Aceitar ou não

Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...
Quem nunca teve medo de não ser aceito e terminar só...

Dois comentários sobre meu último post fizeram pensar. Cada um a seu modo trata justamente do que acho mais importante na existência humana. A capacidade de ter opiniões pessoais e a partir delas  tecer comentários que podem ou não ser aceitos. Eu, particularmente neste blog, e confesso que em todos os aspectos da minha vida, não quero apenas ser aceito.

Não me vejo como criança mimada que não pode ser contrariada, muito pelo contrário, tento ser um adulto que sabe que vai ser questionado, aliás é o que mais busco aqui neste espaço.

Posto isso, vale a pena retomar as duas idéias, tanto a Lak, quanto a Eve levantaram pontos discordantes passando por dois conceitos que possuem relação estreita com o que discutia. A Lak disse que podemos sim ter uma alma livre e a Eve procura me lembrar da diferença entre liberdade e independência. Ambos os assuntos serão tratados em  breve, provavelmente nessa semana ou na próxima. Porém, preciso ainda refletir um pouco mais antes de começar a falar de cada um deles.

Hoje, com base nessas leves e saudáveis discordâncias, quero falar de outro tema. O não ser contrariado. Acredito que sempre que mostramos qualquer coisa a outro ser (e nem precisa ser da nossa espécie) estamos nos apresentando a um tipo de julgamento. Seja a ração que você resolveu comprar para o seu cão ou o novo livro que você apresenta a seu editor. Tanto a ração quanto o livro podem ser aceitos por seus interlocutores como podem ser odiados. Isso é normal e faz parte da vida.

Uma amiga minha diz sempre no meio de nossos papos mais filosóficos que todas as ações só ganham significado a partir da interpretação do outro. Você só escreve porque alguém vai ler, se veste porque alguém vai ver, se cuida porque vai conviver com alguém. Ela pauta seu pensar em teorias do discurso, presentes em sua formação.

Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...
Quem nunca escondeu seu verdadeiro eu...

Minha formação é bastante diferente, sou o tipo de pessoa que analisa o comportamento humano da mesma maneira que observa o comportamento de uma formiga. Para mim somos apenas animais. Nos demais animais, fica clara essa urgência em se fazer presente no outro. Nas aves os machos cantam para serem aceitos pela fêmea, em alguns grupos de mamíferos, ser aceito no grupo garante a alimentação, todos os rituais de corte são fortemente impregnados pelo desejo de ser aceito.

Em nosso íntimo é claro que todos queremos que nossas idéias prevaleçam, todos querem ser aceitos dentro do seu grupo, seja por sua beleza, inteligência ou ações. Alguns de nós até mudamos nosso comportamento natural só para ser aceito no grupo. Quem não se lembra de uma ação que foi feita só para conquistar a pessoa amada? Quem nunca se pegou agindo de forma diferente diante de pessoas diferentes?

Minha psicóloga (segunda vez que a cito no blog, espero que ela não resolva me cobrar uma sessão a mais) já me perguntou mais de uma vez se eu não tenho medo de não ser aceito. A resposta sincera sempre foi não, realmente não tenho de forma exacerbada. Como todo mundo, sinto-me confortável ao saber que estou agradando.

A questão aqui, entretanto, passa a ser outra. Você pode ser contrariado e ser aceito ao mesmo tempo. Discordar é saudável, doentio é não permitir que discordem daquilo que você pensa. Pessoas que não aceitam isso tendem a uma ação ditatorial e principalmente deixam de aprender. Talvez deixar de aprender seja um dos meus maiores medos. Para quem age assim, talvez o medo maior seja o de perceber que ainda é preciso aprender.

Algumas verdades para nós são tão presas que dificilmente conseguimos julgá-las. Seja a fé, seja o time do coração ou mesmo a opinião sobre o aborto. Discutir isso de forma racional é que é difícil. Deixar algum espaço para que outras opções sejam apresentadas.

Leio muitas vezes no mundinho azul (Orkut) discussões que nascem e ganham corpo apenas porque os envolvidos assumem a postura de a minha verdade é a que vale e parece que ganhar essa disputa virtual tem o mesmo peso de uma vitória na vida real. Tudo para sentir-se aceito.

