Freedom Jazz Dance – Miles Davis

 

 

Flores raras, o filme  que me fez pensar em tanta coisa, talvez nem mostre mesmo tanta coisa para ser dita. Mas eu me aproveito dos pequenos lampejos de ideias que surgiram durante o filme pra tentar produzir alguma coisa interessante aqui no blog.

Além da catarse traduzida no texto anterior, outro ponto veio muito forte a mim durante o filme. A falsa liberdade existente em nossas ações. A falsa sensação de que realmente temos escolhas conscientes em nossa vida e a falsa mentira que contamos a nós mesmos quando ao olhar no espelho nos vemos como pessoas realmente livres.

Elizabeth Bishop era presa em diversos pontos, seus medos, sua própria indecisão e a sua carreira, pareciam formar uma cela invisível na qual ela foi inserida ainda menina e de certa forma demorou anos a lidar com o pouco espaço destinado aos seus passos menos direcionados. Ela com o tempo aprendeu a lidar bem com essa liberdade relativa e seguiu muito bem sua vida. Nem é dela que me pego falando nesse texto, mas principalmente de outras duas personagens fortes e femininas. Mary e principalmente Lota são o meu foco hoje. Até porque elas representam também parte da dor que muita gente sente sem saber e que muitas vezes temos medo de lidar.

Mary é o exemplo mais claro de prisão. Logo se viu impossível de se libertar de seus sentimentos por Lota e simplesmente aceitou de bom grado as migalhas que recebia, dentro de um sistema onde ela imaginava aos poucos ampliar os pequenos espaços disponíveis em sua cela emocional. Na verdade aconteceu justamente o oposto, ela ficou cada vez mais presa, só que resignada, viu as migalhas recebidas como algo suficiente para a vida que deveria levar, mesmo que houvesse dor nela.

Já Lota traz uma linha de pensamento bem mais complexa e difícil de seguir. Aparentemente uma mulher forte e livre, pouco a pouco ela vai se mostrando presa em um falso mundo criado por ela que de uma forma ou de outra começa a ruir, pedaço a pedaço. E por fim não sobra nada além do desespero que se traduz em morte.

O que me pegou é lembrar que eu me sinto muitas vezes assim, livre. E só depois de um tempo é que percebo  que ainda estou preso a algo. Tenho percebido os limites da minha prisão de forma muito clara nesses últimos dias. Por mais que eu me ache livre, existem ainda um monte de amarras que me prendem a uma série de coisas que simplesmente não me deixam seguir adiante como eu gostaria ou deveria em determinados assuntos.

A sorte (se é que isso pode ser chamado de sorte), é que isso ocorre com todo mundo. Sempre vai ter algum ponto em que nós vamos nos sentir presos a algo. Sempre vai ter algum momento em que uma barreira (física ou emocional) vai surgir do nada diante dos nossos olhos e simplesmente nos impedir de dar um passo adiante, por menor que seja esse passo. E é só nesse momento que vamos nos dar conta de que estamos dentro de uma prisão. O problema ai é ter a cabeça forte o suficiente para aceitar a prisão como algo normal e não um fardo capaz de levar alguém a dar cabo da própria vida. Afinal, só com muita paciência e sabedoria é que se consegue aumentar o tamanho da cela e assim voltar a falsa sensação de liberdade.

Porque é preciso entender que a nossa liberdade vai apenas até onde nossos medos e fraquezas permitem. Por mais que se queira voar nossas asas não nos permitem atravessar o oceano. É preciso ter calma e paciência para criar as ferramentas necessárias para isso. E é isso o que eu busco agora, se não a liberdade plena (que é inexistente) formas de me sentir livre mesmo dentro dos limites de meus medos e minhas fraquezas.

Free to Be – Wynton Marsalis

 

 

Não costumo escrever fora dos finais de semana. Mas hoje eu confesso que tive vontade. Dia bem aproveitado em casa. Dia de uma merecida folga onde pude simplesmente pensar em mim e fazer coisas pra mim. Pude ver os livros que tenho e quero ler. Pude começar a rascunhar o novo livro que quero escrever nas minhas férias e quem sabe lançar perto do meu aniversário no final de março. Pude até parar pra cozinhar o meu almoço, algo que nem gosto tanto assim de fazer, mas que hoje teve um valor imenso e de certa forma necessário.

