Brasil – Cazuza

Poderíamos ver essa bandeira tremular bem mais vezes

Ainda não totalmente livre da morte de Saramago, sigo meus posts. Hoje uso como referência uma coisa que vez ou outra ele dizia, sobre seu país nativo. Várias vezes ele levantou o fato de acreditar que seria melhor para Portugal ser anexada pela Espanha. Não acredito, entretanto, que isso o faça menos português do que qualquer outra pessoa.

Para tanto, quero fazer um paralelo do que ocorre com o Brasil. É engraçado como vemos em tempos de Copa do Mundo um verdadeiro desfile de bandeiras, camisetas, botons e diversos materiais que fazem alusão a um povo unido e brigador. Eu confesso que gostaria que isso fosse verdade. Gostaria que a mesma empolgação que demonstramos nos jogos de futebol fosse demonstrada também na construção de uma nação melhor.

Não estou aqui fazendo coro com a parcela da população que se diz contra o evento, gente que brada que as copas servem apenas para iludir o povo e outras coisas do gênero. Eu adoro esporte, já disse isso várias vezes aqui no blog e a Copa do Mundo é de longe o segundo maior evento esportivo existente. Perde só pras Olimpíadas e olhe que aqui no Brasil a maioria das pessoas prefere a Copa.

Eu curto o evento, em 2014 quero ver sim um dos jogos, se alguma partida ocorrer aqui em São Paulo, farei de tudo para ver um jogo no estádio, pode ser Honduras e Zâmbia já desclassificados numa terceira rodada da primeira fase, o que importará será curtir o evento. Esse curtir, entretanto, não me cega. Eu ainda gostaria que a gente tivesse a mesma postura que tem como torcedor com os nossos governantes.

Na Copa passada, o presidente Lula questionou o peso do Ronaldo, nada mais justo, o centroavante deu uma resposta bastante mal educada falando sobre o gosto pelo álcool do presidente da república. Achei sim a resposta mal educada, mas entendi em parte a ira do atacante. Poxa, ele era questionado por uma pessoa que toda vez que se questiona diz que é intriga da oposição, e para isto ocorrer independe de quem está no comando.

Nessa Copa, o Dunga é falado em todos os lugares e a todo tempo, todas as suas decisões são questionadas (não estou defendendo o Dunga, que deveria se chamar Zangado, apenas constato um fato). Hoje li que o pedágio da Imigrantes foi pra mais de 18,00, tem aumento de Senador, tem impostos incidindo sobre produtos da cesta básica e não sobre itens de luxo, tem enchentes no Nordeste e muito mais coisa acontecendo.

Temos uma eleição presidencial no segundo semestre (está chegando) e por enquanto as únicas notícias a respeito de propostas surgem de pessoas que mais atuam como torcedores de futebol do que como eleitores, é engraçado, atuamos na escolha de nossos representantes como atuamos nos estádios de futebol, com escolhas muito mais passionais do que racionais em questões que deveriam ser totalmente racionais.

Retomando o que o Saramago dizia, eu não quero ver o Brasil fazendo parte de nenhum outro país, só que gostaria sim que tivéssemos a gana que temos por nosso futebol por todas as áreas de nosso país. Ao invés de sucumbir a outro povo, ter força suficiente para que como povo forte nosso meu país cresça.

Talvez o ceticismo de Saramago tenha a ver com a sensação que se tem de que Portugal parou no tempo. Amigos que lá residem, amigos que passaram pelo país, pessoas que se mudaram daqui para lá e de lá para cá. A sensação de derrocada história é sentida em quase todos. Uma economia ainda frágil (por incrível que pareça mais frágil que a brasileira) inserida numa rica Comunidade Européia. Relativamente baixa produção Científica e pouco destaque internacional podem ter servido como algo que reforce essa posição.

Algo de certa forma oposto ao nosso tupiniquim complexo de vira-latas. Enquanto aqui nós temos o péssimo hábito de nos acharmos inferiores a outros povos em situações onde verdadeiramente não somos, algo inclusive que nos leva a diminuir o nosso país e por vezes a vender apenas uma imagem de futebol, samba, mulher, cachaça e carnaval para o mundo. Portugal parece as vezes ser o oposto, um país que em alguns de seus representantes não percebeu que diminuiu. Que apesar de ter sido gigantesco, hoje é uma nação com poderio menor no globo.

Esses comportamentos tanto de brasileiros quanto portugueses são prejudiciais aos dois grupos. Enquanto ambos não tiverem uma verdadeira noção de quem são, nem para mais nem para menos, nunca conseguirão realmente encontrar o seu verdadeiro lugar no globo. Nós temos que acreditar em nosso verdadeiro potencial e parar de exaltar de forma alucinada qualquer vitória mínima (além de olhar com mais carinho para nossos problemas reais) e eles devem esquecer o passado e se voltar ao futuro assumindo a sua pequenez. Lembrando sempre, é claro, que esse comportamento maluco não é de todos os habitantes desses dois países e que não só os dois países citados passam por crises de identidade.

