O Parque da Juraci – Genival Lacerda e Zeca Baleiro

Só é possível que você sente numa dessas cadeiras na beira da praia porque alguém as fez e as colocou lá

Na quinta eu falei da relação causa e efeito nos relacionamentos, mas ela atinge todos os pontos da nossa vida. Por mais que eu deseje isso (tenho que admitir), não dá pra viver isolado do mundo ou mesmo independente das outras pessoas.

Um exemplo disso é a música que eu escolhi para este texto. Adoro Zeca Baleiro e ouvindo uns CDs antigos encontrei essa música gravada junto com o Genival Lacerda. O clipe encontrado no youtube (clique aqui para ver) para o Parque de Juraci também é bastante divertido. Até porque não dá pra levar a sério nem fugir do riso em qualquer situação que o Genival Lacerda apareça. Até o hábito que ele traz em suas músicas de trabalhar com sentido duplo aparece, onde a frase Juraci que parque é confundida com Jurasic Park. Confesso que gostei da tirada dos autores do clipe.

Mas voltando ao que interessa. Na música, o Zeca fala que recebeu um convite para visitar um parque com a Juraci, mas ao chegar lá o parque já não existe, foi substituído por um restaurante por quilo. Ele descreve a história demonstrando as sensações que tomam conta do cantor. Primeiro a alegria eufórica pelo convite e depois a raiva e ira ao perceber-se sem o parque e de certa forma enganado.

Quantas vezes isso não acontece diariamente conosco? Você planeja algo nos mínimos detalhes, deixa tudo bem claro, porém, devido a outras pessoas seu planejamento vai por água abaixo. Por mais óbvio que alguns comportamentos possam parecer, nunca podemos prever o que o outro fará em determinada situação.

É comum no trabalho você seguir seu ritmo e se ver parado, pois depende do serviço do outro que ainda não fez a sua parte. Você se arruma pra sair e vai ao ponto de ônibus num dia chuvoso e um motorista passa numa poça te sujando inteiro no dia de uma entrevista de emprego. Coisas assim, bem lei de Murphy acontecem aos montes.

Talvez eu pareça um tanto misantropo, aliás, talvez eu até seja mesmo. Mas confesso que muitas vezes gostaria de depender menos do outro. Gostaria que as minhas ações fossem mais responsáveis pelo que sou e pelo que produzo do que as ações dos outros. Entretanto, sei que isso não passa de um sonho irreal e distante. Não existe independência social, até o mais isolado dos ermitões sofrerá as ações de pessoas que ele nem ao menos sabe que existem.

Confesso que algumas vezes essa dependência me dá medo. Gostaria sim de poder depender mais de mim em diversas situações. Gostaria de controlar mais partes de todos os processos que fazem parte da minha vida. Pelo menos em alguns aspectos. Assim como em muitos casos também gostaria de não intervir tanto na vida do outro.

Sei que muito da minha atividade profissional é feita para o outro. Sem a resposta do outro não vale a pena escrever, fotografar, dar aulas. Aliás, dar aulas talvez seja uma das ações que mais influencia na vida de outras pessoas. Eu sei disso e nem é esse o ponto que me preocupa. Nessa linha, o que me preocupa é algumas vezes encontrar pessoas que observam você como um guia a ser seguido.

São pessoas que atuam de forma completamente oposta ao que eu penso. São pessoas que deixam tudo na mão do outro e assumem isso. Suas idéias nunca são exatamente suas, nem as vontades. São pessoas que precisam de líderes sempre e infelizmente gente que é manipulada e parece gostar disso. Gente que não percebe que pode sim mostrar quem é e a que veio.

Provavelmente a situação correta seja o meio termo, nem sentir o incômodo que eu sinto nessa dependência e muito menos não perceber que se pode interagir sem aceitar tudo pronto. Sei também que atuamos de forma diferente em cada situação. Se quiser, conte uma situação em que se sente incomodado com a dependência do outro para algo em sua vida, ou então uma situação em que adora isso.

