The Right Thing – Simply Red

 

 

Volto hoje ao livro Slam. Para variar, o texto do Hornby me deixou saudades novamente e trouxe um monte de idéias em minha cabeça. Eu gosto quando isso acontece, isso mostra que eu consegui fazer uma leitura não linear do texto e principalmente mostra que eu realmente tenho algo a dizer sobre o que eu li, não me parece ser algo forçado.

Sobre o Slam, no domingo passado, eu já falei sobre a idolatria, discuti a forma como o Sam faz uso do Tony Hawk como guru para os passo que dá em sua vida e da forma como eu lido com esse tipo de coisa. Hoje quero falar do enredo base e do título do livro.

O autor chama de “slam” as quedas dos skatistas no meio das manobras, as grandes quedas, aquelas perigosas que acabam machucando. Sam teve o seu slam, não em cima do skate, mas na vida, quando engravidou Alícia e ficou perdido. Não vou aqui falar de gravidez adolescente, pelo menos não agora. Mas acho que vale a pena falar das grandes quedas da nossa vida. Ainda mais no final do ano, período em que todo mundo repensa sua vida, faz planos pro futuro e tenta corrigir as besteiras que fez nos últimos 365 dias.

Fico pensando nos meus slams, ainda nem me recuperei do último ainda e com certeza já devo estar a caminho do próximo. Não que eu busque as quedas ou goste de me machucar. Como diz a música escolhida eu sempre quero fazer a coisa certa. Todo mundo quer fazer a coisa certa sempre. O problema é que saber o que realmente é certo é praticamente impossível antes da ação. Mais do que isso, fazer a coisa certa não significa evitar o tombo. Na verdade, muitas vezes a escolha certa é a que nos faz perder dentesou quebrar ossos no half pipe, porque o certo é também nãoi fugir das responsabiidades.

As vezes a queda também se deve ao acaso e nada podemos fazer para evitar. Eu nem sei de onde veio a minha queda. Afinal, sinceramente as marcas não estão no corpo, visíveis, estão nas idéias e nas sensações. Estão naquilo que me prende e me faz não ter coragem pra seguir adiante as vezes. As cicatrizes mais feias não são aquelas que podem ser vistas, são aquelas que apenas são sentidas e que no campo dos sentimentos nunca encontram cura.

A sensação de perceber que você só se machucou porque seguiu seus princípios e fez a coisa certa é mais maluca ainda. Você se sente meio “trouxa”. Imagina que poderia ter se livrado daquilo tudo se não tivesse atendido o telefone ou se não tivesse lido o e-mail. Pensa que seria muito mais fácil não ter princípios e não ajudar só porque de alguma forma isso te machuca.

Eu, pelo menos hoje, já sei que por mais que eu queira não consigo nunca abstrair 100% aquilo que sinto. As emoções podem até ser escondidas, mas não totalmente sublimadas. Mesmo que eu queira e acredite que isso deveria acontecer não tenho todo esse controle sobre meus sentimentos. Aliás, eu acho que ninguém tem.

Pensando no livro, Sam tem como primeira reação de seu slam a fuga. Vai para um lugar distante tentando esquecer suas obrigações, fugir daquilo que parecia um grande pesadelos do que nunca iria acordar. Eu já tentei agir como ele nesse momento algumas vezes. Confesso que nunca foi bom. Era difícil adormecer pensando que eu estava fazendo a coisa errada naquele momento. Nem eram situações tão pesadas e densas como a citada do livro. Eu nunca fui pai, nem cheguei perto disso. Mas pra mim, ignorar quem precisa de mim, não fazer a minha parte só porque vai me doer em algum momento da vida me parece algo muito mesquinho. Mesquinho demais pra suportar.

Justamente por não suportar é que eu me jogo várias vezes do alto da rampa sem a proteção necessária. Deixo o skate sair dos meus pés e sei que vou quebrar novamente o coração. Não importa, no fundo a dor acaba sendo menor do que a que eu sentiria se não fizesse a coisa certa.