Quem sabe assim pensamentos como esse de Saramago parem de surgir e ambas as nações consigam ser verdadeiramente livres? Torcendo pelas suas seleções com o orgulho de quem sabe que ela representa não tudo o que seu país produz ou mais uma forma de mostrar poderio e sim mais um espaço onde a nação se faz representar.

Al Otro Lado Del Rio – Jorge Drexler

Brasileiros comemorando o Ano Novo Chinês

Meu último post falou de um certo nacionalismo que no fundo vários de nós carregamos, da forma como a nossa formação cultural. Agora eu quero brincar com outra parte dessa mesma linha de pensamento. A inspiração cultural. A idéia me surgiu depois da visita de outro blogueiro no meu post anterior. O autor do NeoWellBlog (clique para ler), faz um panorama do Japão em suas postagens, numa rápida visita encontrei posts falando do turismo no Japão, Ikebana, o modo atual de vida no Japão e outros assuntos de cultura geral japonesa.

Essa admiração por outros povos e culturas me parece similar ao pensamento nacionalista que eu citei no post anterior. Justamente por determinadas culturas possuírem algo em comum com a nossa forma de pensar, acabamos elegendo essas culturas como referência comportamental e em alguns casos acontece até uma certa idolatria.

Nessa linha de pensamento, escolhi uma música que vai servir pra falar de um pequeno contraponto nesse cenário de amor ao estrangeiro. A música al outro lado del rio, composta por Jorge Drexler e ganhadora do Oscar em 2004 pelo filme Diários de Motocicleta. O filme fala da viagem de Che Guevara e Alberto Granado pela América do Sul. O filme é muito bom. Mas, para o que eu quero citar nesse post, serve também para marcar outra linha de pensamento. Não encontramos muitos casos de, digamos assim, idolatria ao estrangeiro quando se pensa em países pobres.

Nós brasileiros não temos olhos para a América Latina como temos para a Europa e América do Norte. Se alguém conhecer algum blog falando da cultura latino americana, escrito por brasileiros, eu gostaria de ler. Não que a cultura seja menor, não é, mas é estranho como nesses casos a gente só olha pra quem tem mais grana (ou pros nossos ancestrais, é bem comum ver descendentes de uma nação louvarem a cultura do país de origem de seus antepassados).

A música produzida na América Latina é bastante interessante, porém, ela raramente chega aqui, enquanto a nossa produção musical é mais do que consumida por nossos vizinhos. Assistir ao Grammy Latino é até cômico, observa-se um monte de artistas levando prêmios, artistas dos quais nunca se ouviu falar em nossas terras, e, em muitos casos, uma busca rápida no youtube nos faz ver que infelizmente não tínhamos conhecimento desses artistas. E isso se estende pra literatura, pintura, cinema e por ai vai.

Eu não estou pregando uma espécie de latinismo, longe disso. Apenas percebo o fenômeno. Até hoje me lembro com pesar e uma dose de riso da cara que um amigo meu fez ao descobrir que Mafalda é um personagem argentino e não espanhol. Assim como achei absurdo alunos olhares tortos pra uma amiga que casou-se com um chileno. Ainda não me acostumei com essa ideia de valorar pessoas pelo seu local de nascimento, até porque, em teoria num mundo globalizado todos são de todos lugares.

Eu tenho meus gostos estrangeiros também. Adoro jazz norte-americano, rock progressivo inglês, quadrinhos franceses, norte-americanos e ingleses. E isso não me faz um sub-produto do capital, ou alguém que vanglorie apenas nações ricas. Gosto também do batuque africano, da poesia árabe (aliás do mundo todo), das músicas latinas, eu gosto do mundo. Volto a falar do blog (clique e leia) que me fez escrever esse post. O autor fala sim com um baita carinho do Japão, mas seu comentário em meu post mostra claramente que ele não desdenhou o Brasil e se rendeu a outra nação. Apenas abriu os horizontes pra outra cultura (talvez até por herança familiar, não sei).

Isso é até um mote pra relembrar algo que aconteceu a pouco tempo (e eu já escrevi sobre). Quando fui com alguém muito especial pra mim (por menos que possa parecer, essa pessoa não passa despercebida por meus olhos, eu só não sei como agir…rs). No evento chamado Restaurante Week, fui com essa pessoa a um restaurante. Tantas culinárias diferentes a escolher, poderíamos ficar no padrão francês/espanhol/italiano. A opção foi a culinária tailandesa. Um comida muito saborosa, num restaurante agradável e belo na companhia de uma pessoa mais bela e agradável ainda. Preciso convencer essa pessoa a repetir o programa…rs. Isso pra mim foi só mais uma mostra de que temos que ter os olhos abertos para o mundo. Conhecer e aceitar formas diferentes de pensar sem esquecer de onde viemos e quem somos. Apenas pegando aquilo que acreditamos ser o melhor de cada povo.