Erotica

Criar uma imagem falsa sobre ser belo e atraente às vezes funciona como fuga para algumas pessoas

Continuo falando de Internet nessa semana. O tema é bastante vasto e a forma como nos relacionamos com ela sempre traz a luz diversas boas idéias para se discutir. Hoje voltando para casa do trabalho (viva, férias!!!) Rádio ligado numa emissora que não falava do trânsito (viva, férias!!!) e as músicas rolando. Eu estava meio sem idéias pra música de hoje. Quero falar de um tema meio pesado. E até controverso. Sexo Virtual. Pensei em colocar eu sei do Legião Urbana, pensei em alguma outra canção eletrônica como a Computer Love, mas nada me agradava.

Ai o rádio me deu a solução. Fazia um tempão que eu não ouvia Madonna. Nessa onda de comoção pela morte do Michael Jackson, a rainha do Pop seria a melhor solução. Enquanto Michael sempre fez de tudo pra infantilizar-se, Madonna explora a sua sexualidade ao máximo, canção como Material Girl, ou Like a Virgin exploram bem o assunto sexualidade.  Logo para o que eu pretendo discutir hoje, ela é a artista ideal. Dentro do seu repertório, a música que mais me cativou para o tema foi a mais escancarada. Erotica,música que dá título ao álbum lançado em 1992 praticamente descreve uma transa. E é justamente disso que quero falar. Talvez use Justify my love no próximo post.

Calma pessoal, não vou aqui ficar contar preferências ou narrar contos eróticos, nem tenho cacife pra isso. Mas vale a pena falar de algo que até hoje nunca entendi. O sexo virtual. Conheço gente que só paquera, namora e transa pelo computador. Gostaria de saber como isso é possível. Fantasiar até faz parte do jogo, mas apenas fantasiar me parece até certo ponto medo demais.

Outro dado interessante é o alto número de sites eróticos que existem na internet principalmente a quantidade de gente que dá vida a esses sites, muitos deles com acesso restrito. As salas de chat erótico também fazem um sucesso tremendo e ver o que as pessoas buscam nelas em parte é o tema deste post.

Conhece-se gente em tudo quanto é lugar, até na internet. Isso é um fato normal e corriqueiro. Ao se conhecer as pessoas, a tendência é que relacionamentos surjam, amizade, ódio, namoro, casamento, seja lá o que for, as pessoas se relacionam de uma forma ou de outra. Com o advento da internet e a facilidade de comunicação surgiu uma parcela da população que se comunica e até jura amizade e fidelidade mesmo sabendo que nunca vai se ver ao vivo. E dentro desse grupo, vale a pena falar de outro grupo. Um pequeno grupo que cria todas as suas relações, inclusive as sexuais totalmente pela internet.

Para escrever esse texto, por uma semana visitei chats eróticos de grandes portais como Terra e Uol, queria entender o que era aquilo que as pessoas me falavam e principalmente ver se valia a pena gastar teclas com o assunto. E confesso que rendeu muita risada e principalmente medo.

Eu ri de muitas das histórias que li nos chats, dos comportamentos que observei e tive medo de algumas ações. Tem horas em que você percebe que as pessoas envolvidas naquele espaço virtual enxergam aquilo como realidade e fazem de tudo para viver aquilo como real. Procurei conversar com algumas pessoas sobre o que exatamente ocorre ali, porque fazem uso do espaço e coisas do gênero. Poucos estiveram abertos a esse tipo de contato.

Mas no geral, o que encontrei foram pessoas tímidas que disseram não conseguir nada fora dali, nem mesmo conhecer pessoas ao vivo. Então criam um personagem e expressam toda a sua sexualidade reprimida ali. Vivem aquilo de forma intensa e sentem aquilo como se realmente fosse o sexo mais real, divertido e saudável da face da Terra.

Tem o grupo dos que se dizem frustrados com seus relacionamentos reais e buscam apimentar as relações, partindo inclusive para encontros reais e algumas vezes com seus parceiros do mundo real, mas isso é tema pra outro post. E o terceiro grupo, menor, é o de gente que entra ali simplesmente pela farra, tirando sarro da situação e dos envolvidos, inclusive eles mesmos, por passarem horas de seu dia imaginando coisas e escrevendo para que possam se masturbar. As pessoas que buscam realidade mesmo, conhecer as pessoas ao vivo e tudo mais formam um grupo extremamente pequeno.

