa. Me cansa e ao mesmo tempo é o que mais faço. Tudo deve ter um porquê. Não consigo acreditar no acaso, não consigo ser leve e nem faço piada com as minhas gramas a mais, minha cabeça não é leve, eu não consigo realmente relaxar.

Percebo isso principalmente quando por parcos momentos sou salvo dessa cela de pensamento constante por alguma pessoa bem mais sensória do que eu. E nem falo de gente que prefere sentir a pensar em todos os momentos, mas sim gente que sabe a hora de aproveitar um momento e a hora de refletir sobre o mesmo. Gente que simplesmente sabe viver de forma muito mais equilibrada

Se eu fosse ver minha vida como uma música, provavelmente seria alguma coisa de rock progressivo, provavelmente sinfônico, onde tudo é planejado com certa antecedência, até mesmo os solos são programados, não existe espaço para improvisação. E pior do que isso, é  uma música normal que se acha grandiosa e poderosa.

Eu me vejo entre os acordes rebuscados e pretenciosos. Cheios de uma fidalguia para lá de ridícula, tentando mostrar uma imponência que verdadeiramente não está ali. Enfim, um som quase artificial, quase sem alma, cheio de técnica, mas técnica vazia que aparentemente não leva pra muito longe. A gente acaba ficando preso sem poder sonhar.

Nessas horas eu penso que poderia ser um pouco mais jazz. Ter sim técnica, mas principalmente coração. Saber sentir o sabor do vendo que toca a minha pele e a ele reagir de alguma forma. Ir além da teoria que me diz que o vento é o ar em movimento ou da curiosidade em saber quais os gases que constituem esse ar que me toca. Quero aprender a saborear o toque, quero entender qual o prazer estranho que se tem no contato com uma brisa que sabe-se lá porque (ok, eu sei, mas isso não importa) vem fresca do mar até meu rosto que observa o oceano da praia.

Vez ou outra encontro gente que me faz lembrar disso. Do sabor do sentir por sentir. Engraçado como essas pessoas me encantam. Me apaixono facilmente por gente assim. Em geral são pessoas que me mostram o quando tudo poderia ser mais simples se eu conseguisse seguir apenas o roteiro básico. Entender que o mundo está ai sim para ser lido e decifrado, mas que só tem graça tudo isso se além de decifrar a gente também conseguir curtir e apreciar. Ser surpreendido não é ruim, muito pelo contrário, eu não precisaria ter medo disso.

Poderia muito bem levar a vida numa sintonia mais jazz, onde pequenos caminhos importantes até servem de guia, mas o que importa é  o que eu faço a partir do momento em que chego no caminho. Posso ouvir mil gravações de qualquer grande standart e verei as diferenças entre todas elas. Miles Davis, Coltrane, Ellington, Marsalis, muita gente que adora se juntar (algo que eu também preciso aprender) e variar os mesmos temas de forma cada vez mais espontânea e graciosa. Existe sim um virtuosismo acentuado nisso tudo, mas mais do que isso, existe sentimento. Engraçado que justamente os dois estilos musicais que eu mais gosto fazem parte desse post. Até escolhi Gershwin, por sua música transitar facilmente entre a sisudez do clássico (e por tabela do rock progressivo) e a leveza do jazz.

E eu preciso acessar isso, preciso aprender a acessar os sentimentos e torná-los parte de mim. Preciso aprender também a me juntar aos outros. Encontrar a chave para se aproximar de quem gosta ou pode vir a gostar de mim. Ampliar os horizontes e assim quem sabe afastar a solidão que tanto tem me incomodado. Porque não é errado substituir uma boa música por outra, o erro está em querer sempre a mesma melodia.

Stardust – Louis Armstrong

 

 

A morte de um Armstrong e o deslize de outro me fez pensar no terceiro famoso que eu conheço. O músico negro de jazz, que me apresentou talvez o estilo musical mais  intrigante que eu conheço. O homem que idolatro pela qualidade de sua música. Aliás, esse é o lado racional de se ter ídolos. A gente deve saber porque os idolatra. A gente tem que ter claro que ninguém vai ser bom em tudo e justamente por isso, os pontos de destaque merecem ser reverenciados.