Eu até queria ver o jogo do Santos hoje de manhã, torci abertamente para o time do litoral apesar do meu imenso prazer em me assumir corinthiano em todos os poros do meu corpo. Eu queria ver o jogo, mas hoje eu podia dormir e assim fiz. Acordei, liguei a TV e até cheguei a ver os primeiros lances. Não que o jogo estivesse ruim, mas a sensação de liberdade e poder simplesmente adormecer na hora em que o sono aparecer foi mais forte, dormi enquanto Neymar e seus companheiros faziam 3 a 1 na equipe japonesa.

Acordei descansado, acordei realmente desperto, coisa que não fazia a tempos, nem nos finais de semana. E acordei apenas porque quis. Poderia ter dormido o dia todo, como cheguei a fazer em alguns domingos por cansaço. Dessa vez não havia cansaço, existia apenas a vontade de fazer o que o corpo quisesse e foi o que fiz. Até tenho ainda coisas a fazer, mas dei-me um dia, assim como me darei diversos outros e percebi como isso é bom.

Sai de casa pouco depois da hora do almoço, peguei o carro sem pressa e dirigi sem me preocupar com tempo. Sequer reclamei de dirigir hoje, algo que eu constantemente faço, dirigir nunca foi minha maior diversão. Passei horas conversando e vendo livros, namorando livros que não comprei e que talvez eu passe amanhã lá só pra comprar, ou não, porque amanhã novamente o dia será meu e eu farei o que quiser.

Essa sensação de liberdade me fazia falta. Eu me sentia um tanto escravo do tempo e das ações. Sem tempo para ser eu mesmo. Sem tempo para entender o que acontecia ao meu redor. Basta lembrar dos diversos dias em que sai de casa muito antes do sol nascer e só retornei várias horas depois dele ter se posto. Dias em que cheguei em casa, abri a porta e me joguei no sofá esperando alguma comida congelada ficar pronta no microondas. Dias em que mesmo morando num lugar previlegiado, onde as noite costumam ser lindas e estreladas pouco vi o céu, algo que eu adoro fazer. Gosto de ver as constelações a olho nu e chamá-las pelo nome, como se fossem grandes companheiras, amigas pra quem eu conto meus problemas e que me respondem com sua dança pelo céu, cada uma no seu tempo.

Por azar hoje o céu tem nuvens e não pude ou poderei ver as estrelas, mas sei que conseguirei fazer isso muitas vezes nesse meu tempo de descanso. Vou chorar minhas mágoas pra Órion nas noites desse verão, contando as histórias dos meus dias livres. Dias em que eu vou finalmente poder ser quem eu realmente sou.

Até tomei coragem pra deixar de ser sedentário. Procurei uma academia aqui perto. Tive mais sorte do que imaginava. Aulas de judô (meu esporte predileto) num horário que coincide com os que eu provavelmente vá ter livre no próximo ano. Sinal de que é hora de voltar a ser quem sou. Buscar meus sonhos, escrever mais poesia, escrever prosa, aliás voltar a ter tempo pra “prosear” livremente, quem sabe encontrar alguém legal e voltar a namorar.

Hoje tive paciência pra ouvir jazz, um som que adoro, mas que me exige mais do que tempo pra uma simples audição. Até ouço sempre um programa numa rádio sobre o tema, mas a música apenas rola enquanto dirijo. Hoje não, hoje eu parei pra ouvir, fiz inclusive questão de que a música desse post fosse um tema de jazz. Porque pra mim jazz é a música mais livre e inventiva. É a música da liberdade e Free to be é como eu me sinto hoje. Eu me sinto livre para ser o que quiser. Livre para ser eu mesmo. Espero conseguir fazer isso durante o próximo ano todo. Espero poder equilibrar de forma mais justa, curtir o trabalho, mas me curtir também um pouco mais. Ter tempo para produzir, mas também ter tempo para ser.

