You Learn – Alanis Morissette

 

 

Desculpem-me a ausência. Minha mãe recém operada, muito trabalho, muita coisa acontecendo e a falta de tempo pra poder vir até aqui conversar com vocês. E aconteceu coisa pra caramba nesses dias, vou tentar até resumir os principais fatos e as principais sensações que tive nesse meio tempo aqui no texto.

Foi um recesso repleto de sensações estranhas e conflitantes. Medo e apreensão pela minha mãe. Alegria por ela, pelo trabalho e por amigos queridos que eu não via a tempos, por gente que conheci. Tristeza por derrotas bobas e principalmente por grandes perdas, perdas imensas e irrecuperáveis.

Tentar juntar tudo isso numa só bandeja parece uma daquelas refeições malucas tipo nhoque e feijoada, mas não é. Sem forçar muito existe um ponto que liga tudo. Até porque, provavelmente essa foi uma das épocas em que mais aprendi em toda a minha vida. E aprendi simplesmente por viver, por observar e por sentir. Aprendi da forma mais correta, daquela que está além do que eu consigo passar aos meus alunos todos os dias. Aliás, pena não conseguir ensinar a eles tanto quanto eles me ensinam, tanto quanto todo mundo me ensina.

Deveria ser possível devolver aos outros todo o bem que recebemos. Eu gostaria de ser capaz de passar adiante tudo aquilo que recebi e recebo todo dia. Por isso eu escrevo aqui, por isso escrevo em outros locais, por isso eu fotografo e principalmente por isso eu tento dar as aulas que dou da melhor forma possível, onde tento formar gente de bem (e vejo gente de bem em meus alunos, mas sendo bem sincero, muito mais por esforço deles e de suas famílias do que por esforço meu, o que eu faço de melhor é não atrapalhar).

A gente aprende tanta coisa com tanta gente que nem chega a perceber que muda a cada segundo. A gente não percebe que deve agradecer a todos pelos pequenos pontos em que nossa vida é tocada por pessoas que se tornaram especiais. Tão especiais que não fazem questão dos créditos, fazem questão apenas da própria existência e se sentem bem apenas percebendo que nós também estamos bem.

Eu muitas vezes esqueço que aprendo muito apenas vivendo. Eu quase sempre dou menos valor do que as pessoas realmente merecem. Infelizmente muitas vezes só nos damos conta da importância de alguém quando esse alguém parte. E muitas vezes pessoas que nem são tão próximas assim acabam marcando a nossa vida de maneira profunda e eterna. Escrevo isso por lembrar que nesses dias dois grandes gênios da ciência brasileira vieram a falecer. Duas pessoas que cheguei a ver pessoalmente, cheguei a ouvir suas palavras e justamente por ouvi-las é que tomei algumas boas decisões em minha vida. Que o mundo se lembre eternamente das pessoas que foram Cesar Ades e Aziz Ab’Saber, dois homens maiores do que a sua imensa produção intelectual.

Falo isso também, porque vivi sensações distintas e percebi que aprendi muita coisa. Aliás, a tutora do meu curso on line de inglês vai ficar muito irritada comigo se ler esse texto. Um amigo de longe, marido de uma grande amiga esteve aqui no Brasil, e mais uma vez não consegui conversar direito com ele, justamente pela dificuldade na língua, mesmo com toda a boa vontade do mesmo em tentar falar comigo. Aprendi que preciso realmente aprender inglês (ou ele o português, quem sabe na próxima?).

Aprendi também a ter paciência. Aprendi isso vendo a forma como minha mãe levou a sua cirurgia e seu caminho para a cura. Eu que me achava ponderado, percebi que as vezes perco o rumo também, e que nem sempre consigo ser sereno como imagino que eu deveria ser. Vi meu carro preso num estacionamento fechado só porque preferi ficar mais tempo com os amigos e vi o quanto isso valeu a pena.

Também li algumas coisas de forma errada. E achei que isso fosse me machucar. Achei que fosse encarar isso como mais uma derrota. Por sorte, soube levar a situação e confesso que nem encarei tudo como uma derrota acachapante ou a queda num profundo precipício. Levei a história numa boa e me vejo pronto pra seguir adiante. Assim como aprendi muito com os jovens que vejo crescer a cada dia e que com ações e falas simples me mostram coisas que eu vivi e havia esquecido, coisas que eu não vivi e deveria ter vivido e até coisas que não deveriam ocorrer com ninguém, muito menos com eles.