Escrevo isso depois de um comentário que li num de meus últimos posts. Um daqueles textos que fazem a gente pensar mais do que a gente realmente pensou ao fazer o próprio texto. Por isso eu gosto tanto dos comentários, eles me enriquecem de uma maneira absurdamente estranha e profunda.

Tudo bem que eu já tinha dito muitos textos atrás qual a minha real relação de idolatria com as pessoas, entretanto, reparei que nunca havia escrito sobre a idolatria que sinto pela pessoa comum. O quanto admiro quem me acompanha todo dia, quem eu vejo, quem me ensina, quem me corrige e principalmente quem me faz pensar.

Penso no quanto aprendo com meus alunos, no quando admiro alguns colegas de trabalho. Penso em como observar algumas pessoas me faz entender de maneira mais clara o que exatamente é esse mundo que me cerca. No final das contas, o que mais me encanta é perceber o quanto essas pessoas me fazem feliz.

Percebo também que existe espaço para novas pessoas em minha vida. Gente que nunca vi ao vivo mas interage comigo de alguma forma, gente que nunca vi e nunca interagi, mas que por alguma loucura do destino acabarei conhecendo e até mesmo gente que agora faz parte do meu passado e que acabará retornando.

Aprendi a tentar encontrar o lado bom de cada um. Todo mundo sempre tem algo a ensinar, algo a aprender, algo e fazer sentir. E o engraçado é perceber que descobri isso justamente a partir dos meus maiores medos. Aprendi isso principalmente devido a minha imensa timidez. Aprendi porque sou obrigado a observar cada um que se aproxima com a maior riqueza de detalhes possível. Só assim consigo ser minimamente agradável e sociável ao primeiro contato, gerando assim os contatos posteriores. Meus alunos infelizmente sabem que as primeiras aulas com cada turma costumam ser extremamente enfadonhas, confesso que no começo eu tenho medo deles.

Medo, tenho medo de tanta coisa, de tanta gente. Tenho tanto medo que preciso me apegar ao que vejo de bom em cada um. Só assim para superar tudo e seguir adiante numa vida social normal. Só assim para conviver num mundo que é feito de contatos. Se fico triste pelo esforço que faço para fazer coisas tão simples, fico alegre por justamente isso me proporcionar a chance de perceber que todo mundo tem algo bom. Todo mundo oferece alguma coisa boa mesmo que procure esconder essas ações.

Isso me fez perceber que aquele aluno chato tem um ótimo raciocínio lógico. Que aquela mulher apesar de vulgar apresenta um grande coração. Que apesar de lento, o homem que me atende é extremamente atencioso.

Talvez por isso eu raramente me frustre com alguém. Não costumo esperar nada de uma pessoa, apenas observo e espero que ela me ofereça algo que acredite ser seu melhor lado. Se ela não me oferece nada, me resigno, percebo que no fundo, provavelmente fui eu que ainda não soube ler direito essa pessoa. Talvez por isso me apaixone tanto , talvez por isso eu sofra tão pouco pelo desprezo do outro. Porque eu me satisfaço com o que recebo de bom e me desfaço de tudo aquilo que percebo ser ruim. Por isso os três Armstrong fazem tanto sentido para mim agora. Ouvir Satchmo tocando e cantando Stardust me leva a lugares tão malucos e distantes. Eu penso na poeira espacial que Neil trouxe da Lua, imagino os devaneios que levaram Lance a se dopar, mesmo sendo um exemplo por sua luta pela vida e me encanto com toda a arte de Louis. Mesmo tão distantes entre si, parecem lado a lado os três nessa canção.

My Funny Valentine – Ron Carter Quartet

 

 

As férias acabaram, voltando aos poucos a rotina de aulas, correria e também aos textos. Estou de mudança, tentando organizar a vida e fazendo coisas que devia ter feito nas férias, mas como não dependiam de mim, acabei protelando e com isso até ficando afastado daqui. Mas fiz muita coisa, vi muita coisa e principalmente percebi muita coisa acontecendo.