Hoje foi só um desabafo, prometo no final de semana voltar a falar do Slam, aliás o livro é realmente muito bom, recomendo.

Crazy – Seal

Os peixes só são livres porque não sabem que o aquário é sua prisão...

 

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Sempre tem coisas que ficam martelando a cabeça da gente. Informações perdidas muitas vezes. Informações que ficam assim sem sentido até que de repente, por estalo passam a fazer sentido. Eu estava assim desde o carnaval, quando vi os filmes Invictus (pela enésima vez) e Incêndios (esse uma única vez e no cinema).

Ver os dois filmes causou um mal estar do qual eu não conseguia me livrar, um mal estar que sequer tinha alguma lógica pra mim. E de repente, no engarrafamento tudo passou a fazer sentido. Nada absurdo, apenas uma constatação até antiga, mas que voltou a navegar por meus pensamentos.

Os dois filmes falam de pessoas que de certa forma acharam que eram livres e não eram. Mandela, pelo menos no filme, aparentemente tinha mais noção de seu papel e sabia os limites da prisão em que estava. Os filhos de Narwal nem sabiam que estavam presos, descobriram isso enquanto conheciam a sua história.

Acontece que na verdade todos nós estamos presos. Sempre tem alguma coisa nos limitando. Sejam nossos medos, nossos dogmas, nossas crenças, nosso passado, qualquer coisa. Sempre tem alguma coisa que nos deixa ir apenas até determinado ponto. Quando conseguimos viver longe desses limites, ou livres da dor que eles nos causam temos a falsa sensação de liberdade e acreditamos que todos os nossos movimentos são definidos única e exclusivamente pela nossa vontade, ledo engano.

Nossas ações são definidas por aquilo que nos permitem ser. Como seres sociais, as regras sempre tosam algum ponto de liberdade e o que me incomoda nem é que isso ocorra, mas sim que esses limites muitas vezes aconteçam sem dor, sem percepção alguma de que existe uma parede bem diantes dos nossos olhos impedindo de dar o passo seguinte.

Trabalhamos por que gostamos ou por que a sociedade diz que isso deve ser feito? O conceito de família é tão bom quanto a sociedade prega? O que é valorado muitas vezes tem importância social e não pessoal, os nossos sonhos são delimitados pelo que a sociedade permite. Um garoto aqui no Brasil cresce sonhando ser jogador de futebol, nos Estados Unidos o sonho provavelmente será o de disputar a NFL ou NBA ou MLB.

Regras de etiqueta, definição de belo, roupas, filmes de sucesso, música da moda. Tudo isso é sim gosto pessoal, mas limitado socialmente, os padrões de qualidade quase todos são artificiais, sobra pouco espaço para o apenas eu gosto.

Fiquei pensando nisso ao ver tanto a postura de Mandela, que encarnou a postura de pai de um povo e líder que tinha que servir de exemplo, não se vendo livre nem para viver a própria vida, quanto ao ver a dor que os filhos de Narwal sentiram ao descobrirem o seu passado. Seus dogmas serviram de punição e eles quase cederam a dor que sentiram. Seu mundo criado ruiu e sem a proteção do muro imaginário, tudo pareceu mais real e até certo ponto letal. O mundo de repente se tornou menos humano e totalmente selvagem.

Manter a sanidade sem esses limites provavelmente é impossível. Até por isso a música do Seal, Crazy foi uma música que eu adorei ter ouvido nos anos 90. Fala de como a loucura pode nos levar a ter coragem pra vencer os limites que nos impomos e que a sociedade nos impõe. Só um louco pode ser livre e viver além das regras.

Conheço quem tenha tido uma posição digamos assim invejável, emprego relativamente estável, casa, possibilidade de família e tudo mais. E mesmo assim largou tudo para viver de acordo com os seus sonhos. Muita gente disse que quem fez isso “enlouqueceu”. Talvez tenha apenas vencido seus limites e tido a coragem e a estrutura pra sobreviver além daqueles limites que incomodam.