Hoje eu percebo que só existem duas formas de não sofrer nas nossas escolhas mais íntimas. A primeira é não vivendo, se situando numa redoma de vidro separada de todos, sem interagir com ninguém. Uma vida morta que imagino que não seja agradável a ninguém. A segunda é ser insensível a tudo, aos seus sentimentos e aos dos outros. É conseguir ser egocêntrico a um nível absurdo, onde só importa o próprio prazer e nada mais. Até conheço gente assim, infelizmente elas existem. Pena que nem pra essas pessoas eu consigo negar um alento as vezes.

Eu nem as culpo por serem assim, em alguns momentos até gostaria de ser um pouco assim como elas. Eu sofreria menos tombos como o que me incomoda agora. Um tombo em que nem tenho a quem culpar. A escolha foi minha, a ação foi minha e eu sei que não dá pra reclamar quando a gente toma apenas a direção necessária pra fazer a coisa certa.

Você já se sentiu assim? Com dores no peito e com olhos pedindo lágrimas por ter feito algo que sua consciência diz que era correto? Hoje mudaria sua ação?

Na quarta-feira devo colocar mais um post sobre o que o livro me fez pensar.

Miss Brasil 2000 – Rita Lee

A gente dá muito valor ao belo e pouco ao verdadeiro

Dias atrás eu andava pelo centro de São Paulo. Confesso que não gosto muito de andar por aquela região. Não que eu não perceba a beleza dos muitos prédios da região, alguns com imenso valor histórico. Não que eu não reconheça inclusive as imensas melhorias que ocorreram na região. Melhorou o cuidado com os prédios, aliás, aumentou a ocupação da região. Novos bares, lojas mais bem cuidadas, mais policiamento, enfim, realmente a região melhorou muito.

Porém, confesso não ser o centro de São Paulo o assunto principal do meu post. Na verdade eu quero falar do que eu mais vi no centro, pessoas, muitas pessoas, pessoas de todos os tipos, formas e estilos imagináveis.

Gente normal e gente comum, mas gente que de certa forma sempre tem alguma peculiaridade. Eu poderia separar os tipos simplesmente pela aparência, os de terno, os mendigos, os mais casuais e por ai vai. Essa primeira leitura é frágil e infelizmente é a mais comum. A que mais vezes aparece nos pequenos julgamentos diários. Julgamos muito pela forma e pouco pelo conteúdo. Por mais que a gente queira a alcunha de racional, refutamos qualquer argumento lógico e deixamos que a aparência reine sobre nossas decisões. Eu fiz isso nesse post, quando falei do centro de São Paulo.

A vontade de falar disso veio do mesmo livro dos posts anteriores. Parte da última decepção citada pelo Rob Fleming se deve a sua leitura equivocada de uma pessoa por seu perfil, aliás, fazer perfis baseados na imagem foi uma constante desse personagem. Talvez por não conseguir se aprofundar exatamente em nada que não seja uma canção pop, talvez porque no fundo seja esse mesmo o nosso principal ponto de leitura e a tal beleza interior seja só um conceito irreal e inexistente.

É claro que Rob Fleming fez o caminho oposto, disso, ele associou as mudanças de roupa e status pelas quais a sua Laura passou como o principal motivo pra ela ter deixado de viver ao seu lado. Achou que mudanças externas tinham obrigatoriamente a ver com mudanças internas. Foi um erro bobo, como mostra o livro, o que fez o relacionamento afundar não foi Laura, mas o próprio Rob.

Essa leitura superficial e meramente estética, eu diria até instintiva. Algo nos agrada e por isso a gente se aproxima e encara como positivo. Sem pensar muito no assunto. Se você se reconhece visualmente ou aceita alguém visualmente, a tendência em confiar naquela pessoa aumenta. Até por isso, empresas buscam associar suas marcas a determinado padrão físico também. Por mais que a gente queira negar e ser politicamente correto, nós nos rendemos a um padrão visual mais do que gostaríamos.