Por isso a música, porque nesse período eu percebi o quanto a gente aprende vivendo e o quanto a gente realmente vive quando se dá a chance real de viver cada momento. Por isso eu quero lembrar para sempre daqueles que infelizmente partiram e quero aproveitar ao máximo a companhia dos que aqui me ensinam e me fazem tentar ser alguém melhor. Melhoras a minha mãe, meus pêsames para as famílias dos que faleceram, já sinto saudades dos amigos que voltaram ao Rio ou para a Alemanha e desejo felicidade eterna a todos aqueles que de uma forma ou de outra aquecem o meu coração, seja através de amizade próxima ou distante, seja através de exemplos, seja através de conversas, seja até através de desejos. Quero que a felicidade alcance quem me ensina e quem aprende o pouco que eu tenho a ensinar. Quero que todos vivam, porque no final das contas, a gente só aprende mesmo é vivendo.

Falling to Pieces – Faith No More

Quanto se perdeu num único incêndio?

Faz tempo que não passo por aqui. Tem faltado coragem pra escrever no blog. Tem faltado ânimo pra fazer um monte de coisas. É uma daquelas fases complexas em que você para, olha, tenta pensar e se descobre vazio e triste. Você tem a nítida impressão de que todos os seus esforços no final das contas não valem absolutamente nada.

Entretanto, confesso que um fato ocorrido no sábado da semana passada me deixou pensativo. É de conhecimento de todos que no Instituto Butantã aconteceu um incêndio de grandes proporções que destruiu a coleção herpetológica e de invertebrados. Existiam ali exemplares nem identificados ainda. Existia mais do que isso, uma gama imensa de sonhos. Trabalhos de gente que dedicava seu tempo a tentar gerar novos conhecimentos a partir dos estudos que realizava ali. Esses sonhos foram queimados juntos com a coleção.

Não tenho informações sobre o assunto, mas imagino que muita gente deve ter perdido trabalhos importantes, teses de doutorado, dissertações, trabalhos de iniciação científica não poderão mais ser entregues. Prazos não serão cumpridos e trabalhos terão que recomeçar do zero. Imagino a dor de alguém que provavelmente estivesse terminando seu doutorado e de repente se visse impossibilitado de terminar o trabalho devido ao incêncio. Um sonho queimado.

Ampliando um pouco a análise, todos nós vemos sonhos serem queimados o tempo todo. Eu tenho vários que viraram pó antes que eu pudesse realmente comemorá-los. Alguns chegaram a escorrer pelos dedos, um ou outro provavelmente eu até cheguei a tocar, mas na hora de fechar os dedos sobre o sonho, ele virou pó e foi levado pelo vento. Tudo caiu aos pedaços, até por isso escolhi a música do Faith No More pra esse post. Falling to Pieces (clique para ouvir) fala um pouco desses momentos de indecisão e dor que sentimos quando um grande sonho rui.

Provavelmente todo mundo já passou por alguma situação próxima a isso. A sensação de incapacidade, a frustração é imensa. Quando o sonho é destruído por algo que você não pode controlar, o peso que fica em cima da gente é imenso. É como a criança que faz o castelo de areia na praia e sem ter o que fazer o vê ser destruído pelas ondas.

Sem entrar no mérito da dor de cada um. Faço questão de ressaltar que compreendo que os estragos no incêndio são muito maiores do que as dores que eu sofro. Isso analisando tanto o impacto quanto a importância das ocorrências. Mas os sonhos de cada um são sempre únicos e perder o chão de forma grave machuca muito, seja num simples fora, seja na morte de um ente querido, seja na perda de um emprego minutos depois de contrair uma dívida alta. Cada um sabe o quanto aguenta dor e a forma como reage a isso e principalmente o quanto aquilo que se perdeu é importante para si.

Falo isso porque no momento em que me situo parece que tudo ao meu redor se esvai. Nem são sonhos, porque estes ultimamente tenho tido poucos. Mas sim minhas crenças e mesmo a forma como eu enxergo o mundo. Tudo ao meu redor parece não fazer muito sentido. De forma parecida (mas menos importante) da que o mundo de muita gente ruiu com esse incêndio. Ou desaba junto com as casas que se perdem nas enchentes ou qualquer outra grande perda.

Quero falar um pouco disso nos próximos posts se conseguir. Falar de sonhos que se perderam e se perdem dia a dia. Falar de sonhos que são importantes para manter a sanidade. Você tem alguma grande história de perda ou algum grande sonho que esteja lutando pra conseguir? Se quiser mande no blog.