Aliás ai entra também uma discussão breve sobre felicidade. Só é feliz aquele que desconhece seus limites. Só se alegra quem não enxerga barreiras diante de seus olhos, seja por falta de coragem de enxergar os limites, seja por pura falta de vontade de arriscar mesmo. De certa forma a ignorância nos salva dando a falsa sensação de liberdade e nos protegendo de nossos verdadeiros anseios.

Você conhece bem seus limites? Sabe até onde pode ir? Tem medo de ir além? Se sente livre?

 

Tento Entender – Otto

As vezes criamos um personagem que nos protege do mundo exterior

Tento entender o que se passa nesse mundo que me cerca. Talvez essa frase seja a melhor forma de se definir Rorschach. O personagem obstinado em fazer valer um tipo de ideal de justiça que acredita. Meio maluco, o personagem transformou-se no maior temor dos bandidos do submundo, mesmo depois da proibição dos super-heróis. A música do Otto (Tento Entender – clique para ouvir) pra mim traduz a essência do personagem com todos os seus conflitos

Rorschach me encanta por ser o oposto total do Ozymandias, é alguém que defende suas ideias até o fim e que faz de si mesmo o responsável por levar essas ideias. Se tiver que se sacrificar pelo que acredita, ele fará isso. Eu penso de forma parecida. Acredito que é nossa a responsabilidade por nossos sonhos e se alguém tiver que sofrer para que um sonho meu se realize esse alguém sou eu.

A moral excessiva de Rorschach vem de dois eventos pesados ocorridos em sua vida. Primeiro a sua infância/adolescência, onde conviveu com sua mãe (até agora não entendi bem se ela era prostituta ou apenas digamos assim volúvel), sendo totalmente rejeitado. Já adulto e com a vida de herói iniciada. Ele investiga o sequestro de uma menina, crime que infelizmente termina de forma trágica e faz surgir a versão final e mais violenta do herói. Que não desiste do combate ao crime mesmo quando a atividade se torna ilegal.

Esse é um ponto interessante. Penso que a permanência de Rorschach no combate ao crime se deve a forma como ele passou a encarar a própria existência após esse crime. Walter Kovacs passou a ser a fantasia e Rorschach passou a ser o indivíduo. Aqui mais um paralelo com o mundo real. Quantas pessoas não esquecem quem realmente são e, por motivos diversos, passam a agir apenas em parte de sua vida? São profissionais que abrem mão da vida pessoal por não saberem lidar com elas. Profissionais em tempo integral. Atletas que não conseguem parar, artistas que só existem em sua obra, casais que só existem um no outro.

A anulação do lado Kovacs foi traumática e fácil de ser percebida. A elevação da face Rorschach parece até óbvio. Mas isso é ficção, me pergunto o motivo de fazermos isso tantas vezes também na vida real, com um motivo semelhante, como não temos maturidade suficiente para resolver determinados aspectos de nossa existência, simplesmente os deixamos de lado e damos ênfase para aquilo que fazemos com mais facilidade.

Num primeiro momento, pode até parecer interessante. A produção parece aumentar, nos tornamos realmente confiantes naquilo que fazemos bem. Mas e quando o lado frágil começa a fazer falta? Como retomar? Rorschach não viveu o suficiente para ter a oportunidade de retomar esse lado. Porém, nós vivemos. Saber lidar com isso é sempre complexo e doloroso.

Eu admito muitas vezes agir assim como Rorschach. Isso nos dois aspectos mais marcantes do personagem. Sim, deixo de lado alguns lados meus que não domino e parto com tudo para aquilo que é certo. Tenho medo de arriscar em campos que não tenho controle, por mais importante que isso acabe sendo pra minha vida. Fujo. Esse é o lado ruim.

O lado bom é a perseverança. Eu defendo meu senso de justiça e acredito sim que eu sou o responsável por aquilo que desejo ver acontecendo. Até existe acaso, mas eu tenho total responsabilidade pelo que minhas vontades causam ao mundo. A cena onde Rorschach é destruído pelo Doutor Manhattan deixa isso bem claro. Era contra seus princípios deixar o mundo iludido pelo sonho de Ozymandias, por mais que o resultado parecesse positivo, ele era contra matar milhares de pessoas inocentes e enganar todas as outras existentes no planeta.