Tanto que, por menos que a gente queira assumir, existe sim uma preocupação geral com a própria aparência, seja a roupa, o corte de cabelo, uma tatuagem, coisas que fazemos com o nosso corpo com o simples objetivo de chamar a atenção para um padrão pessoal que seja considerado belo. Aqui fica a ressalva, o conceito de belo varia de pessoa pra pessoa. Ninguém compra uma roupa achando pra se sentir feio nela, ninguém ao fazer uma tatuagem tem o objetivo de ficar ridículo, até os cortes de cabelos mais extravagantes são feitos porque quem os usa acha bonito.

É uma linguagem da nossa espécie, o mais engraçado (ao menos para mim) é perceber que não existe um padrão real pra se definir essa linguagem. Funcionamos como se cada um falasse um dialeto próprio. O lado curioso disso é que apesar de termos uma leitura nossa bastante pessoal, quando a leitura é feita em relação ao outro, seguimos um padrão.

Um conhecido meu tem diversas tatuagens, usa brincos e um corte de cabelo no mínimo chamativo. É uma pessoa super séria, atua numa empresa e diversas vezes tem que contratar funcionários, o engraçado é que ele diz que nas entrevistas dá prioridade a pessoas com aparência séria, de terno, corte discreto e tudo mais, quando pergunto se ele não é sério a resposta usual é sempre algo como eu sei que eu sou sério, quanto aos outros, precisam me provar.

Acho isso estranho, como ler no outro algo diferente do que se lê no espelho? Como a gente pode criar regras de leituras diferentes dentro dos mesmos sinais? Preconceito, é claro, preconceito bobo. Tão bobo quanto o que quase levou Rob a perder totalmente Laura sem perceber que quem estava mudando era ele. Tão bobo quanto olhar no centro de São Paulo e perceber que algumas pessoas mudam de direção ou de calçada dependendo da forma como as pessoas que surgem na direção contrária se vestem. O que me garante que as pessoas de terno são as honestas e as de roupas largadas devem ser evitadas? Eu ando todo rasgado em casa e não fujo de mim, aliás confio mais em mim do que em diversos políticos de terno e gravata.

Meu próximo post vai falar ainda da imagem que temos, mas se você tem alguma história divertida sobre o tema e quiser compartilhar, esteja a vontade.

Cure for Pain – Morphine

O caminho mais seguro é sempre o que leva em consideração o que a gente sente

 

Hoje é dia de terminar a minha sequência de posts sobre o livro Uma Longa Queda do Nick Hornby (de novo eu recomendo fortemente a leitura deste livro). É hora de falar do JJ. Talvez o personagem que mais tenha a ver comigo em suas crises existenciais. Eu diria que em diversos aspectos eu e ele temos graus de loucura parecidos. Ambos caminhamos um bom tempo por ai buscando a cura para a dor. Uma dor mental que acaba se tornando física.

A trilha sonora, é claro continua sendo Morphine e mais óbvia impossível, Cure for Pain (clique para ver e ouvir). Posso também afirmar que este post tem uma ligação forte com o anterior onde usei uma música do Jethro Tull (clique para ler o post anterior) para fazer uma homenagem para alguém que realmente tem me encantado como pessoa. O Mark Sandman sempre fazia uma homenagem ao público na abertura e nas músicas que considerava especiais em seus shows, eu de certa forma fiz isso.

Primeiro a homenagem, agora o texto. JJ é um músico americano que viu sua vida mudar totalmente de uma hora para outra sem aparentemente grande influência sua. Sua banda que tinha fãs e algum sucesso de crítica implodiu, perdeu sua namorada e num país distante se viu trabalhando como entregador de pizza. Tudo o que ele fazia ruiu de uma hora para outra. O que mais chama a atenção aqui é o fato de que claramente ele sofre mais a perda da parceria que tinha na banda do que a perda da namorada, porém, uma frase que ouviu de sua namorada parece ser o grande motivo de sua tristeza e descaso com a própria vida.

JJ se considera músico. É alguém que tem algum talento e alguém que gosta de cultura, lê muito, ouve muita coisa, aparentemente gosta muito de arte e não é alienado (fato raro, geralmente os norte-americanos são vistos como alienados e os europeus mais culturais, isso em filmes e livros, não conheço norte-americanos e europeus bem o suficiente pra ter uma opinião consistente sobre o tema. JJ é aquele cara que aparentemente tem tudo pra dar certo e por algum motivo alguma coisa não dá certo. Essa é a primeira impressão.

