A Century of Fakers – Belle and Sebastian

 

 

Nos preocupamos com tanta coisa inútil. Criamos regras, jogos, livros de etiqueta que no fundo só servem pra evitar que a gente realmente possa ser feliz. A quantidade de vezes que nós próprios boicotamos o nosso prazer chega a ser absurda. Parece que é proibido ser feliz. Só é feliz quem se aliena do mundo e não liga para o que acontece ao seu redor.

Eu já ouvi muito isso. E confesso que vivi isso ontem. Numa conversa com uma amiga que não estava bem. Sofrendo por problemas pessoais, histórias mais resolvidas ou resolvidas de uma maneira não muito agradável para ela. Ouvi-la me fez pensar. Ouvi-la me fez na verdade repensar uma série de coisas que eu tenho visto, lido e ouvido. Cheguei em casa tarde e fui tentar dormir. Não consegui. Liguei a TV e também nem ela fez o sonho chegar. Paciência, o jeito é trabalhar, um monte de coisas pra fazer mesmo. E assim foi.

Enquanto eu procurava informações sobre estrelas e planetas minha cabeça estava longe. Pensando em tudo o que eu tinha ouvido. As informações brigando em minha cabeça, querendo sair e eu sem saber por onde começar. Aguardei um pouco mais e tratei de fazer o que tinha que ser feito. Primeiro o trabalho, depois a diversão aqui do blog. Assim tive tempo para entender o que me incomodou nessa história toda. Tive tempo pra perceber de onde vinha tanta dor nessa amiga que me pediu o ombro ontem.

O problema dela não era a meu ver a situação vivida em si. Mas algo muito maior e poderoso. Algo que de certa forma acaba por tomar conta de todos e a gente nem percebe. O problema é que a gente finge o tempo todo para viver. E finge para a gente mesmo.

Fingimos não ter preconceito, mas temos. Fingimos não ter medo, mas temos. Fingimos não amar, mas estamos apaixonados. Fingimos tanto que a gente até acredita que realmente é aquilo que finge ser, mas no fundo, infelizmente somos a mesma pessoa cheia de falhas e defeitos imensos que acreditamos não ser.

Fingimos que regras de etiqueta tem algum valor. Fingimos que faz alguma diferença ter um título. Fingimos que somos mais ou menos de acordo com algum status falseado apresentado pela sociedade. Fingimos, apenas fingimos. Vivemos sempre com máscaras no rosto, mas não para esconder o que somos e sim para evitar que a gente tenha uma visão real do que está fora da máscara. Mais que uma máscara, temos uma lente na frente do rosto que falseia o mundo ao nosso redor e nos engana porque de uma maneira ou de outra queremos realmente ser enganados.

Nem sempre o que nos engana é uma falsa prisão. Existem por ai diversas máscaras de falsa e pretensa liberdade que não temos. É o achar que se pode fazer tudo. É o acreditar que se é realmente importante para o mundo. É se dar um valor maior do que o merecido, achando que o mundo gira ao seu redor.

Aliás, de certa forma acredito que ninguém realmente conheça o mundo como ele é. A gente vê aquilo que quer ver. E todo mundo age como quer, iludido pela visão turva que tem do mundo. Dessa forma, o mundo é criado também de forma falsa. Até por isso escolhi a música. Belle and Sebastian foi uma banda criada de um jeito até certo ponto falso, com várias lendas sobre o nascimento da banda. A música fala de um mundo formado por falsificações humanas. De certa forma me lembrou Matrix, onde nada é o que parece ser.

Você tem alguma cena que imagina falsa nesse mundo? Algo que façam e que você vê como falsidade de quem faz? Você tem alguma história de auto ilusão pra contar? Deixe seu comentário.

