Paperback Writer – The Beatles

São as palavras que me mantém nos trilhos

As férias acabaram a alguns dias. Não fiz metade do planejado, aliás os planos pra variar mudaram durante o percurso e como sempre nem no velho nem no novo planejamento as coisas planejadas pras férias deram certo, mas isso acontece sempre. Hora de mudar o foco de novo.

Falo em mudar o foco porque agora não sobra mais muito tempo pras lamúrias e reclamações. É trabalho direto até dezembro, coisas que com certeza vão cair do nada e precisarão de resolução, nem reclamo disso, no fundo essa é a parte legal do trabalho, a sensação de que sou realmente necessário em algum lugar fazendo alguma coisa. É a total falta de amor próprio provavelmente minha terapeuta vá dizer, mas é verdade, no fundo o legal do trabalho é me fazer sentir-se útil.

Não que eu fuja do padrão de querer coisas novas. Não que eu não diga que hoje ao final do expediente faltavam dois dias a menos para as próximas férias. Mas, estranhamente, mesmo os receios profissionais que eu tenho, mesmo o cansaço da atividade e outros problemas que surgem pra todo mundo, mesmo tudo isso acaba sendo recompensado pelo fato de me sentir útil.

Se perguntar diretamente a mim se realmente sinto prazer trabalhando, se faço aquilo que mais me dá prazer. Não conseguirei mentir e dizer que faço. Eu não desgosto do que faço, muito pelo contrário até, mas confesso que preferia fazer algo mais intimista, com menos gente, menos contato com aquilo que no fundo mais me assusta.

Se eu pudesse escolher e tivesse habilidade suficiente, gostaria de viver apenas escrevendo e fotografando, até por isso coloquei a música dos Beatles no título deste tópico. Me imaginando escrevendo livros de bolso, roteiros de cinema, romances best seller, poesias de qualidade, enfim, gostaria sim de ser um grande autor. Até tem gente que vai falar que eu já sou um autor, tenho este blog, escrevo de vez em quando em outro, o Devaneios Lúcidos, tenho um livro publicado e agora brigo com a falta de capacidade de concentração para escrever meu próximo livro de fotos e poesias. Pensando assim, eu sou mesmo um autor, mas não um grande autor.

Para chegar lá, ainda tenho que melhorar muito, ler muito, estudar muito e me manter fazendo diversas outras coisas, inclusive dar aulas. Não que seja ruim viver das aulas, mas seria mais divertido e interessante conseguir ser um autor tempo integral. Assim como alguns músicos caseiros gostariam de viver de música, alguns jogadores de fim de semana gostariam de viver do esporte e por ai vai.

Não vivo meu sonho ainda de modo pleno, mas confesso que estou em busca. E justamente é esse o momento chato do fim das férias. Falta tempo para escrever do jeito que eu gostaria. As responsabilidades agora são outras e os textos ainda não pagam minhas contas. Falta tempo para ler os livros que gostaria, os blogs que gosto de seguir e até tempo para descobrir coisas novas. Atrasar essa parte da minha vida por seis meses causa uma dor quase física.

E aqui quando falo da escrita, por incrível que pareça, tem muito menos a ver com os textos que mostro e mais a ver com os textos que me libertam. É claro que a gente sempre escreve pro outro, mas sempre tem os textos que eu nem faço pensando em mostrar pra alguém e sim pra mim. Textos que funcionam de maneira quase tão intensa quanto as sessões de terapia (se eu falar que eles tem a mesma força a terapeuta vai brigar comigo…rs). E principalmente textos que no fundo trazem prazer. Escrever é hoje o principal prazer que eu tenho, aliás acho que escrever sempre foi o maior prazer em toda minha vida.

Esse prazer vem do fato de que só quando escrevo eu me percebo realmente autêntico. Só com as palavras eu me sinto realmente livre. Parece que cada palavra carrega um pouco dos meus medos pra fora de mim.

Aliás, é engraçado, dos meus medos do fim das férias, o único que realmente me magoou e que ainda dói é perceber que terei menos tempo pra escrever. Eu até escrevo mais da minha fase encalhado, dos medos diversos que eu tenho na vida e tudo mais. Mas o que me incomoda é a escrita. Sei que provavelmente continuarei encalhado por muito e muito tempo. Faço piada com isso, como faço com muita coisa. As vezes me sinto sozinho. Sei que tenho um monte de medos, como o medo de lugares cheios (apesar de dar aulas), tenho medo de diversos lugares (que sou até obrigado a visitar) e tudo mais, mas se posso escrever sobre, me sinto muito mais forte.

Perder essa força justo agora é que está sendo difícil de engolir. Eu já estava me acostumando a todo dia ter um certo tempo pra falar com o computador, a folha de papel e a caneta sobre minhas dores. Pena que agora será raro. Prometo atualizar sempre o blog, estes textos eu sei que farei, mas já sinto falta dos textos que eu faço e nunca mostro pra ninguém. E você exorciza as pequenas dores do cotidiano?