Procurando adentrar um pouco mais no universo do personagem algumas coisas ficam claras e ai é que eu me encontro totalmente com JJ. Primeiro ele me parece ter dificuldade com algumas leituras de outras pessoas. Nesse ponto eu sou mais analfabeto emocional do que ele, mas digamos que em alguns casos ele conseguiu ser tão raso quanto eu na informação que coletou. Outro defeito que ambos partilhamos é o de sempre achar que a culpa por algo não funcionar é nossa e ainda nessa linha, ao inferir qualquer coisa sempre acreditar que das possibilidades existentes quando algo não está exatamente em nossas mãos, é sempre a pior que vai acontecer.

Essa falta de auto-estima me mata tanto quanto quase mata o personagem e mata tanta gente por ai. Não é achar que o mundo todo existe contra você. Muito pelo contrário, a sensação é outra. É a de que você não faz parte do mundo. Você é o errado e por isso as coisas não funcionam.  Esse tipo de pensamento parece imbecil, até certo modo é imbecil, mas sejamos sinceros, muita gente se sente assim. Eu assumo, me sinto assim o tempo todo. Parece que a culpa é sempre minha.

Nessa linha, a dor de se manter vivo parece imensa. Porque as vitórias acabam funcionando apenas como obrigação, você faz bem feito e pronto, o resultado está ai. Se algo não funciona a contento, a culpa é sempre sua. Morphine mandou bem na letra. É preciso achar a cura para a dor, seja qual for a dor que se sinta.

Tem outro ponto em JJ que me fez pensar muito na vida que levo. JJ em momento algum canta para o grupo, toca ou compõe, ele parece brigado com a música. Porém, ele nunca deixou de ser o músico que é. Antes de se considerar qualquer coisa, ele é um músico. Eu falei bem por cima disso no texto homenagem. Homenageei alguém que é sem precisar mostrar nada a ninguém. Eu muitas vezes me pergunto se deixo minha essência tão clara quanto a pessoa homenageada e JJ deixam.

Um lado interessante está além da qualidade. JJ é músico mesmo que não tenha a qualidade e o carisma de um mega astro, ele é quem é, não precisa sonhar em ser John Lennon. Eu, bem ou mal, me considero um artista, um poeta (não sonho em ser Drummond, mas quero ser eu mesmo) e um fotógrafo (que não quer ser o Ansel Adams). Preciso entender que eu sou apenas eu. No que isso tem de bom ou de ruim.

Até acredito que JJ tinha sim motivos convincentes para se matar. Se a coisa está ruim, essa seria uma mudança bastante radical, mas uma mudança. Não sei se eu fugi de mim mesmo de forma semelhante a ele. Espero que não, mas também me sinto muitas vezes oprimido, sozinho e perdido. A solidão vem do fato de eu simplesmente não conseguir ler e ser lido nesse mundo que me cerca. E ai falo não dos meus textos (tá eu confesso que adoro ler os comentários de quem visita este espaço), mas sim falo dos sentimentos que eu deveria sentir e entender.

Too Old To Rock'n roll Too Young To Die – Jethro Tull

A calma e a perseverança que nos levam a sempre fazer o que a gente faz da melhor maneira possível

Mudo hoje o tema para um breve texto. Sei que ainda falta fazer o texto do JJ pra fechar a série sobre o livro Uma Longa Queda. Só que hoje me deu vontade de fazer um post diferente, sobre outro livro que li e de certa forma também uma breve homenagem a quem me emprestou esse livro.