Vi no meu último dia de férias, o melhor show da minha vida. Terei que encontrar um show muito especial para me fazer esquecer ou ao menos tirar do foco o ótimo show do Ron Carter que vi no auditório Ibirapuera. Não sou um grande conhecedor de Jazz, mas aprecio imensamente o gênero, o que me falta em conhecimento sobra em apego pelo que ouço.

O jazz é um som que me faz sonhar. Me leva longe e me faz ver histórias. Isso me faz pensar em outra frase marcante que tive acesso nas férias. O que é mais importante? Viver uma história ou contá-la? Confesso que ainda não consigo ter uma opinião formada sobre o tema, não sei qual das opções é a melhor, muito menos a mais fácil. Mas isso fica pra outros textos.

Por enquanto quero falar daquele senhor de 75 anos que com sua banda e seu som me fez por uma hora e meia sentir-se pleno e feliz. Fiquei grande parte do show buscando encontrar os vazios que eram preenchidos o tempo todo de forma sutil por um percussionista inspirado e bastante cativante. Os solos de todos os artistas faziam a gente suspirar. E pra finalizar a fala sobre isso, nunca ouvi uma versão tão linda de My Funny Valentine.

E pensar em quantas vezes eu sonhei acordado. Em quantas vezes mesmo tendo concentração num ponto, em um momento ou outro veio um pensamento desses livres me relaxar e me deixar melhor para fazer aquilo que eu tinha que fazer. Quantas vezes esse leve devaneio salvou minha sanidade. Porque as vezes a realidade é tão dolorosa que só mesmo a leveza do sonho nos mantém firmes o suficiente para encarar todos os problemas que teimam em surgir.

É nesse ponto que eu vejo o papel das artes. Elas servem para nos fazer sonhar. Elas trazem a visão dos artistas sobre determinados assuntos de um jeito que nos faz ver além da dor, além da alegria, além do medo, muito além de qualquer sensação. São visões diferentes que servem para mostrar aos olhos do mundo que existe sim uma maneira diferente de se pensar, existe mais de uma forma de analisar cada problema e mesmo de se curtir cada vitória.

Pinturas, esculturas, poemas, romances, fotos, desenhos, músicas, peças, filmes. Objetos artísticos independente da forma de expressão que sigam, falam do modo humano de pensar e sentir e por isso mesmo atuam como uma válvula de escape e uma porta para os sonhos mais profundos que alguém pode ter.

Por isso  eu aguardo o próximo show que vai me encantar, a próxima música a me prender, o próximo livro a me fazer chorar, a próxima foto encantadora (será que eu serei capaz de fazer essa foto?). Eu aguardo a próxima arte a me fazer perceber o quanto eu sou humano. Porque só o sonhar acordado é que realmente mantém minha sanidade.

Just A Memory – Duke Ellington & Johnny Hodges

 

 

Domingo quente em sampa. Roupa para lavar, louça para lavar, casa para limpar. Muita preguiça e tudo isso  para fazer. Mais fácil postergar um pouco. Deixar pra lá e adormecer até o jogo do meu time. Enquanto espero, deixo a mente viajar e tento pensar no que eu vou colocar no blog hoje. Tento relembrar as conversas da semana. As ideias descartadas nesse tempo. Procuro olhar no baú do meu cérebro o que realmente ficou.

Quinta-feira eu ri muito. Confesso que a anos eu não ria tanto. Os motivos foram vários, nem vale a pena relembrá-los, afinal a graça de tudo não se repetiria. Não eram as piadas o importante, mas o contexto onde elas surgiram. Repetir tudo de novo com certeza seria frustrante. Foi uma experiência agradável que passou e que assim vai ficar na memória.

Foi tudo perfeito nessa quinta? Claro que não. Eu ainda consigo lembrar de momentos complicados, alguns até tristes. Mas tem um momento bom que se sobrepõe a tudo isso. É o momento que vai ficar. Apenas uma memória vai sobreviver ao tempo e ainda bem que é uma boa memória.

