Fear of the Dark – Iron Maiden

 

 

Hoje eu tenho sono, muito sono. A chuva cai lá fora, caiu o fim de semana todo. Eu até sai de casa, fui obrigado. Tinha coisas a fazer. Mas a chuva atrapalhou vários dos meus planos. Coisas que eu deveria demorar minutos para fazer, demoraram horas. A cidade parou, como sempre para quando a chuva vem forte demais.

Os últimos dias estiveram quentes, muito quentes e secos e a chuva era esperada. Sempre chove muito nessa época do ano. Sempre muita coisa acontece. Sempre muita coisa fica parada também, é engraçado como enquanto algumas coisas andam e outras travam. Assim como meu sono, ele está presente e forte, mas por mais que eu tente, eu simplesmente não consigo mais dormir.

Nesses momentos em que deito na cama, a luz apagada e os olhos fechados, parece que a vida toda passa diante dos meus olhos. Pesadelos tiram o meu sono como se servissem para me lembrar de toda a minha fragilidade como ser humano. E assim em muitas noite eu choro até cansar e só então adormeço. Eu choro sem nem saber o motivo, mas me sinto leve quando as lágrimas cessam. Em geral é nesse momento que relaxo. Poucas horas antes do despertador tocar. E assim vou cheio de olheiras rumo a um novo dia, esperando que eu consiga quem sabe entender o que me faz chorar toda noite.

O mais ridículo disso tudo é que eu nunca sei o que me leva aos prantos. Eu procuro as respostas faz tempo. Tento de todas as formas entender e nunca consegui chegar a algum lugar. Já pensei ser fruto da solidão. Já pensei ser fruto de algum medo bobo ou até mesmo a sensação acumulada de todas as derrotas diárias. Só que nem sempre eu estive sozinho, nem sempre eu senti medo e nem sempre eu tenho derrotas.

Muitas sessões foram gastas tentando entender o que se passa. O que tanto me incomoda. Enquanto eu olho pela janela e vejo a chuva cair lá fora. Enquanto eu tento adormecer e não consigo. Eu sinto um desespero crescente que me leva a um choro doloroso e triste.

Hoje eu resolvi sair na chuva, sentei lá fora e deixei cada gota me tocar. Na esperança de que elas lavem minha alma e levem consigo toda a dor que eu sinto. O medo que parece vir do escuro na verdade vem de lugar algum. Ou melhor vem de algum ponto obscuro da minha mente. Vem de algo que um dia quem sabe eu perceba o que é. Quando eu ficar maduro o suficiente para entender essa dor.

Porque as dores só são realmente dores quando a gente sente sem entender. A partir do momento em que elas passam a fazer sentido, se tornam coisas que a gente pode vencer. Talvez por isso se cante tanto o medo. Talvez por isso se crie tanto a partir de alegorias mórbidas, elas atraem, elas tentam mostrar para todos o que é que pode amedrontar, funcionando assim como uma forma de aprendizado, uma força nova que sirva para transformar os medos em piada.

Pensei até em colocar aqui medo da chuva, mas a chuva mesmo sempre me atraiu, nunca me assustou. Sempre gostei de correr por entre os pingos e sentir a pele molhada até que a roupa fria encharca e traz mais frio ainda. Isso nunca me incomodou. Sempre vi na chuva uma forma de limpar a mente. Gosto de ver a chuva cair como ela cai agora. Gosto de ver os desenhos que as gotas formam nas janelas e tento imaginar formas e respostas para meus problemas em cada tempestade.

Por isso eu coloquei o medo do escuro. Não que ele realmente me amedronte, mas sempre vi no escuro o prazer do desconhecido. O prazer da dúvida, o sentimento de não saber o que existe adiante, aliás, o que existe além dos olhos, já que eles nada podem ver no escuro total. É o momento de confiar nos outros sentidos, aqueles que a gente quase sempre esquece e muitas vezes nem sabe como usar.

Aliás talvez seja isso que me faça chorar tanto. Não perceber o que acontece nesse mundo onde eu existo. Nem sei porque eu existo aqui. Não sei porque nós existimos e tento sempre entender o que se passa ao meu redor. Mas sem ler as pessoas que me cercam fica muito difícil. Talvez eu sinta medo daquilo que deveria saber e não sei. Aliás tanta coisa assim existe. Tanta informação passa diante dos meus olhos sem que eu veja, próximas aos meus ouvidos sem que eu ouça, arranhando a minha pele sem que eu sinta. Mesmo que eu veja todo mundo ao meu redor reagindo a algo que eu não consigo perceber.