Você é vidrado em alguma cultura? Fale o que te encanta. No próximo post farei uma reflexão sobre aniversários (poxa to ficando velho…snif)

Aquarela do Brasil – Disney

tem coisas belas que só enxergamos em nossa terra, seja ela qual for…

Meu caminho mudou um pouco, pretendia seguir a linha do último post e partir para a ideia do gigante gentil (explico isso melhor no próximo post). Porém, ontem li um texto no blog da minha amiga Dona Flor (clique para ler) e resolvi trazer a brincadeira pra cá também. Quero falar um pouco do sentir-se pertencente a um país, a forma como cada um traduz o nacionalismo, a sua relação com seu povo.

Resumindo, a Flor (que se casou e hoje mora numa cidadezinha alemã) diz como se sente quando ouve alguém falar mal do Brasil. Na história dela o sentimento veio a partir de comentários depreciativos em relação a Venezuela, mas vale o raciocínio, aliás reitero, vale a pena ler a linha de raciocínio que ela seguiu.

Para embalar o post escolhi um desenho animado da Disney onde aparecem Aquarela do Brasil (que dá nome ao post) e Tico-Tico no fubá (clique para ver), com Zé Carioca e Pato Donald. Eu gosto muito desse desenho. Gosto das músicas que aparecem e confesso que apesar de todo um papo de visão imperialista, doutrinação e milhares de outros senãos que aparecem toda vez que se cita filmes como Saludos Amigos e Você já foi a Bahia, eu prefiro ficar com a imagem positiva.

Se tem uma coisa que eu gosto no meu povo é o seu jeito jocoso, a forma leve com que costumamos encarar todos os problemas é algo contagiante. É claro que isso as vezes é prejudicial e muitas vezes torna qualquer análise dos nossos problemas superficial demais, mas é a forma como o nosso povo lida. O jogo de cintura do brasileiro não é algo que aparece somente na música, aparece em todas as nossas ações. A busca por alegrias diversas e constantes faz parte da nossa cultura, mesmo que nunca as encontremos, vivemos para elas e em busca delas.

Outros povos possuem outras características e assim acabam vendo o mundo com seus olhos. Os julgamentos que todos fazemos de um povo variam de acordo com a forma como acreditamos ser a forma correta de levar a vida. Alguns povos são mais sérios, seguem organização restrita, outros acentuam sua fé, para outros sua cultura é motivo de orgulho. Alguns vendem sua história como o mais importante.

Assim julgamentos todos carregados de preconceitos são feitos a todo instante. Europeus acham o Brasil desorganizado, brasileiros dizem que os europeus são muito frios, norte-americanos são vistos como ignorantes em muitos aspectos e alguns grupos orientais como xenófobos. Esse tipo de comentário claramente irrita quem ouve e com toda razão. Afinal, o julgamento é feito (como disse anteriormente) com o olhar viciado pelo que a gente acredita ser o certo.

Temos que somar a isso o fato de que obviamente machuca quando alguém coloca o dedo em nossas feridas. Nós sabemos onde o nosso país tem que melhorar, quais são os grandes defeitos. Mas odiamos quando alguém chega e fala isso sem fazer parte do nosso povo. Afinal quem é esse gringo pra falar que o nosso país é sujo? Os caras nem tomam banho todo dia! Como alguém que mal diz bom dia pode reclamar da alegria do nosso povo? E coisas assim vale pra eles também. Como um brasileiro vai reclamar da dificuldade de comunicação de um alemão com a qualidade de ensino que oferecemos?

No fundo todos gostaríamos que os outros só vissem o nosso lado bom. Varrer a sujeira pra baixo do tapete quando as visitas chegam é infelizmente um costume mundial. Todos sonham em ver seus povos como perfeitos, mas no fundo todos sabem que perfeição não existe. Tem ainda outro lado nessa moeda. A glorificação do estrangeiro, aquele que notadamente acredita que a grama do vizinho é sempre mais verde, tudo do seu povo não presta.

Esse tipo de atitude me incomoda muito. Ouvir de brasileiros que meu país é um lixo, que meu povo não presta de gente que não mexe um dedo pra mudar a situação. Gente que só afirma que a solução seria o aeroporto, esquecendo que faz parte desse povo que diz ser ruim. Veja, eu falo de nacionalismo, não de ufanismo. Não quero apagar os defeitos da nação, quero que o nosso povo corrija esses defeitos. Não sou daqueles que prega apenas filmes nacionais, livros nacionais, música nacional. Acredito sim que a cultura do mundo está ai pra todo mundo conhecer, curtir e apreciar, mas não desvalorizo o que o nosso povo faz. Muito pelo contrário. Tenho orgulho de ser brasileiro e alguns brasileiros (como quem tenho citado nos últimos posts) me fazem ter orgulho de pertencer a esse povo.