Nesse jogo virtual, me intrigou o primeiro grupo. Gente normal que se acha menos, gente que fantasia para poder ter uma sensação real que não consegue. Gente que tem medo e nem sabe ao certo do que. Um número extremamente alto de gente que foge de sua própria realidade.

Vejam, eu não critico a fantasia, acho saudável até. A indústria erótica movimenta muita grana e de forma honesta emprega muita gente. Estimula e brinca com o desejo de muitas pessoas e de muitas formas. Em alguns casos, realiza esses desejos ou os torna viáveis. O que eu critico aqui é o apenas fantasiar, viver num mundo de fantasia sem ter consciência disso. A música da Madonna fala de muitos desejos, brincadeiras e formas de se satisfazer sexualmente, se a pessoa se sente atraído por elas, por que não fazer ao vivo? Por que apenas fantasiar na frente de um computador?

Pela Internet

A internet permite que você se sinta como no lugar da foto sem sair de casa.

Chegou o momento de falar do meio que uso para me comunicar com vocês. A internet, maravilhoso mundo virtual que faz com que gente do Japão possa saber o que eu penso e comentar as besteiras que eu escrevo. Já faz um tempo que eu queria usar o tema, escolher a música foi fácil, Gilberto Gil colaborou porque Pela Internet é perfeita para o que eu penso em falar hoje. Só demorei porque alguns temas acabaram ficando mais urgentes na cabeça de quem me lê.

Mas chegou o momento, confesso que tenho mesmo que criar meu website, fazer minha homepage com aquilo que faço e quero divulgar. Me falta habilidade pra aprender e encontrar a pessoa certa para isso. Mas é questão de tempo, até meu pai tem site , em fase de finalização, onde divulga o trabalho que faz com na área de recursos humanos.

Para mim, a internet é isso. Exatamente o que meu pai faz e o que eu faço aqui no meu blog. Um espaço onde você mostra ao mundo o que sabe fazer e recebe críticas ou elogios. É um centro de troca de informações. Um lugar para se conhecer gente (tema do próximo post) e para se aprender muito com gente. O uso correto da rede é simplesmente maravilhoso.

Como educador sempre vejo críticas fortes contra o uso da internet feito pelos jovens. Eu sou daqueles que acredita que mais importante do que proibir é ensinar a usar. Quase toda informação produzida nos dias de hoje pode ser encontrada na rede, por que não fazer uso dela? O que é importante é saber como fazer isso. Como selecionar a informação correta e principalmente como julgar aquilo que você lê. Porque mais importante do que a informação é o que se faz com ela e justamente é esse o grande ponto da educação atual, todos têm acesso a informação, mas quantos conseguem fazer algo de proveitoso com o que sabem?

Talvez seja esse o problema da internet, não o que ela traz, mas sim quem tem acesso ao que ela traz. É incrível a quantidade de absurdos que se lê por aqui. Mas também é incrível a quantidade de absurdos que encontramos em livros, nas ruas, na televisão, em qualquer local que se conviva com gente vamos viver cercados de absurdos. Mas também cercados de coisas úteis. O jogo correto é saber no que você quer se prender, ao útil, ao fútil ou ao perigoso?

Sim, é claro que sei que nem sempre tudo o que lemos deve ter alguma utilidade prática. O prazer faz parte do jogo, pode-se jogar, bater papo informal, conhecer coisas e nem por isso se perde tempo (se não for feito de modo excessivo). O problema é a informação perigosa, coisas do tipo como fazer uma bomba caseira, marcar brigas em sites de relacionamento e coisas afins. Esse é o erro de comportamento a ser caçado.

Aliás não consigo entender como tem gente que consegue gastar seu tempo com isso. Cada um faz suas escolhas, mas tem escolhas que nem deveriam ser cogitadas. Existem formas muito mais saudáveis de chamar a atenção e de maneira muito mais positiva para a própria imagem.

Eu disse o que penso, mas e você, que uso faz da internet? O que acha dela? No texto de quinta-feira falarei dos relacionamentos virtuais. Até lá.