Não sei se você se sente assim as vezes. Mas eu me sinto assim todas as noites. Quando eu percebo que perdi muitas coisas no escuro em que vivo. Como se existisse uma venda em meus olhos me impedindo de ver aquilo que está diante de mim. Você já se sentiu assim alguma vez?

Starman – David Bowie

 

 

Pena que a noite está nublada, choveu o dia todo, aliás ontem também choveu, em algumas cidades choveu demais e gente morreu. Pena as nuvens carregadas no céu. Eu queria ver as estrelas. Queria hoje poder olhar pro infinito. Na verdade eu queria poder viajar pra bem longe. Muito longe. Até pra poder ver se consigo entender o que acontece nesse mundo louco onde eu sobrevivo.

Não posso reclamar da minha vida. Seria loucura fazer isso exatamente nesse momento. Entretanto, é estranho olhar ao redor e ver coisas acontecendo sem poder fazer nada. Quem nunca quis mudar o mundo? Quem nunca sonhou com um lugar melhor do que esse? Eu tenho dessas crises de tempos em tempos. Ai eu gosto de olhar pro céu, procurar as estrelas que eu conheço e me sentir viajando, buscando um novo mundo, um mundo perfeito.

Quando pequeno eu já olhava o céu procurando ajuda. Olhava o céu imaginando que alguém viria das estrelas resolver tudo de errado que eu via. Com o tempo perdi um pouco desse hábito, acho que nem meus pais devem se lembrar ou até saber que eu gostava de olhar as estrelas. Um hábito que acabei retomando nos últimos anos, muito por causa dos meus alunos. Agora não espero mais que venha um salvador de um planeta distante, mas gosto de ver a dança das estrelas durante a noite.

Me acalma ver Órion e Escorpião fugindo um do outro, ver a Lua, aparecer e sumir, diminuir e aumentar de tamanho. Aliás músicas aos montes falam do espaço, acho que nenhuma delas consegue expressar tudo o que eu sinto ao ver o céu. Um link que vi no facebook (e compartilhei) talvez se aproxime bastante do que eu imagino do céu Clique Aqui.

Eu sempre vi o céu como uma melodia especial. Tudo dançando no ritmo de um belo e audível som. Uma orquestra afinada e bem regida. Uma sinfonia eterna onde os os acordes nunca se repetem, porque nunca os corpos vão estar no mesmo lugar novamente. É uma música fluida e leve. Suave aos ouvidos. Que no fim das contas sempre encanta quem se presta a ouvi-la.

Acabei colocando Starman no post porque hoje eu queria que de novo viesse um ser do espaço. E porque eu adoro a música do David Bowie, mais do que a versão nacional Astronauta de Mármore (cantada pelo nenhum de nós).  A música me faz viajar, fico imaginando um ser vindo de um mundo distante e corrigindo tudo o que está errado por aqui.

Não penso num ser que deva ser adorado, seria muito mais fácil seguir uma religião se fosse esse o sonho. Penso num ser normal, só que com problemas diferentes, problemas que talvez a gente pudesse resolver enquanto ele resolve os nossos. Que ele venha de um mundo sem fome, sem doença, sem desemprego, sem burocracia, sem guerra, sem os nossos males. Em troca a gente poderia sei lá entregar pra ele a nossa boa música, a nossa poesia, a nossa arte. Aquilo que a gente tem de bom.

Aliás, é engraçado como eu acabo vendo o mundo meio dessa forma desde moleque. Sempre acreditei que era mais fácil resolver os problemas dos outros e que assim alguém me ajudaria a resolver os meus. Uma espécie de escambo emocional. Eu troco a resolução da briga que você teve com seus pais pela melhoria da minha auto estima. Maluco isso, eu sei, totalmente sem sentido. Mas era como essa criança pensava que tinha que ser o mundo. Pensando bem é assim que as coisas são vendidas pra gente durante quase toda a nossa infância.

Quando chega o Natal te perguntam se você foi um bom menino, várias religiões pregam que se você for bom será recompensado pela divindade do templo em questão. Quando você cresce passa a trocar o seu tempo no trabalho por dinheiro que será trocado por uma série de outras coisas.