Terminei nesse final de semana a leitura de O Velho e o Mar do Hemingway, a melhor definição que eu tenho sobre esse livro é a de que foi uma leitura especial, providenciada por alguém também especial. Alguns detalhes do livro me fizeram pensar no livro do Hornby que estou citando no blog e também na pessoa que me emprestou o livro. A história do velho pescador pra mim tem uma trilha sonora fácil, nem é o chavão clássico de se utilizar algo gravado por músicos cubanos, principalmente os que participaram do filme Buena Vista Social Club. Eu confesso que sou mais rock (apesar de adorar esse filme e esses músicos). Escolhi Jethro Tull, uma banda de rock progressivo que adoro e a música Too Old To Rocknroll Too Young To Die (clique para ver o clipe).

Como relacionar a aventura de um velho e pobre pescador, com uma música do Jethro Tull e com uma de certa forma homenagem a alguém que eu acho legal? Tudo pode parecer confuso, mas possui a sua lógica. Primeiro porque eu recomendo fortemente 3 coisas, ler este livro, ouvir esta música e banda e conhecer essa pessoa. Não que isso seja razão suficiente para um post, na verdade não é mesmo, mas já serve de início pra minha escrita.

Vale lembrar alguns fatos do texto de Hemingway. O pescador perde seu ajudante por estar a vários dias sem conseguir pescar nada. O jovem o adora, mas sua família o obriga a ir com outro pescador, isso, no entanto, não diminui o entusiasmo e nem o respeito sentidos pelo jovem com seu primeiro mestre. O pescador, mesmo velho, castigado pelo tempo e sem sorte, parte todo dia. Reconhece sua sorte e mesmo assim nunca desiste de tentar o melhor. Sua luta com o gigantesco peixe e com os tubarões o faz ir até seus limites e mesmo assim ele não desiste. Ao retornar, exausto, age como se apenas tivesse sido mais um dia comum.

A música do Jethro Tull fala um pouco da passagem do tempo, de como é difícil encarar a realidade. O tempo passa para todo mundo, mesmo que tentemos esquecer ou fugir disso, o tempo passa. Como passou para o velho pescador. Porém, mesmo assim, ele nunca deixou de ser quem é, de acreditar e ser quem ele realmente é. Você pode até sentir-se velho para o que fazia com vigor antes, mas deve lembrar-se que ainda está jovem para morrer, na verdade deve apenas diminuir o ritmo e se adequar a sua realidade. Eu gostaria de poder me dar tão bem com o tempo como o velho pescador, mas confesso que o tempo é provavelmente meu maior inimigo. Vez por outra falo disso por aqui. Quem sabe um dia essa briga não tem um vencedor.

E quem me proporcionou essa leitura? O que tem a ver com o livro? Muita coisa. Primeiro o fato de ser uma pessoa extremamente humana e até certo ponto transparente, o que é extremamente raro nos dias de hoje. Todos temos dias de bom e mau humor, aceitar isso é simplesmente aceitar-se humano, aceitar-se como realmente se é. Algo que eu confesso, gostaria de fazer com mais facilidade do que faço hoje. Eu seria alguém mais tranquilo se soubesse me comunicar com um olhar ou um sorriso, da mesma forma que essa pessoa faz.

O pescador também se preocupa muito com a qualidade daquilo que faz, irritar-se com falhas no processo as vezes parece medo, eu enxergo isso como responsabilidade. Quem não se chateia quando algo foge do controle? Eu, dentro de uma linha de raciocínio pessoal, acabo me preocupando demais com possíveis soluções ou porquês que geralmente me esqueço de perceber aquilo que sinto. Ai está mais uma coisa para aprender.

Ainda poderia dizer muito mais, como o fato de não precisar mostrar ter conhecimento, somente ser o que se sabe, assim como o pescador, ou mesmo, a força pra continuar sempre tentando pescar o enorme peixe, mas ai vai parecer excesso de rasgação de seda…rs

Também não quero apagar tudo sobre o livro do Hornby, JJ de certa forma acaba aparecendo um pouco aqui também, mas isso fica pra um próximo post.

Sobre a música, bom a pessoa ainda está extremamente jovem e pode curtir o rock e está a anos luz de ter idade pra morrer.