Ai, vale a pena ressaltar que a discussão fica apenas num nível. Provavelmente Ozymandias se ache superior aos demais e por isso mais valioso. Eu me vejo como Rorschach, igual a todo mundo. Meu ideal não é melhor que o de ninguém. Existem regras e elas valem pra todo mundo, dentro delas eu luto por aquilo que acredito sendo eu o responsável total por isso. Digamos que alguns aspectos de minha vida sejam bastante semelhantes a escolha que Rorschach fez de manter-se na ativa mesmo sendo contra a lei. São pontos tão importantes dentro do que eu considero correto que coloco esses valores acima de tudo.

Quem não tem valores assim?

Final Eyes – Yes

Nunca seremos livres porque a liberdade plena nos amedronta

Umas quase férias de fim de ano, pouca gente pela internet, resolve dar um tempo nos textos. Hoje eu retorno falando de mais um personagem de Watchmen. Falo hoje da Silk Spectre, uma personagem a meu ver bastante interessante. Praticamente forçada a se fazer heroína pela mãe, nunca curtiu a ideia de sair por ai com roupas provocantes batendo em bandidos. Acabou se tornando namorada do ser mais poderoso do planeta e relegou-se a esse papel por um longo período de sua vida.

Inicialmente podemos imaginar uma discussão sobre a visão e o papel da mulher. Visto que ela é a única heroína dessa fase da história. Numa fase anterior tinham mais, sua mãe e até uma heroína que foi assassinada por ser lésbica (Silhouette). A primeira Silk Spectre é tão singular quanto a filha. Entrou na vida de heroína pela fama e glamour. Foi uma garçonete que mudou de vida. Apaixonou-se por um homem que tentou estuprá-la (e foi o pai de sua filha). Acabou casando-se com seu agente quando se aposentou da vida heróica.

Quando penso nas duas, a canção Final Eyes do Yes (clique para ouvir) me vem a cabeça. Sempre imagino, principalmente a segunda Silk Spectre cantando essa música. Na sua busca por uma vida simples comum e lógica. Apesar da música falar de um mundo equilibrado, de certa forma pregar troca positiva entre os seres de ambos os sexos, um aprendizado constante (e nessa parte eu acho que tem tudo a ver com a segunda Silk), vejo as duas heroínas como um subproduto submisso de uma visão machista da sociedade.

A primeira viveu sonhando com o sucesso e curtiu ter sido vista como mulher objeto. Seu amor pelo Comediante que tentou violentá-la é algo também marcante. A segunda, filha da primeira e do Comediante, é totalmente levada pela história. Totalmente submissa, virou heroína porque a mão definiu. Abandonou a carreira depois que se casou com o homem mais poderoso do mundo e viveu a sua sombra, sem vontades, sem desejos, sem intencionalidade.

Apenas quando se rebela e acaba tendo um envolvimento com Nite Owl é que aparece algum traço de poder de decisão em suas ações. Somente alguém tão inseguro quanto Dan Dreiberg pra fazer aflorar algum mínimo de esforço em ação dela. Na verdade, raros são os momentos em que ela apresenta algum resquício de vida. Parece sempre morta, um boneco nas mãos dos outros. Alguém que demora para se reencontrar.

Outra coisa que me chamou a atenção é a ausência de personagens femininos fortes, as duas Silk Spectre são bastante interessantes, mas nenhuma das duas tem força. Silhouette que é citada rapidamente aparece apenas pra mostrar a cultura altamente conservadora do povo retratado, sendo morta por sua orientação sexual. Aliás, Ozymandias em vários momentos aparenta uma figura andrógina, em alguns momentos parece homossexual, tudo de forma extremamente velada, como se fosse para levantar mesmo a questão do tabu nessa sociedade.

Penso que muitas vezes o nosso mundo é mais conservador e preconceituoso do que deveria. Os papéis muitas vezes são extremamente bem marcados. De certa forma para sair da fantasia imposta pela sociedade a cada grupo que se faz parte, precisamos de um esforço tremendo, super-humano. Homens fazem A, mulheres fazem B, pessoas que moram no bairro tal fazem C, torcedores do time tal fazem D. Tudo parece um script escrito a tempos e decorado por todos, sendo passado de geração em geração como um ritual mágico.