É estranho como quase tudo pode ser visto como uma troca. Como raramente algo é totalmente livre de interesses. Mesmo que os nossos interesses mais básicos fora do âmbito biológico não passem de amor, carinho, amizade, companheirismo e principalmente paz. Aliás, até a paz acaba muitas vezes sendo comprada e negociada.

Por isso eu me refugio hoje olhando as estrelas. Pena que nem a lua está visível nessa noite. O jeito é tentar dormir, quem sabe durante o sono o homem do espaço aparece e traz com ele a cura pras doenças dos amigos e parentes, o emprego que falta pra quem tanto procura, alguém que aqueça os corações mais solitários ou pelo menos a paz necessária para que todos consigam passar por toda a dor que agora sentem de maneira mais tranqüila.

Elephant Gun – Beirut

Tem dias em que tudo parece bom e perfeito. São os dias que a gente quer que não terminem nunca. Existem, porém, outros dias. Aqueles que pouco importa o que aconteça não fedem nem cheiram, os tais dias comuns em que a gente mal liga se está alegre ou triste, na verdade nem percebe isso. E infelizmente também existem os dias em que o mau humor impera. Em que tudo o que a gente faz parece incomodar em maior ou menor grau.

São nesses dias de baixa, onde a auto estima some, que a gente se perde e deixa os fantasmas virem a tona. Dias em que se coloca uma música no último volume e a mente voa ao som dos acordes escolhidos. Dias em que a gente só quer que as horas passem. Dias em que a gente fica pensando besteira sobre nossas dores e acha que a dor que sentimos é a pior do mundo, mesmo tendo total consciência de que tem gente passando por coisa realmente pior e que a nossa dor é apenas dor de consciência.

Eu hoje escolhi uma música que estou ouvindo a dias, até falei dela rapidamente com uma amiga ontem. De uma banda que conheci a pouco tempo e com um vocal chorado, tudo a ver com meu dia de auto piedade sem sentido. Escolhi Elephant Gun, porque gosto de ouvi-la e porque a letra tem bastante coisa a ver com o que eu estou pensando/sentindo hoje. A segunda estrofe diz exatamente o que eu quero fazer com meus fantasmas.

“Longe de casa, com armas de caça

Vamos abatê-los um por um

Nós vamos derrubá-los, eles não foram encontrados, eles não estão aqui. ”

Eu queria mesmo poder atirar nas minhas incertezas e em meus medos. Queria poder acertar bem entre os olhos da minha insegurança e descobrir o que me impede de dar um passo adiante. Queria matar minhas fraquezas com a mesma frieza de um caçador diante de presa. Por outro lado, vale a pena também pegar outro trecho da música.

“Se eu fosse jovem, eu fugiria desta cidade

Enterraria meus sonhos debaixo da terra

Assim como eu, nós bebemos até morrer, nós bebemos essa noite”

As vezes me sinto velho demais. Um erro besta, pois o que eu temo pode até ser algo velho, mas não eu, de certa forma ainda sou jovem e posso sim mudar o que aparece diante dos meus olhos. Talvez eu precise mesmo fugir dessa cidade fantasma onde me escondi e enterrar nela o que me prende a esse passado. Não enterrar meus sonhos, eles me permitem ficar vivo e eu sei que dependo deles. Também admito que de certa forma eu também seja fruto dos meus medos, mas quando esses medos fazem os frutos apodrecerem nas árvores, impedindo as aves de coletá-los, chega a hora de se desfazer do espantalho emocional colocado no meio do pomar.

Talvez esse tipo de reflexão seja a única coisa boa de um dia de mau humor. Afinal, nos dias bons a gente esquece aquilo que nos incomoda, porque existem coisas que superam essas dores. Nos dias normais, a gente pode até perceber o incomôdo, mas está tão blasé que deixa a vida seguir. Só mesmo o mau humor nos faz reagir.

E é necessário reagir, afinal, enquanto esses fantasmas são pequenos podem ser facilmente derrotados, mas e quando crescem? Ai eles tornam todos os nossos dias ruins. Tudo vira motivo para mau humor. Um sorriso que poderia vir fácil ao nosso rosto vira algo raro e dia a dia passa a ser cada vez mais doloroso e complicado.

