Medo do Medo – Paralamas do Sucesso

Quando é o seu medo que mantém sua sanidade…

Já que citei a série Monk nesse primeiro texto da volta, ficarei mais algum tempo falando dela. Gosto muito da série. O detetive cheio de traumas e com grande habilidade e observação é um personagem intrigante e que me faz pensar. Tirando o óbvio do superar medos e utilizar limitações a seu favor, é possível visitar outras linhas de pensamento. Hoje mesmo sigo uma extremamente pessoal.

Quase usei esta música no livro (que vai sair assim que a crise passar). Falar do medo é de certa forma uma constante para um medroso contumaz como eu. Consigo ver diversas nuances do assunto e ele parece não se esgotar. Talvez pelo fato de que infelizmente o medo nunca se afasta de mim.

E nesses tempos de COVID 19, onde todos ficam presos dentro de suas casas (ou deveriam para que a gente possa retomar a vida normal o mais rápido possível), é justamente o meu medo que mantém a minha sanidade. Estranho isso, mas confesso que a pandemia me jogou no melhor lugar imaginável e da melhor forma possível. E eu sinto uma certa vergonha disso, afinal, minha comodidade vem acompanhada do desespero e da desgraça de muita gente.

Preso em casa, sem poder sair, posso dizer sem medo de errar, estou tranquilo. Não preciso interagir muito. Por ser do grupo de risco, realmente não saio e se o fizer, será totalmente paramentado, com máscara e tudo mais. Uma máscara que certamente me fará sentir-se protegido, por não precisar falar com ninguém. Uma sensação ampliada dos fones de ouvido que me acompanham todo dia. Eu me cerco num mundo meu e através dele é que eu consigo passear sem ser importunado pelo mundo em que todos os outros habitam.

Esse é também o mundo do Monk, o detetive que faz das suas manias uma ferramenta de isolamento e ao mesmo tempo aproximação. Talvez se não fosse tão exagerado, Stottlemeyer, Natalie, Sharona, Randy, os poucos que realmente fazem parte do universo de Monk são os que no fundo ele permitiu e tiveram a paciência necessária para vencer as barreiras que ele criou. Ele se sente protegido com poucos e são apenas estes que ele deixa chegarem perto dele.

Eu percebo que sou um pouco assim. E nestes tempos de isolamento, parece que finalmente me sinto livre. Mu aniversário mesmo foi comemorado dessa forma e eu estive muito bem. Os cumprimentos a distância e poder ficar sozinho em casa foram um alento. Não que eu não goste das pessoas que me cumprimentaram. Gosto muito delas, admito. So o contato muitas vezes é excessivo para mim. Eu suporto no cotidiano, mas ao fim do dia me sinto cansado de um jeito que nem sei como explicar. 

Não é físico, mas mental, e isso se reflete num corpo dolorido e cabeça cheia e pesada.  Só que eu gosto e vejo valor no que faço. Antes até me sentia mais invisível. Conseguia ir fazer o que tinha que fazer e voltar para casa ao fim do dia. Sem interagir mais que o necessário, sem me expor tanto quanto hoje. Em que até mesmo definir o que tenho que fazer é obscuro. 

Talvez por isso eu comemore essa loucura toda. O poder voltar ao meu mundo neste momento de crise mundial e pessoal. O poder me reorganizar e entender quais passos devo seguir para continuar sendo uma pessoa relevante e útil e ao mesmo tempo me preservar. Por mim, confesso que só sairia de casa novamente quando tudo isso estivesse resolvido. Tanto no mundo quanto dentro de mim.

“Ouve o que eu te digo / Vou te contar um segredo / É muito lucrativo / Que o mundo tenha medo / Medo da gripe / São mais uns medicamentos / Vêm outros vírus / Reforçar os dividendos”

It’s a Jungle Out There – Randy Newman

Por enquanto, se conseguir fique em casa e se puder ajude quem está passando fome!