Too Old To Rock’n roll Too Young To Die – Jethro Tull

A calma e a perseverança que nos levam a sempre fazer o que a gente faz da melhor maneira possível

Mudo hoje o tema para um breve texto. Sei que ainda falta fazer o texto do JJ pra fechar a série sobre o livro Uma Longa Queda. Só que hoje me deu vontade de fazer um post diferente, sobre outro livro que li e de certa forma também uma breve homenagem a quem me emprestou esse livro.

Terminei nesse final de semana a leitura de O Velho e o Mar do Hemingway, a melhor definição que eu tenho sobre esse livro é a de que foi uma leitura especial, providenciada por alguém também especial. Alguns detalhes do livro me fizeram pensar no livro do Hornby que estou citando no blog e também na pessoa que me emprestou o livro. A história do velho pescador pra mim tem uma trilha sonora fácil, nem é o chavão clássico de se utilizar algo gravado por músicos cubanos, principalmente os que participaram do filme Buena Vista Social Club. Eu confesso que sou mais rock (apesar de adorar esse filme e esses músicos). Escolhi Jethro Tull, uma banda de rock progressivo que adoro e a música Too Old To Rocknroll Too Young To Die (clique para ver o clipe).

Como relacionar a aventura de um velho e pobre pescador, com uma música do Jethro Tull e com uma de certa forma homenagem a alguém que eu acho legal? Tudo pode parecer confuso, mas possui a sua lógica. Primeiro porque eu recomendo fortemente 3 coisas, ler este livro, ouvir esta música e banda e conhecer essa pessoa. Não que isso seja razão suficiente para um post, na verdade não é mesmo, mas já serve de início pra minha escrita.

Vale lembrar alguns fatos do texto de Hemingway. O pescador perde seu ajudante por estar a vários dias sem conseguir pescar nada. O jovem o adora, mas sua família o obriga a ir com outro pescador, isso, no entanto, não diminui o entusiasmo e nem o respeito sentidos pelo jovem com seu primeiro mestre. O pescador, mesmo velho, castigado pelo tempo e sem sorte, parte todo dia. Reconhece sua sorte e mesmo assim nunca desiste de tentar o melhor. Sua luta com o gigantesco peixe e com os tubarões o faz ir até seus limites e mesmo assim ele não desiste. Ao retornar, exausto, age como se apenas tivesse sido mais um dia comum.

A música do Jethro Tull fala um pouco da passagem do tempo, de como é difícil encarar a realidade. O tempo passa para todo mundo, mesmo que tentemos esquecer ou fugir disso, o tempo passa. Como passou para o velho pescador. Porém, mesmo assim, ele nunca deixou de ser quem é, de acreditar e ser quem ele realmente é. Você pode até sentir-se velho para o que fazia com vigor antes, mas deve lembrar-se que ainda está jovem para morrer, na verdade deve apenas diminuir o ritmo e se adequar a sua realidade. Eu gostaria de poder me dar tão bem com o tempo como o velho pescador, mas confesso que o tempo é provavelmente meu maior inimigo. Vez por outra falo disso por aqui. Quem sabe um dia essa briga não tem um vencedor.

E quem me proporcionou essa leitura? O que tem a ver com o livro? Muita coisa. Primeiro o fato de ser uma pessoa extremamente humana e até certo ponto transparente, o que é extremamente raro nos dias de hoje. Todos temos dias de bom e mau humor, aceitar isso é simplesmente aceitar-se humano, aceitar-se como realmente se é. Algo que eu confesso, gostaria de fazer com mais facilidade do que faço hoje. Eu seria alguém mais tranquilo se soubesse me comunicar com um olhar ou um sorriso, da mesma forma que essa pessoa faz.

O pescador também se preocupa muito com a qualidade daquilo que faz, irritar-se com falhas no processo as vezes parece medo, eu enxergo isso como responsabilidade. Quem não se chateia quando algo foge do controle? Eu, dentro de uma linha de raciocínio pessoal, acabo me preocupando demais com possíveis soluções ou porquês que geralmente me esqueço de perceber aquilo que sinto. Ai está mais uma coisa para aprender.