Claro que os fantasmas fazem parte da vida de todo mundo. Claro que nunca tudo será perfeito. Mas não custa lutar para que a vida seja a melhor possível. Fugir dos medos é errado, uma hora isso se torna impossível e a gente tem que enfrentar. Se os medos já se tornaram enormes como resolver isso? Onde arrumar uma arma potente para matar o medo? Vamos deixar o medo nos travar? Melhor tentar matar o medo quando um simples bodoque ainda resolve.

E você tem seus medos? Algo que te breque? Algo que parece ser mais forte do que você? Como você passa seus dias de mau humor?

Não Existe Amor em SP – Criolo

 

Raras vezes eu começo um texto tendo apenas a música como tema para o que eu quero expressar. Em geral a busca nasce do oposto. Sempre tem algo que eu quero dizer e de repente vem uma música que me ajuda a pensar um pouco sobre o tema.

Acontece que essa música está marcando tempo em meus ouvidos. Ouvi outro dia por indicação de uma amiga e depois acabou tocando no rádio algumas vezes. Justo eu que nunca fui fã de rap e hip hop me senti realmente encantado por uma música. Fui até atrás de outras produções do artista e sou obrigado a admitir, o som que ele produz ganhou mais um ouvinte.

Não existe amor em SP é a música em questão. Um rap do Criolo, músico paulistano de muita qualidade que eu confesso, desconhecia até poucos dias atrás. A música fala de uma cidade fria, como muitas vezes São Paulo parece ser. É uma sensação similar a que eu tenho quando ando pela cidade de forma despreocupada.

Para mim Sampa sempre me passa a idéia de solidão, de medo, de fobia. Por mais bela e colorida que ela possa estar, eu sempre tenho essa mesma sensação. São Paulo é uma cidade que amedronta. É incrível como em Sampa podemos achar de tudo, viver qualquer experiência e mesmo assim sobre nós paira uma aura estranha de austeridade acima da média.

Sampa para mim parece ser a cidade do fazer, não a do viver. Parece ser a cidade do estar e não a do ser. Sinto em Sampa a pressa exagerada a todo instante. Sempre todos passam correndo diante dos nossos olhos. Tudo deve ser feito com urgência, até as sensações me parecem urgentes por aqui. Isso acaba tornando tudo mais frio e de certa forma mais próximo da música do Criolo.

Lembro-me de uma conversa com amigos a algum tempo. Fomos a Atibaia fotografar o pessoal que salta de asa delta e parapente lá na Pedra Grande. Lugar lindo, próximo a capital e rápido pra chegar. Após as fotos, fomos a um barzinho da cidade. Espetos, algo bem comum em Sampa, saborosos, rápidos para fazer e a preço convidativo.  Fizemos os pedidos, fomos tomando as bebidas enquanto esperávamos a chegada dos espetos.

Eis que surge a surpresa, depois de 15 minutos, quando esperávamos já a chegada do pedido, vem o garçom dizer que não poderia nos atender, pois alguns sabores estavam esgotados. Engraçado como nós, paulistanos ficamos estressados e os atibaienses simplesmente se preocuparam em escolher novos sabores. A gente se preocupou com o tempo do atendimento, sem se tocar que tínhamos ali todo o tempo do mundo. E apesar da demora, os atendentes eram realmente simpáticos e a comida era muito boa.

É a pressa típica da cidade, mesmo quando o tempo não é uma variável, acabamos por trazê-lo ao nosso meio. Depois que percebemos isso, na verdade uma amiga que mora em Atibaia perguntou porque a gente se irritou, tudo virou motivo de piada. Mas se trouxermos isso para fora da situação, perceberemos que não temos mesmo paciência.

Não costumamos ter a paciência necessária para apreciar aquilo que a própria cidade nos oferece. A pressa nos impede de viver melhor com nossos vizinhos, amigos, colegas, etc. Tudo é feito as pressas e a cidade assim se torna sem amor. Mas a falta de amor não é culpa de Sampa. É culpa da gente que fez isso com ela. Da gente que criou um monumento a pressa composto de prédios cinza, concreto, fumaça e filas desesperadas onde todos querem tudo ao mesmo tempo, muitas vezes sem saber porquê.