No fundo é só isso que sobra de tudo que fazemos. Memórias que marcam e conseguem sobreviver aos nossos dias. Posso ter passado um dia agradável ao lado do amor da minha vida. Posso ter tido os maiores prazeres que a mente um dia sonhou em possuir. Se ao final de tudo acontece ao terrível. Aquele dia ou até aquela pessoa ficará marcada pelo momento ruim, não pelos momentos bons. Essa visão parcial, infelizmente ocorre e digo infelizmente porque ela é apenas isso, uma visão parcial. Apenas uma memória fragmentada que nos faz julgar algo.

Fico aqui pensando se eu não julguei de forma precipitada as pessoas que me cercam. Se não valorei errado por me prender a uma única sensação marcante. Talvez algumas pessoas mereçam uma segunda chance. Talvez tenha dado mais chances do que devia a quem não merece. Provavelmente eu deveria ter feito uma análise mais criteriosa antes de tomar cada decisão.

Eu sei que todo mundo age assim. E sei que somos muitas vezes cobrados por decisões rápidas. Não temos tempo muitas vezes para deixar a coisa digerir. Até entendo isso em questões mais profissionais. Mas e as sentimentais? Não vale a pena ficar apenas na primeira impressão. Vale a pena viver a história e dar tempo ao tempo. Vale a pena deixar que a pessoa não se torne apenas uma memória, mas várias memórias.

Eu geralmente faço isso. Vejo as pessoas como várias memórias. Se gosto de alguém é porque me lembro desse alguém por diversos momentos bons, alguns ruins e muitos neutros. Se desgosto é porque o número de lembranças ruins é muito maior do que o de bons. Mas percebo que vez ou outra fui injusto. Elegi como inimigos algumas pessoas que não mereciam tal alcunha. Julguei cedo demais sem o devido direito de resposta. Nesses casos, infelizmente quem mais perde sou eu. Sou eu que perdi o convívio e o contato de gente que tinha muito a me acrescentar.

Até por isso eu penso em novamente dar mais tempo ao próprio tempo. Em conviver mais antes de poder julgar. Em entender melhor cada momento e só então escolher o que quero para mim. Vou continuar oferecendo sempre a mesma face. Vou continuar sendo sempre quem eu sou. Vou continuar não gostando de algumas coisas e adorando outras. Vou como todo mundo ter meus momentos de ódio e de alegria. Mas só vou julgar alguém quando eu tiver memórias suficientes. Ninguém é perfeito por me fazer sorrir uma vez. Ninguém é descartável por me levar as lágrimas numa primeira vez.

Só me resta então pedir desculpas a todos os que julguei de forma apressada. Tanto os que eu amei sem merecerem meu carinho quanto os que eu odiei sem merecerem minha ira. Por sorte foram poucos. Por azar eles existiram. O bom é que tudo isso me trouxe de novo um pouco de juízo e vontade de corrigir as besteiras que eu já fiz.

Good & Bad – Povo

 

 

Todo mundo tem dias bons e ruins. Todo mundo vê seu humor variar conforme as horas passam e nem por isso pode ser chamado de bipolar. Todo mundo vive fases perfeitas e fases tristes. Períodos que duram bem mais que as horas de um dia, muitas vezes duram mais que os meses de um ano. Tudo depende da forma como valoramos pequenas coisas do nosso cotidiano. Muitas vezes deixar um copo cair no chão pode estragar nossa semana e bater o carro pode apenas servir de motivo pra que no maior bom humor do mundo você passe a preferir andar de ônibus.

Isso pode parecer maluco, mas no fundo é o que realmente ocorre. Cada um lida de uma forma diferente com as suas vitórias e suas derrotas. Cada um sente de maneira diferente cada frustração e pior que isso. Cada momento da nossa vida traz consigo uma carga emocional própria que faz com que a gente enxergue o que se passa conosco de uma forma ou de outra.