Dentro desse sistema, infelizmente se torna difícil realmente viver. Agimos como bonecos pré programados. Robôs com uma curta autonomia na programação. Quando alguém foge dos padrões esperados chama a atenção bem mais do que deveria e invariavelmente de forma muito mais depreciativa do que positiva. Temos medo do diferente e por mais que busquemos mudanças em nosso modo de ver e agir, essas mudanças devem estar previstas nesse sistema pré-determinado. Os limites são mais claros e fortes do que imaginamos. Nos iludimos ao dizer que somos livres porque em nossa vida, toda liberdade é relativa.

No fundo, a ideia de uma vida simples, de um jeito simples onde se dá um passo de cada vez é o ideal que todos esperam encontrar. E no fundo, é justamente disso que fugimos, ninguém quer ver-se preso, mas ninguém realmente sabe ser livre. É duro viver assim. Por vezes vejo que não consigo me situar nesse universo dessa forma. E você? Até que ponto é livre? Até que ponto consegue fugir dos estereótipos comuns que a sociedade nos prega? Consegue ser feliz dentro desse sistema?

The Long And Winding Road – The Beatles

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a beleza das estradas sinuosas está nas coisas que se escondem em cada curva

Fecho hoje o tema das saudades. A última delas nem é tão saudade assim, é mais uma sensação pessoal de orgulho e dever cumprido. Quem nunca se sentiu a pior das pessoas por não ter conseguido levar adiante uma história importante em sua vida? Quem nunca se culpou e acreditou que cometeu todos os erros do mundo, fazendo com que toda a culpa realmente residisse em suas costas?

Eu vivi isso por um longo tempo. Achei-me incapaz de acertar. Diziam-me que o tempo cura tudo. Confesso que não me curou. A cura veio de outras fontes, bem menos nobres e muito mais interessantes. A verdadeira cereja do bolo, entretanto, veio de outro local. Surgiu da percepção real de que sou importante, quando o calo aperta, a coisa complica, é meu telefone que toca, mesmo com certo receio, é meu auxílio que é solicitado.

Percebo as vezes um leve mal estar em me procurar. Sinto o peso, como se fosse sempre a última opção. Ai me vem a cabeça uma canção dos Beatles. The Long and Winding Road, o caminho até mim se tornou uma estrada longa e sinuosa, dolorida, mas necessária em alguns momentos.

Uma lida rápida pode parecer que eu esteja saboreando algum tipo torpe de vingança. Nada a ver com isso. Até tenho sim meus senãos com algumas histórias, entretanto, hoje o que mais quero é escrever outras. Meu último post deixa isso bem claro, aliás, o último post tornou-se quase um mantra. O que vale ressaltar aqui, é que sim, me sinto bem em perceber que não errei. E principalmente, me sinto ótimo em saber que eu perdi bastante, mas honestamente teve gente que perdeu mais do que eu.

Reconhecer que tenho algum tipo de valor está fazendo um bem danado pro minha auto-estima falida. Eu sempre assumi que sou muito bom em algumas coisas e que sou péssimo em diversas outras. No geral o peso das diversas outras é maior do que as algumas coisas. Típico de quem não tem muito amor próprio.

Talvez semana que vem eu volte em textos novamente mais gerais, com mais opiniões minhas sobre o mundo, temas realmente substanciais e fora desse meu universinho podre e depressivo. Até porque pouca gente leu ou comentou o que escrevi. Mas tenho que admitir que precisava desabafar ou então ruiria de vez. Assim, se quiser, deixe ai um comentário, dê uma sugestão de tema que eu prometo ler e responder já nessa semana que se inicia.

London, London – Caetano Veloso

Poderíamos ser como as aves que não reconhecem fronteiras

Hoje as fronteiras diminuíram, é muito mais fácil chegar ao outro lado do mundo, seja através de um computador, seja fisicamente. Ficou muito mais barato, rápido e acessível se aventurar por cidades, estados, países distantes. Muita gente nasce numa região do globo e por motivos diversos acaba em outro lugar.