Eu vejo a pressa como a principal vilã. É ela que transformar a cidade naquilo que eu e o Criolo vemos. Uma cidade onde as relações acabam sendo frias, onde tudo ganha tons cinza e um ar desesperado.

Quando a gente se dá conta disso e desacelera, nem que seja só um pouquinho, passa a ver a cidade de outra forma, passa a encontrar vida nas pessoas e sonhos nos olhares. Passa a ver cores nos prédios acinzentados e delicadeza nos passos apressados. Basta desacelerar para que o amor volte a pulsa em Sampa, mas é preciso querer isso. Você consegue desacelerar? Você consegue ver a beleza de Sampa, ou de sua cidade? Qual a sua maior pressa?

Mil Pedaços – Legião Urbana

 

 

Hoje eu nem sabia sobre o que falar. Ainda meio entorpecido pela boa semana fiquei meio sem assunto. Mas iria abandonar o blog? De modo algum. Então resolvi pegar minha playlist e escolher uma música qualquer. Fazer dela o tema do post. Gosto de ouvir bastante coisa, vou de Beatles a MPB, vou de música clássica a algumas bandas de Hard Rock, gosto de alguma coisa de Black music e até música eletrônica. Então dá pra imaginar que a lista é bem grande.

Grande como é nosso planeta, semana passada, por exemplo caiu um satélite desativado aqui e alguns meios de comunicação diziam que os destroços cairiam em uma área que se levada a sério poderia ser traduzida apenas como qualquer lugar do planeta. Aliás ai vai o mote pra escolha da música de hoje. Fazia tempos que eu não escutava Legião Urbana, não que eu realmente tenha sido um fã da banda, conheço a discografia como todo adolescente dos anos 90, ouvi muito os discos, principalmente o Quatro Estações, acabei, entretanto escolhendo uma música de outro disco, o Tempestade..

Acho que vale a pena falar da música porque ultimamente tenho visto gente próxima ter sua vida destruída. Espalhada em pedaços pequenos difíceis de se juntar. Fico pensando em formas de ajudar. Sempre cada caso é um caso, mas existem coisas que acabam por se repetir. Como os pedaços do satélite que caíram numa região mais ou menos previsível, na maioria das vezes é previsível saber o que vai nos fazer chorar.

Falo isso de forma consciente. Sei que vivo um momento bom e positivo. Gostaria que todo mundo pudesse sentir-se bem. O problema é que isso dá trabalho, nem sempre é possível focar no que realmente funciona para melhorar o ânimo. É difícil se prender nas pequenas coisas que acontecem e na nossa essência. Mais fácil viver o momento isolado e ai ir do ápice ao medo em segundos de acordo com a sensação do momento.

Tirando raros casos em que tudo realmente parece conspirar contra a pessoa. Geralmente só nos despedaçamos quando deixamos um único fato nortear todas as nossas sensações. Quando diante dos nossos olhos apenas uma coisa parece realmente importar. Quando isso vai bem, parece que tudo está perfeito, quando vai mal, todo o resto para de funcionar.

Temos várias facetas em nossa vida, a profissional, a amorosa, a familiar, a social, enfim, qualquer esfera que resolvermos criar. Nunca todas as facetas vão andar com perfeição. Sempre vai existir um ponto a melhorar, é isso que nos dá ânimo pra continuar acordado, fazendo as coisas que devem ser feitas e lutando. É esse lado a melhorar que alimenta nossos sonhos.

Por outro lado, vale também o oposto. Nunca tudo vai dar errado em nossa vida. Sempre alguma coisa funciona, mesmo que a gente não consiga perceber. Na verdade, perceber isso é o que pode ajudar a manter a nossa sanidade quando alguma coisa ruim acontece. Nesses momentos mais complicados devemos nos prender a isso, ao que funciona, só assim encontramos forças para corrigir o que dá errado.

Sei que é pouco, mas foi a forma que encontrei para ajudar meus amigos que passam nesse momento por alguma dificuldade. Lembrem-se que sempre tem algo que funciona e se apeguem a isso. Não deixem a vida de vocês ruir em pedaços. Vocês são muito maiores do que a dor que sentem.

 

I’ve Seen it All – Bjork

Não faça de rótulos uma prisão

 

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Ontem foi dia Internacional do Autismo, eu tinha prometido falar do tema, mas não consegui. Talvez por acreditar que bater na tecla do problema seria mais do mesmo, sem levantar uma discussão realmente eficaz, talvez por não saber exatamente como tratar do assunto ou muito provavelmente por medo do tema.