Quantas vitórias cantem meus versos…

toda vitória deve ser vista como algo tangível e tridimensional, apresentando sempre diversas marcas, por isso nem toda vitória tem sabor agradável
toda vitória deve ser vista como algo tangível e tridimensional, apresentando sempre diversas marcas, por isso nem toda vitória tem sabor agradável

Pego carona na letra de Oswaldo Montenegro para começar este post, sei que ando afastado, peço desculpas aos leitores, problemas pessoais me afastam daqui mais do que gostaria. Continuo hoje falando das vitórias, na verdade hoje a idéia é dar um passo além. Quero falar das vitórias incompletas, aquelas que fazem um grande sucesso nas histórias em quadrinhos. As vitórias dos heróis, onde mesmo sabendo que a vitória surgirá, um sentimento amargo de derrota tomara conta dos envolvidos.

De novo esse tipo de sensação é comum nos quadrinhos, o herói em questão muitas vezes sabe que para conseguir seu intento terá que sofrer ou muitas vezes morrer. Esse é o lado nobre desse tipo de acontecimento. Entretanto (sempre tem um entretanto), existem outras vitórias assim incompletas sem a mesma nobreza. O nosso sutil comportamento humano traz tantas nuances que muitas vezes o sabor da vitória torna-se tão amargo que se torna intragável e passamos a questionar se realmente o fato não foi uma derrota ao invés de uma vitória.

Passei por acontecimentos assim ultimamente, na verdade se analisar friamente, esse tipo de vitória é até mais frequente do que aquelas vitórias a serem ardorosamente comemoradas. Isso, é claro, se você não for daquelas pessoas que se prende apenas ao resultado, mas se interessa também por tudo o que cercou a vitória, analisa as escolhas feitas e principalmente todos os efeitos que essa vitória terá nos envolvidos no processo (derrotados inclusive).

E ai é que a coisa toda se torna dolorosa. Afinal, raramente uma ação é tão isolada a ponto de não afetar outros acontecimentos. E em alguns casos esses acontecimentos nem são tão próximos assim. São situações por vezes distantes que se entrelaçam devido a improváveis relações entre os indivíduos.

É uma derrota num jogo que faz com que o ânimo de uma equipe se renove. É a promoção de uma pessoa a um cargo de chefia que esfria suas relações sociais e por isso mesmo a faz ficar ressentida até das pessoas de sua família. É uma informação que demora a chegar e que por isso modifica o comportamento de uma empresa.

Como diz o efeito borboleta, toda ação pode causar alterações bem distantes do seu local de origem
Como diz o efeito borboleta, toda ação pode causar alterações bem distantes do seu local de origem

Essa fala toda em cima do tal efeito borboleta (aqui falo da visão popular em maior escala e não da científica, por me faltar conhecimento para tanto), surge porque penso que deveríamos sempre nos nos preocupar com os efeitos de nossos atos. E mais do que isso deveríamos julgar esses efeitos na hora de tomar as decisões. Algo que nos aproxime dos ditos heróis, tomar a decisão correta doa a quem doer, porque em qualquer ação que se faça, infelizmente alguém vai se sentir derrotado. E saber a quem vai sobrar a dor, a intensidade dessa dor e principalmente compreender que essa dor será realmente necessária é algo difícil. Talvez seja essa a maior inveja que eu sinta dos heróis dos quadrinhos, esse senso de equilíbrio e a capacidade de trazer sempre a dor para si, minimizando a dor dos outros pelo simples fato de saber que eles aguentam o baque. Nós, pessoas reais, ainda temos a dúvida de até onde aguentamos segurar a onda e infelizmente, uma de nossas primeiras ações é tirar a dor e a responsabilidade de nossas costas e colocar na do outro.

Somos quem podemos ser

A liberdade um pouco acima e a independência, são duas matizes que andam lada a lado em qualquer pessoa

Eu adolescente ouvia discos de vinil. Num dos que eu mais gostava, Humberto Gessinger cantava o verso acima. Nessa música ele falava das descobertas que foi fazendo ao crescer. Quando descobriu, por exemplo, que as nuvens não eram de algodão. Ganhou liberdade com o tempo e aparentemente passou a tomar suas próprias decisões.