E o isolamento social segue firme e forte. Evitando o máximo possível mortes desnecessárias devido a falta de leitos e respiradores nessa pandemia. Todos em casa, pelo menos todos aqueles que podem. Com isso a cidade vazia e um clima pré apocalíptico toma conta de todos. Nunca vi tanto medo nas pessoas. Nunca senti tanto medo no ar. Nunca vi tanto desespero.

E o medo vem de diversos pontos, não só do vírus, mas também da fome e do desemprego. Algo precisa ser feito e me parece que não vai. É preciso entendermos que não existe uma vida mais importante do que a outra. Não é uma escolha tão simples assim. Por isso o medo.

E nesse tempo trancado em casa, é preciso encontrar o que fazer. Estudar, aprender coisas novas, produzir e até escrever, por que não escrever? Voltei a escrita. Tem livro novo chegando por ai. Lanço assim que este inferno todo passar e todos possam circular livremente pelas ruas. Até lá retomo o blog. Faz tempo que não vinha aqui, uns 4 anos. Vivi muita coisa nesse período e no fundo, o que percebi é que acabei mesmo retomando velhos hábitos. Então nada melhor do que fazer algo que me deixa feliz, escrever.

Tenho visto muita coisa nos serviços de streaming, séries e filmes me acompanham em muitos momentos. É preciso de alguma forma manter a sanidade. Uma das séries que tenho visto bastante é Monk. Um personagem que dentro de todas as suas manias tem tudo a ver com o nosso atual momento. Principalmente quando a gente pensa em todos os medos que ele sente.

A música tema, inclusive, pode muito bem servir de trilha sonora para essa fase que o mundo vive. “É uma selva lá fora / Desordem e confusão por toda a parte / Ninguém parece se importar / Bem, me importo! / Hey, quem está no comando aqui? / É uma selva lá forma / Tem veneno no muito ar que nós respiramos. / Você sabe o que tem na água que você bebe? / Bem, eu sei, e isso é assombroso!”.

É isso que vivemos desordem e confusão e medo. E no momento todos parecemos ter transtorno obsessivo compulsivo. Todos querem se proteger e proteger os seus. Todos querem também levar comida para casa e manter seus empregos e salários. Todos queremos fazer a coisa certa e ninguém parece saber que coisa é esta.

No fundo, o que falta é alguém com a perspicácia do detetive. Alguém que consiga juntar os pontos e indicar o melhor caminho a ser seguido, sem procurar culpados, preocupado apenas com a solução. Por enquanto, se conseguir fique em casa e se puder ajude quem está passando fome!

Blue Monk – Thelonius Monk

 

 

É dia de postar no blog. Na verdade já passou do dia, já que quando eu posso, gosto da ideia de escrever mais de uma vez por semana, as quartas e aos domingos. Acontece que hoje eu não sabia muito bem o que dizer. Não que faltasse assunto, eles estão todos por ai, espalhados pelo ar. Tem muita coisa para ser dita e muito mais para ser escrita.

Acho que vale a pena falar do novo livro. Não, ele não está pronto. Na verdade é justamente o oposto. Eu até tinha muita coisa encaminhada. Queria falar sobre minha relação com a música. Do que eu gosto de ouvir e do que isso representa para mim. Queria me aprofundar um pouco mais do que faço aqui no blog. Aqui as músicas funcionam quase que como um acompanhamento para a leitura. É claro que existe sempre um motivo para a escolha de cada uma, mas nem sempre essa ligação é assim tão forte.

A ideia seria mostrar como cada música me influencia e o que eu penso quando ouço cada uma delas. Algo de certa forma similar ao que aparece no livro 31 Canções do Nick Hornby. A diferença é que seriam outras músicas e num outro contexto um pouco mais emocional.

O problema é que enquanto eu escrevia senti falta de embasamento musical pra fazer o livro. Senti falta de poder explicar de forma mais lógica o porquê de escolher uma versão em particular de determinada música, o porquê de determinada linha melódica mexer tanto comigo em determinada fase da minha vida. Inicialmente isso pra mim pouco importava, o problema é que a gente sempre acaba conversando com quem sabe mais que a gente. Aliás, isso é bem comum, afinal todo mundo sabe mais que a gente determinadas coisas, essa é uma das graças da vida. Saber que por mais que a gente saiba algo, alguém sempre vai saber mais e por mais que alguém não saiba determinada coisa, sempre vai ter algo que essa pessoa poderá nos ensinar.