Entretanto não queria deixar as idéias que eu tinha em mente totalmente esquecidas. Existem coisas que ficam acima de rótulos, existem pensamentos que independem de um nome para serem definidas e em alguns casos, saber o nome de algo sem ter a paciência suficiente para entender o que o nome quer dizer exatamente acaba sendo bastante perigoso.

Os místicos dizem que nomes tem poder. Eu sou cético, mas levo isso em consideração. Ao encontrarmos algo queremos saber sempre o nome e a partir deste ponto começamos uma observação mais atenta, buscando detalhes que possam ser associados a aquele nome. E sempre buscamos sentido nos nomes de coisas ou seres que acabamos descobrindo. O problema é que na grande maioria das vezes, esses nomes demoram um longo tempo para realmente fazerem sentido. Demora até que o conhecimento suficiente para entender o que realmente importa, e nesse meio tempo, ficamos com impressões erradas que podem ser perigosas.

As vezes criamos um mundo nosso, particular, onde acreditamos em coisas ou fazemos escolhas que só fazem sentido dentro daquela realidade criada. Totalmente maluca e irreal.

Pra quem não assistiu o filme Dançando no Escuro do Lars Von Trier, vale a pena ver. A música que dá nome ao post saiu desse filme, aliás concorreu ao Oscar, perdendo a estatueta para Bob Dylan. Bjork tem uma voz engraçada e canta músicas estranhas, já ouvi essa definição de muita gente, entretanto gosto muito de suas músicas, seu experimentalismo me cativa. No caso das músicas do filme, ela ganha um ponto a mais porque além de escrever as músicas, ainda interpretou com extrema competência a personagem Selma.

No filme, Selma é uma imigrante tcheca nos EUA de 1964, período de Guerra Fria. Trabalha numa fábrica e sofre de uma doença degenerativa que vai pouco tomando a sua visão. Todo o dinheiro que consegue juntar é guardado para bancar uma cirurgia que impeça seu filho de sofrer do mesmo mal, enquanto ela cada dia enxerga menos.

As músicas de Bjork vão costurando a história e mostram como a personagem consegue sobreviver nesse sistema doloroso, a partir dos sonhos e de uma realidade que ela própria criou. A forma como ela acredita que outros também deveriam ser justos acaba custando caro para ela, mas falar disso seria como contar a parte mais interessante do filme.

Vale a pena, entretanto, lembrar que Selma vive focada num único ponto. O que a mantém “viva” é a necessidade de conseguir uma forma de juntar o dinheiro para curar o seu filho. Seu mundo é apenas isso. Viver fechado num mundo muito restrito pode ser fácil até determinado ponto, afinal tudo parece estar ao alcance das mãos, entretanto, pode também ser muito doloroso, porque nesse caso você acaba se sentindo estranho em qualquer lugar ou situação que não faça parte do seu repertório restrito.

Esse é o grande risco dos nomes. Podem fechar quem os tem dentro de casulos impenetráveis. Podem limitar de tal forma que quem os recebe pode ficar preso nesse rótulo. É claro que é preciso sim saber do que se sofre, é preciso entender o que acontece com a gente, mas mais importante que isso, é necessário saber os limites reais e em que aspecto cada rótulo nos cabe. Assim como uma criança que demore a aprender matemática não pode ser considerada burra, uma que aprenda música muito jovem e demonstre talento não deve ser vista como genial. Ambos são apenas indivíduos com características próprias e os limites de cada rótulo devem ser sempre ajustados a cada um. Cada pessoa é de um jeito.

Até porque sempre surge alguma variável nova que pode modificar tudo aquilo que você acredita. É preciso ficar aberto a isso e perceber que mudanças existem, porque você com certeza ainda não viu tudo o que existe. Se viu, infelizmente tem um problema, se viu tudo, já não existe mais nada para ver, como bem disse Bjork.

 

A Lista – Oswaldo Montenegro

É triste perceber que em 35 anos de idade minha pele traz poucas ou quase nenhuma cicatriz

Sabe quando você encontra um livro que conversa com você mais do que seria interessante? Sabe quando você lê frases que dizem mais verdades sobre você do que está preparado pra escutar? Sabe quando você reconhece num personagem ficcional uma série de características que odeia em você mesmo e nunca teve coragem ou capacidade pra mudar? É assim que eu me sinto hoje.

