Cure for Pain – Morphine

O caminho mais seguro é sempre o que leva em consideração o que a gente sente

 

Hoje é dia de terminar a minha sequência de posts sobre o livro Uma Longa Queda do Nick Hornby (de novo eu recomendo fortemente a leitura deste livro). É hora de falar do JJ. Talvez o personagem que mais tenha a ver comigo em suas crises existenciais. Eu diria que em diversos aspectos eu e ele temos graus de loucura parecidos. Ambos caminhamos um bom tempo por ai buscando a cura para a dor. Uma dor mental que acaba se tornando física.

A trilha sonora, é claro continua sendo Morphine e mais óbvia impossível, Cure for Pain (clique para ver e ouvir). Posso também afirmar que este post tem uma ligação forte com o anterior onde usei uma música do Jethro Tull (clique para ler o post anterior) para fazer uma homenagem para alguém que realmente tem me encantado como pessoa. O Mark Sandman sempre fazia uma homenagem ao público na abertura e nas músicas que considerava especiais em seus shows, eu de certa forma fiz isso.

Primeiro a homenagem, agora o texto. JJ é um músico americano que viu sua vida mudar totalmente de uma hora para outra sem aparentemente grande influência sua. Sua banda que tinha fãs e algum sucesso de crítica implodiu, perdeu sua namorada e num país distante se viu trabalhando como entregador de pizza. Tudo o que ele fazia ruiu de uma hora para outra. O que mais chama a atenção aqui é o fato de que claramente ele sofre mais a perda da parceria que tinha na banda do que a perda da namorada, porém, uma frase que ouviu de sua namorada parece ser o grande motivo de sua tristeza e descaso com a própria vida.

JJ se considera músico. É alguém que tem algum talento e alguém que gosta de cultura, lê muito, ouve muita coisa, aparentemente gosta muito de arte e não é alienado (fato raro, geralmente os norte-americanos são vistos como alienados e os europeus mais culturais, isso em filmes e livros, não conheço norte-americanos e europeus bem o suficiente pra ter uma opinião consistente sobre o tema. JJ é aquele cara que aparentemente tem tudo pra dar certo e por algum motivo alguma coisa não dá certo. Essa é a primeira impressão.

Procurando adentrar um pouco mais no universo do personagem algumas coisas ficam claras e ai é que eu me encontro totalmente com JJ. Primeiro ele me parece ter dificuldade com algumas leituras de outras pessoas. Nesse ponto eu sou mais analfabeto emocional do que ele, mas digamos que em alguns casos ele conseguiu ser tão raso quanto eu na informação que coletou. Outro defeito que ambos partilhamos é o de sempre achar que a culpa por algo não funcionar é nossa e ainda nessa linha, ao inferir qualquer coisa sempre acreditar que das possibilidades existentes quando algo não está exatamente em nossas mãos, é sempre a pior que vai acontecer.

Essa falta de auto-estima me mata tanto quanto quase mata o personagem e mata tanta gente por ai. Não é achar que o mundo todo existe contra você. Muito pelo contrário, a sensação é outra. É a de que você não faz parte do mundo. Você é o errado e por isso as coisas não funcionam.  Esse tipo de pensamento parece imbecil, até certo modo é imbecil, mas sejamos sinceros, muita gente se sente assim. Eu assumo, me sinto assim o tempo todo. Parece que a culpa é sempre minha.

Nessa linha, a dor de se manter vivo parece imensa. Porque as vitórias acabam funcionando apenas como obrigação, você faz bem feito e pronto, o resultado está ai. Se algo não funciona a contento, a culpa é sempre sua. Morphine mandou bem na letra. É preciso achar a cura para a dor, seja qual for a dor que se sinta.

Tem outro ponto em JJ que me fez pensar muito na vida que levo. JJ em momento algum canta para o grupo, toca ou compõe, ele parece brigado com a música. Porém, ele nunca deixou de ser o músico que é. Antes de se considerar qualquer coisa, ele é um músico. Eu falei bem por cima disso no texto homenagem. Homenageei alguém que é sem precisar mostrar nada a ninguém. Eu muitas vezes me pergunto se deixo minha essência tão clara quanto a pessoa homenageada e JJ deixam.