A Forest – The Cure

Os peixes se enxergam livres porque não percebem os limites do aquário

E viva as redes sociais! Li hoje uma frase no perfil do facebook de uma amiga que inspira o post de hoje. Ela, como eu, é amante de fotografia. Ela, como eu, gosta de ver a fotografia como algo além do simples clicar. Enxergamos fotografia como uma forma de expressão humana. Diferentemente de mim, ela tem muito mais bagagem e conhecimento pra falar do tema. Mas vamos trazer a frase pra cá.

“As fotos não mentem, mas mentirosos podem fotografar”. Lewis Hine

A frase veio acompanhada de um comentário onde se fala que o ângulo em que uma foto foi batida dá a impressão de que o presidente americano, em sua visita ao Brasil ficou de olho no traseiro de uma estudante.

Ai vem a questão, ele realmente olhou, ou o fotógrafo imaginou que ele olhou? Qual a verdade no fato? Ou mais importante que isso, em qual das verdades vale a pena acreditar? O que vale a pena ser levado a sério no caso? Faço essas perguntas porque vejo o caso visto de outra forma. Cada pessoa tem a sua verdade e acredita nela. A forma como essa verdade é passada adiante é que vai tornar isso socialmente verdadeiro ou não.

A tal foto, se distribuída e publicada por vários veículos de comunicação e discutida como verdade se tornará real para a maioria. E todos passarão a ver aquilo como real, independente do grau de verdade da cena. Até porque fotografias nunca são reais, elas são apenas aquilo que o fotógrafo enxerga, isso dependendo do grau de miopia social, moral, ética ou comportamental que a pessoa que opera a câmera tenha. Assim como os artigos publicados, os jornais veiculados.

Todo fato depende dessa linha de verdade relativa. Dependendo de onde você olhe pode ter uma impressão diferente do assunto. E é essa impressão que você sempre vai divulgar. De acordo com seu poder de persuasão, isso pode ou não ser considerado verdade por todos. Exemplo mais clássico disso é a comemoração do Natal em dezembro. Qualquer pesquisa mínima mostra que o Natal com certeza não ocorre nessa data e mesmo assim grande parte da população mundial faz festa no dia. Vale o mesmo raciocíonio para o início do ano. Alguém no passado escolheu um dia sem qualquer marcação lógica e todo mundo aceitou.

Hoje vemos pessoas reclamando do poder da mídia, fazendo campanhas contra determinadas emissoras, dizendo que elas são possuidoras do poder e tudo mais. Acontece que na verdade o que a maioria dessas pessoas quer é apenas mudar quem influencia mais o todo. Provavemente trocando de lugar com quem tem mais força de persuasão.

Outro ponto dessa linha de pensamento é a nossa auto ilusão. A canção do The Cure, A Forest, conta a história de alguém que acredita ver algo que na verdade é irreal. Quantas vezes isso não ocorre conosco? Acreditamos piamente em algo que não existe. Em algo que só nós vemos porque foi totalmente criado em nossa mente.

Quando a ilusão é puramente pessoal, o único prejudicado é quem tem a ilusão. Mas e quando a ilusão é propagada aos quatro ventos e vendida como verdade? E quando todo um mundo vive num universo falso? Nem falo do exagero de um mundo Matrix, mas sim de coisas simples, como acreditar que manga com leite faz mal. Deste ponto para acreditar que um político pode ser visto como salvador do povo, temos um passo curto demais.

Eu trabalho como professor e me preocupo muito com a forma como meus alunos enxergam as verdades que tento passar a eles. Primeiro porque essas verdades são minhas, não obrigatoriamente deles e segundo porque eles tem que ter poder de decisão e compreensão sobre aquilo que vão considerar como verdade e não aceitar a primeira visão que recebem de qualquer tema sem uma forte reflexão interna.

Porque aceitar que existam diferentes verdades acaba sendo inerente da nossa espécie, mas não questionar isso a ponto de aceitar que outros definam quais serão as verdades que devemos aceitar sem pensar muito no assunto é fazer-se de prisioneiro do pensamento alheio, é abrir mão daquilo que provavelmente nos torne realmente humanos.

O que você pensa sobre isso?