Na vida real, mulheres passam anos sendo maltratadas por maridos violentos e escondem o fato com medo de serem vistas como vadias. Pessoas de ambos os sexos entregam-se pelo mesmo motivo a ditaduras de beleza, comportamento ou ação apenas para agradar ao outro, mesmo que não agrade a si próprio.

No fundo todos somos iguais
No fundo todos somos iguais

Aceitar a crítica muitas vezes é doloroso. Principalmente nessas verdades irredutíveis que criamos, mas aprender a quebrar esses pontos é necessário. Sei que se faz necessário um aprendizado constante e longo para que consigamos superar nossos medos e vaidades, mas é necessário aprender a ser questionado.

Confesso que foi a primeira coisa que pensei antes de criar este blog. Estou pronto para que as pessoas digam que não gostam do que eu produzo? Só quando eu tive a certeza interna de que a resposta para isso é sim, é que tomei coragem para me aventurar nesse universo de escrita. Em alguns pontos infelizmente ainda não cheguei ao ponto de agüentar ser questionado, nesses pontos o que faço? Simplesmente não os ponho a prova. E você? O que faz? O que pensa a respeito?

Será que eu cresci?

Por que crescer é tão difícil?
Por que crescer é tão difícil?

Hoje fui dar uma palestra numa escola pública de São Paulo. O Antonio Prudente , escola localizada na Vila Nova Cachoeirinha, na zona Norte da cidade. Um bairro longe do glamour da cidade, formado por gente comum, gente como eu. Eu vim de uma comunidade de certa forma parecida com a dos alunos que vi hoje.

Aluno de colégio da prefeitura num bairro nascente e crescendo (hoje até shopping tem perto da casa dos meus pais), ônibus lotados, pouca infra-estrutura disponível e quase nenhuma opção de lazer.

A estrutrura na verdade pouco importa, acho que vale agora falar dos jovens que eu vi e conheci hoje. Não vou lembrar dos nomes deles, mas trago na memória seus rostos,trago as expressões de surpresa, alegria, em alguns momentos até desprezo, trago tudo comigo e com muito carinho.

Eu em diversos momentos me vi ali. Me lembrei dos sonhos de menino. Aliás fui lembrado por erstes jovens que me perguntaram muita coisa. Me lembrei dos autores que li quando criança, dos filmes e desenhos que assisti, das escolhas que tive que fazer, a grande maioria sem nem saber porque escolhi determinada opção. Eu vi nos olhos de alguns a surpresa quanto toquei nesse tema. As escolhas que somos obrigados a fazer a vida toda.

É uma escolha minha entender o que aparece no espelho
É uma escolha minha entender o que aparece no espelho

Vi nos olhos deles o medo que eu sentia nessa idade. Alguns tentavam até esconder isso, com olhares vazios, um pretenso ar de superioridade dos alunos e algumas vezes até ira nos olhos. São situações normais nessa idade. Você quer fazer algo mas não sabe ao certo o que. Sabe apenas que o mundo te incomoda. Você não faz parte de nada, ou de lugar algum.

Nessa fase, a maioria das escolhas não segue lógica alguma, você está começando a deixar de ser totalmente dependente das idéias dos seus pais, começa a pensar com a própria cabeça. Finalmente liberdade. O duro é saber o que fazer com ela.

Em geral o primeiro passo acaba sendo descambar para a ira. Reclamar dos horários impostos, duvidar de tudo o que dizem, querer quebrar todas as regras possíveis. Ou ainda, voce pode não suportar a pressão e simplesmente ser levado pelo vento, não pensar (espero que nenhum deles escolha essa opção). O melhor seria uma terceira via, o tal caimnho do meio, discordar sim, mas com consciência, reclamar e ouvir, pedir e doar, tudo em equilíbrio.

Sou igual aos jovens que vi hoje
Sou igual aos jovens que vi hoje

Não é fácil alcançar esse equilíbrio, na verdade nem na idade adulta isso é fácil. Mas vale a pena buscar esse caminho. Fazer-se ouvido por questionar com rigor e motivos. Ganhar credibilidade pelo que se é, sem força, apenas com a cabeça. Isso é crescer.

