Freedom Jazz Dance – Miles Davis

 

 

Flores raras, o filme  que me fez pensar em tanta coisa, talvez nem mostre mesmo tanta coisa para ser dita. Mas eu me aproveito dos pequenos lampejos de ideias que surgiram durante o filme pra tentar produzir alguma coisa interessante aqui no blog.

Além da catarse traduzida no texto anterior, outro ponto veio muito forte a mim durante o filme. A falsa liberdade existente em nossas ações. A falsa sensação de que realmente temos escolhas conscientes em nossa vida e a falsa mentira que contamos a nós mesmos quando ao olhar no espelho nos vemos como pessoas realmente livres.

Elizabeth Bishop era presa em diversos pontos, seus medos, sua própria indecisão e a sua carreira, pareciam formar uma cela invisível na qual ela foi inserida ainda menina e de certa forma demorou anos a lidar com o pouco espaço destinado aos seus passos menos direcionados. Ela com o tempo aprendeu a lidar bem com essa liberdade relativa e seguiu muito bem sua vida. Nem é dela que me pego falando nesse texto, mas principalmente de outras duas personagens fortes e femininas. Mary e principalmente Lota são o meu foco hoje. Até porque elas representam também parte da dor que muita gente sente sem saber e que muitas vezes temos medo de lidar.

Mary é o exemplo mais claro de prisão. Logo se viu impossível de se libertar de seus sentimentos por Lota e simplesmente aceitou de bom grado as migalhas que recebia, dentro de um sistema onde ela imaginava aos poucos ampliar os pequenos espaços disponíveis em sua cela emocional. Na verdade aconteceu justamente o oposto, ela ficou cada vez mais presa, só que resignada, viu as migalhas recebidas como algo suficiente para a vida que deveria levar, mesmo que houvesse dor nela.

Já Lota traz uma linha de pensamento bem mais complexa e difícil de seguir. Aparentemente uma mulher forte e livre, pouco a pouco ela vai se mostrando presa em um falso mundo criado por ela que de uma forma ou de outra começa a ruir, pedaço a pedaço. E por fim não sobra nada além do desespero que se traduz em morte.

O que me pegou é lembrar que eu me sinto muitas vezes assim, livre. E só depois de um tempo é que percebo  que ainda estou preso a algo. Tenho percebido os limites da minha prisão de forma muito clara nesses últimos dias. Por mais que eu me ache livre, existem ainda um monte de amarras que me prendem a uma série de coisas que simplesmente não me deixam seguir adiante como eu gostaria ou deveria em determinados assuntos.

A sorte (se é que isso pode ser chamado de sorte), é que isso ocorre com todo mundo. Sempre vai ter algum ponto em que nós vamos nos sentir presos a algo. Sempre vai ter algum momento em que uma barreira (física ou emocional) vai surgir do nada diante dos nossos olhos e simplesmente nos impedir de dar um passo adiante, por menor que seja esse passo. E é só nesse momento que vamos nos dar conta de que estamos dentro de uma prisão. O problema ai é ter a cabeça forte o suficiente para aceitar a prisão como algo normal e não um fardo capaz de levar alguém a dar cabo da própria vida. Afinal, só com muita paciência e sabedoria é que se consegue aumentar o tamanho da cela e assim voltar a falsa sensação de liberdade.

Porque é preciso entender que a nossa liberdade vai apenas até onde nossos medos e fraquezas permitem. Por mais que se queira voar nossas asas não nos permitem atravessar o oceano. É preciso ter calma e paciência para criar as ferramentas necessárias para isso. E é isso o que eu busco agora, se não a liberdade plena (que é inexistente) formas de me sentir livre mesmo dentro dos limites de meus medos e minhas fraquezas.

Footprints – Miles Davis

 

 

Sempre que a gente caminha acaba deixando marcas por onde passa. É esse o mote dos poemas que estou escrevendo agora. Eu tento retomar as marcas que fizeram em mim, as marcas que eu fiz nos outros, as marcas que apesar de não serem visíveis na minha pele, me ajudaram a ser quem eu sou hoje. Hoje me considero fruto de todas as marcas que recebi na vida. Como se os espinhos tivessem cortado a minha essência de tal modo que as feridas feitas criaram cicatrizes que nunca vão sumir.