Alguns são normalmente mais alegres, outros normalmente mais tristes. Eu infelizmente faço parte do segundo grupo. Daqueles que demoram mais pra comemorar as vitórias e que acabam irritados demais com as derrotas. Diga-se de passagem, vitórias e derrotas que todo mundo tem o tempo todo. Aqui não falo ou penso em nada absurdo.

Tenho meus objetivos meio fechados as vezes. Não sou muito de comemorar pequenas vitórias no caminho. Eu me prendo ao que realmente quero e busco isso. As vezes até pareço garoto mimado, mas garanto que não sou. Não sou assim tão inflexível, muito menos sou daqueles que costuma ter desejos impossíveis ou excessivos. Só ando numa fase em que parte dos desejos não se supre, e isso me incomoda. Isso me deixa até certo ponto vazio, porque eu sinto falta de coisas extremamente básicas para qualquer pessoa.

Claro que tenho meus momentos de conforto. Seria muito imbecil de não lembrar disso. Seria muita ingratidão e mentira deslavada dizer que não fiquei feliz com os cumprimentos de feliz aniversário. Principalmente os pastéis que vieram dos meus alunos. Sim, eles vieram pra aula trazendo pastéis e cantando parabéns, com certeza foi o melhor presente que eu poderia ter ganho em meu aniversário. Não só dos que trouxeram os pastéis, mas dos demais do grupo que entraram na brincadeira e a seu modo demonstraram todo o seu carinho.

Ok, as lágrimas não vieram, mas eu sinceramente me emocionei, os 3 pastéis que forçosamente comi (tá não tão forçosamente assim), serviram pra me fazer pensar em meu papel. E mais uma vez acentuaram essa dualidade alegria tristeza que permeia sempre o meu pensamento. Feliz pelo carinho demonstrado. Percebi que de certa forma eu faço diferença para eles, sou de alguma forma importante.

Por outro lado, veio junto a preocupação. Que tipo de exemplo eu sou? Que tipo de importância eu realmente tenho para eles? Será que eles se espelham justo nos meus defeitos? Será que algum deles pode achar que esse olhar triste que eu tenho do mundo é a melhor opção? Espero que não. Aliás, espero que eles se espelhem justamente naquilo que mais me demonstram. Espero que procurem buscar como exemplo a própria alegria que deixam escapar quando estão juntos, quando recebem novos amigos e os recebem de braços abertos, fazendo os novos parecerem antigos e o grupo todo ter ar de uma grande família, onde se ri, se chora, mas principalmente se cuida muito um do outro.

Podem pensar em como alguém que convive com essa gente pode se sentir vazio. Podem imaginar que eu reclamo de barriga cheia. De certa forma eu admito que realmente tenho muito. Ótimos amigos, ótimos alunos, ótimos leitores. Gente que me dá vontade de sempre tentar ser alguém melhor e de tentar produzir mais.

Acontece que muitas vezes o que me falta é o pessoal. Falta-me não o prazer em fazer pelo outro. Isso eu tenho e isso me motiva, afinal sou cercado por gente maravilhosa. Entretanto, eu sinto falta é do fazer por mim. De algumas conquistas meramente pessoais, coisas simples que todo mundo faz e que eu por motivos diversos acabo tendo uma dificuldade tremenda em conseguir fazer.

E isso que me faz muitas vezes parecer assim tão triste. Mas eu reitero que reconheço as coisas boas que acontecem comigo e com quem está ao meu redor. Tento apenas ser uma pessoa boa e acertar mais do que errar. Porque eu sei que sempre vão existir coisas boas e más acontecendo com todo mundo. E a graça toda do jogo da vida é equilibrar essas ações de tal forma que o alegre e o triste acabem formando uma doce melodia que serve de trilha sonora para a existência de cada um. Onde os acordes tristes e alegres se entrelaçam de um jeito altamente pessoal e cheio de improvisos, como se imagina uma boa banda de jazz. Por isso você lê o posto ao som de Povo, por isso vc lê o post ouvindo Good & Bad.