Ainda poderia dizer muito mais, como o fato de não precisar mostrar ter conhecimento, somente ser o que se sabe, assim como o pescador, ou mesmo, a força pra continuar sempre tentando pescar o enorme peixe, mas ai vai parecer excesso de rasgação de seda…rs

Também não quero apagar tudo sobre o livro do Hornby, JJ de certa forma acaba aparecendo um pouco aqui também, mas isso fica pra um próximo post.

Sobre a música, bom a pessoa ainda está extremamente jovem e pode curtir o rock e está a anos luz de ter idade pra morrer.

Buena – Morphine

A capa do meu livro talvez seja a maior expressão dos meus fantasmas exteriores, ao menos ao meu alcance

Chegou a vez da Jess, talvez a personagem mais engraçada da história toda. Uma típica adolescente dos filmes americanos que mostram jovens desajustados. Relacionamentos tortuosos, drogas, sexo, falta de sentido na vida e alguma busca por algum prazer irreal. Esse seria um bom resumo da Jess, faltando, é claro, citar que ela é filha do ministro da educação britânico, ou seja, chama, mesmo que não queira, os holofotes para si.

Menina que cresceu com vários demônios internos após o sumiço da sua irmã mais velha. Jess encontrou no desajuste uma forma mais fácil de se fazer percebida por seus pais e em menor escala por ela mesma como parte do mundo. Ao som de Buena (clique para ver o clipe), som do Morphine como a música escolhida para o post do Martin, consigo visualizar Jess caminhando por ai com seu demônio interior e o apresentando a todo mundo que ela conhece com a maior serenidade que um ato como esse pode ter.

Não vou falar dos desajustes da garota, nem vale a pena. Acho que o melhor agora é elocubrar sobre o que a levou a subir ao edifício, e ai nem falo dos fatos, mas das sensações envolvidas no processo todo. Os demônios interiores que cada um de nós vivemos carregando por toda a nossa vida.

Jess tem o fantasma de sua irmã pairando sobre ela e sua família. Nunca digeriu o sumiço de alguém que de certa forma dava equilíbrio a sua vida familiar. Dissecando a maluca inglesa eu fico pensando nos meus demônios, nas perdas que tive, não aquelas pequenas perdas diárias que temos todos os dias e no fundo nem deveriam contar como algo que altere o nosso humor, mas sim as grandes perdas. Aquelas que nos marcam profundamente, gerando cicatrizes bastante aparentes, ou, em casos mais graves, feridas que nunca se fecham.

Essas feridas profundas fazem com que a gente não consiga mais raciocinar direito, e de certa forma fazem com que o nosso comportamento todo mude em função das perdas. Esses demônios internos demoram a ser exorcizados. Infelizmente alguns deles persistem por toda a vida. Imagine o que é para um pai viver com a lembrança da morte de uma filha num acidente doméstico que ele poderia ter evitado? Ou uma criança que nunca brincadeira banal acaba causando feridas graves a um amigo? Difícil viver com essa carga. É claro que esses são casos extremos de culpa, mas servem para exemplificar bem o que eu penso.

Entretanto, vejo meus demônios de um jeito diferente. Seria uma enorme mentira minha sair por ai falando que adoro a vida e tudo mais. Tenho demônios demais pra isso. Só que, eu não quero de maneira alguma me tornar um demônio na vida de outras pessoas. Provavelmente é isso que me mantém vivo. A total falta de sanidade e o medo de fazer com que outras pessoas sintam as mesmas sensações tristes e pesadas que eu sinto são o combustível mais real e funcional que eu tenho pra não passar do suicídio teórico ao prático.

A culpa que as pessoas erroneamente carregariam pelos meus atos poderia gerar uma grande reação em cadeia. Por mais que se diga que a culpa nunca é de quem ficou, mas sim de quem partiu, dificilmente as pessoas conseguem se isolar dessa sensação. Nesse sentido, o suicídio acaba sendo algo extremamente irresponsável. Não vou me alongar muito nesse tema, porque quero voltar a falar disso depois do post do JJ que será o próximo, mas ainda quero falar bastante disso até o final desse ano.