Por que aparentemente? Justamente pelo verso inicialmente separado. Em nossa vida não somos quem realmente somos ou gostaríamos, mas sim quem podemos ser. Vários fatores influenciam a nossa ação e o nosso pensamento. Sejam os amigos, os livros, as viagem que fazemos, filmes que assistimos e qualquer coisa que vivenciamos nos ajuda a ser quem somos.

As nossas frustrações é que nos limitam. Elas que acabam dando o limite dos moldes que seguimos. Conforme dito em outros posts, nossos ídolos e a forma como eles nos tocam também modificam nossa formação. As escolhas das tribos que cada um pretende ingressar, frases soltas que surgem nos nossos ouvidos em momentos delicados. Os fatores são tantos que é praticamente impossível uma pessoa conseguir mostrar ao mundo apenas a sua essência.

Essa é mais uma vertente de nossa falsa liberdade. No fundo nossas escolhas todas acabam sendo definidas por limites que não nos pertencem. E ai eu chego perto de começar uma discussão levantada pela Eve. A relação entre liberdade e independência. Não somos totalmente livres porque nossas escolhas são sempre dependentes de variáveis externas a nossa vontade, mas sempre somos independentes nas escolhas que fazemos após termos a liberdade definida.

Vejo, nesse caso, a independência como fruto das escolhas coletivas e a liberdade como a escolha pessoal. Assim encaro a independência como um ideal democrático e a liberdade como um ideal anárquico. Dentro dessa minha limitada linha de pensamento, os homens só são livres dentro de uma realidade definida, nesse caso o tão aclamado sentimento de liberdade é apenas a sensação de comodidade em perceber-se dentro das regras sociais do local onde se está inserido e ai então a possibilidade de se agir tranquilamente de acordo com novas escolhas, as escolhas independentes.

Quando começamos a crescer, essa situação aparenta ser mais confusa em nossas mentes. Quem não foi um adolescente questionando regras? Quem nunca ficou irritado por não poder fazer aquilo que queria? Uma brincadeira de amigos é que na adolescência todos temos em nossas mentes o furor revolucionário das esquerdas tradicionais, por isso tanta revolta e briga popular dentro de grupos estudantis, que se espelham em ídolos bastante padronizados como Che Guevara e Fidel Castro, no caso dos estudantes brasileiros.

Ai o tempo passa e as idéias políticas e sociais de cada um mudam, ampliando o leque de escolhas, quando um pouco mais velhos nos sentimos mais livres para fazer nossas reais escolhas, podemos sair da tribo e ai, realmente independentes podemos escolher se voltamos para a tribo dos esquerdistas ou se mudamos para outra, tudo dentro da nossa pequena liberdade limitada.

Reparem nas canções adolescentes, a inquietude com o sistema é recorrente, bem como o amor, o desejo e o prazer. Os mesmos autores, quando um pouco mais maduros, mudam seu discurso e as letras passam a falar de inquietudes pessoais, as reclamações sociais são outras, já não se quer derrubar todo o sistema, mas sim reclamar de pontos determinados dele, as revoluções deixam de ser totais e passam a ser pontuais.

Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente
Quem consegue fazer bem suas escolhas mesmo obrigado a seguir um caminho pode se considerar independente

Para mim, o entendimento da independência é mais lento do que o desejo de liberdade, talvez por isso eu ache que as pessoas mais maduras são as que conseguem situar-se bem com esse tipo de sentimento. São pessoas que conseguem tranquilamente aceitar a existência de limites sociais para seus desejos e conseguem brincar com esses limites ampliando sua parca liberdade, mostrando-se independentes.

Você se acha uma pessoa independente neste conceito? Gostaria de ampliar sua liberdade em que aspectos? No próximo texto, eu provavelmente deva falar um pouco dos meus limites e da forma como eu lido com eles.

Tribos

No fundo todos pertencemos a uma ou mais tribos

Nos últimos posts os ídolos apareceram como tema central. A forma como os vemos e o tratamos. A busca de um modelo perfeito que possa servir de amparo para a busca de mudanças profundas na nossa sociedade.