Falar com os jovens hoje me fez pensar nisso, será que eu cresci? Espero que sim, e principalmente, espero que eles cresçam com toda a força que pareceram demonstrar hoje.

Agradeço a vocês a oportunidade de ter dividido algumas horas do seu tempo comigo.

Aprendendo a falar e a viver

Capa do meu primeiro livro
Capa do meu primeiro livro

Voltando a falar dos medos que sinto, acho que vale a dizer como nasceu o meu livro. Que são fotos e poesias que fiz a um certo tempo acho que todos os que leram o livro (e espero que mais gente leia) já sabem. Mas esse teve uma gênese bastante forte pra mim.

Nasceu de uma confusão de sentimentos. sentimentos fortes que eu acho que nunca trabalharei de forma correta ao certo. Nasceu de um amor verdadeiro, tanto que dediquei o livro pra quem me ensinou a sorrir. Não vale a pena dar nome aos bois, mas confesso que me enche de orgulho saber que ela soube (tá, eu disse pra ela) que o livro foi escrito em sua homenagem.

É até hoje um sentimento que me balança, mexe com meu humor. Não me sinto mais preso e dependente como estive a alguns anos atrás, mas também não posso falar que apaguei tudo de bom que vivi ao lado dela. Aliás é justamente esse o ponto. Por que temos que apagar os bons momentos quando o tempo passa? Não seria mais justo consigo e com a outra parte lembrar do que foi bom, e deixar tudo seguir seu caminho sem receios?

uma das fotos do livro
uma das fotos do livro

Alguns talvez digam que eu perdi anos da minha vida devotando uma paixão sem retorno, que deveria ter encurtado o período de luto (essa frase é da minha psicóloga, luto pra mim é forte demais). Mas eu discordo. Até posso ter sofrido, e sofri muito. Mas também ganhei, o livro foi algo importante pra mim. As poesias que estão ali, por mais vagas que possam parecer trazem um imenso prazer a mim. Eu me lembro de bons momentos, mesmo quando falo de dor. Me lembro, aliás, de como ter uma paixão (mesmo platônica) me ajudou a superar momentos extremamente amargos da minha vida que vivi depois de todo o ocorrido.

É justamente ai que entra o medo. Fiquei pensando em coisas que tenho ouvido e lido, algumas a meu respeito, outras sobre meu texto (principalmente o livro). Dizem que o texto não é tão melancólico quanto imaginavam, ou ainda dizem que o sofrimento ali incomoda por ser palpável e humano demais pra uma pessoa como eu. E ai eu começo a achar graça. Afinal existem dois grupos de pessoas que me conhecem, as que me acham duro e frio, funcional; e as que me acham dócil, carinhoso e prestativo.

Como se esse quadro de Jeckill e Hyde nunca pudesse ser oferecido ao mesmo indivíduo, sendo eu para alguns o monstro e para outros o médico. Essa dualidade é que me amedronta, porque eu realmente me percebo assim as vezes, o medo me afasta de alguns e o mesmo medo me aproxima de forma bastante intensa de outros.

Uma das fotos do livro
Uma das fotos do livro

O medo pelo medo no fundo é o que me move. A dificuldade de ler as pessoas sempre me afasta delas. Consigo ficar horas viajando em teorias, preso a trabalhos diversos que exijam apenas a minha atenção e alguma destreza que eu apresente. Nem o cansaço é tão forte assim. Mas relacionar-me por 5 minutos que seja, me trava. Me destrói as entranhas. Alguns dizem que isso acontece simplesmente porque eu não tenho controle da situação e ai me perco. Talvez seja verdade.

Porém, não é exatamente falar desse tipo de dor o objetivo deste post. Mas sim pra falar de como por medo bobo a gente complica coisas simples. Deixa os desejos se perderem por tabus que a gente nunca entende.

