Stardust – Louis Armstrong

 

 

A morte de um Armstrong e o deslize de outro me fez pensar no terceiro famoso que eu conheço. O músico negro de jazz, que me apresentou talvez o estilo musical mais  intrigante que eu conheço. O homem que idolatro pela qualidade de sua música. Aliás, esse é o lado racional de se ter ídolos. A gente deve saber porque os idolatra. A gente tem que ter claro que ninguém vai ser bom em tudo e justamente por isso, os pontos de destaque merecem ser reverenciados.

Escrevo isso depois de um comentário que li num de meus últimos posts. Um daqueles textos que fazem a gente pensar mais do que a gente realmente pensou ao fazer o próprio texto. Por isso eu gosto tanto dos comentários, eles me enriquecem de uma maneira absurdamente estranha e profunda.

Tudo bem que eu já tinha dito muitos textos atrás qual a minha real relação de idolatria com as pessoas, entretanto, reparei que nunca havia escrito sobre a idolatria que sinto pela pessoa comum. O quanto admiro quem me acompanha todo dia, quem eu vejo, quem me ensina, quem me corrige e principalmente quem me faz pensar.

Penso no quanto aprendo com meus alunos, no quando admiro alguns colegas de trabalho. Penso em como observar algumas pessoas me faz entender de maneira mais clara o que exatamente é esse mundo que me cerca. No final das contas, o que mais me encanta é perceber o quanto essas pessoas me fazem feliz.

Percebo também que existe espaço para novas pessoas em minha vida. Gente que nunca vi ao vivo mas interage comigo de alguma forma, gente que nunca vi e nunca interagi, mas que por alguma loucura do destino acabarei conhecendo e até mesmo gente que agora faz parte do meu passado e que acabará retornando.

Aprendi a tentar encontrar o lado bom de cada um. Todo mundo sempre tem algo a ensinar, algo a aprender, algo e fazer sentir. E o engraçado é perceber que descobri isso justamente a partir dos meus maiores medos. Aprendi isso principalmente devido a minha imensa timidez. Aprendi porque sou obrigado a observar cada um que se aproxima com a maior riqueza de detalhes possível. Só assim consigo ser minimamente agradável e sociável ao primeiro contato, gerando assim os contatos posteriores. Meus alunos infelizmente sabem que as primeiras aulas com cada turma costumam ser extremamente enfadonhas, confesso que no começo eu tenho medo deles.

Medo, tenho medo de tanta coisa, de tanta gente. Tenho tanto medo que preciso me apegar ao que vejo de bom em cada um. Só assim para superar tudo e seguir adiante numa vida social normal. Só assim para conviver num mundo que é feito de contatos. Se fico triste pelo esforço que faço para fazer coisas tão simples, fico alegre por justamente isso me proporcionar a chance de perceber que todo mundo tem algo bom. Todo mundo oferece alguma coisa boa mesmo que procure esconder essas ações.

Isso me fez perceber que aquele aluno chato tem um ótimo raciocínio lógico. Que aquela mulher apesar de vulgar apresenta um grande coração. Que apesar de lento, o homem que me atende é extremamente atencioso.

Talvez por isso eu raramente me frustre com alguém. Não costumo esperar nada de uma pessoa, apenas observo e espero que ela me ofereça algo que acredite ser seu melhor lado. Se ela não me oferece nada, me resigno, percebo que no fundo, provavelmente fui eu que ainda não soube ler direito essa pessoa. Talvez por isso me apaixone tanto , talvez por isso eu sofra tão pouco pelo desprezo do outro. Porque eu me satisfaço com o que recebo de bom e me desfaço de tudo aquilo que percebo ser ruim. Por isso os três Armstrong fazem tanto sentido para mim agora. Ouvir Satchmo tocando e cantando Stardust me leva a lugares tão malucos e distantes. Eu penso na poeira espacial que Neil trouxe da Lua, imagino os devaneios que levaram Lance a se dopar, mesmo sendo um exemplo por sua luta pela vida e me encanto com toda a arte de Louis. Mesmo tão distantes entre si, parecem lado a lado os três nessa canção.