Bem ou mal, de certa forma todos temos ídolos, o que muda é a forma como lidamos com estes ídolos. Alguns apenas sentem uma empatia leve por este ou aquele modelo apresentado, outros chegam a uma devoção histérica e religiosa pela pessoa, associando tudo o que acontece de bom ou mal em sua vida aos humores do seu ídolo.

O blog O Estranho Mundo de Camila (na lista dos que eu indico) trouxe um texto interessante sobre o tema.  A Camila não discute exatamente a idolatria, mas a liberdade falsa que acaba interessando a grande maioria da população.  Vale a pena dar uma lida e refletir sobre o que ela postou lá.

Hoje eu vou me ater a outro aspecto da idolatria, o da necessidade que temos de ter ídolos. Afinal o que nos faz seguir um corte de cabelo (como os Beatles fizeram com grande parte dos jovens ingleses e americanos nos anos 60), mudar o time de futebol (muita gente está acompanhando jogos do Corinthians por causa do Ronaldo), mudar até a sua visão política (aqui no Brasil pessoas saem da direita e vão pra esquerda e vice-versa, de acordo com o humor do seu candidato).

nas tribos poucos são os que realmente criam as regras
nas tribos poucos são os que realmente criam as regras

Essa necessidade de ter alguém que sirva de exemplo chega a ser estranho, e como citado pela Camila no seu texto, chega a ser uma forma de não liberdade dentro da liberdade. Afinal, em teoria, todos somos livres para fazer as escolhas que quisermos dentro dos limites que permeiam a vida em sociedade, ou seja, se não prejudicar a liberdade do outro, a minha liberdade é valida.

A impressão que fica é que temos a necessidade de diminuir as particularidades individuais e cada vez mais criarmos um único modelo padrão. Parece que buscamos, apesar das diferenças, sermos todos iguais. Seja corte de cabelo, roupa que veste, música que ouve e até preferências gerais.

Mesmo aqueles com gostos mais distantes do padrão, acabam formando pequenos guetos sociais e nesses guetos procuram disseminar suas idéias. Por exemplo, os brasileiros fãs de uma desconhecida banda lituana vão todos se unir e se possível tentar captar mais fãs para a banda que julgam ser a melhor do mundo. Os torcedores de um time de futebol acabam criando certos hábitos comuns nas partidas de sua equipe. Camisetas muitas vezes identificam os eleitores de determinado grupo político.

 Ai cabe uma breve história sobre o tema. Uma amiga querida algumas vezes brinca comigo por eu ser um eleitor tipicamente neoliberal, totalmente em cima do mundo como ela já me disse algumas vezes. Ela, muito mais próxima da esquerda. Sendo uma mulher muito bonita e até certo ponto vaidosa, gosta de estar sempre bem vestida e arrumada (eu pelo menos nunca a vi desajeitada). Certo dia numa conversa sobre política, disse-lhe brincando que era um fetiche meu vê-la de camiseta branca, cabelo preso, óculos, calça jeans e tênis al star surrado. Justamente o estereótipo do eleitor de esquerda, cultivado inclusive por pessoas que querem voto dessa parcela da população, como a ex-senadora Heloísa Helena.

E podemos extrapolar isso para qualquer outro grupo, como se todos fôssemos distribuídos por tribos. Aliás, tribos é o nome de um programa do canal de TV a cabo GNT que procura tratar do assunto de forma até bastante divertida. Tendo como apresentadora a atriz Daniele Suzuki, a cada programa um grupo é dissecado, mostrando o que une cada tribo. Vi alguns programas e confesso que achei a fórmula interessante, no fundo ele mostra como somos todos robotizados, programados para agir conforme o grupo que nos inserimos.

Parece-me óbvio que em muitos casos pertencemos a mais de uma tribo. Um advogado pode ser também motociclista. Durante a semana ele usa terno e jargões do direito, mas aos finais de semana, pega sua moto e desbrava as estradas com sua jaqueta de couro, mostrando as tatuagens escondidas em busca de shows de rock junto com outros motociclistas.

Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos
Pouco espaço sobra nessas tribos para sermos quem somo se é que sabemos quem somos

E isso levanta outra questão, a nossa mutabilidade. De acordo com o grupo e o interesse momentâneo, temos ações que se modificam, fazendo com que sejamos selecionados sempre pelo meio. Mas isso é um assunto longo e tema pra outro post dessa série que pretende chegar na idéia de liberdade x independência citada pela Eve num comentário de um post anterior.

Paro por aqui, só deixo uma pergunta a quem me lê. Nesse tempo todo viajando de tribo em tribo, em que momentos conseguimos ser realmente quem somos? Totalmente Livres? As mensagens e comentários são muito bem vindos. Percebo que muita gente passa por aqui, mas poucos emitem sua opinião, acreditem, eu respondo a todo mundo…rs

Free as a bird…

Será que somos livres como pássaros?
Será que somos livres como pássaros?

Vinha pra casa, voltando da casa dos meus pais. Dia das mães, dia de reunir a família, como Natal, dia dos pais e outras datas. Corrida pra comprar um presentinho agradável (esse ano a conta bancária não permitiu, foi mal dona Nair), filas em shopping center, almoçar fora, um churrasco, essas coisas todas.

Enfim, voltava pra casa dirigindo, no intervalo do jogo (meu time perdeu, fazer o que?) mudei de estação e os versos da música que dá título ao post começaram a ecoar. Fiquei pensando, eu sou livre. Sou livre como qualquer pássaro. Era ao menos isso o que vinha na minha mente naquele momento.

Mas a música acabou, voltei ao jogo, confesso que estava tão morno que mal prestava atenção no que o radialista dizia. Comecei a pensar de novo na música, na tal liberdade dos pássaros. E vi que não sou tão livre, até já falei um pouco disso no post que inaugurou este blog, mas me deu vontade de retomar o assunto, questionar um pouco essa liberdade.

Vejam, eu moro sozinho, posso fazer o que quiser, não tenho horários muito rígidos e sou o dono de minha vida. Essa frase poderia ser meu mote, ou o mote de milhares de pessoas. Mas um olhar mais próximo trás outras verdades. O que me faz preocupar-me com o dia das mães? Dia dos pais? Natal (e eu nem acredito em deus, imagina em jesus)? Mas essas datas acabam mexendo comigo. Penso nos presentes deles e me policio pra visitá-los. Com a sexta-feira santa é mais ridículo ainda. Por que um ateu vai se preocupar em comer ou não carne nesse dia? Confesso que só me livrei desse dogma a muito pouco tempo, passando a comer o que está disponível, independente da origem do alimento.

Será que eu tenho a liberdade de escolher mesmo o que vou comer? E esse beija-flor?
Será que eu tenho a liberdade de escolher mesmo o que vou comer? E esse beija-flor?

Se viver assim é ser livre, nem imagino o que seja viver preso a algo. É claro que algumas convenções são úteis na vida social, mas e as que não são? Me lembrei do filme Homem Bicentenário, onde o robô vivido pelo Robin Williams queria se tornar humano. O filme é muito interessante, mas dói pensar que no fundo a única conquista realmente humana do robô foi a morte.

Extrapolando isso para o que vinha falando, eu não sou realmente livre, de certa forma sou um autômato que se acha livre, porque tenho hora pra cumprir, como o que é socialmente aceito, minhas roupas também fazem parte dessa identificação. As escolhas realmente livres acabam sendo poucas, como a pessoa amada. Mas mesmo assim, o amor parece parte dessa programação, caso contrário a forma como isso ocorre não seria tão parecida para todo mundo.

Se analisarmos friamente as pessoas, vemos desejos parecidos, parecemos pacotes programados, com desejos pré-definidos, habilidades vindas de fábrica e que usam a escola para aprender a se relacionar com outras pessoas robôs também programadas. E o mais engraçado é que esse programa ainda traz dentro de si a pretensa sensação de ser livre para fazer as escolhas que queremos, mesmo que estas sejam sempre óbvias e previsíveis.

Não somos livres como pássaros, mas livres como robôs (FREE AS A ROBOT)…