Demorei dias pra ler um livro que deveria ser lido em no máximo 3 dias e isso com bastante preguiça, eu levei semanas. Não que a história fosse densa, profunda, a leitura pesada ou difícil. Foi só uma leitura que tocou em várias feridas que nunca se cicatrizaram. Em período de férias, mais tempo ainda pensando nessas coisas. Repensando a minha humilde insignificância.

E por que falar disso só hoje? Dois motivos, um é que hoje as ideias estão mais claras, dá pra falar disso, se é que me entendem. O outro motivo, menos trivial e mais prático, é que me pediram um texto sobre como eu estava me sentindo. Bom o texto é sobre uma foto que fiz de mim mesmo após terminar o livro, sentado no sofá e ouvindo Oswaldo Montenegro. Claro que não colocarei a foto aqui, preservo os leitores do show de horrores, mas acho que vale a pena falar dessas sensações.

Eu tinha acabado de terminar de ler Alta Fidelidade (agora quero comprar o DVD do filme) de Nick Hornby, deitado/sentado/largado no sofá da sala ouvindo Oswaldo Montenegro, enquanto olhava pro nada e pensava no livro que me deixou triste. Pra quem não conhece, vale um pequeno resumo bastante breve da obra, já que eu pretendo falar do livro por um bom tempo aqui no blog. A história gira em torno da vida sentimental e profissional de Rob Fleming, um homem até certo ponto fracassado no campo profissional e no pessoal e que tem manias de elaborar listas dos 5 mais pra tudo.

Por enquanto fica nisso. Até porque eu prometi falar do que eu estava sentindo, no que eu estava pensando. Eu estava pensando nas minhas listas. As sensações que eu tive relembrando as pessoas que marcaram a minha vida. Aliás, tudo isso porque este é justamente o tema do livro que eu estou escrevendo, as marcas que recebemos ao longo da vida. As nossas cicatrizes.

Sabe o que dói em mim hoje e me deixou pensativo? Perceber que eu nem tenho tantas cicatrizes assim. Um cara com 35 anos (como o Rob do livro) deveria ter bem mais gente em suas listas. Gente na lista de pessoas especiais, de amigos, de amores, de tristezas, de histórias, de conquistas, de derrotas. Acho que só a lista de medos e a de coisas a fazer é que são imensas.

A tristeza bate ao perceber e sentir que vivi pouco e nem vejo tanta perspectiva assim pra mudar isso. Eu não sei viver, não aprendi isso em toda a minha existência e aparentemente não vou aprender nunca. Porque por mais que eu pense, por mais que eu busque, por mais que eu tente fazer, não consigo descobrir o que exatamente eu busco, dessa forma, eu vivo entre dois  mundos distintos, um profissional onde sou confiante e até tenho um certo destaque no que faço, digamos que eu me garanta, mas em minha vida pessoal, na verdade na vida comum e normal que todo mundo leva, eu sou ainda um bebê recém-nascido. Que não consegue fazer as coisas básicas e por isso nem sabe exatamente onde está, o que quer fazer ou pior, o que deseja fazer.

Esse problema na vida pessoal detona também o lado profissional, enquanto não aprender a me tornar mais maduro pessoalmente não atingirei nenhum lugar também profissionalmente e, pior do que tudo isso, continuarei me sentindo triste, com medo e solitário.

Sei que vocês não estão vendo o retrato que fiz, mas ele trazia isso.  Trazia o meu desespero em perceber que consigo ser tão vazio e imbecil como Rob Fleming. Trazia o meu medo de diferentemente do personagem nunca amadurecer como deveria e justamente por isso, nunca chegar emocionalmente, socialmente ou em qualquer instância a lugar nenhum. Como tem sido até hoje em minha vida.

Meu medo eterno de não conseguir nunca chegar ao mínimo aceitável de ação e existência de uma pessoa é o que me faz ficar triste e muitas vezes desesperado quando percebo que sem o trabalho eu sou apenas um pedaço de carne vazio, que não consegue ser preenchido por nada. Alguém que mal consegue fazer uma lista minimamente aceitável acerca daquilo que viveu, justamente porque infelizmente nada viveu.