No meu primeiro livro até fiz um poema que fala um pouco disso, como nos versos abaixo:

Eu tenho marcas no rosto

Dessas que não se apaga

Não como as ondas de um mar revolto

Que assinam e apagam sua ira na praia

Eu penso tenho pensando nessas marcas já a um bom tempo. Domingo passado pensei muito mais, aliás. Fui ver uma exposição no Sesc Pinheiros sobre a obra do Miles Davis. Já disse aqui que gosto de jazz, mas estou longe de ser um grande conhecedor do tema. Por sorte fui acompanhado de uma amiga que realmente entende do assunto e adora música. Aprendi muita coisa, descobri uma série de informações que eu nem sequer sabia serem possíveis, como o fato do Miles Davis ter gravado com muita gente bem mais pop e atual. Eu só o conhecia pelos seus sons mais antigos lá nos anos 50 e 60.

Ali percebi como a sua obra foi sendo modificada ao longo dos anos, sem perder a qualidade ele passou por diversas vertentes da música (limitá-lo ao jazz seria limitar a sua obra) e influenciou muita gente. Seus passos até hoje são seguidos. Seguir os passos, aliás é algo complicado e ao mesmo tempo interessante.

Por isso a música escolhida. Footprints (pegadas), composição do Wayne Shorter inicialmente gravada pelo Miles Davis Quintet no período em que Shorter fazia parte da banda. A música serve pra me lembrar e me fazer pensar em todas as pegadas que segui na vida. Em todos os caminhos já traçados que usei como atalho para evitar assim mais cicatrizes e ao mesmo tempo para ter força e ânimo para de repente dar um passo adiante.

Quem nunca seguiu as pegadas de alguém? Acho que não conheço ninguém que tenha escapado disso. Todo mundo busca exemplos e tenta assim encontrar os melhores caminhos para a sua vida. Chego ao cúmulo de ver gente que segue assustadoramente os caminhos traçados por personagens fictícios de livros, filmes, novelas, etc.

Eu segui as pegadas de muita gente, sigo até hoje esses atalhos quando encontro. Tudo isso para evitar mais cicatrizes daquelas que nunca realmente se curam. O próprio Miles Davis teve suas cicatrizes fortes. O racismo pra ele foi algo extremamente pesado. E isso aparece em diversos momentos de sua obra, como quando ele conseguiu colocar mulheres negras nas capas dos seus discos, algo impensado naquela época.

Assumir a sua dor e o que incomoda é pra mim a grande lição do jazz. Música que nasceu negra, para negros e que depois ganhou tonalidades multiraciais. Para mim, o jazz como ritmo representa em suas origens a linguagem de quem se sentia excluído e reprimido. Talvez por isso a sua execução seja tão livre e o virtuosismo seja tão celebrado entre os músicos de jazz. A virtuose é a chance de se mostrar quem se é e até onde se pode chegar com suas idéias. O improviso é a cereja nesse saboroso bolo musical. Onde os jovens músicos sempre iniciavam em bandas de músicos mais experientes e respeitados, até acharem-se prontos para seguirem seus próprios passos depois de terem aprendido muito com os passos de outros músicos.

Nesse caminho, além das pegadas surgem as cicatrizes. Por isso que não são todos iguais. Por isso cada um toca do seu jeito, cada um fala do seu jeito. Porque não é apenas repetir um caminho tortuoso de forma mais tranqüila. Infelizmente surgem para cada um novas marcas. Coisas que quem sabe possam servir de pegadas para quem vier depois. Coisas que podem servir para evitar que mais pessoas sofram com o mesmo problema, fazendo com que nas canções novas dores sejam incorporadas a cada nova apresentação.

Se hoje eu penso nas pegadas a serem seguidas, no próximo texto quero falar das cicatrizes. Quero falar daquilo que marca profundamente mas mesmo assim ninguém vê. Enquanto isso. Curta o som do Miles Davis e seu quinteto. Música de qualidade para leitores de qualidade. Aliás, tem alguma pegada que você tenha seguido que acha que deve ser compartilhada? Aproveite, o espaço é todo seu, faça seu solo a vontade.