Early to Bed – Morphine

O urubu-rei pode até ser rei, mas nunca deve esquecer que antes de tudo é um urubu

 

Hoje continuo falando do livro do Nick Hornby. Continuo falando dos personagens principais, da forma como eles foram parar no topo do edifício e de como isso pode a meu ver se refletir em mim e até em outras pessoas. O nome de hoje é Martin Short. Homem famoso, bem sucedido, pai de duas filhas, casado, apresentador de TV, figura para lá de pública. Tinha tudo para ter uma vida boa e tranqüila até que jogou tudo pela janela.

Não agüentou as investidas de uma menina de 15 anos, foi pra cama com ela e nessa mesma cama deixou toda a sua vida. E segundo falas do personagem, apenas por sexo. Não existia nenhum tipo de sentimento, apenas desejo e tesão. Martin perdeu emprego, amigos, família, foi preso e nem podia sair às ruas após, alvo que era de olhares e comentários das pessoas.

Fico imaginando o personagem caminhando por Londres ao som de alguma das músicas da banda que acho que melhor traduz o livro, Morphine. Um grupo norte-americano formado por bateria, baixo de duas cordas e sax, sem guitarra que infelizmente terminou em 1999 com a morte do band leader Mark Sandman num palco em Roma, vítima de infarto fulminante. Vasculhando as músicas da banda (que voltará nos demais personagens daqui pra frente), encontrei uma que acho que traduz bem isso Early to Bed (clique no nome da música para ver um clipe), que diz que dormir e acordar cedo limita a vida noturna das pessoas, limita a vida social, limita a própria pessoa a um microverso onde a companhia acaba sendo a tela da TV.

No fundo isso realmente aconteceu com Martin e provavelmente o peso disso tudo é que fez com que ele tivesse a idéia de se matar. Entretanto, é nesse ponto que vale a pena começar a brincadeira com as palavras. Uma análise mais rápida pode nos levar a um caminho mais rápido e simplista. Ele cometeu um erro e merece pagar, ele é o único culpado por seus atos. Até certo ponto isso é verdade, mas e o julgamento do crime? Até falei sobre o tema neste post de maio. Temos pesos e medidas diferentes para cada pessoa.

Talvez Martin tenha sofrido um pouco disso, o peso do julgamento me pareceu muito mais forte do que seria se ele fosse uma pessoa comum e desconhecida. É claro que isso não apaga a canalhice que ele cometeu. Pensando ainda nessa linha, talvez o fato dele não ser alguém comum também tenha criado em sua cabeça a falsa aura de proteção para qualquer ato imbecil que ele viesse a cometer.

Procurando ser mais claro. É comum vermos pessoas com algum tipo de pequeno poder, e ai chamo de pequeno poder coisas simples como um chefe de setor, um recém-promovido, uma pessoa desejada por várias outras, um aluno popular, um cantor de bairro, até os extremamente populares. Em uma ou outra instância, aliás, todo mundo é poderoso em algum ponto. O que pode causar problema é esse poder se tornar mais forte do que a razão, e a pessoa faz uso desse poder como se ele fosse uma capa protetora que o livrasse de qualquer besteira.

Quando a pessoa percebe que não possui esse poder todo, ou em alguns casos a importância que acredita ter naquele pequeno círculo, seu mundo cai. Tudo parece desabar e a sensação de desespero pode ser fatal. Procurando me colocar no lugar do Martin, provavelmente não seriam as perdas que me fariam querer pular do prédio, mas sim a descoberta de que depois de tantos anos me enganando eu não era nem 10% do que acredita ser. Era tudo uma fantasia criada por meia dúzia de bajuladores e principalmente pela cabeça do personagem.

Afinal, sejamos honestos. Temos orgulho das coisas que fazemos. As pequenas conquistas e muitas vezes gostamos de ser reconhecidos pelas nossas vitórias ou ações que acreditamos ser importantes. O problema muitas vezes está em reconhecer que essas situações só são verdadeiramente importantes para nós. Todo o resto do universo segue seu curso sem se importar muito com o que fazemos. Recolher-se a própria insignificância é algo extremamente difícil.