While My Lady Sleeps – John Coltrane

 

 

Hoje eu cheguei em casa tão cansado. Parecia que eu queria dormir eternamente. O corpo demonstrou-se assim tão frágil que eu sentei e cochilei assim de repente. Hoje eu senti falta e depois de meses voltei a abraçar o violão. As cordas desafinadas nada produziram ao meu toque. Os acordes não vieram. A música infelizmente não está em mim.

Sobrou ligar o rádio pra deixar a mente vazia, quem sabe alguma coisa aparecia e tocava minha mente a ponto de me fazer entender exatamente o que está acontecendo. O sono é irreal. Não era pra ser tão intenso. Parece até que eu quero esperar o tempo seguir seu caminho e acordar só quando o turbilhão tiver chegado ao fim.

Acontece que eu realmente não sei o motivo. Não sei de onde o sono vem. Não estou fugindo de nada, muito pelo contrário. Raras vezes eu quis encarar a vida tão de frente quanto agora. Raras vezes me senti tão corajoso. Raras vezes me senti forte o suficiente pra admitir que sinto desejos, sinto saudades e tenho vontades. Que existem pessoas que fazem meu coração bater mais forte e o tempo ora parar ora acelerar. Assim como tem gente que me faz sentir raiva, ódio, asco. Agora eu consigo assumir que tenho reações ante as pessoas que eu vejo todos os dias. Raras são as pessoas que entram naquela zona de limbo, formada por pessoas que simplesmente não fazem diferença alguma em minha vida.

Ainda assim, o cansaço me domina. Nada achei no rádio, fuçando nas minhas músicas achei uma do Coltrane que me ganhou. Ouvi a música umas 3 vezes seguidas enquanto simplesmente deixava a mente voar. O som do sax de Coltrane de certa forma me reconfortou. Não se já disse aqui, mas gostaria de aprender a tocar saxofone, quem sabe um dia eu aprenda, a outra opção seria trompete. O duro é que provavelmente eu toque esses instrumentos tão mal quanto toco violão. Quem sabe um dia.

Mas voltando a crise existencial e ao sono eterno. Não sei o que me incomoda, já pensei na gripe que me ataca, já pensei nos medos que eu sinto. Todo mundo sente medo de algo. Procurei as coisas das quais eu fujo. E nada realmente parece me parar. Nada do que eu fujo é tão forte a ponto de me fazer querer que o mundo acabe ou que o tempo passe tão depressa a ponto de me fazer sonhar em entrar num buraco até que o tempo passe e tudo se resolva naturalmente sem a minha influência.

Mesmo assim eu tenho sono. E tento descobrir o porquê. Se adormecido ainda eu tivesse sonhos, pesadelos ou assombros talvez eu realmente pudesse entender. Mas o cansaço me domina de verdade. Enquanto dirigia me senti um pouco tonto. E fechei os olhos pra fugir da realidade, até que uma buzina explodiu em minha face e me fez acordar mesmo que um pouco.

A se eu pudesse entender o que acontece. Mas a vida não é assim tão simples, a gente sofre e o motivo desaparece. As vezes a gente lembra, as vezes esquece. A gente nem sempre sabe o que nos oprime.

E assim eu sinto o coração apertado em busca de uma resposta. Se alguém souber o que me falta, pode me dizer. Eu sei que hoje eu sinto falta de tanta coisa. Mas nada me parece faltar a ponto de me fazer fugir. Você já se sentiu assim? Frágil sem saber o motivo? Quer falar sobre? Como lidou com a breve fossa sem motivo?

Footprints – Miles Davis

 

 

Sempre que a gente caminha acaba deixando marcas por onde passa. É esse o mote dos poemas que estou escrevendo agora. Eu tento retomar as marcas que fizeram em mim, as marcas que eu fiz nos outros, as marcas que apesar de não serem visíveis na minha pele, me ajudaram a ser quem eu sou hoje. Hoje me considero fruto de todas as marcas que recebi na vida. Como se os espinhos tivessem cortado a minha essência de tal modo que as feridas feitas criaram cicatrizes que nunca vão sumir.