Mas voltando a conversa, fui falar sobre meu livro e principalmente sobre música. Não de forma direta, mas sutil. Fui na verdade mais ouvindo, porque confesso que é encantador ouvir alguém falar de algo com paixão e conteúdo. É divertido aprender e perceber que é possível sim conhecer mais de algo que não conhecemos em sua plenitude. Aliás, esse é outro ponto bastante interessante, é ótimo não saber nada em sua plenitude. Faz muito bem pra cabeça a certeza de que existe ainda algo a ser aprendido, principalmente quando você encontra alguém com quem gostaria de aprender.

Falamos de gostos musicais similares e ao mesmo tempo diferentes. Gostos literários totalmente diversos, mas ao mesmo tempo confluentes. Falamos de ideias de mundo diferentes e visões diversas sobre o futuro.

No fundo, é isso que mais me agrada nas férias. Não que eu não curta as pessoas do meu trabalho, muito pelo contrário, aliás. Já disse em outros posts, recentes até, que eu finalmente nesse ano me percebi no lugar certo e feliz por ter feito a escolha que fiz. Acontece que não tenho tempo de conversar com muita gente que eu adoro. A falta de uma organização melhor da minha agenda e a correria diária me impedem de coisas simples como, por exemplo, sentar para tomar um café (eu tomei um gatorade e comi uns salgados) numa lanchonete ruim e ficar batendo papo sobre nada enquanto se decide se mais livros serão comprados ou não.

A falta de tempo me impede de coisas como essa, ou de ir a um restaurante sem se preocupar com o tempo, esperando curtindo cada minuto da companhia sorrindo. Aproveitando realmente o sabor de cada prato, sem pensar se no dia seguinte o despertador irá tocar as 5 da manhã ou não. É disso que eu sinto falta nos dias de trabalho. É isso que eu desejo fazer mais nesse ano. Até por isso tive que trocar o tema do livro. Não que eu não pudesse realmente falar das músicas. Até posso, desde que aprenda mais sobre elas (e quero aprender, acreditem, estou estudando e descobrindo muita coisa interessante sobre isso). Mas algo mais urgente apareceu.

Nem é um pensamento novo. Era algo que já estava agendando para aparecer na sequência. Ganhou força quando eu consegui voltar a escrever poesia e principalmente quando eu percebi a falta que sinto de algumas pessoas e como elas ajudaram a moldar o meu caráter. Sejam pessoas próximas ou pessoas um tanto distantes, de certa forma me sinto fruto do contato com as pessoas. Pessoas boas e ruins, pessoas que me ajudaram e as vezes atrapalharam também o meu caminho. Me sinto fruto dessa relação.

Por isso estou escrevendo sobre esses contatos, essa forma coletiva de crescimento que me fez ser quem eu sou e faz você ser quem é. De certa forma é uma leve homenagem a quem ajudou a produzir essa pessoa que acerta e erra, que ensina e aprende, que ri e chora e que tenta de alguma forma viver.

É nessa linha inclusive que eu escolhi a música do post. Porque eu até gosto de jazz, mas a pessoa que me fez mudar de ideia sobre o livro e as ideias que eu tinha sobre meu conhecimento musical simplesmente ama o ritmo, principalmente Thelonius Monk, que é colocado por ela numa categoria a parte. Segundo ela existe a arte ruim, a boa, a ótima, a excelente e a sublime, onde se encaixam poucas pessoas como Thelonius Monk. Não sei dizer se vejo da mesma forma, mas gosto do som. E você quer opinar sobre? Já tenho alguma conversa informal que sem querer mudou os rumos de algo que você pretendia fazer? Aliás, aproveito também para agradecer a você que lê o blog, pois é justamente você que me faz pensar e crescer enquanto escrevo.