Um lado interessante está além da qualidade. JJ é músico mesmo que não tenha a qualidade e o carisma de um mega astro, ele é quem é, não precisa sonhar em ser John Lennon. Eu, bem ou mal, me considero um artista, um poeta (não sonho em ser Drummond, mas quero ser eu mesmo) e um fotógrafo (que não quer ser o Ansel Adams). Preciso entender que eu sou apenas eu. No que isso tem de bom ou de ruim.

Até acredito que JJ tinha sim motivos convincentes para se matar. Se a coisa está ruim, essa seria uma mudança bastante radical, mas uma mudança. Não sei se eu fugi de mim mesmo de forma semelhante a ele. Espero que não, mas também me sinto muitas vezes oprimido, sozinho e perdido. A solidão vem do fato de eu simplesmente não conseguir ler e ser lido nesse mundo que me cerca. E ai falo não dos meus textos (tá eu confesso que adoro ler os comentários de quem visita este espaço), mas sim falo dos sentimentos que eu deveria sentir e entender.

Buena – Morphine

A capa do meu livro talvez seja a maior expressão dos meus fantasmas exteriores, ao menos ao meu alcance

Chegou a vez da Jess, talvez a personagem mais engraçada da história toda. Uma típica adolescente dos filmes americanos que mostram jovens desajustados. Relacionamentos tortuosos, drogas, sexo, falta de sentido na vida e alguma busca por algum prazer irreal. Esse seria um bom resumo da Jess, faltando, é claro, citar que ela é filha do ministro da educação britânico, ou seja, chama, mesmo que não queira, os holofotes para si.

Menina que cresceu com vários demônios internos após o sumiço da sua irmã mais velha. Jess encontrou no desajuste uma forma mais fácil de se fazer percebida por seus pais e em menor escala por ela mesma como parte do mundo. Ao som de Buena (clique para ver o clipe), som do Morphine como a música escolhida para o post do Martin, consigo visualizar Jess caminhando por ai com seu demônio interior e o apresentando a todo mundo que ela conhece com a maior serenidade que um ato como esse pode ter.

Não vou falar dos desajustes da garota, nem vale a pena. Acho que o melhor agora é elocubrar sobre o que a levou a subir ao edifício, e ai nem falo dos fatos, mas das sensações envolvidas no processo todo. Os demônios interiores que cada um de nós vivemos carregando por toda a nossa vida.

Jess tem o fantasma de sua irmã pairando sobre ela e sua família. Nunca digeriu o sumiço de alguém que de certa forma dava equilíbrio a sua vida familiar. Dissecando a maluca inglesa eu fico pensando nos meus demônios, nas perdas que tive, não aquelas pequenas perdas diárias que temos todos os dias e no fundo nem deveriam contar como algo que altere o nosso humor, mas sim as grandes perdas. Aquelas que nos marcam profundamente, gerando cicatrizes bastante aparentes, ou, em casos mais graves, feridas que nunca se fecham.

Essas feridas profundas fazem com que a gente não consiga mais raciocinar direito, e de certa forma fazem com que o nosso comportamento todo mude em função das perdas. Esses demônios internos demoram a ser exorcizados. Infelizmente alguns deles persistem por toda a vida. Imagine o que é para um pai viver com a lembrança da morte de uma filha num acidente doméstico que ele poderia ter evitado? Ou uma criança que nunca brincadeira banal acaba causando feridas graves a um amigo? Difícil viver com essa carga. É claro que esses são casos extremos de culpa, mas servem para exemplificar bem o que eu penso.

Entretanto, vejo meus demônios de um jeito diferente. Seria uma enorme mentira minha sair por ai falando que adoro a vida e tudo mais. Tenho demônios demais pra isso. Só que, eu não quero de maneira alguma me tornar um demônio na vida de outras pessoas. Provavelmente é isso que me mantém vivo. A total falta de sanidade e o medo de fazer com que outras pessoas sintam as mesmas sensações tristes e pesadas que eu sinto são o combustível mais real e funcional que eu tenho pra não passar do suicídio teórico ao prático.

A culpa que as pessoas erroneamente carregariam pelos meus atos poderia gerar uma grande reação em cadeia. Por mais que se diga que a culpa nunca é de quem ficou, mas sim de quem partiu, dificilmente as pessoas conseguem se isolar dessa sensação. Nesse sentido, o suicídio acaba sendo algo extremamente irresponsável. Não vou me alongar muito nesse tema, porque quero voltar a falar disso depois do post do JJ que será o próximo, mas ainda quero falar bastante disso até o final desse ano.