No meu primeiro livro até fiz um poema que fala um pouco disso, como nos versos abaixo:

Eu tenho marcas no rosto

Dessas que não se apaga

Não como as ondas de um mar revolto

Que assinam e apagam sua ira na praia

Eu penso tenho pensando nessas marcas já a um bom tempo. Domingo passado pensei muito mais, aliás. Fui ver uma exposição no Sesc Pinheiros sobre a obra do Miles Davis. Já disse aqui que gosto de jazz, mas estou longe de ser um grande conhecedor do tema. Por sorte fui acompanhado de uma amiga que realmente entende do assunto e adora música. Aprendi muita coisa, descobri uma série de informações que eu nem sequer sabia serem possíveis, como o fato do Miles Davis ter gravado com muita gente bem mais pop e atual. Eu só o conhecia pelos seus sons mais antigos lá nos anos 50 e 60.

Ali percebi como a sua obra foi sendo modificada ao longo dos anos, sem perder a qualidade ele passou por diversas vertentes da música (limitá-lo ao jazz seria limitar a sua obra) e influenciou muita gente. Seus passos até hoje são seguidos. Seguir os passos, aliás é algo complicado e ao mesmo tempo interessante.

Por isso a música escolhida. Footprints (pegadas), composição do Wayne Shorter inicialmente gravada pelo Miles Davis Quintet no período em que Shorter fazia parte da banda. A música serve pra me lembrar e me fazer pensar em todas as pegadas que segui na vida. Em todos os caminhos já traçados que usei como atalho para evitar assim mais cicatrizes e ao mesmo tempo para ter força e ânimo para de repente dar um passo adiante.

Quem nunca seguiu as pegadas de alguém? Acho que não conheço ninguém que tenha escapado disso. Todo mundo busca exemplos e tenta assim encontrar os melhores caminhos para a sua vida. Chego ao cúmulo de ver gente que segue assustadoramente os caminhos traçados por personagens fictícios de livros, filmes, novelas, etc.

Eu segui as pegadas de muita gente, sigo até hoje esses atalhos quando encontro. Tudo isso para evitar mais cicatrizes daquelas que nunca realmente se curam. O próprio Miles Davis teve suas cicatrizes fortes. O racismo pra ele foi algo extremamente pesado. E isso aparece em diversos momentos de sua obra, como quando ele conseguiu colocar mulheres negras nas capas dos seus discos, algo impensado naquela época.

Assumir a sua dor e o que incomoda é pra mim a grande lição do jazz. Música que nasceu negra, para negros e que depois ganhou tonalidades multiraciais. Para mim, o jazz como ritmo representa em suas origens a linguagem de quem se sentia excluído e reprimido. Talvez por isso a sua execução seja tão livre e o virtuosismo seja tão celebrado entre os músicos de jazz. A virtuose é a chance de se mostrar quem se é e até onde se pode chegar com suas idéias. O improviso é a cereja nesse saboroso bolo musical. Onde os jovens músicos sempre iniciavam em bandas de músicos mais experientes e respeitados, até acharem-se prontos para seguirem seus próprios passos depois de terem aprendido muito com os passos de outros músicos.

Nesse caminho, além das pegadas surgem as cicatrizes. Por isso que não são todos iguais. Por isso cada um toca do seu jeito, cada um fala do seu jeito. Porque não é apenas repetir um caminho tortuoso de forma mais tranqüila. Infelizmente surgem para cada um novas marcas. Coisas que quem sabe possam servir de pegadas para quem vier depois. Coisas que podem servir para evitar que mais pessoas sofram com o mesmo problema, fazendo com que nas canções novas dores sejam incorporadas a cada nova apresentação.

Se hoje eu penso nas pegadas a serem seguidas, no próximo texto quero falar das cicatrizes. Quero falar daquilo que marca profundamente mas mesmo assim ninguém vê. Enquanto isso. Curta o som do Miles Davis e seu quinteto. Música de qualidade para leitores de qualidade. Aliás, tem alguma pegada que você tenha seguido que acha que deve ser compartilhada? Aproveite, o espaço é todo seu, faça seu solo a vontade.