Meu livro inteiro fala de pequenos tabus, de escolhas que são ou foram difíceis. E que quando colocadas apenas no lado mais racional da vida se tornariam muito fáceis de tomar. As poesias falam dos traumas ou coisas que eu apenas comecei a levar a sério quando estive realmente apaixonado. Da forma como essa paixão me transformou para melhor, não só olhando pra mim, mas principalmente me tornar uma pessoal socialmente melhor. Posso ainda não ter aprendido a trocar com o outro, mas já aprendi que isso é importante e segundo uma velha frase feita, ninguém é uma ilha.

Como brinco com amigos, conhecidos e outros, já me sinto livre pra outro amor(ou o mesmo novamente, vai saber o que o futuro nos reserva), já estou forte o suficiente pra não comenter os mesmos erros e principalmente não errar tanto e nem temer errar como temi no passado, simplesmente por não saber como agir. Hoje tenho consciência de que vou sentir medo de qualquer forma, então que eu sinta medo sentindo algum prazer. E o meu primeiro livro é justamente um marco sobre isso. Ele é a prova de que já senti vários tipos de prazeres e que eu devo sentir essas sensações novamente.

Ficou curioso pelo livro? Entre em contato comigo….rs

Ai vão um poema e uma fotografia do livro, da forma como aparecem

Avessas
Avessas

O mundo pode ser visto de várias formas

E ainda assim nos prendemos a certo e errado
Como se existissem dois lados
Duas verdades que infelizmente são frouxas
Pois nada representam do que realmente somos
Nem nada fala do que somos
Apenas nos prendem como cordas
Por isso eu vejo um mundo que não me agrada
Onde bem e mal são só opções numa busca por prazer
Dentre os mil caminhos que ainda quero conhecer
Até que a morte me avise que chegou a hora
Enquanto isso eu reviro tudo pelo avesso
Numa busca desenfreada e infantil pelo desejo
Um prazer supremo que quem sabe acalme a alma
Alex Martins
Aguardo ansioso os comentários de você que leu este post até aqui, obrigado pela visita

Esconderijos

Quase não se vê

Como segundo post, resolvi falar um pouco da forma como o mundo se apresenta pra mim.

As vezes eu me sinto como esse lagarto ai da foto. Procurando se esconder de tudo o que está ao redor e em busca de algo interessante que passe diante dos meus olhos, algo que me faça dar um passo adiante

Se nada me fizer andar, fico ali parado mesmo. Só observando o mundo, sem querer fazer parte dele. Na verdade eu me sinto externo ao mundo. Alheio ao que acontece, como um observador perdido numa rua movimentada de uma cidade em que não se conhece nada.

Vejo as coisas como se nunca fossem comigo, isso de certa forma incomoda, é verdade. Mas também é verdade que me permite fazer certos apontamentos e mesmo dizer algumas coisas com muito mais calma. Ser crítico sem envolvimento é sempre mais fácil.

Por isso eu fotografo da forma que fotografo, fazendo recortes de cenas que passam diante dos meus olhos, eu adoro as teleobjetivas, elas me permitem selecionar apenas a parte da cena que quero comentar ou destacar. Ao contrário das grande-angulares que te inserem dentro da cena, eu nunca me sinto parte.

Essas reações distantes também me permitem uma leitura diferente, é possível entender porque uma pessoa sente dor se você não a sente, ou não se influência por ela. Dessa forma você consegue dissecar a cena toda e entender exatamente qual foi o pisão no calo que causou a dor.

Dor aliás que me persegue, porque se eu consigo ler a dor do outro, a minha fica mais difícil, ela está guardada em mim e não consigo ver de fora. Eu gostaria de conseguir, confesso. Talvez isso me fizesse ser alguém melhor e mais alegre.

Alguns amigos me dizem que eu me escondo dos meus medos e a dor é resultante dessa fuga. Talvez isso seja realmente verdade. Afinal quem não se esconde em algo? Existe alguém 100% autêntico e com tanta coragem? Eu até assumo que tenho medo das pessoas, medo daquilo que não consigo entender

Aliás, se você ler esse post, que tal se abrir um pouco? Fale do seu esconderijo, fale daquilo que você foge. Fale do que você gostaria de mudar.