Essa facilidade deveria diminuir as diferenças entre os povos. As pessoas deveriam respeitar-se mais, aceitar mais o modo de ser e pensar dos outros, os costumes de cada um deveriam ser aceitos. Infelizmente não é o que ocorre. Poderia hoje falar do que ocorre no Oriente Médio, mas deixarei essa discussão para a próxima semana. Quero me prender ao preconceito religioso mais adiante.

Hoje eu quero falar das pessoas que passam por situações embaraçosas fora de sua terra natal. Tenho vários amigos que saíram ou do país ou mesmo de suas cidades aqui dentro do Brasil e em maior ou menor grau se envolveram com algum tipo de preconceito (ou para com ele ou por parte deles). Para isso, uso a música London, London (clique aqui para ver um clipe) do Caetano Veloso. A música fala de como ele se sentiu exilado em Londres durante a ditadura no Brasil.

Justamente essa música serve de ponte para falar de uma amiga minha (e leitora desse blog) que mora na Alemanha (clique aqui para ler as histórias dela sobre a vida na Alemanha). Resumindo sua história, ela casou-se com um alemão e mudou-se para uma pequena cidade alemã, vale a pena ler o que ela fala sobre seu período de adaptação. Retirando de seu blog, cito um fato curto pra explicar o modo como as diferenças são grandes. Aqui enviar os idosos para um asilo causam uma briga familiar fortíssima, os idosos ficam com a família, lá mandar para asilo é o mais comum. Aqui a gente se cumprimenta com beijo e abraço, anda agarrado mesmo, lá, até marido e mulher não são tão grudados assim.

Imaginem as complicações, você é visto como um diferente e vê os outros como diferentes. Você é visto como dado e fácil por querer beijar todo mundo no rosto num país mais reservado e vê os outros como frios. Essa é uma impressão geral, claro que com o tempo isso muda. Aliás, segundo a flor (dona do blog, acredite vale mesmo a pena ler), só quando ela resolveu parar de reclamar e cair de cabeça na cultura diferente a coisa facilitou.

Ela fala de viver como turista, aquele que se diverte com tudo. Infelizmente não é bem assim. Amigos meus foram para países da Europa a passeio. Falam da forma como alguns foram mal unanimidade. Apesar de falarmos a mesma língua, a comunicação não é fácil. A forma de tratamento parece trazer ainda resquícios coloniais e o comportamento dos povos é extremamente diferente. As pessoas que conheço e para lá foram de mala e cuia relatam que a demora para serem aceitos é muito grande. Por outro lado, quando você vai de uma nação mais economicamente poderosa, o tratamento é outro.

Isso ocorre aqui também. Veja como tratamos os bolivianos do Bom Retiro e a forma como tratamos os turistas europeus em Copacabana. Tratamos de forma diferente, infelizmente. Idéias de dominação e dominado ainda persistem nessa convivência. Estende-se o tapete vermelho a quem traz os bolsos cheios e trata-se como lixo quem vem de regiões periféricas.

Algo que ainda bem não é tão comum aqui é o massacre cultural. Aqui se permite que os bolivianos falem em castelhado, os coreanos em seu idioma nativo e os turistas em geral não são recriminados por sua língua. Os costumes também são liberados, aliás, acho que deveríamos até dar um pouco mais de valor ao que nós produzimos, nessa confusão perdemos um pouco da nossa própria história cultural.

Em alguns países, até mesmo manifestações culturais são perseguidas. Vistas como coisa de terceiro mundo. Como se só a cultura do dominante valesse a pena. Algo que gosto é ver aqui diversos bairros étnicos, mas mais interessante que isso, ver nesses bairros tudo misturado. Sushi man nordestino. Tocador de sanfona árabe, esfiharia dejaponeses. Essa miscelânea deveria ser o mundo moderno. Infelizmente não é.

Aliás, já que falei de nordestinos, alguém consegue me explicar o porquê das idéias separatistas do sul? Porque falam tanto mal dos nordestinos? Afinal somos todos brasileiros e iguais. Talvez falte coragem para admitir isso, mas é a mais pura verdade