Man Machine – Kraftwerk

 

 

Saber até onde a gente pode caminhar nem sempre é fácil. Estabelecer os limites usando como referências a própria capacidade, o respeito ao próximo, o bom senso e as regras do jogo é sempre um modo confuso de entender o que ocorre com o nosso próprio pensar. O nosso agir não pode ser sempre irresponsável, aliás, ele nunca pode ser irresponsável.

Tanta gente fala em saber aceitar a derrota. E realmente isso é algo que deve ser aprendido durante a vida. Entretanto, acho mais difícil ainda aprender a ganhar e sobreviver a vitória. Saber agir após uma conquista e dela retirar forças para se lembrar dos quatro pontos necessários para se caminhar em paz.

Muitas vezes a vitória não tem o sabor esperado. Muitas vezes a gente não sabe exatamente o que fazer com o prazer advindo da conquista. E o desperdiça de forma suja e muitas vezes desrespeitosa com quem nos ajudou a chegar ao topo. Isso sem falar no desdém ofertado algumas vezes a aqueles que foram derrotados pelo caminho.

Percebo que faço dessas as vezes, percebo que muita gente tem essa postura. E se me policio tanto é porque sei que erro a cada vez que faço isso. Tento reconhecer o meu erro e faço de tudo para não repetir a mesma estupidez. Não penso em brincar com o sentimento alheio, não penso em tripudiar da forma como cada um sente o peso de sua vida. Penso apenas em aproveitar aquilo que a minha vida oferece, sabendo curar minhas feridas de derrota, sabendo aproveitar os louros de cada conquista.

Lance Armstrong aparentemente errou. Se não errou desistiu da defesa e de certa forma assumiu a culpa por algo que simplesmente joga no lixo toda a sua história como atleta e como fonte inspiradora para muita gente, inclusive eu. Afinal, como não se comover com a história do homem que vence o câncer e se torna um dos maiores vencedores do seu esporte. Vencer o Tour de France uma vez já é um feito notável, imagine vencer sete?

Agora com o doping assumido pelo silêncio do atleta, todas essas conquistas parecem soar falsas. Perderam o sabor e a ideia de ter um ídolo assim me incomoda. Não me sinto incomodado pelo fato dele ter errado. Afinal desconheço qualquer pessoa que jamais tenha cometido um erro. O que me incomoda é o tipo de falha apresentada. Se a história veiculada for real (e o silêncio acaba demonstrando a veracidade dos fatos), faltou aceitar as regras para o bom caminhar.

Faltou aceitar os próprios limites e pedalar apenas da forma que o corpo permitia. Faltou respeito aos colegas quando tentou enganar a todos pelas  vitórias nas provas. Faltou bom senso para entender que o homem pode e deve ser maior que suas conquistas e faltou respeitar as regras do jogo, que definem as formas como as vitórias podem ser aceitas. Faltou aceitar o fato de que somos humanos limitados e não precisamos ser máquinas perfeitas.

Sei que não sou ninguém para julgar uma pessoa, mas preciso fazer isso agora até para demonstrar meu ponto de vista. Faltou caráter e sobrou vaidade. Muita vaidade. E isso me entristece e preocupa de um jeito bastante profundo. Afinal, quem dentre os homens é totalmente imune a vaidade? Eu me policio a todo instante e sei que em muitos momentos falho. Falho em aceitar derrotas, falho ao comemorar vitórias.

Porque nem sempre a gente percebe até onde pode caminhar. E caminha a passos largos por onde não deveria. Isso só nos machuca e machuca a quem nos cerca. Não nos traz nada de bom, só a falsa impressão de poder. E no fundo, quando a gente percebe que fez algo errado, comemorar torna-se muito mais doloroso do que alegre.

Bicycle Race – Queen / Tour de France – Kraftwerk

Muitos deles devem ter Lance Armstrong como ídolo

Essa semana está meio baixo astral. Baixou a tristeza aqui e os temas rarearam um pouco. Hoje que reparei que era o dia de postar algo novo no blog. E o tema? Difícil escolher. Em mim está aquela sensação de que por mais de saco cheio que eu esteja, algumas coisas devem continuar. Eu devo continuar fazendo aquilo a que me propus, independente da minha vontade.

Ao pensar nisso. Lembrei-me de alguns heróis de carne e osso. Pessoas que nas suas áreas foram muito acima do esperado e se tornaram exemplos míticos. Pessoas que conseguiram se transformar em exemplos em alguma área. Já falei um pouco disso antes, temos aqui no Brasil o péssimo hábito de exigir santidade dos nossos ídolos, eles devem ser bons em tudo.

Eu não penso assim, talvez por isso acabe respeitando muita gente que se destaca em sua área. Pretendo falar de alguns nessa semana e talvez na próxima. O título da música escolhida diz tudo. Eu pensei em escolher tour de France do Kraftwerk (pra ver o clipe clique aqui), mas acabei também optando pelo saudoso quarteto britânico Queen e a música bicycle race (clique aqui para ver o clipe). Na verdade, fiquei com as duas,por gostar muito de ambas.

O personagem de hoje é Lance Armstrong, um dos mais famosos atletas do mundo e multicampeão da mais famosa prova ciclística do mundo, a Tour de France. Armstrong venceu a prova por 7 vezes e isso depois de diagnosticado e tratado de um câncer nos testículos, cérebro e pulmão.

A obstinação desse atleta é que me faz falar dele. Raras pessoas teriam a força de vontade que ele teve, de lutar contra uma forte doença, vencer a doença e mais do que isso se tornar um vencedor pleno numa atividade física que exige muito do corpo, imagine do corpo de alguém que teve câncer espalhado pelo corpo?

Falo dele também pelo seu lado teimoso. Depois de aposentado do ciclismo em 2006 resolveu voltar a competir e nesse ano na volta da França está dando uma canseira nos que vinham competindo direto. Até agora está em terceiro na classificação geral, apenas 8 segundos atrás do primeiro lugar, se colocando como uma dos favoritos ao título, junto com seu companheiro de equipe Alberto Contador.

As brigas dentro da equipe Astana, causadas pelo choque de egos entre os dois grandes ciclistas até poderiam entrar aqui. Pois demonstram a sede de vencer, mas prefiro fugir do assunto. Apenas torço para que o Lance Armstrong consiga vestir a camisa amarela em algum dos dias dessa volta da França e acredito que o Contador acabará ganhando.

Mas vamos ao que interessa. Ver um exemplo como o desse ciclista me faz pensar que muitas vezes choro sem motivos reais. Que não deveria abaixar a cabeça para as coisas ruins que ocorrem no meu dia a dia. Também vejo que deveria lutar mais por meus objetivos. O desejo é a principal fonte de energia para a vitória. E as conquistas devem sempre servir de estímulos para vencer novos desafios.

Não apago as suspeitas de doping desse atleta, principalmente em sua primeira vitória no Tour de France em 1999. Nem vejo isso como algo positivo em sua biografia. Ele não é um exemplo por isso, mas sim por lutar e lutar muito.

Você tem algum herói? Gostaria de falar dele? Durante a semana eu devo falar de outras pessoas que admiro, artistas, cientistas, gente comum.