Early to Bed – Morphine

O urubu-rei pode até ser rei, mas nunca deve esquecer que antes de tudo é um urubu

 

Hoje continuo falando do livro do Nick Hornby. Continuo falando dos personagens principais, da forma como eles foram parar no topo do edifício e de como isso pode a meu ver se refletir em mim e até em outras pessoas. O nome de hoje é Martin Short. Homem famoso, bem sucedido, pai de duas filhas, casado, apresentador de TV, figura para lá de pública. Tinha tudo para ter uma vida boa e tranqüila até que jogou tudo pela janela.

Não agüentou as investidas de uma menina de 15 anos, foi pra cama com ela e nessa mesma cama deixou toda a sua vida. E segundo falas do personagem, apenas por sexo. Não existia nenhum tipo de sentimento, apenas desejo e tesão. Martin perdeu emprego, amigos, família, foi preso e nem podia sair às ruas após, alvo que era de olhares e comentários das pessoas.

Fico imaginando o personagem caminhando por Londres ao som de alguma das músicas da banda que acho que melhor traduz o livro, Morphine. Um grupo norte-americano formado por bateria, baixo de duas cordas e sax, sem guitarra que infelizmente terminou em 1999 com a morte do band leader Mark Sandman num palco em Roma, vítima de infarto fulminante. Vasculhando as músicas da banda (que voltará nos demais personagens daqui pra frente), encontrei uma que acho que traduz bem isso Early to Bed (clique no nome da música para ver um clipe), que diz que dormir e acordar cedo limita a vida noturna das pessoas, limita a vida social, limita a própria pessoa a um microverso onde a companhia acaba sendo a tela da TV.

No fundo isso realmente aconteceu com Martin e provavelmente o peso disso tudo é que fez com que ele tivesse a idéia de se matar. Entretanto, é nesse ponto que vale a pena começar a brincadeira com as palavras. Uma análise mais rápida pode nos levar a um caminho mais rápido e simplista. Ele cometeu um erro e merece pagar, ele é o único culpado por seus atos. Até certo ponto isso é verdade, mas e o julgamento do crime? Até falei sobre o tema neste post de maio. Temos pesos e medidas diferentes para cada pessoa.

Talvez Martin tenha sofrido um pouco disso, o peso do julgamento me pareceu muito mais forte do que seria se ele fosse uma pessoa comum e desconhecida. É claro que isso não apaga a canalhice que ele cometeu. Pensando ainda nessa linha, talvez o fato dele não ser alguém comum também tenha criado em sua cabeça a falsa aura de proteção para qualquer ato imbecil que ele viesse a cometer.

Procurando ser mais claro. É comum vermos pessoas com algum tipo de pequeno poder, e ai chamo de pequeno poder coisas simples como um chefe de setor, um recém-promovido, uma pessoa desejada por várias outras, um aluno popular, um cantor de bairro, até os extremamente populares. Em uma ou outra instância, aliás, todo mundo é poderoso em algum ponto. O que pode causar problema é esse poder se tornar mais forte do que a razão, e a pessoa faz uso desse poder como se ele fosse uma capa protetora que o livrasse de qualquer besteira.

Quando a pessoa percebe que não possui esse poder todo, ou em alguns casos a importância que acredita ter naquele pequeno círculo, seu mundo cai. Tudo parece desabar e a sensação de desespero pode ser fatal. Procurando me colocar no lugar do Martin, provavelmente não seriam as perdas que me fariam querer pular do prédio, mas sim a descoberta de que depois de tantos anos me enganando eu não era nem 10% do que acredita ser. Era tudo uma fantasia criada por meia dúzia de bajuladores e principalmente pela cabeça do personagem.

Afinal, sejamos honestos. Temos orgulho das coisas que fazemos. As pequenas conquistas e muitas vezes gostamos de ser reconhecidos pelas nossas vitórias ou ações que acreditamos ser importantes. O problema muitas vezes está em reconhecer que essas situações só são verdadeiramente importantes para nós. Todo o resto do universo segue seu curso sem se importar muito com o que fazemos. Recolher-se a própria insignificância é algo extremamente difícil.